Leia agora
A existência de nós no outro

Universo da obra

A existência de nós no outro

Capítulo 13 · A existência de nós no outro

A última viagem

13 de 14 ≈ 13 min de leitura

Na penúltima sexta-feira, Júlia levou Levi a um estacionamento de ônibus.

Não era uma garagem. O terreno ficava atrás de um centro comercial e recebia veículos entre turnos. Eles desceram numa avenida que nenhum dos dois conhecia, atravessaram uma passarela e encontraram quatro ônibus vazios alinhados sob árvores.

— Este é o destino? — perguntou Levi.

— A passarela.

Subiram de volta. Do ponto mais alto, viam três avenidas, um canal estreito e as linhas saindo em direções diferentes. Júlia descobrira o lugar ao comparar rotas para Juiz de Fora. Escolhera porque ali a cidade inteira trocava de ônibus sem chamar atenção.

— Você confirmou a vaga? — perguntou Levi.

— Confirmei ontem.

Ele encostou os braços no corrimão.

— Então você vai.

— Em janeiro.

— Falta quanto?

— Oitenta e nove dias.

— Você contou?

— Minha mãe fez uma planilha.

Cida organizara aluguel, documentos, móveis e visitas. Marcelo se oferecera para pagar parte das despesas e começara a enviar anúncios de apartamentos grandes demais. Natália pesquisara a distância entre as três cidades e criara um calendário de fins de semana possíveis.

— E você? — perguntou Júlia. — Está feliz?

— Estou. Também estou tentando imaginar onde cabe tudo.

— Foi o que minha mãe disse.

— Então é uma resposta adulta.

Júlia abriu o caderno. Marcou a passarela e escreveu o número de dias. Levi acrescentou setas para as quatro direções. Depois mostrou o comprovante da própria inscrição.

— A prova é daqui a três semanas.

— E a entrevista?

— Aprovaram o auxílio de inscrição. Transporte e alimentação só depois do resultado.

— Orlando?

— Está montando a escala de janeiro antes de saber se eu passo.

— Planilha?

— Lápis.

Ficaram até o estacionamento esvaziar. Júlia pediu autorização antes de gravar o ruído dos ônibus partindo. Levi disse que a voz dele deveria ficar fora e atravessou a passarela enquanto ela registrava. Quando retornou, conferiu o arquivo. Júlia mostrou a forma de onda e reproduziu os primeiros segundos.

— Você pode guardar — disse.

— Para uso pessoal.

— Para uso pessoal.

Na descida, combinaram a última sexta-feira. Levi escolheria. Fariam a linha inteira, do primeiro ponto ao terminal, na viagem das três e quarenta. Levariam os mapas e desceriam apenas no fim. Júlia poderia registrar o ônibus, desde que perguntasse a Gil e evitasse vozes de passageiros. Levi não queria aparecer.

— O que a gente faz no terminal? — perguntou Júlia.

— Decide quando chegar.

— Sem destino?

— Com destino. Sem programa.

Ela anotou o horário na capa interna do caderno.

Durante a semana, cartazes novos apareceram nos pontos. `ÚLTIMO DIA DE OPERAÇÃO: SEXTA-FEIRA.` A linha alternativa começou a circular vazia, meia hora atrás da antiga, para ensinar o percurso aos motoristas.

Gil disse que faria o turno da manhã no último dia. Outro motorista conduziria a viagem das três e quarenta. Júlia pediu autorização para gravar o som do veículo em sua última ida para a escola. Gil permitiu o motor e os avisos; a conversa dele ficaria fora.

Na quinta-feira, Levi enviou uma fotografia da capa do caderno ao lado de duas mexericas.

`Doação para a última viagem.`

Júlia respondeu com o pacote de biscoitos que Cida comprara para a ocasião.

`Limite de vinte reais preservado.`

Na manhã do último dia, Júlia saiu de casa dez minutos antes. Cida havia colocado o pacote de biscoitos junto à mochila e escrito `para os dois` numa etiqueta.

O ponto estava mais cheio. Passageiros fotografavam o cartaz, discutiam conexões e comparavam o tempo previsto da nova linha. Gil abriu as portas às seis e vinte e cinco.

— Última ida para a escola — disse a Júlia.

— O senhor está feliz?

— Pergunta depois que eu conhecer a escala nova.

Ela pediu autorização para gravar o motor e os avisos. Gil permitiu e repetiu que sua conversa ficaria fora. Júlia colocou o telefone perto da janela. Quando uma passageira começou a explicar a outra o novo itinerário, encerrou o arquivo.

