Universo da obra
Universo da obra
Às quatro e trinta e cinco da manhã, Cida estava acordada na cozinha com uma caneca entre as mãos e uma expressão que misturava sono e vigilância.
— Repete o plano.
Júlia terminou de amarrar o tênis.
— Eu encontro o Levi no ponto. A padaria fica a quatro quadras. Às seis e dez, a gente pega o ônibus para a escola.
— Para a sua escola.
— Ele vai para o curso.
— Endereço.
Júlia abriu a conversa e mostrou a localização enviada na noite anterior. Cida ampliou o mapa, conferiu o nome da rua e anotou o número num pedaço de papel.
— Telefone da padaria.
— Mãe.
— Telefone.
Júlia procurou. Levi havia incluído o número fixo depois de Cida perguntar se a padaria possuía placa. Copiou para o papel.
— E por que precisa ser tão cedo?
— Porque depois das seis vira outra padaria.
Cida fechou os olhos por um instante.
— Isso foi ele que disse?
— Foi.
— Faz sentido na cabeça de vocês?
— Um pouco.
A mãe bebeu o resto do café. Usava um moletom antigo sobre a camisola e meias de cores diferentes.
— Manda mensagem quando chegar. Se mudar de lugar, avisa. Se o ônibus atrasar, chama um carro.
— Com que dinheiro?
Cida apontou para a nota dobrada ao lado da caneca.
— O da tranquilidade materna.
Júlia guardou a nota.
— Você podia voltar a dormir.
— Podia.
— Vai?
— Quando você sair.
Júlia beijou a mãe, pegou a mochila e desceu. Do lado de fora, o bairro tinha poucas janelas acesas. O caminhão de lixo passava na rua de cima, comprimindo sacos com um ruído grave. Um homem lavava a entrada de um restaurante. A farmácia da esquina mantinha apenas a luz do letreiro.
Ela começou a gravar antes de chegar ao ponto.
Levi estava sentado no banco de concreto, encapuzado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Levantou quando a viu.
— Você veio.
— Essa era a regra.
— A regra permite arrependimento antes das cinco.
— Isso não estava escrito.
— Vou acrescentar.
Júlia enviou a mensagem combinada para Cida e mostrou a tela a Levi.
— Minha mãe tem o endereço, o telefone e a possibilidade de acionar metade do hospital.
— Orlando limpou o banheiro social.
— Então todos se prepararam.
Caminharam por uma avenida vazia e entraram numa rua de casas geminadas. A padaria ocupava a esquina, com duas portas de aço. Uma estava levantada até a metade. Levi abaixou a cabeça para passar.
— Entrada de funcionários.
— Você podia levantar mais.
— Faz barulho no apartamento de cima.
Júlia entrou curvada. O calor chegou antes da luz. Nos fundos, uma masseira girava devagar, e o forno emitia sinais curtos. Havia bandejas sobre carrinhos, sacos de farinha empilhados e uma bancada coberta por porções de massa. O cheiro ainda não era de pão pronto. Júlia sentiu fermento, gordura, pano úmido e café.
Orlando surgiu ao lado de uma porta com um avental branco e uma touca de tecido.
— A menina do ônibus.
Júlia olhou para Levi.
— Essa categoria se espalhou.
— Este é meu avô — disse Levi. — Orlando.
— Júlia.
— Eu sei. Sua mãe ligou.
Júlia sentiu o rosto esquentar.
— Ela ligou?
— Para confirmar o endereço. Está certa.
Orlando entregou a ela um avental dobrado.
— Cabelo preso, celular longe da massa e nada de encostar no forno.
— Ela veio conhecer — disse Levi.
— Conhece trabalhando.
Júlia vestiu o avental. Era comprido e tinha uma mancha antiga perto do bolso. Levi amarrou a faixa nas costas dela porque as pontas ficaram fora de alcance, depois buscou uma touca descartável.
— Pode gravar daqui — explicou Orlando, apontando para uma linha no piso. — Para lá, pergunta antes. E sem filmar ninguém.
