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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 8 · A existência de nós no outro

Três minutos de voz

8 de 14 ≈ 15 min de leitura

Na sexta-feira seguinte, Levi pediu que Júlia não levasse o caderno de mapas.

A mensagem chegou durante a aula de Matemática. Ela leu por baixo da carteira, enquanto a professora desenhava uma parábola no quadro.

`Hoje eu escolho. Desce no fim da linha.`

Júlia respondeu com uma fotografia da mochila aberta. O caderno já estava lá.

`Tarde demais.`

`Então não abre.`

Ela guardou o telefone e tentou descobrir o que havia de especial no ponto final. Conhecia o terminal de passar por ele, sempre pela manhã, sempre lotado. À tarde, os ônibus ocupavam as plataformas em intervalos longos, e as lanchonetes fechavam uma porta antes de anoitecer. Levi havia desenhado o lugar nos mapas sem marcar estrela, círculo ou pergunta.

Encontraram-se às quatro. Ele trazia a pasta da feira universitária debaixo do braço e uma garrafa de água presa na lateral da mochila.

— Você falou com Orlando?

— Falei.

— E?

— O passeio começa dentro do ônibus.

Júlia aceitou a resposta provisória. Sentaram no banco que costumavam dividir nas manhãs, embora naquela hora houvesse vários lugares vazios. A cidade entrava pela janela em outra ordem. Uniformes voltavam para casa, portas de comércio começavam a baixar e o sol atingia fachadas que Júlia conhecia apenas sob a luz fria das seis e meia.

Levi acompanhava as ruas pelo vidro. Em cada curva, conferia alguma coisa no mapa mental que carregava.

— A ficha está aí? — perguntou Júlia.

Ele bateu dois dedos na pasta.

— Orlando fez a declaração de trabalho. Márcia assinou como testemunha.

— Isso resolve?

— Resolve um papel.

— Já é um papel a menos.

— Ainda tem a inscrição, a prova, a bolsa, o horário da padaria, o trajeto até a faculdade e o meu avô fingindo que contratar alguém é igual a comprar outro saco de farinha.

— Quantos papéis são isso?

— Uns quarenta e três.

Júlia contou as janelas até perder a conta. Tinha aprendido que Levi usava números exagerados quando uma coisa o assustava e números exatos quando desejava controlá-la. Quarenta e três significava medo. Quatro manhãs por semana significava plano.

O ônibus passou pelo ponto em que Levi subia e continuou até ruas que os dois viam todos os dias de lados opostos. Na última parada, desceram apenas eles e uma mulher com duas sacolas. O motorista seguiu para a área de descanso. Restaram o ronco distante dos veículos e uma fileira de bancos de concreto voltada para um muro coberto de horários antigos.

— Este é o lugar? — perguntou Júlia.

— É.

— O que eu não encontraria sozinha?

Levi indicou uma passagem estreita ao lado do terminal. Subiram uma rampa, atravessaram um portão aberto e chegaram a uma plataforma desativada. O piso ainda guardava faixas amarelas. Ervas cresciam entre as rachaduras. Na extremidade, acima do muro, dava para ver a linha férrea e, depois dela, os telhados de três bairros.

— Eu vinha aqui no último ano da escola — disse Levi. — Quando perdia o ônibus de propósito.

— Você perdia de propósito?

— Era o único jeito de ficar vinte minutos sem ter de escolher o que fazer depois.

Levi mostrou uma antiga cabine de cobrança no outro extremo. O vidro fora pintado de branco por dentro, e alguém desenhara um cachorro na camada de tinta. Atrás dela, duas cadeiras de plástico estavam empilhadas.

— Meu avô me buscou aqui uma vez — disse. — Eu tinha perdido três ônibus.

— Todos de propósito?

— Os dois primeiros. O terceiro foi consequência.

Orlando chegara com o avental ainda sujo de farinha e passara o caminho inteiro descrevendo os clientes que Levi teria atendido se estivesse na padaria. Só perto de casa perguntara o motivo.

— Você contou?

— Falei que estava cansado.

— E ele?

— Disse que cansaço se resolve dormindo. No dia seguinte me deixou acordar uma hora mais tarde.

Júlia tentou imaginar Orlando oferecendo descanso sem admitir que aceitara a explicação. Reconheceu o método. Cida deixava pratos de comida e bilhetes objetivos nos dias em que suspeitava que a filha estava triste.

Levi abriu a mochila e retirou duas mexericas. Orlando as colocara perto da pasta de documentos pela manhã.

— Isto conta nos vinte reais? — perguntou Júlia.

— Foi doação.

Descascaram as frutas sobre a folha de um jornal velho para não deixar restos no piso. Levi dividiu a dele em gomos perfeitos. Júlia rompeu a película de três e sujou os dedos.

— Você trouxe pessoas aqui depois da escola? — perguntou ela.

— Nunca.

— Por quê?

— Para trazer alguém, eu teria de explicar por que vinha.

— E agora?

— Agora eu trouxe alguém que já sabe dos quarenta e três papéis.

Sentaram perto de uma placa sem número. Júlia colocou a mochila entre os pés e respeitou o pedido sobre o caderno.

— O que Orlando disse?

Levi puxou a declaração da pasta. A folha tinha o nome da padaria, os horários atuais e a assinatura inclinada do avô.

— Disse que eu devia entregar isso logo. Depois disse que quatro manhãs são muitas. Depois calculou quanto custaria alguém por meio período. Depois perguntou se Geografia tem emprego.

— Tudo na mesma conversa?

— Em seis minutos.

— E você respondeu?

— Respondi que não sei quanto custa alguém por meio período.

Júlia passou o dedo sobre a borda áspera do banco. Ao longe, um trem de carga cruzou devagar. O telefone em sua mochila captou a vibração, mesmo sem estar gravando.

— Você pode falar sem ter uma resposta pronta — disse ela.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

— Em teoria.

Levi dobrou a declaração seguindo a marca que já existia. Abriu de novo. Júlia pensou no trabalho de Clarice. Nas últimas semanas, registrara freios, portas, anúncios de pontos, a água sob o viaduto e cinquenta segundos do forno da padaria. Faltava uma voz que sustentasse os sons. Aquela necessidade estava guardada numa parte separada da cabeça. Diante de Levi, ela queria registrar por outra razão: ele passava por certas frases depressa e, no dia seguinte, agia como quem não as tinha dito.

Ela pegou o telefone.

— Posso gravar você por três minutos?

Levi levantou os olhos.

— Para o trabalho?

— Não. Para a gente.

— O que significa para a gente?

Júlia abriu o gravador e deixou a tela visível.

— Eu guardo. Você pode ouvir. Eu não uso na escola, não mostro para ninguém, não mando para a Natália. Se você pedir, eu apago.

— Nem pedaço?

— Nem pedaço.

— Por que três minutos?

— Porque é o tempo do trabalho e eu queria saber o que cabe nele quando ninguém vai dar nota.

Levi examinou a plataforma. Um ônibus vazio manobrou do outro lado do muro.

— Você vai fazer perguntas?

— Uma no começo. Depois fico quieta.

— Qual?

— O que você ainda não conseguiu dizer para Orlando?

Ele respirou fundo e pediu para ver o cronômetro. Júlia selecionou três minutos, ativou o modo avião e apoiou o telefone sobre a pasta. O botão vermelho ficou à espera.

— Se eu travar, você para.

— Paro.

— E fica entre a gente.

— Fica entre a gente.

Levi tocou o botão.

Durante quatro segundos, ouviu-se apenas o trem.

— Eu ainda não consegui dizer que gosto da padaria.

Ele olhou para Júlia. Ela manteve as mãos sobre os joelhos.

— Acho que é isso que complica. Se eu detestasse acordar cedo, se o Orlando fosse ruim comigo ou se eu tivesse algum grande motivo para ir embora, dava para fazer uma frase certa. Eu gosto de saber que o forno do fundo esquenta mais. Gosto de a Márcia colocar a mesma música toda terça, mesmo todo mundo reclamando. Gosto quando meu avô finge que não está olhando e depois corrige a distância entre as broas. Só que eu queria escolher em quais dias eu vou estar lá. Queria saber que, se eu faltar uma manhã, a padaria continua e meu avô continua também.

Levi encostou os polegares.

— Tem gente que terminou a escola comigo e já fala da faculdade como um lugar comum. Sabe onde almoçar, qual professor evitar, qual ônibus pegar. Eu ainda estou preenchendo uma ficha. Quando o Lucas falava das aulas, eu achava que ele estava longe. Agora sei que fui eu que fiquei parado e transformei a distância numa coisa dele.

O cronômetro marcava um minuto e vinte.

— Tenho vergonha de querer Geografia há tanto tempo. Devia ter tentado antes. Também tenho medo de mexer os horários de todo mundo e depois não passar. A Márcia muda o turno, o Orlando contrata alguém, eu gasto dinheiro com inscrição e condução, e no fim volto para o mesmo balcão. Aí vão dizer que tudo bem, e talvez fique pior porque ninguém vai me cobrar.

Uma folha seca avançou pelo piso com o vento. Levi acompanhou o movimento até ela prender numa rachadura.

— Meu avô acha que eu quero deixar a padaria. Não quero deixar. Quero poder voltar por escolha. Acho que ele entende isso em algumas horas e esquece em outras. Eu também esqueço. Tem manhã em que a faculdade cabe. Tem manhã em que eu olho para ele carregando farinha e penso que escolher outra coisa é uma forma de ingratidão. Eu sei que ele não me pediu para salvar nada. Mesmo assim, sinto que existe uma conta e que ninguém escreveu o valor.

Faltavam trinta e dois segundos.

— O que eu não disse é que estou com medo de conseguir. Se eu passar, vou ter de resolver tudo o que hoje pode ficar para depois. Se eu não passar, pelo menos o mundo continua do tamanho conhecido. Isso é uma coisa horrível de admitir.

