Universo da obra
Universo da obra
Júlia chegou ao ponto às quinze e trinta e dois.
Oito minutos de antecedência eram exagero para um encontro com tolerância de quinze, ainda assim ela preferia esperar. Saíra da escola sem acompanhar as amigas até a lanchonete, atravessara duas ruas e pegara a linha no sentido contrário ao de casa. Tinha na mochila o celular carregado, um caderno pequeno, uma garrafa de água e vinte reais separados num bolso interno. Também levava um guarda-chuva. A previsão indicava sol.
O ponto escolhido ficava quatro paradas depois da escola, num trecho que ela conhecia desde criança. O bairro fora sua primeira cidade completa: escola, casa, farmácia, papelaria, praça, dentista, sorveteria e a rua de Natália cabiam numa caminhada de vinte minutos. Depois da mudança, tudo continuava nos mesmos lugares, acessível pelo ônibus, embora Júlia raramente descesse ali.
Levi apareceu às quinze e trinta e oito, vindo pela calçada. Trazia a jaqueta verde amarrada na cintura e uma mochila menor do que a usada pela manhã. Parou diante da placa e olhou para o ônibus que se afastava.
— Você veio andando?
— Desci no ponto errado.
— Como?
— Você escreveu “depois da loja amarela”. Existem duas.
— Uma é laranja.
— Ao sol.
Júlia abriu a nota das regras.
— Vou acrescentar coordenadas.
— Pode acrescentar cores confiáveis.
Levi bebeu água e observou a rua. Havia uma loja de uniformes, uma banca fechada, dois restaurantes por quilo e um prédio comercial com consultórios. O movimento daquela hora misturava estudantes, entregadores e funcionários saindo para o café.
— Qual é a coisa que eu não encontraria sozinho? — perguntou.
— São três.
— Isso fere a regra.
— A regra estabelece o mínimo.
Júlia começou a caminhar. Levi a acompanhou.
A primeira parada era uma passagem sob a avenida, acessível por uma rampa estreita ao lado de um estacionamento. Carros atravessavam acima deles, e o som dos pneus se deslocava pelo teto baixo. As paredes tinham camadas de tinta e cartazes rasgados. No meio da passagem, Júlia tirou o celular da mochila.
— Eu vinha aqui com a Nati.
— Para atravessar?
— Para gravar.
— Você disse que começou este ano.
— A gravar com propósito. Antes a gente fazia vídeos ruins.
Ela abriu uma pasta antiga. Havia arquivos curtos com nomes formados por datas e letras. Escolheu um. Duas meninas riam perto do microfone, tentando cantar em harmonia enquanto os carros passavam sobre a avenida. Uma delas errava a letra e culpava o eco.
— Essa é você? — perguntou Levi.
— A que esqueceu a música.
— E a Nati?
— A que continuou mesmo assim.
Júlia encerrou o vídeo antes do fim. A imagem tremida mostrara Natália por um instante, cabelo preso num coque alto, aparelho nos dentes e um gesto impaciente para que Júlia acompanhasse o refrão.
— Ela mudou quando? — perguntou Levi.
— Em fevereiro. A mãe passou num concurso.
— Vocês se falam?
— Quase todo dia.
O telefone de Júlia estava silencioso desde a manhã. A última conversa com Natália consistia em uma fotografia de um tênis numa vitrine, enviada na noite anterior, e a resposta de Júlia seis horas depois: `bonito`.
Ela iniciou uma gravação e levantou o aparelho.
— Fala alguma coisa.
Levi olhou para o teto da passagem.
— Você precisa perguntar primeiro.
Júlia abaixou o telefone.
— Posso gravar sua voz?
— Para quê?
— Para testar o eco.
— Vai usar no trabalho?
— Ainda não sei. Se usar, pergunto de novo.
Levi aproximou-se da parede.
— Posso escolher a frase?
— Pode.
Ele respirou fundo.
— A segunda loja era amarela.
A voz atravessou a passagem e voltou deformada. Júlia riu durante a gravação.
— Você estragou o teste.
— Ficou documentado.
