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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 6 · A existência de nós no outro

A casa das caixas

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A chuva começou quinze minutos antes do fim da aula e apagou o plano de Júlia em menos de três.

Ela pretendia levar Levi a uma arquibancada aberta atrás de um centro esportivo, lugar de onde se ouviam ao mesmo tempo uma quadra, uma oficina e os ônibus da avenida. Quando chegou ao portão da escola, a calçada já estava coberta por água. O céu escurecera, e o vento empurrava a chuva para dentro da marquise.

Levi enviou uma fotografia do ponto onde esperava. A água alcançava a borda do meio-fio.

`regra da chuva?`

Júlia abriu a nota do pacto. Eles haviam registrado limite de gastos, tolerância, alternância e direito de recusar gravação. A chuva aparecia apenas numa conversa e continuava sem solução.

`guarda-chuva`

`o meu virou duas peças`

Ele enviou outra fotografia. A cobertura preta estava separada da haste.

`isso exige talento`

`o vento colaborou`

Júlia telefonou. Levi atendeu no segundo toque.

— Onde você está exatamente?

— No ponto depois do supermercado.

— Não pega o ônibus. Estou a duas paradas.

— A arquibancada tem cobertura?

— Não.

— Então a regra morreu.

— A regra pode mudar de endereço.

Júlia abriu no mapa a localização do apartamento. Ficava a menos de dez minutos de ônibus do ponto de Levi. Cida trabalharia até a noite e já sabia do passeio.

— Minha casa é perto.

Houve uma pausa curta.

— Sua mãe sabe?

— Vou avisar.

— E a coisa que eu não encontraria sozinho?

Júlia pensou nas caixas do corredor, no quarto pela metade e na estante desmontada atrás da porta.

— Tem várias.

Mandou mensagem para Cida antes de desligar. A resposta chegou acompanhada de três condições: porta destrancada pelo interfone, localização compartilhada e nada de usar o fogão se a chama continuasse falhando.

`ela acha que temos doze anos`, Júlia escreveu para Levi.

`orlando pediu foto do prédio`

`então temos doze`

Encontraram-se dentro do ônibus. Levi trazia o guarda-chuva quebrado preso por um elástico e a barra da calça molhada até o joelho. Júlia dividiu o banco da janela e estendeu um pacote de lenços.

— Isso não seca roupa.

— É o que tenho.

— Seu planejamento perdeu qualidade.

— Minha escolha original tinha arquibancada.

O ônibus percorreu as duas paradas em velocidade baixa. Na descida, Júlia abriu o guarda-chuva intacto. A cobertura servia bem para uma pessoa e mal para duas. Caminharam próximos durante o primeiro quarteirão, desviando das poças em ritmos diferentes. Depois Levi pegou o guarda-chuva e o ergueu acima dos dois.

— Você está inclinando para o seu lado — disse Júlia.

— Minha roupa já perdeu.

— Então inclina para mim.

— Isso é uma exploração da derrota.

Chegaram ao prédio com um ombro molhado cada um. Júlia abriu pelo interfone, registrou a entrada na conversa com Cida e conduziu Levi até o elevador.

— Ele faz um ruído antes do sexto andar — avisou.

— Está no seu arquivo?

— Em três versões.

O elevador começou a subir. Entre o quinto e o sexto andar, produziu um rangido longo.

— Parece grave — disse Levi.

— O técnico veio na semana passada.

— E deixou?

— Disse que é da porta.

— Agora me sinto seguro.

No apartamento, Júlia acendeu a luz do corredor. Levi ficou junto à entrada, segurando o guarda-chuva fechado sobre o capacho. As caixas ocupavam a parede, a mesa da sala e parte do caminho até a cozinha.

— Você não exagerou.

— Sobre o quê?

— A mudança.

Júlia pegou uma toalha no banheiro e entregou a ele.

— Minha mãe já abriu as coisas dela.

— E essas?

— Minhas. Algumas.

Levi secou o cabelo e deixou a toalha nos ombros.

— Qual é a regra?

— De quê?

