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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 10 · A existência de nós no outro

Duas sextas-feiras

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Na primeira sexta-feira, Júlia levou a mochila para a escola sem o caderno de mapas.

A arquibancada ficava a cinco pontos dali. Às três e meia, ela poderia seguir até o portão, sentar no degrau mais alto e esperar quinze minutos. O pacto previa tolerância. Nenhuma regra dizia o que fazer quando uma das pessoas já não queria comparecer.

Durante a aula, Júlia conferiu a mensagem enviada na tarde anterior. Continuava entregue e sem leitura. Abriu a caixa de texto, escreveu que estaria na arquibancada e apagou antes de enviar. Outra mensagem transformaria o pedido de desculpas em convite para que Levi cuidasse da ansiedade dela.

Ao fim das aulas, voltou para casa.

Cida dormia depois do plantão. Júlia tirou os tênis na entrada, aqueceu o almoço e comeu em silêncio. O trabalho de áudio havia recebido uma nota provisória. Clarice escrevera na ficha: A escolha ética também faz parte da forma. Reapresentar, se desejar.

Júlia guardou a folha na gaveta. Poderia completar a peça com sua própria voz, pedir uma entrevista a Gil ou mudar o tema. Naquela tarde, cada solução soava ligada ao trecho retirado.

Às quatro, abriu a caixa ESCOLA ANTIGA.

Havia provas, dois cadernos, uma camiseta assinada no último dia de aula e um crachá de uma mostra de vídeos. Natália aparecia em três fotografias impressas. Numa delas, as duas seguravam o celular na horizontal diante do viaduto apresentado a Levi. No verso, Natália escrevera: diretoras de coisas sem importância.

Júlia colocou as fotografias na estante. Dobrou a camiseta, separou os cadernos para reciclagem e deixou o crachá sobre a mesa. Abrir a caixa não melhorou a tarde. Apenas tornou o quarto menos provisório.

No fundo havia uma folha dobrada em quatro. Era a autorização que Natália escrevera para a mostra de vídeos, dois anos antes, com a assinatura da mãe. As duas tinham gravado a caminhada sob o viaduto e precisaram entregar permissões porque suas vozes apareciam.

Júlia lembrava da irritação que sentira com a burocracia. Natália perdera a primeira via, e elas atravessaram o bairro para conseguir outra assinatura. Mesmo aos quinze anos, souberam que uma amizade não substituía uma autorização quando o arquivo deixava o telefone.

Ela colocou a folha junto da avaliação de Clarice. A coincidência tinha uma crueldade pequena e precisa. Júlia não poderia dizer que desconhecia a regra. Tinha tratado a proximidade com Levi como um atalho.

Às cinco e oito, Levi visualizou a mensagem.

Nenhuma resposta apareceu.

Ele passara a manhã e parte da tarde na padaria. Márcia precisava levar a mãe a uma consulta, e Orlando pedira ajuda no balcão. Levi aceitou antes que o avô terminasse de explicar. O trabalho oferecia tarefas com começo e fim: pesar biscoitos, conferir notas, buscar moedas no escritório, registrar uma encomenda de cento e vinte pães.

Orlando percebeu que ele consultava o telefone entre um cliente e outro.

— O setor da bolsa respondeu?

— Ainda não.

— Você entregou tudo certo?

— Entreguei.

— Então demora.

Levi guardou o aparelho.

Na tela, havia duas mensagens de Lucas, uma propaganda do curso e o texto de Júlia. Ele lera a prévia várias vezes sem abrir a conversa. Sabia o conteúdo inteiro antes de o aplicativo registrar a visualização.

Quando finalmente abriu, estava sentado no depósito, perto das caixas de farinha. Júlia mencionava o acordo, o arquivo apagado e o trabalho incompleto. Não dizia que tivera boa intenção. Não pedia que ele entendesse. Levi não encontrou desculpa para rebater. Continuou sem querer responder.

Levi lembrava da plataforma com detalhes que não dependiam da gravação. O trem, a folha seca, o retângulo vazio no caderno. Tinha falado porque acreditara que aquelas frases ficariam num espaço pequeno, conhecido por duas pessoas. Júlia as levara para a escola e as colocara entre uma porta de ônibus e um freio. Sua voz passara a cumprir uma função.

O que mais o incomodava era imaginar Clarice escolhendo o trecho como a parte que organizava tudo. Júlia conhecia seu medo havia poucos dias e já encontrara serventia para ele.

No balcão, um cliente pediu seis pães de sal e perguntou a Levi se Orlando estava bem. Levi respondeu que sim. Outra cliente quis saber se ele assumiria a padaria no ano seguinte. A pergunta era comum; naquela tarde, entrou no mesmo lugar da gravação.

— Ainda não sei — respondeu.

— Seu avô fala que você conhece tudo daqui.

Levi pesou os pães e entregou a sacola.

— Ele também conhece.