— Só áudio.
— Áudio também pega conversa.
Júlia assentiu. Guardou o celular no bolso do avental.
Levi mostrou as etapas do turno. A massa dos pães franceses já fermentava em caixas grandes. As broas eram preparadas numa bancada menor. Um funcionário chamado Paulo cuidava do forno e falava pouco. Orlando pesava ingredientes sem consultar receita. Levi alternava entre separar pedidos, limpar bandejas, atender entregadores e conferir uma lista presa à parede.
— O que eu faço? — perguntou Júlia.
Orlando colocou diante dela uma bandeja de pães de queijo congelados.
— Conta cinquenta.
— Só isso?
— Chega até cinquenta primeiro.
Júlia começou a distribuir as unidades em fileiras. Levi passou por ela carregando uma caixa.
— Se ele pedir sessenta, negocia.
— Vai entregar os pães — disse Orlando.
Júlia contou duas vezes e chegou a quarenta e nove. Procurou no saco vazio, debaixo da bandeja e no chão.
— Falta um.
Orlando examinou.
— Então você contou certo.
Pegou uma unidade de outra embalagem e completou a fileira.
— Isso acontece sempre?
— Acontece o suficiente para a gente contar.
Levi voltou com a caixa vazia.
— Passou no teste?
— Quarenta e nove.
— Nota alta.
Orlando apontou para as sacolas de entrega. Levi começou a separar pães, broas e biscoitos conforme a lista. Júlia observou por alguns minutos. Ele conhecia os pedidos sem ler todas as linhas. Trocou uma embalagem amassada, percebeu que uma sacola estava sem etiqueta e chamou Paulo quando o forno apitou duas vezes em vez de uma.
No ônibus, Levi ocupava o banco ao lado e fazia piadas sobre broas quebradas. Na padaria, movia-se com uma atenção diferente. Falava menos, alcançava objetos antes que Orlando pedisse e interrompia qualquer conversa quando escutava uma máquina mudar de ruído.
Júlia esperou o momento em que ele ficou sozinho perto da bancada.
— Posso gravar agora?
— O quê?
— Você trabalhando. Sem conversa.
Levi olhou para Orlando, que pesava farinha do outro lado.
— Pode. Se eu falar, você me avisa.
Júlia lavou as mãos, secou-as e pegou o celular. Registrou a espátula raspando a bancada, sacos de papel sendo abertos, etiquetas arrancadas, bandejas encaixadas e a respiração de Levi quando erguia as caixas. Ficou dois minutos parada perto da linha indicada por Orlando.
Uma campainha tocou na porta lateral. Levi abriu para um entregador de laticínios. O homem entrou com uma prancheta e perguntou por Orlando.
— Pode deixar comigo — disse Levi. — São as quatro caixas de queijo e duas de manteiga?
— Hoje vieram cinco. Seu avô aumentou.
Levi conferiu a nota. Orlando se aproximou, leu o total e assinou.
— A partir do ano que vem, trata direto com o Levi — disse ao entregador. — Ele já conhece os pedidos.
Levi manteve os olhos na nota.
— A gente ainda vai organizar os horários.
— Pedido é cedo. Faculdade é depois.
— O curso pode ser de manhã.
Orlando devolveu a prancheta ao homem.
— Quando souber, organiza.
O entregador levou as caixas até a câmara fria. Júlia encerrou a gravação. Levi puxou uma das caixas para conferir a validade, embora a informação estivesse impressa do lado de fora.
Ela não fez pergunta naquele momento.
Às cinco e vinte, a primeira fornada saiu. Paulo abriu o forno, e uma onda de calor percorreu a cozinha. Júlia recuou até a parede. O ruído das pás, das bandejas e das cascas recém-assadas preencheu o ambiente. Orlando examinou os pães, descartou dois e autorizou Levi a levar o restante para a frente.
As portas de aço subiram às cinco e meia. A padaria mudou de luz e de som. O balcão iluminou salgados, doces e garrafas. Uma funcionária chamada Márcia ligou a máquina de café. Os primeiros clientes entraram sem olhar o cardápio.