— Posso perguntar o que tem dentro?

— Pode.

— Posso abrir?

— Não.

— Ótimo.

Júlia estranhou a facilidade com que ele aceitou. Na semana anterior, Marcelo visitara o apartamento para instalar uma cortina e abrira duas caixas procurando uma furadeira. Cida discutiu com ele na cozinha. Júlia fechou tudo de novo depois que o pai foi embora.

— Tem uma estante — disse ela. — Ainda desmontada.

— Isso estava no passeio?

— Agora está.

A estante era pequena, com quatro prateleiras e laterais brancas. Cida comprara usada de uma colega do hospital. As peças permaneciam encostadas atrás da porta do quarto de Júlia, junto de um saco com parafusos e um manual dobrado.

Levi examinou as tábuas.

— Tem chave?

— De fenda?

— Allen.

— Tenho uma caixa de ferramentas.

Júlia buscou na cozinha. Voltou com um estojo contendo martelo, fita isolante, duas chaves de fenda, alicate e uma coleção de parafusos sem origem.

— Isso é uma caixa de emergências — disse Levi.

— Ferramentas servem para emergência.

— E para montar estante.

Ele abriu o saco de peças e encontrou uma chave pequena presa ao manual.

— O fabricante acredita em você — disse Júlia.

— O fabricante acredita em quem não perdeu o saco.

Espalharam as tábuas no chão da sala. Júlia leu o manual; Levi separou os parafusos por tamanho. Na primeira tentativa, montaram uma lateral ao contrário. Na segunda, esqueceram a prateleira fixa que sustentava o centro. Precisaram desmontar metade.

— Você disse que sabia — reclamou Júlia.

— Eu perguntei se tinha chave.

— Isso transmite confiança.

— Problema de interpretação.

A chuva batia na janela e escondia o ruído da rua. Júlia colocou o celular sobre a mesa para gravar a montagem. Depois de vinte minutos, Levi perguntou se a voz dele estava incluída.

— Está.

— Arquivo privado?

— Privado.

— Então registra que a lateral B foi invertida pela responsável pelo manual.

Júlia aproximou-se do telefone.

— A responsável pelo manual agiu sob orientação técnica fraudulenta.

Continuaram trabalhando.

Quando a estante ficou em pé, balançava para a esquerda. Levi ajustou os pés, apertou dois parafusos e empurrou de leve.

— Agora.

Júlia testou. A estrutura permaneceu firme.

— Falta colocar alguma coisa.

— A parte das caixas é sua.

Ela foi ao quarto e trouxe a caixa marcada LIVROS. Sentou-se no chão diante dela. Levi ocupou a outra ponta da sala e mexeu no guarda-chuva quebrado, dando a Júlia espaço para abrir.

Dentro havia romances escolares, apostilas, dois dicionários, revistas antigas e cadernos de anos anteriores. Júlia retirou os livros um por um. O fundo da caixa guardava um porta-retrato embrulhado numa camiseta. A fotografia mostrava Júlia e Natália numa cabine automática, quatro imagens verticais: sérias, rindo, olhando para fora e espremidas no último quadro.

Levi percebeu quando ela ficou parada.

— É a Nati?

— É.

Júlia colocou o porta-retrato na segunda prateleira. Os livros ocuparam a primeira e a terceira. Na última, deixou o apontador de peixe.

— Isso conta como utilidade — disse Levi.

— Está ocupando espaço.

— Função decorativa.

O celular de Júlia vibrou sobre a mesa. Natália fazia uma chamada de vídeo.

Júlia atendeu.

— Finalmente.

O rosto da amiga apareceu sob uma luz roxa, com o cabelo preso e uma parede coberta por fotografias atrás.

— Eu estava na aula quando você mandou o caderno — disse Natália. — Você achou a lista.

— Estava numa caixa.

— Você ainda não abriu?

— Abri essa semana.

Natália aproximou o telefone do rosto.

— Tem alguém aí?

Levi levantou a mão do outro lado da sala.

Júlia apontou a câmera.

