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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 9 · A existência de nós no outro

O trabalho de Júlia

9 de 14 ≈ 15 min de leitura

Na segunda-feira, Clarice levou uma caixa de som para a sala e colocou sobre a mesa três trabalhos de turmas anteriores. O primeiro tinha vozes de feirantes, o segundo acompanhava uma demolição e o terceiro reunia os ruídos de uma praça em horários diferentes.

Júlia ouviu com o caderno fechado. Seu projeto tinha vinte e sete arquivos e nenhuma forma. O aviso de desativação da linha podia abrir a peça. Depois viriam o motor, o freio, a chuva no teto e a voz de Gil anunciando um ponto. Ela montara quatro versões no domingo. Todas terminavam em sons que já haviam aparecido.

Clarice interrompeu o terceiro exemplo antes do fim.

— O que faz vocês continuarem ouvindo?

Henrique, na primeira fila, respondeu que era a música. Camila apontou a qualidade dos microfones. Outra aluna disse que queria saber se a praça seria reformada.

— Existe uma perspectiva — disse Clarice. — Alguém escolheu onde ficar e o que procurar. Um ensaio de áudio não é um depósito de barulhos.

Júlia anotou a frase e a riscou. Depósito era a palavra que usara para nomear a primeira pasta.

No fim da aula, esperou os colegas saírem.

— Posso fazer sem entrevista?

— Pode.

— E sem narração?

— Também pode.

Clarice desligou a caixa.

— O que você quer que eu perceba?

— Que uma linha vai acabar.

— Isso está no aviso. O que existe nessa linha para você?

Júlia pensou no banco da janela, nos mapas, na padaria antes das seis. Poderia gravar a própria voz. Tentara naquela manhã, trancada no banheiro, e apagara depois de duas frases. Sua leitura dava a cada palavra uma importância que ela não tinha ao ser pensada.

— Ainda estou descobrindo.

— Então a forma pode carregar a dúvida. Você não precisa chegar com uma conclusão.

Clarice abriu a porta para a turma seguinte.

— Só confira as autorizações. Se uma voz puder ser reconhecida, a pessoa precisa saber onde vai aparecer.

Júlia assentiu. A frase a acompanhou até o ônibus.

Levi subiu com uma pasta transparente nova. Sentou ao lado dela e mostrou o protocolo de entrega dos documentos de assistência. O carimbo havia atingido a margem de duas folhas.

— Quarenta e dois papéis — disse Júlia.

— Talvez quarenta e um. Pediram outra declaração.

— Orlando aceitou?

— Reclamou da fonte pequena do formulário. Depois preencheu.

Levi contou que visitaria a sala de estudos com Lucas naquela noite. Júlia falou das quatro versões do trabalho e da pergunta de Clarice. Evitou mencionar o arquivo privado. O combinado continuava claro, e o trabalho ainda podia existir sem ele.

— Grava você — sugeriu Levi.

— Minha voz fica ruim.

— Sua voz fica igual.

— Esse é o problema.

— Usa a do Gil.

— Ele só anuncia os pontos.

— Tem gente que constrói carreira com menos.

Júlia riu. Desceram em pontos diferentes e combinaram a sexta seguinte. Era a vez dela. A arquibancada cancelada pela chuva continuava disponível, e Levi pediu uma pista.

— Tem degraus — disse.

— A cidade tem muitos.

— Estes servem para sentar.

Naquela tarde, Júlia tentou conseguir uma voz para a peça. Esperou o ônibus no terminal e perguntou a Gil se poderia gravar uma entrevista curta sobre a desativação. Ele consultou o relógio acima do painel.

— Durante a viagem, não. No intervalo, tenho oito minutos.

Encontraram-se junto à lanchonete depois da última volta de Gil. Júlia explicou o tema, a apresentação em sala e a possibilidade de o arquivo permanecer armazenado pela escola. Gil autorizou a voz, pediu que seu sobrenome não aparecesse e respondeu a quatro perguntas.

Falou dos novos itinerários, dos passageiros que ainda perguntavam se o aviso era definitivo e do receio de perder o turno. Júlia agradeceu e enviou a ele a gravação inteira. Em casa, separou três trechos. Todos eram claros. Nenhum se ligava ao que ela tentava construir.

Ela se irritou consigo por pensar assim. Gil lhe entregara exatamente o que fora pedido, com autorização definida. O problema pertencia à montagem, não à fala dele. Júlia reorganizou os sons, colocou a entrevista no início, no meio e perto do encerramento. Em cada posição, ouvia uma reportagem curta sobre a linha. Seu trabalho devia tratar do lugar que a linha ocupava sem explicar por que aquele lugar importava.

Gravou a si própria sete vezes. Na primeira, leu o aviso. Na segunda, descreveu o banco da janela. Na terceira, contou que conhecera Levi durante uma pane. As outras quatro terminaram antes de trinta segundos. Quanto mais tentava soar espontânea, mais ouvia o esforço.