Um motorista pediu café curto e pão com manteiga. Duas mulheres de uniforme azul dividiram uma mesa. Um rapaz com capacete pegou três pães e pagou por aproximação. Orlando sabia quem queria fiado, quem levava sacola e quem precisava receber o troco em moedas para o ônibus.
Júlia ficou ao lado do caixa, fora da passagem. Levi entregou a ela um pão pequeno ainda quente.
— Pesquisa de qualidade.
— Orlando autorizou?
— Perda de produção.
O pão tinha uma rachadura no topo. Júlia partiu e ofereceu metade.
— Você sempre divide indenização — disse Levi.
— Política da empresa.
Comeram de pé. Levi olhava para o balcão enquanto mastigava.
— Seu avô fala sério sobre você assumir os pedidos?
— Fala.
— E você?
— Eu conheço os pedidos.
— Não foi isso que perguntei.
Levi limpou uma migalha do avental.
— Ainda não sei os horários da faculdade.
— Você gostaria de continuar vindo todo dia?
— Gosto daqui.
Júlia esperou.
— A pergunta continua — disse.
Levi apoiou as mãos na bancada.
— Eu queria poder escolher os dias.
Do salão, Orlando chamou o neto para conferir uma entrega. Levi se afastou e deixou a frase na cozinha. Júlia terminou o pão e guardou o celular. Não havia uma resposta a oferecer.
Pouco antes das seis, Orlando colocou uma bandeja de rosquinhas diante dela.
— Leva para sua mãe.
— Ela vai querer pagar.
— Então não fala o preço.
— Qual é?
— Não fala.
Júlia aceitou o pacote. Márcia se despediu dela pelo nome. Paulo ergueu a mão perto do forno. Levi tirou o avental, lavou o rosto na pia do banheiro e voltou com a jaqueta verde sobre a camiseta.
Na calçada, o céu começava a clarear atrás dos prédios. A rua agora tinha carros, duas motos de entrega e pessoas esperando no ponto. Júlia enviou outra mensagem para Cida.
`saindo. ganhei rosquinhas. tudo certo`
A mãe respondeu com uma fotografia da própria caneca vazia.
`avaliadas quando você chegar`
Levi conferiu o horário.
— Minha semana ainda não acabou.
— Eu contei cinquenta pães de queijo.
— Quarenta e nove.
— Descobri a falta. É trabalho especializado.
Ele conduziu Júlia por uma rua lateral e abriu um portão de ferro ao lado da padaria. Subiram uma escada externa até um terraço estreito usado para secar panos e guardar caixas vazias. Dali, viam os fundos dos prédios, caixas-d’água, antenas e o começo do trânsito.
— Orlando me trazia aqui quando eu era criança — disse Levi. — Eu ficava esperando a primeira janela acender naquele prédio.
Apontou para uma construção alta do outro lado da avenida. Quase todas as janelas estavam escuras.
— Qual?
— Não sei. Mudou ao longo dos anos.
Júlia encostou-se no parapeito. O ar tinha cheiro de pão e combustível.
— Isso era a coisa que eu não encontraria sozinha?
— A padaria inteira.
— Você prometeu uma coisa.
— Então espera.
Ficaram olhando. Um quadrado de luz surgiu no quinto andar. Depois outro, dois andares acima. No prédio vizinho, alguém abriu uma cortina.
Levi apontou para a primeira janela.
— Aquela.
Júlia pegou o celular.
— Luz não faz som.
— Você reclama muito da minha escolha.
Ela iniciou uma gravação. A cidade ofereceu um ônibus freando, uma porta metálica subindo e Orlando chamando Levi lá de baixo.
— Faz, sim — disse Júlia.
Desceram correndo. Levi fechou o portão, pegou a mochila e os dois chegaram ao ponto quando o ônibus já se aproximava.
Gil dirigia. Ao vê-los juntos e Júlia carregando o pacote da padaria, abriu um sorriso.
— A família está aumentando.
— É pesquisa escolar — disse Levi.
— Às cinco da manhã?
Júlia passou o cartão.
— O objeto de estudo trabalha cedo.
Sentaram no banco da janela. Júlia abriu o caderno pequeno e escreveu `SEXTA 2: ANDRÉ`. Abaixo, listou masseira, bandejas, primeira fornada, pedido de queijo, janela acesa.
— Nota? — perguntou Levi.
— Ainda estou calculando os riscos trabalhistas.
— Você recebeu treinamento.
— Recebi quarenta e nove unidades.
— Oito, então.
— De quanto?
— Você ainda não definiu.
Júlia guardou o caderno. O ônibus atravessou uma parte da cidade que já estava acordada. Ela sentia cheiro de farinha no cabelo e carregava as rosquinhas no colo. Levi abriu o material do curso, leu uma pergunta e tornou a fechá-lo.
— Você vai perguntar de novo? — disse.
— Sobre a padaria?
— Sobre escolher os dias.
Júlia olhou para a rua.
— Quando você souber os horários.
Levi assentiu. Ficaram em silêncio até o ponto da escola. Antes de descer, Júlia enviou a ele o arquivo gravado no terraço. Nomeou `sexta_02_janela`.
Levi ouviu depois, no intervalo do curso. A gravação tinha vinte e nove segundos. Primeiro vinha o trânsito. Depois, a porta de aço. No final, a voz de Júlia dizia que a luz fazia som.
Ele salvou o arquivo sem mudar o nome.
Logo depois, Júlia enviou a avaliação de Cida: rosquinhas aprovadas, nota nove numa escala ainda indefinida. Levi mostrou a mensagem a Orlando, que declarou ter perdido um ponto por culpa do transporte.
À tarde, voltou para a padaria e encontrou Orlando diante de uma folha presa à parede dos fundos. O avô havia escrito os dias da semana em colunas e distribuído entregas, abertura, limpeza e recebimento de mercadoria. O nome de Levi aparecia em todas.
— Isso é para o mês que vem? — perguntou.
— Para a gente saber o que muda.
— Ainda não tenho o horário da faculdade.
— Por isso está a lápis.
Levi passou o dedo por uma das colunas. As tarefas começavam às quatro e terminavam depois do meio-dia. Em três dias, havia um espaço vazio entre seis e oito, reservado para o curso preparatório.
— Se as aulas forem de manhã?
Orlando retirou o lápis de trás da orelha.
— Você já perguntou três vezes.
— E a resposta?
— A gente contrata ajuda.
Levi olhou para o avô. Orlando enfim dissera aquilo com todas as palavras.
— Com que dinheiro?
— Com o dinheiro que você acha que não existe porque nunca viu as contas inteiras.
— Eu confiro parte das contas.
— Parte.
Orlando escreveu `ajuda` no rodapé da folha.
— Primeiro você passa. Depois recebe os horários. Aí a gente soma.
Levi quis saber por que o avô falara ao fornecedor que ele assumiria os pedidos. Também quis perguntar se `ajuda` significava quatro horas, um funcionário fixo ou alguém que viria apenas durante as entregas. A cozinha estava cheia de bandejas para lavar, e Márcia chamava pelo troco de uma encomenda.
— A Júlia gostou? — perguntou Orlando.
— Da padaria?
— Das rosquinhas.
— Ainda não sei.
— Então pergunta isso antes de transformar a vida inteira em planilha.
Orlando foi para a frente. Levi permaneceu diante da folha. Acrescentou um ponto de interrogação depois da palavra `ajuda` e tirou uma fotografia.
Enviou para Júlia.
`orlando começou o mapa`
Ela respondeu enquanto voltava da escola:
`está a lápis`
`eu vi`
`então pode mudar`
Levi guardou o celular e levou as bandejas até a pia. O horário, o dinheiro e a conversa com o avô continuavam na folha. Naquela tarde, ele aceitou a margem escrita a lápis.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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