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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 5 · A existência de nós no outro

A padaria antes das seis

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Às quatro e trinta e cinco da manhã, Cida estava acordada na cozinha com uma caneca entre as mãos e uma expressão que misturava sono e vigilância.

— Repete o plano.

Júlia terminou de amarrar o tênis.

— Eu encontro o Levi no ponto. A padaria fica a quatro quadras. Às seis e dez, a gente pega o ônibus para a escola.

— Para a sua escola.

— Ele vai para o curso.

— Endereço.

Júlia abriu a conversa e mostrou a localização enviada na noite anterior. Cida ampliou o mapa, conferiu o nome da rua e anotou o número num pedaço de papel.

— Telefone da padaria.

— Mãe.

— Telefone.

Júlia procurou. Levi havia incluído o número fixo depois de Cida perguntar se a padaria possuía placa. Copiou para o papel.

— E por que precisa ser tão cedo?

— Porque depois das seis vira outra padaria.

Cida fechou os olhos por um instante.

— Isso foi ele que disse?

— Foi.

— Faz sentido na cabeça de vocês?

— Um pouco.

A mãe bebeu o resto do café. Usava um moletom antigo sobre a camisola e meias de cores diferentes.

— Manda mensagem quando chegar. Se mudar de lugar, avisa. Se o ônibus atrasar, chama um carro.

— Com que dinheiro?

Cida apontou para a nota dobrada ao lado da caneca.

— O da tranquilidade materna.

Júlia guardou a nota.

— Você podia voltar a dormir.

— Podia.

— Vai?

— Quando você sair.

Júlia beijou a mãe, pegou a mochila e desceu. Do lado de fora, o bairro tinha poucas janelas acesas. O caminhão de lixo passava na rua de cima, comprimindo sacos com um ruído grave. Um homem lavava a entrada de um restaurante. A farmácia da esquina mantinha apenas a luz do letreiro.

Ela começou a gravar antes de chegar ao ponto.

Levi estava sentado no banco de concreto, encapuzado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Levantou quando a viu.

— Você veio.

— Essa era a regra.

— A regra permite arrependimento antes das cinco.

— Isso não estava escrito.

— Vou acrescentar.

Júlia enviou a mensagem combinada para Cida e mostrou a tela a Levi.

— Minha mãe tem o endereço, o telefone e a possibilidade de acionar metade do hospital.

— Orlando limpou o banheiro social.

— Então todos se prepararam.

Caminharam por uma avenida vazia e entraram numa rua de casas geminadas. A padaria ocupava a esquina, com duas portas de aço. Uma estava levantada até a metade. Levi abaixou a cabeça para passar.

— Entrada de funcionários.

— Você podia levantar mais.

— Faz barulho no apartamento de cima.

Júlia entrou curvada. O calor chegou antes da luz. Nos fundos, uma masseira girava devagar, e o forno emitia sinais curtos. Havia bandejas sobre carrinhos, sacos de farinha empilhados e uma bancada coberta por porções de massa. O cheiro ainda não era de pão pronto. Júlia sentiu fermento, gordura, pano úmido e café.

Orlando surgiu ao lado de uma porta com um avental branco e uma touca de tecido.

— A menina do ônibus.

Júlia olhou para Levi.

— Essa categoria se espalhou.

— Este é meu avô — disse Levi. — Orlando.

— Júlia.

— Eu sei. Sua mãe ligou.

Júlia sentiu o rosto esquentar.

— Ela ligou?

— Para confirmar o endereço. Está certa.

Orlando entregou a ela um avental dobrado.

— Cabelo preso, celular longe da massa e nada de encostar no forno.

— Ela veio conhecer — disse Levi.

— Conhece trabalhando.

Júlia vestiu o avental. Era comprido e tinha uma mancha antiga perto do bolso. Levi amarrou a faixa nas costas dela porque as pontas ficaram fora de alcance, depois buscou uma touca descartável.

— Pode gravar daqui — explicou Orlando, apontando para uma linha no piso. — Para lá, pergunta antes. E sem filmar ninguém.