Guardou a entrevista de Gil numa pasta com a autorização escrita. Mandou uma mensagem agradecendo e avisou que talvez não utilizasse os trechos. Ele respondeu que estava tudo bem e pediu que ela lhe enviasse o trabalho pronto.

À noite, Júlia abriu a quinta versão. O relógio do computador marcava onze e vinte e três. Cida estava no plantão; voltaria depois das sete. O apartamento guardava o ruído da geladeira, de um elevador distante e da torneira que precisava ser fechada com força.

Júlia colocou o aviso da desativação no início. Uma porta pneumática abriu. Entrou a gravação do ônibus quebrado, seguida pelos passos na escadaria. No primeiro minuto, a peça ganhou movimento. No segundo, tornou-se uma sequência de lugares sem pessoa.

Ela gravou uma narração curta.

— Uma linha também é feita pelas coisas que ainda não aconteceram.

Ouviu duas vezes e apagou. A frase tinha sido escrita para soar importante. Não dizia o que ela sentia.

Abriu a pasta do telefone para procurar o trem da plataforma. O arquivo `tres_minutos_andre_privado` estava logo acima. Júlia não o reproduzira desde sexta. Colocou os fones e apertou o play.

A gravação começou com quatro segundos de trilhos. Depois veio a voz de Levi:

— Eu ainda não consegui dizer que gosto da padaria.

Júlia ouviu até o fim. A naturalidade que faltava ao trabalho estava toda ali: pausas, mudança de direção, uma folha atravessando o piso, a dúvida presa entre frases concretas. Ela abriu o editor e importou o arquivo apenas para testar.

Separou treze segundos:

— Tem manhã em que a faculdade cabe. Tem manhã em que eu olho para ele carregando farinha e penso que escolher outra coisa é uma forma de ingratidão.

Colocou o trecho depois do aviso da linha. O ônibus freava, Levi falava, as portas se fechavam. A montagem enfim tinha um centro.

Júlia retirou o nome do arquivo e salvou a sessão como `VERSAO_TESTE_NAO_ENTREGAR`. Ouviu de novo. A promessa da plataforma não mudava por causa do título.

Ela fechou o programa.

Às cinco e quarenta, acordou diante do computador. A sessão continuava aberta na barra inferior. Cida chegou vinte minutos depois e encontrou a filha preparando café.

— Terminou?

— Tenho uma versão.

— Você gostou?

Júlia serviu café para as duas.

— Ainda não sei.

Na escola, entregou a Clarice os fones com a quinta versão carregada no notebook. Disse que era um rascunho. A professora ouviu com os olhos na linha do tempo, sem interromper. Quando o trecho de Levi terminou, voltou alguns segundos.

— Esta voz organiza tudo — disse.

Júlia sentiu uma satisfação curta, logo atravessada pelo incômodo que a mantivera acordada.

— Está sem nome.

— A pessoa autorizou o uso?

— Autorizou a gravação.

— E o trabalho?

Júlia olhou para o nome da sessão na tela.

— O trabalho, não.

Clarice tirou os fones.

— Então você precisa pedir ou retirar.

— Se ninguém souber quem é?

— Você sabe. A pessoa também vai saber.

Júlia fechou o notebook.

— A apresentação é amanhã.

— Isso não altera o acordo que você fez.

Clarice não ofereceu saída. Disse que ouviria uma nova versão até o início da aula seguinte, mesmo incompleta. Júlia podia gravar outra voz com autorização, inserir narração ou sustentar a peça apenas com os sons. A nota consideraria o processo.

No intervalo, Natália mandou uma fotografia do caminho até a escola antiga. Júlia começou a escrever sobre o trabalho e apagou a mensagem. Contar para Natália repetiria uma parte do erro.

Levi só pegava o ônibus depois do curso. Júlia poderia enviar uma pergunta e esperar. Também poderia retirar o trecho e nunca mencionar o teste. Ninguém além de Clarice o ouvira. O arquivo não fora apresentado, entregue ou publicado.

Ela passou a tarde editando. Retirou a voz, tentou preencher o espaço e colocou de volta. A cada retorno, os treze segundos ganhavam aparência de peça inevitável. Júlia sabia que não eram. Tinham sido escolhidos porque serviam.

Às seis e dez, escreveu:

`Preciso contar uma coisa sobre o áudio. Posso esperar você na saída?`

Levi respondeu que chegaria ao ponto às sete e cinco.

O ônibus veio atrasado. Júlia o viu antes que ele a encontrasse, atravessando a rua com a pasta presa ao peito. Ele sorriu ao se aproximar.

— A arquibancada foi interditada?

— Não é sobre sexta.

Júlia abriu o notebook no banco do ponto. O movimento da avenida dificultava ouvir qualquer arquivo. Ainda assim, colocou a sessão na tela.

— Eu usei um trecho da sua gravação numa versão do meu trabalho.

Levi olhou para as faixas coloridas.

