Universo da obra
Universo da obra
A ESCRAVA QUE NÃO É ISAURA
A Osvaldo de Andrade
'Vida, que não seja consagrada a procurar não vale a pena de ser vivida» PLATÃO
Be thou the tenth Muse, ten times more In voorth Than those old nine Miich rhymers invocaie!
SHAKESPEARE
Parábola
Começo por uma história. Quasi parábola. Gosto de falar por parábolas como Cristo... Uma diferença essencial que desejo estabelecer desde o princípio: Cristo dizia: “Sou a Verdade”. E tinha razão. Digo sempre: “Sou a minha verdade”. E tenho razão. A Verdade de Cristo é imutável e divina. A minha é humana, estética e tranzitória. Por isso mesmo jamais procurei ou procurarei fazer proselitismo. É mentira dizer-se que existe em S. Paulo um igrejó literário em que pontifico. O que existe é um grupo de amigos, independentes, cada qual com suas ideas próprias e ciosos de suas ten
estrada que escolher. Muitas vezes os caminhos coincidem... Isso não quer dizer que haja discípulos pois cada um de nós é o deus de sua própria religião. (A). Vamos á história! ...e Adão viu Iavé tirar-lhe da costela um ser que os homens se obstinam em proclamar a coisa mais perfeita da criação : Eva. Invejoso e macaco o primeiro homem resolveu criar também. E como não soubesse ainda cirurgia para uma operação tão interna quanto extraordinária tirou da lingua um outro ser. Era também — primeiro plágio ! — uma mulher. Humana, cósmica e bela. E para exemplo das gerações futuras Adão colocou essa mulher nua e eterna no cume do Ararat.. Depois do pecado porém indo visitar sua criatura notou-lhe a maravilhosa nudez. Envergonhou-se. Colocou-lhe uma primeira coberta : a folha de parra. Caim, porquê lhe sobrassem rebanhos com o testamento forçado de Abel, cobriu a mulher com um velocino alvíssimo. Segunda e mais completa indumentária. E cada nova geração e as raças novas sem. tirar as vestes já existentes sobre a escrava, do Ararat sobre ela depunham os novos refi(<A>
Vide apêndice A
namentos do trajar. Os gregos enfim deramlhe o coturno. Os romanos o peplo. Qual lhe dava um colar, qual uma axorca. Os indianos, pérolas; os persas, rosas; os chins, ventarolas. E os séculos depois dos séculos... Um vagabundo genial uiascido a 20 de Outubro de 1854 passou uma vez junto do monte. E admirou-se de, em vez do Ararat de terra, encontrar um Gaurisancar de sedas, setins, chapéus, jóias, botinas, máscaras, espartilhos ... que sei lá 1 Mas o vagabundo quis ver o monte e deu um chute de 20 anos naquela eterogénea rouparia. Tudo desapareceu por encanto. E o menino descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, falando por sons musicais, desconhecendo as novas linguas, selvagem, áspera, livre, ingênua, sincera. A escrava do Ararat chamava-se Poesia. O vagabundo genial era Artur Rimbaud. Essa mulher escandalosamente nua é que os poetas modernistas se puseram a adorar... Pois não ha de causar estranheza tanta pele exposta ao vento á sociedade educadíssima, vestida e policiada da época actual ?
Texto original de Mário de Andrade, publicado em 1925, preparado a partir do OCR do PDF da edição disponível no Wikimedia Commons. O escopo inclui parábola, primeira parte, segunda parte, apêndices e postfácio, encerrando antes do indicador final.
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