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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 14 · A existência de nós no outro

Os caminhos depois

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Na segunda-feira, o ônibus novo chegou nove minutos atrasado.

Júlia esperou no ponto com outras vinte pessoas. Algumas ainda perguntavam pela linha antiga; outras erguiam o braço para todos os veículos, receosas de perder a alternativa correta. Gil dirigia naquela manhã. Parou mais longe da calçada e abriu as portas.

— Mudaram meu trajeto e esqueceram de mudar o trânsito — disse.

Júlia sentou no banco próximo à saída. A janela abria inteira, prendia no alto e descia a cada buraco. O caminho passava duas ruas acima da padaria, evitava a escadaria da pane e chegava à escola por outro lado.

Ela observou pessoas novas subindo. Uma mulher levava uma bandeja de doces coberta por pano. Um homem com uniforme de limpeza dormia segurando a própria mochila. Duas meninas revisavam perguntas de uma prova. Júlia não procurou Levi em cada ponto.

Ele passara a noite na casa de Orlando. O avô dormiu quase doze horas e acordou irritado com as orientações do médico. A tia levou comida, Márcia cancelou dois pedidos e Denise assumiu uma manhã adicional.

Levi enviou uma mensagem às sete e meia.

`Ele está reclamando. Acho que melhorou.`

Júlia respondeu:

`Reclamar entrou na lista de sinais vitais?`

`É o principal.`

Naquela tarde, ela devolveu o caderno de mapas na padaria. Orlando estava sentado junto ao caixa, proibido de carregar bandejas. Ao ver Júlia, apontou para uma cadeira.

— Eles fizeram uma escala contra mim.

— O senhor fez muitas escalas para os outros.

— Isto é diferente.

Márcia mostrou a Júlia o quadro preso no escritório. Denise trabalharia quatro manhãs; Paulo assumiria o primeiro forno em duas. Levi manteria as encomendas e teria três blocos livres para o curso, caso fosse aprovado. Orlando tinha horários marcados para almoço e descanso.

— Quem colocou as cores? — perguntou Júlia.

— A menina nova — respondeu Orlando. — Excesso de entusiasmo.

Denise levantou a mão do outro lado do balcão.

Levi abriu o caderno na mesa. A página da última viagem tinha apenas a data, o horário e um espaço sem trajeto.

— A gente devia desenhar alguma coisa? — perguntou Júlia.

— A UPA?

— Ou o ponto novo.

Levi pegou a caneta. Em vez de traçar a linha planejada, marcou a padaria, a unidade de atendimento e o lugar onde Júlia embarcara sozinha. Ligou os três pontos.

— Foi o caminho que aconteceu — disse.

Júlia acrescentou o horário da alta de Orlando. Perguntou antes de escrever que o motivo fora exaustão. Levi autorizou. Depois fechou o caderno.

As semanas seguintes foram ocupadas por provas, formulários e caixas.

Júlia concluiu o ensino médio com uma apresentação no pátio da escola. Clarice organizou uma pequena mostra de áudio, e Júlia participou com outro trabalho: os sons de três mudanças de rota, todos gravados com autorizações registradas. Não usou o arquivo da última manhã porque ainda não decidira o destino dele.

Cida assistiu à mostra depois do plantão. Marcelo chegou no fim e perguntou onde podia ouvir os trabalhos. Júlia enviou apenas o novo. Clarice devolveu o formulário de autorização junto do certificado.

— Você vai continuar gravando ônibus? — perguntou.

— Acho que vou gravar o que estiver perto.

— Isso costuma render mais.

Júlia guardou o certificado. O ensaio incompleto permanecia no arquivo da escola com a nota original. Ela não pediu que fosse substituído.

Levi ajudou na mudança durante uma manhã de dezembro. Carregou a estante montada na sexta-feira da chuva e descobriu que ela não passava pela porta.

— A gente devia ter medido antes — disse Júlia.

— A gente devia ter usado menos parafusos.

Cida encontrou o manual dentro de uma gaveta. Desmontaram duas prateleiras, marcaram as peças e prenderam os parafusos num saco. Orlando enviou broas para o almoço. Natália acompanhou por videochamada e lembrou que a primeira montagem também dera errado.

No fim, o quarto voltou a ter caixas. Desta vez, todas estavam identificadas com o lugar para onde iriam.

Levi fez o exame de acesso num domingo chuvoso. Orlando tentou preparar uma sacola com quatro sanduíches; Márcia retirou dois. Lucas esperou na saída e perguntou sobre cada questão. Levi recusou-se a conferir o gabarito antes de chegar em casa.