— Esse é o Levi. Meu amigo do ônibus.

As palavras saíram sem preparação. Levi parou de mexer no guarda-chuva. Natália abriu um sorriso.

— A pessoa das cores.

— Fui absolvido? — perguntou ele.

— Escolheu bem. Minha mãe odiou.

— Então cumpriu duas funções.

Júlia virou o telefone para si.

— A gente montou uma estante.

— Você?

— Nós.

— Filmou?

— Gravei o som.

Natália pediu para ver o apartamento. Júlia mostrou a sala, as caixas, a estante e a chuva na janela. A amiga contou que também demorara dois meses para pendurar fotografias no quarto novo. Mostrou a parede atrás da cama. Havia imagens de Júlia entre colegas que ela nunca conhecera.

— Você está indo à festa amanhã? — perguntou Júlia.

— Vou. Quer escolher o brinco?

— Manda foto.

— O especialista está aí.

Levi recusou a promoção.

— Meu contrato cobre apenas esmaltes.

Natália riu. Antes de desligar, pediu que Júlia marcasse uma chamada no domingo.

— Sem sumir.

— Você também some.

— Então as duas aparecem.

Júlia concordou. A tela apagou.

Levi voltou a ajustar a haste do guarda-chuva.

— Amigo do ônibus?

Júlia guardou o telefone no bolso.

— Era mais rápido.

— Está correto.

— Se quiser, posso trocar por pessoa que entende de cores.

— Muito longo.

O apartamento ficou silencioso depois da chamada. A chuva diminuíra. Júlia olhou para a estante, agora ocupada, e para as caixas ainda fechadas.

— Meus amigos da escola nunca vieram aqui — disse.

— Faz pouco tempo que você mudou.

— Eles moram perto da escola. É longe.

— Você continua vendo todo mundo.

— Vejo na aula.

Levi encaixou a haste do guarda-chuva e abriu a cobertura dentro da sala. Uma das varetas se soltou outra vez.

— Isso não significa a mesma coisa — disse.

Júlia sentou-se no chão, apoiada na estante.

— E seus amigos?

— Lucas você já sabe. Tinha mais gente.

— Tinha?

— A gente se falava todo dia na escola. Depois continuou por mensagem durante uns meses. Agora o grupo serve para aniversário e vaga de emprego.

— Brigaram?

— Ninguém teve energia.

Levi fechou o guarda-chuva.

— Um começou faculdade de manhã. Outro trabalha à noite. Teve gente que mudou. A conversa foi ficando com intervalos maiores.

No último dia de aula, os seis haviam ocupado uma mesa na lanchonete perto da escola e prometido voltar toda quinta-feira. Levi contou que o primeiro encontro reuniu cinco, o segundo apenas três. No terceiro, Lucas chegou atrasado e encontrou Levi sozinho com duas porções de batata. Comeram as duas e encerraram o acordo sem anunciar.

— Eu ainda passava na lanchonete nas quintas — disse Levi. — Nas primeiras semanas.

— Esperando alguém?

— Dizendo que gostava da batata.

— Era boa?

— Não tanto.

Júlia puxou os joelhos para perto do corpo.

— Quando a Nati mudou, a gente combinou de assistir à mesma série e comentar. Ela viu quatro episódios numa noite. Eu fiquei com raiva porque perdi a ordem.

— Vocês pararam?

— A série. A amizade continuou em outras coisas.

— Esmalte.

— Fotos de tênis, comida, gente estranha no ônibus. Tem dia em que a conversa é só isso.

— Parece bom.

— É. Só demora para contar as coisas grandes.

Levi colocou o guarda-chuva no chão.

— Talvez as pequenas mantenham o caminho aberto.

Júlia olhou para ele.

— Isso foi quase uma frase da minha professora.

— Retiro.

— Tarde demais.

Ela pegou o celular e abriu a conversa com Natália. Havia fotografias de pratos, nuvens, roupas em provadores e páginas de caderno. No meio, encontrou a imagem do caminho plano para a escola, enviada no dia da pane.

— Eu sei chegar a vários lugares de lá sem ter ido — disse.