— Só áudio.

— Áudio também pega conversa.

Júlia assentiu. Guardou o celular no bolso do avental.

Levi mostrou as etapas do turno. A massa dos pães franceses já fermentava em caixas grandes. As broas eram preparadas numa bancada menor. Um funcionário chamado Paulo cuidava do forno e falava pouco. Orlando pesava ingredientes sem consultar receita. Levi alternava entre separar pedidos, limpar bandejas, atender entregadores e conferir uma lista presa à parede.

— O que eu faço? — perguntou Júlia.

Orlando colocou diante dela uma bandeja de pães de queijo congelados.

— Conta cinquenta.

— Só isso?

— Chega até cinquenta primeiro.

Júlia começou a distribuir as unidades em fileiras. Levi passou por ela carregando uma caixa.

— Se ele pedir sessenta, negocia.

— Vai entregar os pães — disse Orlando.

Júlia contou duas vezes e chegou a quarenta e nove. Procurou no saco vazio, debaixo da bandeja e no chão.

— Falta um.

Orlando examinou.

— Então você contou certo.

Pegou uma unidade de outra embalagem e completou a fileira.

— Isso acontece sempre?

— Acontece o suficiente para a gente contar.

Levi voltou com a caixa vazia.

— Passou no teste?

— Quarenta e nove.

— Nota alta.

Orlando apontou para as sacolas de entrega. Levi começou a separar pães, broas e biscoitos conforme a lista. Júlia observou por alguns minutos. Ele conhecia os pedidos sem ler todas as linhas. Trocou uma embalagem amassada, percebeu que uma sacola estava sem etiqueta e chamou Paulo quando o forno apitou duas vezes em vez de uma.

No ônibus, Levi ocupava o banco ao lado e fazia piadas sobre broas quebradas. Na padaria, movia-se com uma atenção diferente. Falava menos, alcançava objetos antes que Orlando pedisse e interrompia qualquer conversa quando escutava uma máquina mudar de ruído.

Júlia esperou o momento em que ele ficou sozinho perto da bancada.

— Posso gravar agora?

— O quê?

— Você trabalhando. Sem conversa.

Levi olhou para Orlando, que pesava farinha do outro lado.

— Pode. Se eu falar, você me avisa.

Júlia lavou as mãos, secou-as e pegou o celular. Registrou a espátula raspando a bancada, sacos de papel sendo abertos, etiquetas arrancadas, bandejas encaixadas e a respiração de Levi quando erguia as caixas. Ficou dois minutos parada perto da linha indicada por Orlando.

Uma campainha tocou na porta lateral. Levi abriu para um entregador de laticínios. O homem entrou com uma prancheta e perguntou por Orlando.

— Pode deixar comigo — disse Levi. — São as quatro caixas de queijo e duas de manteiga?

— Hoje vieram cinco. Seu avô aumentou.

Levi conferiu a nota. Orlando se aproximou, leu o total e assinou.

— A partir do ano que vem, trata direto com o Levi — disse ao entregador. — Ele já conhece os pedidos.

Levi manteve os olhos na nota.

— A gente ainda vai organizar os horários.

— Pedido é cedo. Faculdade é depois.

— O curso pode ser de manhã.

Orlando devolveu a prancheta ao homem.

— Quando souber, organiza.

O entregador levou as caixas até a câmara fria. Júlia encerrou a gravação. Levi puxou uma das caixas para conferir a validade, embora a informação estivesse impressa do lado de fora.

Ela não fez pergunta naquele momento.

Às cinco e vinte, a primeira fornada saiu. Paulo abriu o forno, e uma onda de calor percorreu a cozinha. Júlia recuou até a parede. O ruído das pás, das bandejas e das cascas recém-assadas preencheu o ambiente. Orlando examinou os pães, descartou dois e autorizou Levi a levar o restante para a frente.

As portas de aço subiram às cinco e meia. A padaria mudou de luz e de som. O balcão iluminou salgados, doces e garrafas. Uma funcionária chamada Márcia ligou a máquina de café. Os primeiros clientes entraram sem olhar o cardápio.

