Universo da obra
Universo da obra
Vida e Nocturnos Vida
Para um destino incerto caminhamos, Tontos de luz, dentro de um sonho vão; E finalmente, a gloria que alcançamos Nem chega a ser uma desillusão! Levanta-se da sombra, entre altos ramos, Como um fumo a subir, lento, do chão, A distancia que tanto procuramos, E os nossos braços nunca attingirão. Mas um dia, perdidos, hesitantes, A alma vencida e farta, as mãos tacteantes, De repente, paramos de lutar; E ao nosso olhar, cansado de amargura, As montanhas têm muito mais altura, O céo mais astros, e mais água o mar!
POEMAS DE AMOR NOCTURNOS
Anoitece... Venho soffrer comtigo a hora dolente que erra, Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas, Um festão de jasmins, e a penumbra que desce... Hora em que ha mais distancia e magua pela terra; Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas, Redonda, a lua calma e subtil, apparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando, Mais um dia se foi, menos uma illusão! E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida. Senhor! depois de mim, como folhas em bando, Num crepúsculo triste, outros homens virão Para recomeçar a rota interrompida, E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão... Nos dormentes jardins bolem azas incautas, Sobre os campos a bruma ondeia, devagar. Estremecem no céo estrellas somnolentas, E os rebanhos, que vão na neblina lunar, Agitam mollemente, ao longe, as curvas lentas Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas. Anoitece... Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões, E, emquanto sobre o meu teu olhar adormece, Entre o perfil sombrio e vago dos chorões, Redonda, a lua calma e distante, apparece...
II
Sobre o rio tranquillo espelha-se um pomar. Brilham nas sombras, entre as arvores, ao luar, A torre de granito, o pesado quadrante, E os dourados delfins de teu parque distante. Em redor dos rosaes correm, cantando, as fontes, Solitários lampeões adormecem nas pontes. Sob a névoa de azues, que envolve todo o espaço, A paisagem parece uma gravura de aço.
Tudo está quieto; no ar apenas estremece, Com um longinquo rumor de lagrima ou de prece, A pluma de um repuxo! E como a água relumbra No cofre de velludo espesso da penumbra! E como a água, a subir e a descer, levemente, Lembra o teu coração gelado e indifferente!...
III
Vens, no perfume do ar, como a tranquilla imagem Que adestrado pincel, depois de lide insana, Fixou neste jarrão de bronze e porcellana, Entre ibis e dragões, num trecho de paisagem. Na areia da alameda o luar quasi se apaga, Num vôo de pavões dourados, de repente! E entre a cinza lilaz, que desce, mansamente, A hora faz-se mais triste, e a penumbra mais vaga.
Ao rythmo do teu passo o silencio estremece, As fontes velam mais as vozes socegadas, E a avena dos zagaes, na curva das estradas, Entre a folhagem calma e orvalhada, emmudece.
De que cidade estranha, onde as torres são de ouro, As muralhas de ferro, e os rios de amethysta, Trouxeste a fôrma ideal que não modela o artista. E o mysterioso olhar de berylo e âmbar louro ? Teu reflexo oscillante, é diverso e hallucina ! Ora lembra um chorão sobre lagos immotos, Ora uma flor de lis, ora uma flor de lotus, Ora uma palma, a abrir, no azul de uma coluna. Ao calor do teu corpo, a noite é como o ambiente De um triclinio, depois das taças emborcadas, Quando sobre o mozaico ha rosas desfolhadas, E ha beijos pela sombra, e a sombra é um beijo ardente.
Dentro de teu olhar ha legendas distantes; Faunos tocando frauta, á beira de lagoas, Rondas e pastoraes, entre aegipans e leoas, Bosques por onde vão, cambaleando, bacchantes. Têm o aroma subtil, teus cabéllos desnastros, Dos cravos do Hindostão, e dos lirios do Egypto, E a suave ondulação de um mar calmo e infinito, Coalhado de trophéos, de galeras, e de astros.
E, emquanto vens assim, no ar tranquillo e dolente, Cheio do teu calor, sonoro do teu passo, Como um pássaro real de prata viva e de aço, A noite abre no céo as azas, lentamente.
IV
Pelo velho jardim, que a noite enche de bruma, As flores vão dormir, na doce paz do outono. Como a penumbra augmenta, em nós, esse abandono Que ha nos tanques de opala, e nos jasmins de espuma. Pousa sobre o meu hombro a tua ingênua face. Vê como tudo é vão, como o silencio é nobre Na sombra, após um beijo, ou no ar, depois de um dobre, Numa palpitação transitória e fugace.
Longe sobe um rumor, como de um poço fundo. Não lhe dês attenção, fecha tua alma lassa, Apaga teu olhar, pois é a vida que passa, É o desejo que vem, são os homens, é o mundo. Pelo velho jardim, que a noite enche de bruma, Pousa sobre o meu hombro a tua ingênua face, Apaga teu olhar, deixa que a vida passe. Que a vida é uma canção transitória e fugace, Um ligeiro tremor numa bolha de espuma...
Ao luar, os violoncellos, entre os choupos, Cessaram de chorar. A noite é magua Tombando, em folhas tremulas, dos topos, Nos repuxos subindo, em plumas de água.
E assim, as mãos nas minhas mãos, errando Pelos rosaes da estrada, num scenario De saudades, de sombras, e de magua, Vamos o velho tempo recordando.
E os violoncellos choram novamente, Ao luar que banha o espaço solitário, Emquanto as folhas tombam no ar dormente, E o céo se estrélla de ouro e plumas de água
VI
A lâmpada abre, no ar, como um lirio vermelho, No ar que se afasta mais, por melhor acolhel-a. E o clarão que estremece ao fundo de um espelho Lembra, na água de um tanque a sombra de uma estrella. Entra pela janela um perfume indistincto; E pallida, e subtil, de dentro da memória, Como um vinho pagão num vaso de Corintho, Exsurge, ainda uma vez, tua fôrma illusoria!
Por que não vieste mais, na noite socegada, Encher as leves mãos com o luar que fere e offusca, E, de novo, sorver a áurea espuma gelada De um cântaro romano, ou de uma taça etrusca? Esqueceste a afflição das manhães de promessa E das tardes de horror, quando a alma é uma grilheta. Ah! Tudo foi em vão, tudo passou depressa, Como o sol no céo calmo, e a areia na ampulheta... Ficaste, pela vida, esquecida e distante, Como fica esquecido e distante o passado! Foste a hora mais feliz que parou no quadrante, O poente mais lilaz de um dia mais dourado... Nos parques de velludo, onde as arvores bolem, Sobe um leve rumor de repuxos e ramos, Ha mais astros no azul, nas flores ha mais pollen, Por que não vieste mais? Como nós nos amamos.
VII
No alto dos morros boia a lua de ouro, O céo, visto de dentro de uma frança, Parece uma cratera de faiança, Cheia de vinho espumarento e louro. Choram as fontes no jardim deserto. A água, entre os juncos, lembra uma gravura Com arabescos subtis de illuminura, E ha sombras vaporosas no ar incerto.
E tudo estava assim, quando partiste. No céo distante, o mesmo vinho louro, As errantes estrellas embriagava, E sobre os morros, tremula, boiava, Como uma grande rosa, leve e triste, A mesma lua de ouro, indifferente...
Texto original de Poemas e Sonetos, livro de Ronald de Carvalho publicado em 1919. Edição Literunico em blocos de poemas, transcrita a partir do exemplar em domínio público da BBM/USP, sem comentários nos capítulos.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.