Ela ouviu o trecho, cortou os segundos iniciais e enviou a Levi. Ele salvou com o nome `defesa_cor_01`.
Do outro lado da passagem, subiram uma rua arborizada. Júlia andava mais depressa ali. Cumprimentou o segurança de um edifício, esperou uma van escolar sair de uma garagem e apontou para uma janela no segundo andar de um prédio claro.
— Eu morava ali.
Levi olhou para cima.
— Qual janela?
— A que tem cortina azul.
— Ainda é sua?
— O apartamento é do meu pai. A cortina ficou.
Havia uma bicicleta infantil presa à grade da varanda. Júlia não se lembrava de tê-la visto antes.
— Ele mora sozinho?
— Mora.
— Você ainda tem quarto?
— Tenho. Quer dizer, a cama está lá. Minhas coisas estão em caixas na casa da minha mãe.
Levi não comentou a diferença. Continuaram até a esquina.
A segunda parada era uma papelaria comprida, com prateleiras estreitas e um sino preso à porta. O ar cheirava a papel, plástico e madeira de lápis. Uma mulher de cabelo curto organizava cadernos atrás do balcão.
— Júlia! — chamou ela. — Sumiu.
— Mudei de bairro, dona Vera.
— Sua mãe contou. E seu pai continua comprando envelopes para cartas que nunca vi.
Júlia pousou a mão no balcão.
— Este é o Levi.
Dona Vera olhou para ele.
— Colega da escola?
— Do ônibus — responderam os dois.
A mulher esperou alguma explicação. Júlia apontou para o fundo.
— A caixa ainda existe?
— Se ninguém comprou tudo.
Foram até uma prateleira baixa onde havia uma caixa de papelão com lápis avulsos, borrachas fora da embalagem, canetas promocionais e réguas com logotipos antigos. Cada item custava cinquenta centavos.
— Eu e a Nati escolhíamos uma coisa toda sexta — explicou Júlia. — Tinha semana em que só havia borracha ressecada.
Levi remexeu a caixa.
— Qual era a regra?
— A coisa mais inútil.
— Isso explica o estoque.
Júlia encontrou um apontador em forma de peixe, sem a tampa do reservatório. Levi escolheu uma caneta curta com a marca de uma funerária.
— Você já tem a única que funciona — disse ela.
— Esta é para deixar a outra segura.
Dona Vera cobrou um real pelos dois objetos. Levi tentou pagar; Júlia lembrou que aquela sexta era sua escolha e colocou uma moeda no balcão.
— Então na minha semana eu pago? — perguntou ele quando saíram.
— Até vinte reais.
— Meu passeio custará dezenove e noventa.
— Está planejando uma viagem internacional?
— O ponto final tem seus preços.
Júlia guardou o apontador no bolso pequeno da mochila. A caneta da funerária falhou quando Levi tentou escrever na mão.
— Coerente — disse ele.
A terceira parada ficava a cinco minutos dali. A praça ocupava um quarteirão irregular, com brinquedos infantis, equipamentos de exercício e bancos sob árvores grandes. Um grupo de adolescentes jogava cartas sobre uma mesa de concreto. Duas crianças disputavam um balanço. Júlia escolheu um banco voltado para a rua.
— Aqui não parece escondido — disse Levi.
— Não é.
— Eu encontraria sozinho.
— Encontraria a praça.
Ela colocou a mochila entre os pés e observou o trânsito. O ponto de ônibus do outro lado recebia linhas diferentes da que pegavam juntos.
— Meu pai me buscava aqui — contou. — Quando eu era pequena, depois da aula de inglês. Mais tarde, começou a me buscar em outros dias também.
Levi sentou-se na outra ponta do banco.
— Depois da separação?
— Antes. Durante. Não sei qual palavra serve.
Júlia acompanhou um ônibus que parou do outro lado. Três pessoas desceram.
— Eles ainda moravam juntos, só que meu pai já passava alguns dias fora. Minha mãe dizia que ele estava trabalhando. Ele dizia que eu precisava esperar dez minutos. Às vezes eram quarenta.
— Você esperava sozinha?
— A professora ficava comigo no começo. Depois eu disse que já podia.
— Quantos anos?
— Quinze.
Levi abriu a mochila e retirou um pacote embrulhado em papel. Dentro havia dois biscoitos grandes, quebrados nas bordas.
— Isso conta nos vinte reais? — perguntou Júlia.
— Vieram da padaria.
— Então têm custo.
— Orlando diria que são perda de produção.
Ele entregou um biscoito a ela. Júlia aceitou.
— Meu pai não me abandonava aqui — disse. — Ele sempre vinha. Só nunca sabia quando.
Levi partiu uma borda do biscoito.
— Deve ser difícil esperar sem poder ficar com raiva.
Júlia virou o rosto para ele. A frase não tinha o tom de consolo que ouvia de adultos. Levi olhava para o pacote, recolhendo migalhas com o dedo.
— Eu ficava — respondeu.
— Ainda bem.
Júlia se lembrou de uma terça-feira em que esperara cinquenta e três minutos. Sabia o número porque o relógio da farmácia mudara três vezes de anúncio e porque Natália mandara onze mensagens enquanto ela permanecia no banco. Marcelo chegou carregando duas garrafas de refrigerante e pediu desculpa antes de fechar a porta do carro. Disse que precisara resolver uma coisa no trabalho. Naquela noite, Cida perguntou por que ele comprara refrigerante se o médico proibira açúcar.
Durante semanas, Júlia guardou as duas informações separadas. O atraso pertencia ao pai. A pergunta pertencia à mãe. Juntas, elas formavam um assunto que ninguém queria explicar.
— Teve um dia em que eu pensei em ir embora — contou. — Eu já sabia voltar sozinha. Fiquei porque, se ele chegasse e eu não estivesse, a culpa mudaria de lugar.
Levi dobrou o papel dos biscoitos.
— Você pensava assim com quinze anos?
— Com quinze anos eu pensava pior. Só não usava essas palavras.
— E ele chegou?
— Chegou. Sempre chegava.
Uma menina correu até o ponto do outro lado e abraçou uma mulher que descia do ônibus. Júlia acompanhou as duas até desaparecerem atrás de uma banca.
— Minha mãe acha que eu devia estudar perto da casa nova — disse. — Meu pai acha que manter a escola prova que nada mudou demais.
— E você?
— Quero terminar onde comecei.
Levi assentiu.
— Essa parte é sua.
Comeram em silêncio. Júlia pensou em gravar a praça e deixou o celular dentro da mochila. O som dos ônibus, das crianças e das cartas batendo na mesa podia esperar.
— Agora ele me chama para almoçar aos domingos — disse ela. — Perto da casa antiga.
— Você vai?
— Às vezes.
— Amanhã é sábado.
— Eu conheço o calendário.
— Estou ajudando.
Júlia empurrou o ombro dele com dois dedos. Levi quase deixou o biscoito cair e protegeu o pacote junto ao peito.
— Agressão durante alimentação viola a regra.
— Qual?
— Vou escrever depois.
O celular de Júlia vibrou. Natália enviara uma fotografia de três esmaltes sobre uma cama. A mensagem perguntava qual cor deveria usar numa festa. Júlia abriu a imagem, começou a escrever e apagou. Mostrou a tela a Levi.
— Qual?
— Por que eu saberia?
— Você distingue amarelo de laranja em condições ideais.
Levi analisou a fotografia com seriedade.
— O do meio.
Júlia respondeu para Natália: `o do meio`.
— Pronto — disse. — Você participou de uma decisão em outra cidade.
— Se der errado, meu nome fica fora.
Natália respondeu com um coração verde e perguntou quem escolhera. Júlia digitou `um amigo do ônibus`. Parou antes de enviar. A expressão pedia uma história que ela ainda não sabia contar. Apagou `um amigo` e escreveu `uma pessoa que entende de cores`.
Enviou.
Levi não viu a alteração. Estava tentando fazer a caneta da funerária funcionar no guardanapo dos biscoitos.
— Acabou? — perguntou.
— O passeio?
— As três coisas.
Júlia olhou para a passagem sob a avenida, invisível dali; para a rua do apartamento antigo; para a sacola da papelaria guardada na mochila; para o ponto onde esperara o pai.
— Acabou.
— Então eu já posso avaliar?
— Existe avaliação?
— Agora existe.
Levi levantou um dedo.
— A passagem tem bom som. A papelaria vende material funerário. A praça precisa de biscoitos melhores.
— Você comeu inteiro.
— Compromisso com a pesquisa.
— Nota?
— Oito.
— De quanto?
— Ainda não defini.
Júlia se levantou.
— Sua semana está cancelada.
— Já comprei as passagens.
Voltaram ao ponto caminhando por outra rua. Júlia mostrou a escola onde fizera o ensino fundamental, uma casa cuja grade sempre fora roxa e o muro no qual Natália desenhara uma estrela com corretivo. Não pararam. Levi perguntava sobre cada lugar, e as respostas ocupavam mais alguns metros da caminhada.
O ônibus chegou cheio. Eles viajaram de pé, separados por duas pessoas e uma mochila grande. Júlia segurou a barra perto da porta; Levi ficou junto à janela. Em certo momento, ele tirou o caderno da mochila e apoiou na parede do veículo.
Quando desceram para fazer a integração, mostrou a página a Júlia. O mapa começava no ponto da loja amarela, seguia pela passagem, subia até a antiga casa, entrava na papelaria e terminava na praça. Levi desenhara uma estrela pequena perto do muro mencionado por ela.
— Você marcou coisas que não estavam na regra — disse Júlia.
— O mapa é meu.
— A estrela está na rua errada.
— Então corrige.
Ela pegou a caneta que funcionava e redesenhou a estrela um quarteirão acima. Levi acrescentou `JÚLIA 1` no topo da página.
— Por que meu nome?
— Para não misturar com a minha semana.
— Você já sabe aonde vai me levar?
— Sei.
— Pode dar uma pista.
— Não.
O ônibus seguinte encostou. Levi guardou o caderno antes que Júlia insistisse. Eles subiram, encontraram dois lugares separados e passaram o restante do trajeto enviando mensagens sobre o passeio enquanto conseguiam se ver entre os passageiros.
Naquela noite, Júlia descarregou as gravações no computador. Criou uma pasta chamada `sexta_01`. Dentro dela, colocou a passagem sob a avenida, a frase da loja amarela e um trecho de vinte segundos gravado durante a volta, quando Levi não falava e o ônibus atravessava uma sequência de curvas.
Abriu o projeto escolar e importou apenas o som da passagem. A voz de Levi permaneceu na pasta.
Antes de dormir, recebeu uma fotografia do mapa corrigido. A estrela estava no lugar certo. Levi desenhara, ao lado do banco da praça, dois círculos pequenos para representar os biscoitos.
Júlia respondeu com a imagem do apontador sem tampa sobre a mesa.
`sem utilidade confirmada`
A resposta chegou quando ela já apagava a luz:
`primeira regra cumprida`
Júlia deixou o telefone carregando, abriu a caixa marcada COISAS DA MESA e retirou a luminária amarela. Colocou-a perto da cama, ainda sem encontrar a tomada livre. A caixa ficou aberta no chão.
Debaixo da luminária estava o caderno dado por Natália no nono ano. A capa tinha adesivos sobrepostos e uma mancha de água no canto. Júlia folheou as primeiras páginas. As duas haviam escrito uma lista de coisas para fazer antes dos dezoito: viajar sozinhas, faltar a uma aula inteira, aprender uma música no violão, pintar uma parede, assistir ao nascer do sol e entrar num ônibus sem decidir antes onde descer.
Ao lado do último item, Natália desenhara três estrelas.
Júlia fotografou a página e enviou para ela.
`lembra disso?`
A resposta não veio naquela noite. Natália estava na festa para a qual escolhera o esmalte do meio. Júlia colocou o caderno sobre a mesa, ao lado do apontador de peixe, e encontrou uma extensão na caixa de ferramentas da cozinha. Quando ligou a luminária, o quarto ganhou um círculo amarelo sobre as caixas ainda fechadas.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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