O resultado saiu em dezembro. Ele abriu a lista no computador da padaria e encontrou o próprio nome entre os aprovados para Geografia. Leu três vezes. Depois chamou Orlando, que aproximou o rosto da tela.

— Lima, Levi — disse o avô. — É você.

— É.

— Tem outro Levi Lima?

— Não nessa lista.

Orlando imprimiu a página inteira. Márcia circulou o nome com caneta vermelha. Denise trouxe um bolo pequeno do balcão e escreveu `GEÓGRAFO` na cobertura antes que Levi explicasse que ainda faltava começar o curso.

Ele fotografou o nome circulado. Enviou primeiro para Lucas, depois para Júlia.

Ela respondeu com uma fotografia de uma caixa aberta. Dentro havia cadernos, cabos, o apontador de peixe e a luminária da casa antiga.

`A última.`

Levi escreveu:

`Você falou isso de outra caixa.`

`A última desta mudança.`

Na matrícula, Levi recebeu uma grade diferente da apresentada por Camila na feira. Duas aulas começavam mais cedo, e uma atividade de campo ocupava sábados alternados. Levou a folha para a padaria.

Orlando abriu o quadro de horários sem protestar. Denise não poderia assumir todas as manhãs; Márcia aceitou trocar uma, e Paulo pediu para manter o sábado com o filho. Levaram quase uma semana para montar a nova escala.

— É mais difícil quando todo mundo escolhe — disse Orlando.

— É.

— Também reclama mais gente.

— Esse é o resultado de perguntar.

Orlando fez outra marca a lápis.

— Ainda dá para apagar.

Levi ficou responsável por pedidos em duas tardes e um começo de manhã. Havia semanas em que precisaria cobrir alguém. A padaria continuava ligada a ele, agora com espaços desenhados ao redor.

Júlia partiu em janeiro. Cida alugou uma caminhonete pequena e dirigiu até Juiz de Fora com as mãos firmes no volante. Marcelo chegou atrasado, trouxe um ventilador grande demais e insistiu em montar uma mesa. Natália participou por chamada e escolheu onde a luminária ficaria.

O quarto novo tinha uma janela voltada para os fundos de uma oficina. Pela manhã, Júlia acordava com metal batendo; à noite, ouvia o portão fechando. Levou uma semana para identificar o compressor, a chave de impacto e o carrinho de ferramentas.

No curso, recebeu um exercício para filmar uma rotina sem entrevistar ninguém. Escolheu o ponto próximo ao quarto. Durante duas manhãs, observou passageiros, vendedores e estudantes. Antes de apontar a câmera, conversou com quem apareceria de forma reconhecível. Algumas pessoas aceitaram; duas recusaram; um vendedor permitiu as mãos e a banca, sem o rosto.

Raquel, sua colega de dupla, perguntou por que Júlia anotava cada resposta.

— Para lembrar o limite.

— A professora pediu?

— Eu preciso.

Na edição, retiraram uma cena bonita em que uma das pessoas que recusara aparecia refletida no vidro do ônibus. Raquel lamentou o enquadramento e cortou sem discutir.

Gravou os sons depois de pedir autorização ao dono da oficina. Explicou que faria um exercício de aula e mostrou a montagem antes de entregá-la. O homem pediu que retirasse uma conversa ao fundo. Júlia retirou.

Enviou a Levi apenas o som do portão, autorizado para compartilhamento pessoal.

`A cidade fecha às 19h06.`

Ele respondeu dois dias depois com o ruído da máquina de pão iniciando às quatro e quarenta. Antes do arquivo, escreveu:

`Márcia e Orlando deixaram enviar. Paulo não aparece. Uso pessoal.`

Júlia confirmou.

Nem toda mensagem recebia resposta. Durante a primeira semana de Levi na universidade, Júlia mandou três fotografias e esqueceu de perguntar como tinham sido as aulas. Ele viu as imagens entre uma sala e outra, reagiu a uma e deixou as demais para depois. Contou sobre o professor de Cartografia somente no domingo.

Em fevereiro, Levi passou seis dias sem abrir a conversa. Tinha trabalhos acumulados, turnos na padaria e um trajeto novo que exigia duas conduções. Júlia sentiu vontade de perguntar se ele estava bravo. Ligou para Natália, encontrou colegas para terminar uma filmagem e esperou.

No sétimo dia, Levi enviou a fotografia de um mapa desenhado em papel vegetal.