— Qual gravação?

Júlia respondeu sem desviar.

— A dos três minutos.

Ele permaneceu em pé. O ônibus deles apareceu no semáforo e seguiu quando o sinal abriu. Nenhum dos dois fez gesto para embarcar.

— Você apresentou?

— Não.

— Mandou para alguém?

— A Clarice ouviu.

— Quem é Clarice?

— Minha professora.

Levi colocou a pasta no banco.

— Você falou que ficava entre a gente.

— Eu falei.

— E depois levou para a escola.

— Eu fiz uma versão de teste. Tirei seu nome. Quando ela pediu autorização, eu vim te contar antes de entregar.

— Você veio porque ela pediu autorização?

Júlia fechou a boca. A resposta estava na ordem dos acontecimentos.

— Sim.

Levi passou a mão pela alça da mochila.

— Qual parte você usou?

Ela mostrou os treze segundos na tela, sem reproduzir. Levi leu a transcrição que o programa criara com erros. `Tem mãe em que a faculdade cabe.` Júlia havia achado graça quando viu. Agora a falha deixava o trecho ainda mais exposto.

— É sobre meu avô.

— Eu sei.

— Eu pedi para ficar entre a gente.

— Eu sei.

— Então por que você usou?

Júlia poderia dizer que a voz estava anônima, que era um rascunho, que a apresentação ainda não ocorrera. Todas as frases reduziriam o acordo para caber no que ela fizera.

— Porque o trabalho ficou melhor. Eu pensei que tirar seu nome diminuía o problema. Eu sabia que você talvez dissesse não e não perguntei.

Levi puxou o notebook para perto e apontou o trecho.

— Apaga do trabalho.

— Vou apagar.

— E a gravação inteira.

Júlia pegou o telefone. Abriu o arquivo diante dele, selecionou excluir e confirmou. Depois entrou na lixeira e apagou outra vez.

— Tem cópia? — perguntou Levi.

— No computador, dentro da sessão.

Ela removeu o arquivo da biblioteca. O programa deixou um retângulo vazio na montagem. Abriu a pasta de mídia, apagou a cópia e esvaziou a lixeira. Levi observou cada etapa.

— Mais alguma?

— Não.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Levi fechou o notebook.

— Eu não quero ser o trabalho de ninguém.

— Você não vai ser.

— Já fui.

O ônibus seguinte encostou. Levi pegou a pasta e entrou pela porta da frente. Júlia ficou no ponto. Ele poderia ter pedido que ela não viesse, poderia ter levantado a voz ou exigido uma explicação maior. A ausência dessas coisas não diminuía o que acontecera.

Júlia esperou o próximo veículo. Sentou no banco do corredor e abriu a montagem sem o trecho. O espaço vazio durava treze segundos.

Ela não o preencheu.

Na manhã seguinte, antes da aula, entregou a Clarice uma versão de dois minutos e vinte e sete segundos. Havia o aviso, as portas, a chuva, os passos e o trem da plataforma. O corte depois do freio permanecia longo.

— Você retirou? — perguntou Clarice.

— Retirei. E apaguei o original.

— A pessoa pediu?

— Pediu.

Clarice anotou a duração na ficha.

— Você quer apresentar assim?

— Quero.

Durante a exibição, alguns colegas olharam para Júlia quando o silêncio chegou. Ela manteve os olhos na caixa de som. Depois vieram o trem e o anúncio de Gil. A peça terminou sem aplausos imediatos. Clarice agradeceu e chamou o trabalho seguinte.

No fim da aula, Júlia esperou os colegas saírem outra vez.

— Quanto eu perdi? — perguntou.

Clarice mostrou a ficha. A duração incompleta afetaria a nota, e a versão precisaria de outra passagem para concluir o processo. Júlia tinha uma semana.

— Eu posso trocar o silêncio pela entrevista do motorista.

— Pode, se essa for a peça que você quer fazer.

— Ele autorizou.

— Isso resolve a autorização. A escolha artística continua sendo sua.

Júlia guardou a ficha.

— A senhora acha que eu devia ter contado antes?

— Para ele?

— Sim.

— Você devia ter pedido antes de colocar a voz no projeto.

Clarice recolheu o cabo da caixa de som. Falava num tom baixo, sem tentar transformar o erro numa aula para o corredor inteiro.

— Contar antes da apresentação impediu uma exposição maior. Ainda houve uma quebra de confiança. Uma coisa não apaga a outra.

Júlia pensou nos treze segundos vazios.

— Eu entrego outra versão.

— Entregue quando souber o que ela sustenta.

Levi não apareceu no ônibus naquela manhã.

À tarde, Júlia enviou uma única mensagem:

`Eu quebrei um acordo claro. Retirei o trecho, apaguei o arquivo e aceitei entregar o trabalho incompleto. Sei que isso não devolve o que você me contou. Sinto muito. Não vou insistir para você responder.`

A mensagem foi entregue às quatro e doze.

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A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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