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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 11 · A existência de nós no outro

O que um pedido não resolve

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O despertador tocou às quatro e vinte. Júlia desligou antes do segundo aviso e encontrou Cida na cozinha, ainda de uniforme, bebendo água.

— Você chegou agora?

— Há dez minutos. Você vai aonde?

Júlia mostrou no telefone o endereço da padaria. Cida conhecia o lugar e conhecia a história até a gravação apagada. Júlia contara na noite anterior, depois da ligação com Natália.

— Ele sabe que você vai?

— Não.

— E se ele não quiser conversar?

— Eu volto.

Cida verificou a primeira linha disponível, pediu a localização durante o trajeto e deixou sobre a mesa um pacote de biscoitos.

— Não é para levar de presente.

— Eu sei.

— É para você comer.

Júlia guardou o pacote. Na porta, Cida a chamou.

— Pedir desculpas olhando para alguém não garante que a pessoa queira olhar de volta.

— Eu sei.

— Então vai.

A cidade das quatro e cinquenta tinha ruas molhadas pela limpeza das calçadas e pontos ocupados por trabalhadores. Júlia reconheceu sons que aprendera a separar na visita anterior: o primeiro ônibus freando, grades levantadas, caixas plásticas arrastadas na porta de um mercado. Não abriu o gravador.

A padaria ainda estava fechada quando chegou. Pela porta de vidro, viu Márcia organizando moedas no caixa. Paulo passava com uma assadeira. Levi apareceu ao fundo carregando um saco menor de farinha e parou ao vê-la.

Júlia permaneceu na calçada.

Foi Orlando quem abriu a porta.

— A menina do ônibus.

— Bom dia, seu Orlando.

Ele olhou a rua atrás dela.

— Sua mãe sabe?

— Sabe. Estou compartilhando a localização.

— Então entra. Ainda faltam oito minutos.

Júlia atravessou o salão. Levi deixou o saco junto ao depósito e limpou as mãos no avental.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim pedir desculpas pessoalmente. Se você não quiser ouvir, eu vou embora.

Márcia levou a caixa de moedas para o escritório. Paulo voltou ao forno. Orlando pegou um pano e começou a limpar uma mesa que já estava limpa.

— Agora? — perguntou Levi.

— Quando você puder. Eu espero do lado de fora.

Ele consultou o relógio. Faltavam seis minutos para abrir.

— Depois da primeira fornada.

Júlia sentou numa mesa próxima à porta. Não pediu café nem tirou o telefone da mochila. Às cinco, Orlando levantou a grade. Dois clientes entraram quase juntos. Levi pesou pães, conferiu uma encomenda e buscou troco. Júlia viu a manhã começar sem ocupar lugar nela.

Márcia deixou diante de Júlia uma xícara de café com leite.

— Foi o Orlando — explicou.

Do balcão, Orlando negou com a cabeça.

— Foi ela.

Júlia agradeceu aos dois.

A primeira fornada terminou às cinco e quarenta. Levi retirou o avental e indicou a escada do terraço. Júlia subiu atrás dele. As janelas dos prédios começavam a acender, o mesmo ritual mostrado no segundo passeio.

Levi ficou perto do parapeito.

— Eu li sua mensagem.

— Eu sei.

— Você veio repetir?

— Vim dizer sem usar a tela para sair quando ficasse difícil.

Ele esperou.

Júlia havia ensaiado frases durante o ônibus e abandonara todas antes de chegar.

— Eu ouvi você como sua amiga e depois usei o que ouvi como material. O acordo era claro. Eu sabia que precisava perguntar e evitei porque o trabalho funcionava melhor com a sua voz. Apagar foi obrigação. Entregar incompleto também não conserta o que eu fiz. Sinto muito.

Levi manteve os olhos nas janelas.

— Terminou?

— Terminei.

— Você quer que eu diga alguma coisa?

— Não precisa.

— Então por que veio?

— Porque eu queria assumir isso na sua frente. Você não precisa me responder nem voltar a falar comigo.

Levi esfregou farinha seca do punho.

— Na plataforma, eu não estava tentando dizer uma coisa boa.

— Eu sei.

— Eu estava tentando falar sem pensar no que alguém faria com aquilo. Aí você fez alguma coisa.

— Fiz.

— A professora disse que era a melhor parte?

Júlia respirou antes de responder.