O sinal encerrou a gravação. Levi levou alguns segundos para mover as mãos.

Júlia mostrou a tela. `03:00`.

— Quer ouvir?

— Agora não.

— Quer que eu apague?

— Agora não.

Ela salvou o arquivo como `tres_minutos_andre_privado`. Antes de guardar o telefone, abriu as informações e mostrou que não havia envio nem cópia.

— Continua entre a gente — disse.

— Continua.

Levi recolheu a declaração. Durante alguns segundos, ouviram apenas um ônibus manobrando do outro lado do muro.

— Minha vez? — perguntou Júlia.

— Você trouxe o gravador.

— Eu não quero gravar a minha.

— Então fala sem gravar.

Júlia apoiou os pés na faixa amarela.

— Eu digo que quero estudar fora porque é mais fácil defender uma cidade que ainda não escolhi. Se eu disser que quero ficar, minha mãe vai achar que é por causa dela. Meu pai vai achar que ganhou alguma disputa que ninguém marcou. Se eu disser que quero ir, a Natália vai perguntar por que outra distância seria melhor.

— E o que você quer?

— Ter as duas opções até o último minuto.

— Isso eu entendo.

— Também tenho medo de abrir todas as caixas.

Levi olhou para a mochila dela.

— Ainda faltam quantas?

— Quatro. Uma tem coisas da escola antiga. Outra tem fotos do meu pai. As duas menores eu esqueci.

— Você escreveu os nomes.

— Escrevi durante a mudança. Eu era outra pessoa.

Levi sorriu de leve.

— Há um mês?

— Pessoas mudam muito em um mês.

— Certo.

Júlia contou que, enquanto as caixas permanecessem fechadas, podia tratar o apartamento como endereço temporário. A mudança ainda estaria acontecendo. Abrir tudo obrigaria a admitir que a vida antiga não voltaria montada da mesma forma.

Levi ouviu sem pedir que ela escolhesse uma cidade ou uma caixa. Quando Júlia terminou, ele pegou a pasta e se levantou.

— Agora pode abrir o caderno.

Ela desenhou a plataforma, a faixa amarela e o trecho da linha férrea. Levi marcou o banco onde haviam sentado. Júlia escreveu a data no canto e, em vez de resumir a conversa, fez um retângulo vazio.

— O que é isso? — perguntou ele.

— Uma coisa que não vai para o mapa.

Levi pediu a caneta e escreveu abaixo do desenho: `Plataforma sem número`. Não perguntou pelo retângulo. Acrescentou a passagem lateral e corrigiu a direção da ferrovia. Depois marcou o ponto onde a cabine branca escondia as cadeiras.

— Quando a linha acabar, este lugar continua? — perguntou Júlia.

— Deve continuar vazio.

— Vazio também muda.

— Você está pensando no trabalho.

— Agora estou.

Ela fechou o caderno. Levi não reclamou. Caminharam até o fim da plataforma, onde uma grade impedia o acesso aos trilhos. Dali, os telhados escondiam quase todas as ruas. Levi apontou a direção da padaria, depois a da casa de Júlia. Nenhuma delas podia ser vista.

— Você acredita em mapas demais — disse ela.

— O mapa não precisa mostrar o prédio. Precisa dizer onde procurar.

— Isso foi uma frase de geógrafo?

— Foi uma frase de pessoa tentando justificar a caneta que comprou.

A caneta de funerária falhou ao primeiro risco. Júlia entregou a sua. Levi completou duas ruas imaginadas na margem do papel.

Antes de descerem a rampa, Júlia perguntou se ele queria levar o arquivo no próprio telefone. Levi recusou.

— Se eu tiver, vou ouvir e começar a corrigir.

— Você não pode corrigir uma conversa.

— Posso sofrer tentando.

— Então eu guardo.

— Até eu decidir.

— Até você decidir.

Na volta, esperaram o ônibus no terminal quase vazio. Levi enviou a Orlando uma fotografia da declaração dentro da pasta e escreveu que a entregaria na segunda-feira. O avô respondeu com o endereço do setor de assistência e a recomendação de levar uma cópia.

— Ele entende em algumas horas — disse Júlia.

— Esta é uma das horas.

Sentaram separados por um corredor porque o veículo estava cheio. Júlia colocou os fones, abriu a pasta de gravações e viu os arquivos alinhados pela data. O de Levi tinha a mesma aparência dos demais: duração, horário, uma faixa azul atravessada por picos. Mudava apenas a promessa ligada a ele.

Ela não apertou o play.

Ao chegar em casa, transferiu para o computador os sons daquela tarde. Criou uma pasta chamada `SEXTA_04`. Dentro dela, deixou o trem, o terminal e o rangido do portão. O arquivo de três minutos ficou no telefone.

Antes de dormir, Levi mandou uma mensagem.

`Você ainda lembra o combinado?`

Júlia respondeu:

`Lembro. Fica entre a gente. Você decide se continua existindo.`

Ele levou sete minutos para reagir com o ônibus.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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