`Errei a escala e tive que fazer de novo.`

Júlia respondeu:

`A cidade ficou maior ou menor?`

`Mais cara. Usei duas folhas.`

Em março, foi Júlia quem desapareceu. Um trabalho de filmagem ocupou três noites, Cida ficou gripada e Natália enfrentou uma semana ruim na escola. Quando voltou à conversa, encontrou uma mensagem de Levi com o itinerário de uma linha e nenhum pedido de explicação.

`É para onde?`

`Ainda não sei. Achei que você ia gostar do desenho.`

Ela gostou.

A distância alterou o que conseguiam acompanhar. Júlia conhecia Raquel e Bento, colegas que dividiam equipamentos e nunca devolviam cabos à bolsa certa. Levi almoçava com Camila duas vezes por semana e mantinha a noite de estudos com Lucas quando os horários permitiam. Cida aprendera a fazer videochamadas sem mostrar apenas a testa. Orlando respeitava a escala na maioria dos dias e escondia pequenas tarefas nos horários de descanso.

No aniversário de Levi, Júlia esqueceu de ligar pela manhã. Lembrou durante uma gravação, mandou uma mensagem no intervalo e telefonou à noite. Ele estava fechando a padaria e atendeu por três minutos.

— Dezoito outra vez? — perguntou ela.

— Dezenove. Atualiza seus arquivos.

— Posso registrar a correção?

— Uso pessoal.

Ela escreveu a idade no contato. Depois Levi precisou desligar para conferir o caixa. A conversa não teve retrospectiva, declaração ou promessa para o ano seguinte. Júlia enviou uma fotografia da oficina fechada. Ele respondeu com o bolo torto feito por Denise.

Quando Júlia apresentou seu primeiro curta, Levi não conseguiu assistir à transmissão. Tinha atividade de campo e o sinal caiu na estrada. Viu a gravação dois dias depois e perguntou por que a banca do vendedor aparecia sem o dono. Júlia contou da autorização parcial. Levi entendeu antes de ela terminar a explicação.

As vidas de Júlia e Levi cresceram em direções que o outro recebia por partes. Havia nomes sem rosto, trajetos sem caminhada e histórias contadas dias depois. Nenhum dos dois exigia relatório.

No fim de abril, Júlia voltou a Belo Horizonte para um fim de semana. Cida preparou comida para três dias, Natália mandou uma lista de objetos esquecidos no apartamento e Marcelo tentou marcar um almoço no mesmo horário do ônibus de volta.

Júlia avisou Levi na quinta-feira.

`Chego sábado às 10h20. Tenho até as 17h.`

Ele respondeu à noite:

`Ponto da praça nova, 11h.`

`Qual linha?`

`Nenhuma ainda.`

No sábado, Júlia saiu do apartamento de Cida com o apontador de peixe no bolso. A praça ficava onde antes havia um terreno cercado. Plantaram árvores pequenas, instalaram bancos e deslocaram três pontos de ônibus para a mesma calçada.

Levi esperava perto de uma placa azul. Trazia uma mochila mais gasta, o caderno de mapas e dois cartões de transporte.

— Você comprou outro? — perguntou Júlia.

— Este é o seu. O antigo venceu.

Ela pegou o cartão.

— Isso é um presente?

— É empréstimo. Tem duas passagens.

— Limite de vinte reais?

— Quase.

Sentaram no banco. Júlia contou do trabalho na oficina, da câmera que travava e de Raquel ter filmado quinze minutos sem áudio. Levi falou das aulas de Cartografia, do professor que dobrava mapas de um jeito incompreensível e da primeira vez que Orlando respeitara um sábado inteiro de folga.

Júlia pediu para ver o caderno.

Levi entregou.

As páginas antigas continuavam na mesma ordem. O bairro, a padaria, a casa das caixas, a feira, a plataforma, as sextas interrompidas e a UPA. Depois delas, Levi criara novos mapas: o caminho até a universidade, as duas conduções, o restaurante onde almoçava com Camila, a sala de estudos com Lucas. Havia folhas vazias entre um trajeto e outro.

— Posso acrescentar Juiz de Fora? — perguntou Júlia.

— Hoje não.

Ela devolveu o caderno.

— Certo.

— Você pode me mostrar quando eu for.

— Você vai?

— Um dia.

— Sem juramento?

— Sem juramento.

Três ônibus passaram. O primeiro seguia para um bairro que Levi conhecia. O segundo tinha o letreiro apagado. O terceiro exibia um destino que nenhum dos dois sabia localizar.

Levi se levantou.

— Esse?

Júlia colocou a mochila nas costas.

— Esse.

Entraram pela porta da frente. Levi usou um cartão, Júlia usou o outro. Havia dois lugares juntos no fundo, duas janelas abertas e uma cidade inteira antes do ponto final.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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