A mulher foi embora sem notar a mudança no tom. Levi registrou a venda. Passava parte dos dias respondendo a pessoas que montavam uma vida para ele com duas informações: neto de Orlando, trabalha na padaria. Júlia conhecia muito mais. Talvez por isso doesse ter sido reduzido aos segundos úteis.

Orlando abriu a porta do depósito.

— Você está escondido?

— Estou no intervalo.

— Seu intervalo começou há vinte e três minutos.

Levi levantou.

— Então estava escondido.

O avô olhou para o telefone na mão dele e não perguntou. Entregou uma nota de fornecedor e pediu que conferisse os valores. Levi voltou ao balcão.

No fim do turno, Lucas apareceu. Trazia uma apostila devolvida pelo curso e dois refrigerantes quentes.

— Você não foi ontem — disse.

— Fiquei aqui.

— Eu notei.

Levi guardou a apostila na mochila.

— Desculpa.

— Quer marcar outro dia?

— Quero. Hoje não.

Lucas encostou no balcão. Márcia já voltara e conversava com Orlando perto do forno.

— Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu.

— Quer contar?

— Hoje não.

Lucas entregou um dos refrigerantes.

— Está quente.

— Eu percebi.

— Foi o que consegui oferecer.

Levi abriu a garrafa. Sentaram na calçada da padaria e falaram sobre a prova de História. Lucas não tentou voltar ao assunto. Antes de ir embora, marcou no calendário uma noite da semana seguinte e mostrou a Levi.

— Agora existe — disse.

Levi lembrou do sábado na universidade.

— Sem juramento.

— Sem juramento.

Naquela noite, ele abriu o caderno de mapas. Tinha pensado em jogar fora as páginas, ou ao menos arrancar a da plataforma. Encontrou o bairro de Júlia, o desenho da padaria, a casa das caixas e o sábado emprestado. Nenhum mapa mudara porque uma pessoa errara. Também não conseguia olhar para eles sem chegar aos treze segundos.

Guardou o caderno na gaveta.

Durante a semana seguinte, Levi pegou um ônibus mais cedo nas manhãs em que precisava levar encomendas. Nos outros dias, escolheu a linha alternativa, mesmo gastando doze minutos a mais. Júlia manteve o horário habitual. Sentava junto à janela e deixava vazio o lugar ao lado quando havia outros assentos.

Na terça-feira, Gil perguntou por Levi.

— Mudou o horário — respondeu ela.

Era uma informação possível. Gil assentiu e fechou as portas.

Na escola, Clarice devolveu a Júlia a proposta de reapresentação. Não havia novo prazo escrito; apenas um espaço para indicar a forma escolhida.

— Posso deixar a versão incompleta como final?

— Pode.

— Isso prejudica muito a nota?

— Um pouco.

Júlia esperou uma recomendação. Clarice organizou as fichas.

— Você quer que eu decida se deve terminar?

— Talvez.

— O silêncio funcionou porque tinha uma origem que só você conhecia. Para a turma, foi apenas um corte longo. Você pode construir outro sentido ou assumir que este trabalho chegou até aí.

Júlia marcou a opção de manter a versão apresentada. A nota baixou. Ela não contou a Levi; aquela consequência pertencia ao trabalho e ficaria ali.

Na quarta, o setor de assistência enviou a Levi a confirmação de que os documentos haviam sido recebidos. Faltava o resultado da inscrição e uma entrevista. Ele quase encaminhou a mensagem para Júlia. O nome dela permanecia entre as conversas recentes, logo abaixo de Lucas.

Enviou a fotografia para Orlando.

O avô respondeu com um polegar e, dois minutos depois, perguntou o horário da entrevista.

Na quinta à noite, Natália ligou para Júlia. A camiseta assinada estava pendurada no encosto da cadeira; as fotografias ocupavam um canto da estante.

— Você abriu — disse Natália.

— Abri.

— Achou o troféu?

— Qual troféu?

— A tampinha dourada da mostra.

Júlia procurou na caixa e encontrou uma tampa de refrigerante envolvida em fita.

— Por que isso era um troféu?

— Porque nosso vídeo perdeu até para o documentário sobre torneiras.

Elas riram. Natália perguntou pelo menino do ônibus. Júlia corrigiu sem pensar.

— Levi.

— Levi — repetiu a amiga. — Ele gostou da arquibancada?

Júlia contou o que fizera. Não reproduziu o trecho nem descreveu a fala gravada. Disse apenas que havia recebido uma gravação privada, usado uma parte sem autorização e apagado quando Levi exigiu.

Natália ficou quieta.

— Você quer que eu diga que ele vai voltar a falar com você?

— Não.

— Ainda bem, porque eu não sei.

— Eu mandei uma mensagem.

— Ele respondeu?

— Não.

— Então talvez agora seja a parte em que você espera.

Júlia encostou a caixa vazia na parede.

— Esperar pode virar um jeito de fugir.

— Pode. Insistir também.

— Eu sei.

Natália pediu para ver as fotografias na estante. Júlia virou a câmera e mostrou a organização ainda incompleta do quarto. Ficaram quarenta minutos falando da escola antiga, da mostra de vídeos e da garota do documentário sobre torneiras. Quando a chamada terminou, Júlia colocou a tampinha dourada junto ao crachá.

Na segunda sexta-feira, nenhum dos dois mencionou o pacto.

Júlia passou a tarde sozinha na arquibancada, tentando descobrir o que havia escolhido mostrar a Levi antes de tudo se romper.

Os degraus pertenciam a uma quadra pública entre duas escolas. Dali, ela e Natália assistiam aos treinos de um time que nunca conheceram. Inventavam nomes para os jogadores e gravavam narrações sem entender as regras. Depois da mudança, Júlia visitara o lugar uma vez e o encontrara menor.

Sentou no degrau mais alto. Não abriu o gravador. Duas crianças treinavam cobranças de falta enquanto um homem consertava a rede. A bola atingiu a trave quatro vezes.

Uma das crianças subiu até ela para buscar uma garrafa. Perguntou se Júlia estava esperando o treino seguinte.

— Estou visitando.

— A arquibancada?

— É.

A criança aceitou a resposta e voltou para a quadra. Júlia olhou as marcas de tinta nos degraus. Uma estrela azul continuava perto do lugar onde Natália costumava sentar. Elas nunca descobriram quem a pintara. Levi provavelmente desenharia a posição no mapa e tentaria calcular a idade da tinta.

Júlia trouxe o caderno naquela tarde, embora o tivesse deixado no fundo da mochila. Retirou-o só para conferir se a página da arquibancada já existia. Levi marcara o ponto na semana da chuva, com um círculo pontilhado e a palavra adiado. Ela não acrescentou data, estrela ou comentário. Fechou o caderno e o guardou.

Júlia imaginara contar a Levi que aquele era o único lugar em que ela e Natália sabiam ser amigas sem conversar. Passavam tardes inteiras dividindo salgadinhos, inventando biografias e acompanhando partidas. À distância, precisavam produzir assunto para manter as chamadas vivas. A arquibancada guardava uma forma de convivência que não exigia relatório.

O pensamento atingiu o centro do erro. Levi lhe entregara três minutos sem precisar transformá-los em nada. Ela os ouvira procurando utilidade.

Júlia desceu os degraus quando as luzes da quadra acenderam.

Levi estava na sala de estudos com Lucas. Resolveram questões em silêncio por quase uma hora. Depois Lucas foi comprar café, e Levi abriu o aplicativo de transporte. O aviso de desativação da linha ocupava o alto da tela. Restavam cinco sextas-feiras.

Ele conferiu o horário habitual, fechou o aplicativo e respondeu uma questão sobre urbanização. Minutos depois, abriu de novo. Fez uma captura da tabela e deixou na pasta de imagens.

Ao voltar, Lucas colocou o café ao lado da apostila.

— Você está estudando ou organizando ônibus?

— Os dois.

— Isso é Geografia?

— Se a prova ajudar, é.

No caminho para casa, Levi passou pelo ponto em que costumava encontrar Júlia. O ônibus chegou cheio. Ele entrou, ficou perto da porta e viu o banco da janela ocupado por uma senhora com sacolas. Durante o trajeto, pensou na mensagem que não respondera.

Ainda estava magoado. Também sentia falta de enviar para Júlia a fotografia do protocolo, de corrigir uma seta no mapa, de ouvir uma gravação que não precisasse ter destino. Sentir falta não diminuía a mágoa.

Em casa, abriu a imagem dos horários. Recortou as outras linhas da tela, deixando apenas a tabela. O dedo ficou sobre o botão de enviar. Levi bloqueou o telefone e o colocou sobre a escrivaninha.

Júlia chegou ao apartamento depois das sete. Cida havia saído para o plantão e deixado sopa no fogão. Sobre a mesa, havia um bilhete perguntando pela arquibancada. Júlia escreveu no verso: Ainda existe.

Comeu, lavou a panela e abriu a última caixa grande. Encontrou álbuns, documentos escolares e fotografias de Marcelo antes da separação. Não organizou nada. Fechou as abas por dentro para poder abrir de novo sem rasgar a fita.

Depois pegou a folha da nota provisória. No espaço abaixo do comentário de Clarice, começou a escrever um pedido de reapresentação. Parou na metade.

Reparar a nota podia esperar. O pedido de desculpas dissera tudo que cabia numa mensagem. Júlia ainda precisava falar olhando para Levi e aceitar que ele talvez não respondesse.

Júlia procurou o horário de funcionamento da padaria. Aos sábados, abria às cinco.

Colocou o despertador para quatro e vinte. Não preparou presente, áudio ou discurso. Separou apenas o dinheiro da passagem e o endereço que Cida já conhecia.

Na outra ponta da cidade, Levi desbloqueou o telefone. A captura da tabela continuava pronta.

Ele não a enviou.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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