No ponto de Levi, ninguém subiu. Júlia sabia que ele estava na padaria, terminando cedo para a viagem da tarde. Ainda assim, olhou o banco vazio.

Gil anunciou cada parada com mais cuidado. Algumas pessoas se despediram ao descer. Um senhor entregou ao motorista um pacote de balas; outra passageira reclamou que a linha substituta ficava longe de casa. Gil recebeu os dois gestos com a mesma atenção.

Na escola, Júlia salvou o arquivo como `ultima_manha_motor`. Registrou a autorização e cortou os segundos em que a conversa das passageiras começava. Não abriu o áudio durante a aula.

Na sexta, Levi chegou à padaria às quatro e meia. Orlando já estava no forno. Tinha passado parte da noite refazendo um pedido porque um fornecedor entregara farinha diferente. Denise chegaria às seis, e Márcia cobriria o balcão.

— Você dormiu? — perguntou Levi.

— O suficiente.

— Quanto?

— Não medi.

Orlando abriu o forno e recuou diante do calor. Levi notou a camisa molhada nas costas.

— Senta um pouco.

— Depois desta fornada.

— Eu termino.

— Você tem sua viagem.

— À tarde.

O avô não discutiu. Entregou a pá a Levi e foi conferir as notas no escritório. Às seis, Denise chegou. Orlando retornou ao balcão com uma lista de correções e passou quase uma hora explicando as quantidades.

Levi preparou água com açúcar e deixou perto do avô. Orlando bebeu metade sem comentar.

O movimento aumentou às sete. Uma escola havia encomendado pães e bolos para uma reunião. Paulo avisou que uma assadeira precisava ser refeita. Márcia telefonou para confirmar outro pedido. Orlando atravessava os setores tentando acompanhar tudo.

— Você devia ir para casa — disse Levi perto das nove.

— Eu vou depois do almoço.

— Vai agora. Eu fico.

— Você marcou de sair.

— Às três.

Orlando consultou o relógio, embora soubesse as horas.

— Depois do almoço.

Levi enviou a Júlia uma mensagem dizendo que talvez se atrasasse. Ela respondeu que a tolerância podia ser maior no último dia.

Às onze e dez, Orlando deixou cair o lápis. Abaixou para pegar e segurou a borda da mesa.

— Vô?

— Levantei rápido.

Ele estava sentado.

Levi se aproximou. Orlando tinha o rosto pálido e suava mais que antes. Tentou ficar em pé, perdeu o equilíbrio e voltou para a cadeira.

Márcia chamou o serviço de emergência. Paulo desligou o forno principal. Denise afastou os clientes do corredor e trouxe uma toalha molhada. Levi permaneceu agachado diante do avô, respondendo às perguntas da atendente.

Orlando não perdeu a consciência. Reclamou do alvoroço e pediu que alguém conferisse os bolos. Quando a equipe chegou, sua pressão estava baixa. Recomendaram avaliação na unidade de pronto atendimento.

— Eu consigo ir de carro — disse Orlando.

— Você vai com eles — respondeu Levi.

O avô não teve força para discutir.

Na ambulância, Levi lembrou da viagem às três e quarenta. Pegou o telefone e escreveu:

`Não vou conseguir. Orlando passou mal. Estamos indo para a UPA do bairro. Ele está acordado.`

Júlia estava saindo da escola quando recebeu. Guardou o pacote de biscoitos na mochila e procurou a rota até a unidade.

`Posso ir?`

Levi leu a pergunta na recepção. Orlando já passara pela triagem.

`Pode.`

Júlia avisou Cida, pegou dois ônibus e chegou pouco depois de uma. Encontrou Levi numa fileira de cadeiras de plástico, com o avental dobrado dentro de uma sacola. Ele segurava os documentos do avô e o telefone descarregado.

— Como ele está?

— Tomou soro. Fizeram exame de sangue e um eletrocardiograma. Ainda não falaram o resultado.

Júlia sentou ao lado dele.

— Você comeu?

— Não lembro.

Ela entregou os biscoitos destinados à viagem. Levi abriu o pacote e comeu dois.

— Sua mãe sabe que você está aqui?

— Sabe.

— A padaria?

— Márcia fechou mais cedo. Denise ficou para limpar. Paulo levou as encomendas da escola.

Levi falava em lista. Júlia ouviu até a lista acabar.