Um motorista pediu café curto e pão com manteiga. Duas mulheres de uniforme azul dividiram uma mesa. Um rapaz com capacete pegou três pães e pagou por aproximação. Orlando sabia quem queria fiado, quem levava sacola e quem precisava receber o troco em moedas para o ônibus.

Júlia ficou ao lado do caixa, fora da passagem. Levi entregou a ela um pão pequeno ainda quente.

— Pesquisa de qualidade.

— Orlando autorizou?

— Perda de produção.

O pão tinha uma rachadura no topo. Júlia partiu e ofereceu metade.

— Você sempre divide indenização — disse Levi.

— Política da empresa.

Comeram de pé. Levi olhava para o balcão enquanto mastigava.

— Seu avô fala sério sobre você assumir os pedidos?

— Fala.

— E você?

— Eu conheço os pedidos.

— Não foi isso que perguntei.

Levi limpou uma migalha do avental.

— Ainda não sei os horários da faculdade.

— Você gostaria de continuar vindo todo dia?

— Gosto daqui.

Júlia esperou.

— A pergunta continua — disse.

Levi apoiou as mãos na bancada.

— Eu queria poder escolher os dias.

Do salão, Orlando chamou o neto para conferir uma entrega. Levi se afastou e deixou a frase na cozinha. Júlia terminou o pão e guardou o celular. Não havia uma resposta a oferecer.

Pouco antes das seis, Orlando colocou uma bandeja de rosquinhas diante dela.

— Leva para sua mãe.

— Ela vai querer pagar.

— Então não fala o preço.

— Qual é?

— Não fala.

Júlia aceitou o pacote. Márcia se despediu dela pelo nome. Paulo ergueu a mão perto do forno. Levi tirou o avental, lavou o rosto na pia do banheiro e voltou com a jaqueta verde sobre a camiseta.

Na calçada, o céu começava a clarear atrás dos prédios. A rua agora tinha carros, duas motos de entrega e pessoas esperando no ponto. Júlia enviou outra mensagem para Cida.

`saindo. ganhei rosquinhas. tudo certo`

A mãe respondeu com uma fotografia da própria caneca vazia.

`avaliadas quando você chegar`

Levi conferiu o horário.

— Minha semana ainda não acabou.

— Eu contei cinquenta pães de queijo.

— Quarenta e nove.

— Descobri a falta. É trabalho especializado.

Ele conduziu Júlia por uma rua lateral e abriu um portão de ferro ao lado da padaria. Subiram uma escada externa até um terraço estreito usado para secar panos e guardar caixas vazias. Dali, viam os fundos dos prédios, caixas-d’água, antenas e o começo do trânsito.

— Orlando me trazia aqui quando eu era criança — disse Levi. — Eu ficava esperando a primeira janela acender naquele prédio.

Apontou para uma construção alta do outro lado da avenida. Quase todas as janelas estavam escuras.

— Qual?

— Não sei. Mudou ao longo dos anos.

Júlia encostou-se no parapeito. O ar tinha cheiro de pão e combustível.

— Isso era a coisa que eu não encontraria sozinha?

— A padaria inteira.

— Você prometeu uma coisa.

— Então espera.

Ficaram olhando. Um quadrado de luz surgiu no quinto andar. Depois outro, dois andares acima. No prédio vizinho, alguém abriu uma cortina.

Levi apontou para a primeira janela.

— Aquela.

Júlia pegou o celular.

— Luz não faz som.

— Você reclama muito da minha escolha.

Ela iniciou uma gravação. A cidade ofereceu um ônibus freando, uma porta metálica subindo e Orlando chamando Levi lá de baixo.

— Faz, sim — disse Júlia.

Desceram correndo. Levi fechou o portão, pegou a mochila e os dois chegaram ao ponto quando o ônibus já se aproximava.

Gil dirigia. Ao vê-los juntos e Júlia carregando o pacote da padaria, abriu um sorriso.

— A família está aumentando.

— É pesquisa escolar — disse Levi.

— Às cinco da manhã?

Júlia passou o cartão.

— O objeto de estudo trabalha cedo.

Sentaram no banco da janela. Júlia abriu o caderno pequeno e escreveu `SEXTA 2: ANDRÉ`. Abaixo, listou masseira, bandejas, primeira fornada, pedido de queijo, janela acesa.

— Nota? — perguntou Levi.

— Ainda estou calculando os riscos trabalhistas.

— Você recebeu treinamento.

— Recebi quarenta e nove unidades.

— Oito, então.

— De quanto?

— Você ainda não definiu.

Júlia guardou o caderno. O ônibus atravessou uma parte da cidade que já estava acordada. Ela sentia cheiro de farinha no cabelo e carregava as rosquinhas no colo. Levi abriu o material do curso, leu uma pergunta e tornou a fechá-lo.

— Você vai perguntar de novo? — disse.

— Sobre a padaria?

— Sobre escolher os dias.

Júlia olhou para a rua.

— Quando você souber os horários.

Levi assentiu. Ficaram em silêncio até o ponto da escola. Antes de descer, Júlia enviou a ele o arquivo gravado no terraço. Nomeou `sexta_02_janela`.

Levi ouviu depois, no intervalo do curso. A gravação tinha vinte e nove segundos. Primeiro vinha o trânsito. Depois, a porta de aço. No final, a voz de Júlia dizia que a luz fazia som.

Ele salvou o arquivo sem mudar o nome.

Logo depois, Júlia enviou a avaliação de Cida: rosquinhas aprovadas, nota nove numa escala ainda indefinida. Levi mostrou a mensagem a Orlando, que declarou ter perdido um ponto por culpa do transporte.

À tarde, voltou para a padaria e encontrou Orlando diante de uma folha presa à parede dos fundos. O avô havia escrito os dias da semana em colunas e distribuído entregas, abertura, limpeza e recebimento de mercadoria. O nome de Levi aparecia em todas.

— Isso é para o mês que vem? — perguntou.

— Para a gente saber o que muda.

— Ainda não tenho o horário da faculdade.

— Por isso está a lápis.

Levi passou o dedo por uma das colunas. As tarefas começavam às quatro e terminavam depois do meio-dia. Em três dias, havia um espaço vazio entre seis e oito, reservado para o curso preparatório.

— Se as aulas forem de manhã?

Orlando retirou o lápis de trás da orelha.

— Você já perguntou três vezes.

— E a resposta?

— A gente contrata ajuda.

Levi olhou para o avô. Orlando enfim dissera aquilo com todas as palavras.

— Com que dinheiro?

— Com o dinheiro que você acha que não existe porque nunca viu as contas inteiras.

— Eu confiro parte das contas.

— Parte.

Orlando escreveu `ajuda` no rodapé da folha.

— Primeiro você passa. Depois recebe os horários. Aí a gente soma.

Levi quis saber por que o avô falara ao fornecedor que ele assumiria os pedidos. Também quis perguntar se `ajuda` significava quatro horas, um funcionário fixo ou alguém que viria apenas durante as entregas. A cozinha estava cheia de bandejas para lavar, e Márcia chamava pelo troco de uma encomenda.

— A Júlia gostou? — perguntou Orlando.

— Da padaria?

— Das rosquinhas.

— Ainda não sei.

— Então pergunta isso antes de transformar a vida inteira em planilha.

Orlando foi para a frente. Levi permaneceu diante da folha. Acrescentou um ponto de interrogação depois da palavra `ajuda` e tirou uma fotografia.

Enviou para Júlia.

`orlando começou o mapa`

Ela respondeu enquanto voltava da escola:

`está a lápis`

`eu vi`

`então pode mudar`

Levi guardou o celular e levou as bandejas até a pia. O horário, o dinheiro e a conversa com o avô continuavam na folha. Naquela tarde, ele aceitou a margem escrita a lápis.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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