— Então ela já começou um mapa.

Júlia ampliou a fotografia. Ao fundo, quase escondida por uma árvore, havia a placa de uma rua. Anotou o nome no caderno pequeno.

— Sente falta?

— Sinto de coisas específicas. Jogar conversa fora no ponto, dividir trabalho, saber o que aconteceu sem precisar perguntar desde o começo.

Júlia passou o dedo pela borda de uma prateleira.

— Com a Nati, às vezes eu acho que preciso fazer um resumo antes de contar.

— E faz?

— A gente manda foto. Ajuda.

— Ela parece gostar de você.

— Eu gosto dela.

— Então vocês descobrem outro jeito.

Júlia olhou para o porta-retrato e passou o polegar pela borda da moldura.

— Espero que sim — disse.

A fome apareceu quando já passava das seis. Júlia foi à cozinha e abriu a geladeira. Havia ovos, queijo, tomates, uma panela de arroz e meio pacote de macarrão.

— Você cozinha? — perguntou.

— Trabalho numa padaria.

— Isso não responde.

— Consigo fazer omelete.

— Eu também.

Os dois descobriram que sabiam partes diferentes. Levi cortava tomate depressa e exagerava no queijo. Júlia sabia acender a boca defeituosa do fogão com um acendedor longo. A primeira omelete grudou na frigideira. A segunda se partiu quando tentaram virar. Comeram ambas com arroz requentado, sentados à mesa ainda cercada por caixas.

— Nota? — perguntou Levi.

— Para a minha sexta?

— Passagem cancelada, estante torta, omelete destruída.

— A estante está reta.

— Depois de intervenção externa.

— Você é a intervenção externa.

Levi pensou.

— Nove.

— De quanto?

— Ainda não definimos.

Cida chegou às sete e vinte. Encontrou os dois lavando a louça, a estante montada e três caixas abertas. Parou na entrada da sala.

— Vocês fizeram tudo isso?

— A chuva — respondeu Júlia.

Cida examinou a estante.

— Está firme?

Levi empurrou de leve.

— Agora está.

— Então pode voltar quando chover.

Júlia olhou para a mãe. Cida largou o casaco sobre uma cadeira, examinou as caixas abertas e encontrou a frigideira no escorredor.

— Vocês comeram?

— Omelete — respondeu Levi.

— Duas tentativas — acrescentou Júlia.

Cida abriu a geladeira e viu o prato coberto com a porção que deixaram para ela.

— Isso tem formato de quê?

— A primeira tentativa.

— Está comestível?

Levi olhou para Júlia.

— A pesquisa não registrou vítimas.

Cida colocou o prato no micro-ondas.

— Quando Júlia tinha dez anos, tentou montar uma mesa de cabeceira sozinha. Usou cola nos parafusos.

— Mãe.

— A mesa durou.

— Ficou encostada na parede.

— Estratégia estrutural.

Levi tentou esconder o riso. Cida apoiou-se no balcão enquanto o prato aquecia.

— Obrigada pela estante.

— Ela leu o manual — disse Levi.

— Ele ignorou metade — disse Júlia.

— Então foi trabalho em equipe.

O micro-ondas apitou. Cida pegou o prato e caminhou para o quarto, retirando o elástico do cabelo.

— Pode voltar quando chover — repetiu.

Levi pegou a mochila, o guarda-chuva quebrado e a toalha seca. Júlia o acompanhou até o elevador.

— A regra mudou de endereço — disse ele.

— Funcionou.

— Você ainda me deve a arquibancada.

— Fica para outra semana.

O elevador chegou com o rangido habitual. Levi entrou.

— Manda o som da estante caindo.

— Ela não caiu.

— Então grava se acontecer.

A porta fechou.

Júlia voltou para a sala. Cida deixara a porta do quarto aberta e já dormia. A estante ocupava a parede vazia. Júlia colocou a luminária amarela na prateleira superior, passou a extensão por trás do móvel e acendeu.

Depois, abriu a caixa marcada ROUPAS.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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