— Disse que a voz organizava o trabalho.

— E você gostou disso.

— Gostei.

Levi baixou os olhos e raspou farinha seca do punho.

— Agora eu fico pensando no resto — disse Levi. — Na padaria, nos mapas, em tudo que contei. Não sei o que você está guardando para usar depois.

Júlia segurou a alça da mochila.

— Nada vai ser usado. Eu não vou pedir para você acreditar agora.

— Você ainda lembra do que eu falei?

— Lembro.

— Então não apagou tudo.

Júlia demorou um pouco.

— Não consigo apagar da memória.

— Eu sei. Não estou pedindo isso.

— A transcrição automática foi apagada junto com a sessão. Eu não escrevi em outro lugar. Não contei para a Natália, para minha mãe nem para ninguém. A Clarice ouviu os treze segundos e sabe apenas que era uma gravação sem autorização.

Levi apoiou as mãos no parapeito.

— Minha voz ficou na cabeça dela.

— Ficou.

— É essa parte que você não devolve.

— É.

Uma janela acendeu no prédio mais próximo. Depois outra, dois andares acima. Levi costumava contar aquele início de manhã. Naquele sábado, não contou.

— Certo.

— Tem mais alguma coisa que você quer que eu apague?

Levi pensou.

— Os áudios da padaria têm minha voz?

— Alguns. Você autorizou aquele envio para o passeio, e seu avô limitou os lugares.

— Eu sei. Quero que continue assim.

— Continua.

— E não usa no trabalho.

— Não uso.

— Nem se perguntar de novo.

— Nem assim.

Lá embaixo, Orlando chamou pelo nome do neto. Levi respondeu que já ia.

— Eu preciso trabalhar.

— Eu vou embora.

Desceram juntos. Júlia agradeceu o café, enviou uma mensagem a Cida e saiu pela porta que Orlando mantinha aberta. Não olhou para trás em busca de um gesto.

No ônibus, comeu os biscoitos. A cidade agora estava cheia. Sentou no corredor e deixou a janela para uma mulher que carregava uma bolsa de uniforme hospitalar.

Quando chegou ao apartamento, Cida já dormia. Júlia escreveu num bilhete apenas que havia voltado e o colocou sobre a mesa.

Passou o sábado terminando um trabalho de História e separando fotografias da última caixa. À tarde, Clarice enviou a nota final do ensaio de áudio. Júlia leu, arquivou o e-mail e não pediu nova avaliação. Em seguida, abriu a pasta de gravações para verificar as autorizações. Criou uma tabela simples com quatro colunas: arquivo, pessoas presentes, uso permitido e pedido de exclusão.

Os registros do ônibus tinham vozes ao fundo que nunca haviam sido autorizadas. Júlia marcou esses arquivos para corte ou descarte. Nos sons da padaria, identificou dois momentos em que Levi falava distante. A autorização daquela visita permitia o envio privado para ele, e Levi acabara de retirar qualquer uso escolar. Ela escreveu a restrição inteira, sem abreviar.

Depois fechou o computador e guardou a tabela na mesma pasta das autorizações.

Levi voltou ao balcão. Orlando esperou o último cliente sair antes de perguntar:

— Quer subir de novo?

— Não.

— Quer ir para casa?

— Também não.

O avô colocou uma bandeja de pães sobre a bancada.

— Então fica.

Levi embalou encomendas até as oito. Em três intervalos, abriu a conversa com Júlia e fechou sem escrever.

No fim do turno, Orlando entregou a ele um papel dobrado. Era a escala provisória para o mês seguinte, com o nome de uma auxiliar em três manhãs.

— A Márcia indicou — disse.

— Você contratou?

— Vou testar.

— Por causa da faculdade?

— Por causa da padaria. E talvez da faculdade.

Levi leu os horários. A entrevista de assistência cabia na terça-feira sem que ninguém trocasse o turno.

— Você devia ter me mostrado antes.

— Estou mostrando antes do mês começar.

— Quis dizer antes de decidir.

Orlando apoiou as mãos na bancada.

— Você quis decidir seus dias. Eu também preciso aprender a perguntar.

Levi guardou a escala na pasta. Pensou na forma torta pela qual as pessoas reconheciam um limite: às vezes tarde, às vezes pela metade, às vezes com uma folha de horários.

— Você falou com a Denise antes de colocar o nome dela aqui?

— Falei.

— E com a Márcia?

— Ela indicou.

— Paulo?

Orlando apontou uma anotação no rodapé. Paulo havia pedido para manter o turno atual por causa do filho.

— Eu não distribuí todo mundo sem avisar — disse o avô.

— Você já fez isso.

— Já. Esta é a versão corrigida.

Levi dobrou a folha.

— Você sabe por que a Júlia veio?

— Sei que não foi tomar café.

— Só isso?

— Só o que você me contou.

Levi não contara nada.

— Exatamente — disse Orlando.

O avô entregou a ele duas vias da escala. Uma ficaria no escritório, outra deveria ser mostrada a Denise antes do primeiro turno. Levi percebeu que Orlando também podia evitar perguntas por cuidado, curiosidade ou cansaço. Naquela manhã, preferiu aceitar o espaço.

Nos quatro dias seguintes, ele e Júlia não se falaram. Ela voltou ao ônibus habitual. Levi alternou entre a linha antiga e o trajeto mais longo, de acordo com as entregas. O pacto continuou suspenso.

Na terça-feira, Júlia viu Denise no ponto próximo à padaria. Reconheceu-a pelo avental dobrado dentro de uma bolsa transparente. Poderia perguntar por Levi, pela escala ou por Orlando. Apenas deu espaço para a mulher subir primeiro.

Na quarta, Levi entrou no ônibus habitual duas paradas depois de Júlia. Havia um lugar livre ao lado dela e outro no fundo. Escolheu o fundo. Júlia não mudou de banco. Durante o percurso, os dois viram o mesmo desvio causado por uma obra e consultaram o aplicativo em momentos diferentes.

Ao descer, Levi passou pelo assento de Júlia.

— O ponto da escola mudou uma quadra — disse.

— Eu vi no mapa.

Ele assentiu e saiu. Foram as únicas palavras entre a padaria e a captura de horários.

Na quarta-feira, Lucas o encontrou na sala de estudos e empurrou uma questão de Geografia pela mesa.

— Você marcou a alternativa errada — disse Levi.

— Marquei para chamar sua atenção.

— Você marcou porque errou.

— Também.

Estudaram até o prédio fechar. Na saída, Lucas perguntou se Levi já resolvera o que havia acontecido.

— Ela veio à padaria.

— E?

— Pediu desculpas.

— E?

— Você só tem essa pergunta?

Lucas ajeitou a mochila.

— Tenho outras. Só que não são da minha conta.

Levi contou que não retomara a amizade. Lucas não se surpreendeu.

— Você precisa decidir agora?

— Não.

— Então pronto.

— Não está pronto.

— Certo. Então não pronto.

Levi riu, apesar da tentativa de evitar.

Na quinta, o aplicativo de transporte avisou que uma linha circular teria alteração temporária no sábado. O trajeto passava por uma antiga estação meteorológica aberta à visitação uma vez por mês. Júlia mencionara o lugar quando pesquisavam espaços para o projeto. Dissera que nunca descobrira qual ônibus deixava perto.

Levi abriu a captura que preparara na sexta anterior. Estava desatualizada. Fez outra, recortou a tela e deixou apenas os horários de sábado. Não escreveu saudação ou explicação.

Enviou às sete e dezoito da noite.

Júlia estava lavando a louça quando o telefone vibrou. Secou as mãos e abriu a conversa. A imagem mostrava uma linha que ela não conhecia e um horário circulado: `15:10`.

Ficou alguns minutos sem responder. Uma pergunta longa poderia exigir de Levi uma definição que ele ainda não oferecera.

`Qual ponto?`

A resposta chegou depois de onze minutos.

`O da banca fechada.`

Júlia sabia onde era. Passara pelo local no passeio do bairro antigo.

`Eu chego às 15h.`

Levi visualizou. Não enviou o ônibus, o mapa ou qualquer frase sobre a padaria.

No sábado, Júlia chegou às duas e cinquenta e seis. Levi já estava junto à banca, segurando dois bilhetes de entrada para a estação meteorológica.

Entregou um a ela.

— A visita começa às quatro.

— Certo.

O ônibus das três e dez apareceu na curva.

Levi fez sinal. Júlia guardou o bilhete no bolso e entrou depois dele. Havia dois lugares vazios lado a lado. Levi escolheu o da janela.

Júlia sentou no corredor.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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