Ela retirou da mochila um carregador portátil. Levi conectou o telefone e encontrou oito mensagens: duas da tia, três de Márcia, uma de Lucas e duas de números de fornecedores.

— Você quer que eu responda alguém? — perguntou Júlia.

— O Lucas. Diz que meu avô está em observação e que eu falo depois.

Júlia escreveu diante dele e mostrou antes de enviar. Levi corrigiu `está melhor` para `está acordado`. Ela fez a alteração.

Cida ligou em seguida. Júlia saiu para atender e explicou o que sabiam.

— Quer que eu vá buscar você? — perguntou a mãe.

— Ainda não. A tia dele está vindo.

— Me avisa às quatro.

— Aviso.

Quando voltou à recepção, Levi havia guardado o telefone.

— Ela vai brigar por você ter vindo?

— Vai conferir o horário. É diferente.

— Orlando também chama isso de diferente.

Júlia sorriu e deixou o assunto terminar ali.

Às duas, uma enfermeira chamou Levi para conversar com o médico. Júlia ficou na cadeira. Não abriu o caderno, não consultou o gravador e não procurou o horário da linha.

Levi voltou vinte minutos depois.

— Os exames imediatos estão bons. Disseram que foi exaustão, desidratação e queda de pressão. Ele vai ficar em observação mais um pouco. Precisa fazer acompanhamento.

— Você quer avisar alguém?

— Minha tia já está vindo.

Ele sentou.

— Eu devia ter feito ele parar.

— Você tentou.

— Tentei até ele responder. Depois voltei a trabalhar.

Júlia não disse que Levi fizera tudo o que podia. Não sabia. Também não permitiu que a culpa ocupasse sozinha a espera.

— A escala precisa mudar antes de janeiro — falou.

— Precisa.

— E ele precisa aceitar.

— Precisa.

— Você não resolve isso hoje.

Levi dobrou o comprovante da triagem.

— Hoje era a última viagem.

O relógio acima da recepção marcava três e vinte e seis.

— Era — disse Júlia.

— Você ainda consegue pegar.

— Não quero.

— Foi o que a gente planejou.

— O plano era ir com você.

Levi olhou para a porta do corredor.

— Você não precisa ficar.

— Eu sei.

Às três e quarenta, o ônibus iniciou o percurso sem eles. Júlia soube pelo horário, não por uma imagem. Nenhum aviso apareceu no telefone. A recepção continuou chamando nomes, uma criança derrubou água perto do bebedouro e a televisão exibiu um programa sem som.

Às quatro, Júlia avisou Cida que ficaria até a alta ou a chegada da tia. Cida respondeu com o trajeto da linha alternativa e lembrou que o último ônibus seguro saía às sete e vinte. Júlia mostrou a mensagem a Levi.

— Sua mãe faz mapas melhores — disse ele.

— Planilhas melhores. Mapas ainda são seus.

Levi olhou para a sacola com o avental.

— O caderno ficou na padaria.

— A gente busca outro dia.

— A capa tem o horário.

— O horário continua lá.

Ele não respondeu. Na sacola, as duas mexericas amassadas encostavam no pacote aberto de biscoitos.

A tia de Levi chegou às quatro e dez. Abraçou o sobrinho, falou com a recepção e agradeceu a Júlia por estar ali. Orlando recebeu alta perto das seis, com orientações impressas e um pedido de consulta.

— Perderam o ônibus por minha causa — disse ao vê-los.

— A linha acabou por decisão da prefeitura — respondeu Levi.

— Estou falando da viagem.

— Eu sei.

Orlando olhou para Júlia.

— Você trouxe as mexericas?

Levi mostrou a sacola. As frutas estavam amassadas sob o avental.

— Ainda servem — disse Júlia.

Do lado de fora, a tia chamou um carro. Levi acompanharia o avô para casa. Júlia seguiria até o ponto da linha alternativa.

Antes de entrar no carro, Levi entregou a ela o caderno de mapas.

— Guarda hoje.

— Tem certeza?

— Tenho.

Júlia colocou o caderno na mochila. A capa ainda trazia o horário das três e quarenta.

O carro saiu. Ela atravessou a avenida e encontrou o ponto novo. O aviso da antiga linha estava riscado por uma faixa preta. Embaixo, alguém colara o itinerário substituto.

Júlia embarcou sem gravar.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

A existência de nós no outro

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A existência de nós no outro

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A existência de nós no outro Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 13 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir