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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 7 · A existência de nós no outro

O sábado emprestado

7 de 14 ≈ 17 min de leitura

Levi enviou o cartaz da feira universitária na quinta-feira à noite.

`isso quebra a regra`, Júlia respondeu.

`acontece sábado`

`a regra fala sexta`

`por isso quebra`

Ela ampliou o cartaz. A programação começava às nove e incluía visitas a laboratórios, conversas sobre cursos, atendimento de bolsas e uma aula aberta sobre a cidade. O campus ficava fora do trajeto da linha.

`você quer ir?`

Levi demorou.

`estou pensando desde o mês passado`

`isso não responde`

`quero`

Júlia abriu a agenda. No sábado, precisava organizar um trabalho de Química que podia ser feito à tarde. O almoço com Marcelo seria no domingo. Natália marcara a chamada para a noite.

`então vamos`

`você não precisa`

`eu sei`

A resposta de Levi veio alguns minutos depois:

`sábado às 8 no terminal`

Na manhã seguinte, ele estava mais quieto no ônibus. Júlia não mencionou a feira. Conversaram sobre a chuva, a estante e o fato de Orlando ter chamado a omelete de “ovo acidentado” depois de ver uma fotografia. Quando Júlia desceu, Levi pediu que ela levasse água no sábado.

— A universidade tem bebedouro — disse.

— Então por que levar?

— Lucas disse que alguns não funcionam.

— O especialista em ensino superior.

— Ele vai estar lá.

Júlia parou junto à porta.

— Você convidou?

— Ele ajuda num estande.

— Ah.

— Que foi?

— Nada. Agora sei.

A porta começou a fechar. Júlia desceu antes que Levi perguntasse o que ela esperava saber.

No sábado, o terminal tinha movimento de dia útil. Famílias carregavam pastas transparentes, adolescentes conferiam mapas e voluntários com camisetas da universidade orientavam grupos. Júlia encontrou Levi perto de uma banca de jornal. Ele vestia a jaqueta verde e segurava uma mochila com as duas alças nos ombros.

— Trouxe água? — perguntou.

Júlia levantou a garrafa.

— E documentos, lanche, carregador, caderno, duas canetas.

— Duas?

— Para evitar insegurança.

Levi mostrou a própria caneta presa na espiral.

— Ela agradece.

O ônibus especial para o campus saiu às oito e vinte. Conseguiram lugares no fundo. Júlia sentou-se no corredor porque uma mãe e uma filha já ocupavam a janela. Levi abriu o mapa da programação sobre os joelhos.

— Você marcou tudo — disse Júlia.

Havia círculos em torno da apresentação de Geografia, da visita à biblioteca, do atendimento de permanência estudantil e da aula aberta. Duas atividades aconteciam ao mesmo tempo.

— Ainda estou escolhendo.

— Você pode voltar outro ano.

— Posso.

Levi dobrou o mapa depressa demais.

Júlia entendeu que a frase errara o lugar. Para ela, outro ano era uma possibilidade comum. Para Levi, significava a repetição de uma espera que já o incomodava.

— A gente começa por Geografia — disse.

— A biblioteca abre primeiro.

— Você veio por causa do curso.

Levi guardou o mapa.

— Certo.

O campus ocupava uma área grande, com prédios de idades diferentes e caminhos que se cruzavam entre jardins. Faixas coloridas indicavam grupos de cursos. Havia música perto da entrada, fila para credenciamento e estudantes distribuindo folhetos.

Levi diminuiu o passo.

— Já veio aqui? — perguntou Júlia.

— No ano passado.

— Na feira?

— Cheguei até o portão.

Ela esperou a continuação.

— Tinha muita gente com os pais — disse Levi. — Eu achei que tinha esquecido um documento. Voltei para casa.

— Você tinha esquecido?

— Não.

Júlia olhou para as famílias ao redor. Algumas carregavam bolsas e garrafas para os filhos. Outras discutiam a programação. Havia também jovens sozinhos, grupos de escola e uma mulher tentando impedir duas crianças de correr para lados opostos.

— Hoje você trouxe os documentos?

Levi abriu a mochila e mostrou uma pasta.

— Todos.

— Então entra.

Passaram pelo credenciamento. Levi escreveu o próprio nome e o curso de interesse. Júlia recebeu uma etiqueta em branco.

— O que coloco?

— Visitante.

Ela escreveu `Júlia: áudio` e colou na camiseta.

— Isso é um curso?

— É uma função.

A apresentação de Geografia acontecia numa sala inclinada. Um professor mostrou imagens de mapas, áreas urbanas, rios canalizados e trabalhos de campo. Duas estudantes falaram sobre pesquisa e estágio. Levi anotava endereços de sites, nomes de laboratórios e horários.

Júlia acompanhou parte. Em outros momentos, observou o amigo. Ele fazia perguntas curtas quando o professor abria espaço. Queria saber sobre aulas de manhã, atividades fora do campus e alunos que trabalhavam. Anotou a resposta sobre grade variável e circulou três vezes a informação sobre auxílio.

Depois da apresentação, uma estudante chamada Camila permaneceu perto da porta para conversar com interessados. Levi esperou duas famílias passarem.

— Quem trabalha cedo consegue acompanhar? — perguntou.

— Depende do semestre — respondeu Camila. — Tem matéria obrigatória em horários diferentes. Você trabalha com o quê?

— Padaria.

— Todo dia?

— Quase.

Camila mostrou no próprio celular a grade do primeiro período. Havia aulas em quatro manhãs e duas tardes.

— Muda todo ano — explicou. — Também dá para fazer menos disciplinas, só demora mais.

Levi fotografou a tela.

— E bolsa?

— O atendimento está no prédio ao lado. Eles explicam renda, alimentação e transporte.

Júlia ficou alguns passos atrás. Camila falava diretamente com Levi e não procurava confirmação em quem o acompanhava. Ele respondeu sobre o trabalho sem reduzir a rotina a uma frase engraçada. Quando terminou, agradeceu e guardou o celular.

Antes de liberar a sala, o professor distribuiu folhas transparentes e mapas simplificados da cidade. Pediu que cada visitante marcasse o trajeto mais frequente da semana, identificasse as interrupções e escrevesse uma pergunta sobre o percurso.

Levi escolheu a caneta azul. Desenhou o caminho entre a padaria, a lanchonete, o curso e a casa de Orlando. O traço se repetia em alguns trechos e criava uma forma estreita, concentrada em poucas ruas. No canto, escreveu: `Quem decide quais deslocamentos contam como trabalho?`

Júlia marcou a casa nova, a escola, o apartamento de Marcelo e o hospital onde Cida trabalhava. Sua linha atravessou a folha de um lado ao outro. A pergunta demorou mais. Por fim, escreveu: `Quanto tempo uma pessoa gasta para manter uma vida antiga?`

O professor pediu que sobrepusessem os mapas em duplas. Levi colocou a folha sobre a de Júlia. Os trajetos se encontravam no pedaço percorrido pelo ônibus e se separavam logo depois.

— A linha é a única parte igual — disse ele.

— A escadaria também.

Júlia marcou o desvio da pane com pontilhado. Levi acrescentou a passagem sob a avenida e a padaria. O mapa deixou de representar uma semana comum.

— Pode fotografar? — perguntou Júlia.

— Pode.

Ela registrou as folhas sobrepostas. Depois, cada um recebeu a própria de volta. Levi enrolou a transparência e guardou na pasta, junto aos documentos.

— Quatro manhãs — disse no corredor.

— Neste semestre.

— A padaria abre todos os dias.

— Você não abre sozinho.

— Orlando conta comigo.

Júlia consultou o mapa.

— O atendimento de bolsas é agora.

Levi não se moveu.

— Você quer ir?

— Quero.

— Então vamos.

Ele olhou para ela.

— Você vai responder tudo assim?

— Até você parar de perguntar a mesma coisa.

No prédio seguinte, pegaram uma senha. Enquanto esperavam, Levi preencheu uma ficha de interesse com nome, telefone, renda aproximada e situação de trabalho. Parou no campo `carga horária semanal`.

— Quantas horas? — perguntou Júlia.

— Nunca contei.

— Que horas começa?

— Quatro.

— E termina?

— Depende da entrega. Se tenho curso, saio às seis e quinze. Nos outros dias, volto depois e fico até meio-dia.

Fizeram a conta no verso do mapa. Levi trabalhava mais horas do que imaginava, distribuídas em pedaços difíceis de nomear.

— Orlando paga você? — perguntou Júlia.

— Paga algumas horas. O resto entra nas despesas de casa.

— Isso precisa estar na ficha.

— Como?

— Pergunta no atendimento.

Quando o chamaram, Levi entrou sozinho. Júlia esperou no corredor, sentada no chão perto de uma tomada. Abriu o aplicativo e gravou o ambiente: senhas anunciadas, papéis sendo organizados, passos e uma criança pedindo biscoito. Apagou quando uma mulher começou a dizer o número de um documento ao telefone.

Levi saiu com quatro folhetos e uma lista.

— Tem auxílio-transporte — disse.

— E alimentação.

— Você ouviu?

— Está no papel amarelo.

Ele sentou-se ao lado dela.

— Pediram comprovante do trabalho. Eu não tenho.

— A padaria pode fazer.

— Preciso falar com Orlando.

— Precisa.

Levi passou a mão pelos folhetos.

— Ele vai achar que estou organizando a saída.

— Você está?

— Estou organizando a possibilidade.

Júlia fechou o aplicativo.

— Fala isso.

— Você fala desse jeito com seus pais?

— Não.

Levi riu.

— Ótimo.

Ficaram sentados até a senha seguinte ser anunciada. Depois guardaram os papéis e foram procurar o estande onde Lucas trabalhava.

Ele estava diante de uma mesa de experimentos, usando a camiseta da universidade e explicando alguma coisa a três estudantes. Quando viu Levi, interrompeu a fala.

— Você veio!

Deu um abraço rápido no amigo e olhou para Júlia.

— A menina da pane?

Levi ficou imóvel.

— Eu contei do ônibus.

— Contou do velório das broas — disse Lucas. — Sou Lucas.

— Júlia.

— Do áudio?

— Também.

Lucas entregou a eles dois cartões com a programação do estande.

— Já foram em Geografia?

— Fomos — respondeu Levi.

— Ele fala desse curso desde o segundo ano.

Levi pegou um dos cartões.

— Não desde o segundo.

— Desde o trabalho dos mapas de enchente.

Júlia olhou para Levi. Ele havia apresentado Geografia como uma escolha ainda em montagem. Lucas a descrevia como uma coisa antiga.

— Você fez mapas de enchente? — perguntou.

— Um trabalho da escola.

— Tirou nota máxima — acrescentou Lucas. — Depois ficou dois meses corrigindo o mapa porque a professora errou o nome de um córrego.

— Você tem um estande para cuidar.

Lucas levantou as mãos.

— Estou valorizando seu histórico.

Uma nova família se aproximou. Lucas prometeu encontrar os dois no almoço e voltou à mesa.

Levi caminhou até o jardim sem consultar o mapa. Júlia o acompanhou.

— Você queria Geografia desde o segundo ano?

— Eu gostei do trabalho.

— Fez outros mapas.

— Fiz.

— Desenhou a linha do ônibus.

Levi sentou-se num banco.

— Dizer que quero há anos deixa pior o fato de eu ainda estar tentando.

Júlia permaneceu de pé.

— Para quem?

— Para mim.

Ela sentou-se ao lado dele, deixando a mochila entre os pés.

— Eu mudei três vezes o curso que escrevi na ficha da escola. Isso também pode virar argumento contra mim.

— Você já decidiu.

— Hoje. Talvez.

— Você fala em estudar fora.

— Porque em algum momento eu disse e todo mundo começou a repetir.

Levi dobrou o mapa da programação seguindo as marcas antigas.

— E quer?

Júlia pensou na casa de Cida, nas caixas abertas, no quarto antigo, em Natália aprendendo outra cidade e na linha que terminaria.

— Quero descobrir se consigo.

— Isso é diferente.

— É.

Nenhum deles tentou completar a resposta do outro.

Foram à biblioteca, almoçaram um prato barato no restaurante do campus e assistiram a parte da aula aberta sobre mobilidade urbana. Levi anotou menos durante a tarde. Júlia gravou os sinais sonoros dos prédios e pediu autorização antes de registrar Lucas descrevendo um experimento. Ele autorizou e repetiu a explicação com uma voz tão formal que os dois riram.

Lucas sentou-se com eles no almoço, ainda usando a camiseta do estande. Trouxe o próprio prato e um copo de suco.

— O que acharam?

— Você fala estranho quando está sendo gravado — respondeu Júlia.

— Voz institucional.

— Parece anúncio de elevador — disse Levi.

Lucas experimentou uma versão ainda mais solene até Levi mandar que parasse. Depois perguntou pela apresentação de Geografia.

— Ele fez pergunta? — quis saber.

— Duas — respondeu Júlia.

— Então gostou.

Levi cortou um pedaço de carne.

— Você sabia que eu vim no ano passado?

Lucas ficou alguns segundos calado.

— Você mandou foto do portão.

— E não perguntou nada.

— Perguntei se tinha entrado. Você respondeu no dia seguinte falando de outra coisa.

Levi lembrava da conversa. Lucas enviara uma mensagem curta, e ele devolvera a fotografia de uma fornada que queimara.

— Eu devia ter insistido? — perguntou Lucas.

— Não sei.

— Eu também não sabia.

Lucas apoiou os braços na mesa.

— Naquela época, toda vez que eu falava da faculdade, dava a impressão de que estava mostrando vantagem. Aí parei.

— Pareceu — disse Levi.

— Eu estava com medo de perder vocês e falando demais porque não conhecia ninguém aqui.

Júlia permaneceu quieta. A história entre os dois existia antes dela e continuaria depois do almoço. Lucas e Levi dividiram alguns detalhes sobre o antigo grupo, lembraram a promessa das quintas-feiras e riram das duas porções de batata.

— Ainda podemos marcar — disse Lucas.

— Sem quinta fixa — respondeu Levi.

— Sem juramento.

— E uma porção só.

Combinaram uma noite para a semana seguinte. Lucas colocou o compromisso no calendário diante deles.

— Agora existe.

Júlia contou que Natália também usava convites de calendário para impedir que as chamadas desaparecessem. Lucas perguntou se ela estudaria naquela universidade.

— Estou olhando produção audiovisual em outras cidades.

— Já visitou?

— Ainda não.

— Vai às feiras.

Júlia olhou para Levi.

— Talvez eu precise de um sábado emprestado.

Ele ainda não havia dado esse nome ao dia. Guardou a frase.

No fim da feira, Levi voltou ao atendimento de bolsas e pegou uma segunda ficha. Dobrou-a com cuidado e guardou dentro da pasta.

— Vai levar para casa? — perguntou Júlia.

— Vou.

— Vai falar com Orlando?

— Quando eu souber o que pedir.

— Certo.

Não era uma promessa completa. Júlia aceitou.

No ônibus de volta, os dois sentaram no fundo. Levi estendeu o mapa sobre os joelhos e marcou os prédios visitados. Júlia desenhou uma seta errada de propósito. Ele corrigiu. Depois, acrescentou um quadrado amarelo para o atendimento de bolsas e um círculo perto do banco do jardim.

— Isso foi uma sexta? — perguntou Júlia.

— Foi sábado.

— Entra no mapa?

— Entrou.

— E na regra?

— A regra pode ter exceção.

Júlia encostou a cabeça no vidro. O ônibus sacudia nas curvas e o cansaço fechava seus olhos por alguns segundos.

— Então foi um sábado emprestado — disse.

Levi escreveu a frase no alto da página.

Quando chegaram ao terminal, cada um precisava seguir para um lado. Júlia tinha o trabalho de Química e a chamada com Natália. Levi ainda faria o turno da tarde na padaria.

— Manda mensagem quando falar com seu avô — disse ela.

— Você manda quando decidir a cidade.

— Isso pode demorar.

— A conversa com Orlando também.

Eles se despediram junto às catracas.

Naquela noite, Júlia recebeu uma fotografia. A ficha amarela estava sobre a mesa da padaria, ao lado do pano dobrado de Orlando. Não havia mensagem.

Ela respondeu com uma imagem das três opções de curso escritas e riscadas no formulário da escola. A última linha permanecia em branco.

Levi reagiu com o ônibus.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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