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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 12 · A existência de nós no outro

A cidade mudando de rota

12 de 14 ≈ 13 min de leitura

Nos primeiros quatro pontos, Júlia e Levi falaram apenas do ônibus.

A linha circular tinha bancos duros, janelas inteiras e um aviso eletrônico que repetia o mesmo destino em letras vermelhas. Levi acompanhava o trajeto pelo aplicativo. Júlia segurava o bilhete da estação meteorológica dentro do bolso.

— Você já foi? — perguntou.

— Não.

— Então quebra a regra.

— Qual?

— Mostrar uma coisa que o outro não encontraria sozinho.

— Eu encontrei o horário.

— Isso vale metade.

— Depois a gente calcula.

Não mencionavam uma regra do pacto desde a plataforma. Júlia percebeu e deixou a frase passar sem tentar dar importância a ela.

Desceram diante de um parque cercado por grades baixas. A estação ocupava uma casa branca com instrumentos distribuídos pelo gramado. Havia um pluviômetro, uma torre de vento e caixas de madeira montadas sobre pés estreitos. Um estudante recebeu o grupo e explicou que a visita duraria quarenta minutos.

Júlia levou a mão ao telefone e parou.

— Posso gravar os instrumentos? — perguntou a Levi.

Ele olhou o gramado.

— Minha voz, não.

— Sua voz fica fora.

— E a do guia?

— Pergunto para ele.

O estudante autorizou apenas os sons dos aparelhos e pediu que as explicações não fossem registradas. Júlia ativou o gravador perto da torre. O vento fazia pequenas conchas girarem ao redor de um eixo, produzindo um atrito regular.

Levi manteve distância durante a gravação. Quando Júlia terminou, ela mostrou o arquivo.

— Só o instrumento.

— Eu ouvi.

— Quer que eu apague?

— Não.

Ela guardou o telefone.

O grupo avançou até uma caixa meteorológica. Levi fez perguntas sobre a posição dos equipamentos e os intervalos de leitura. O guia contou que medições urbanas podiam variar por causa do asfalto, dos prédios e da sombra. Júlia pensou em registrar a explicação no caderno. Pediu uma caneta a Levi.

Ele entregou a da funerária. Falhou no título e funcionou no restante.

— Ela escolhe os momentos — disse Júlia.

— Tem carreira própria.

Sentaram no gramado depois da visita. As pessoas deixaram o parque aos poucos. Júlia abriu o caderno de mapas na página em branco seguinte. Levi acompanhou o movimento sem pedir o caderno.

— Eu não vou registrar o que você disser — falou ela.

— Tudo bem.

— E vou perguntar de novo toda vez. Uma autorização não vale para outro arquivo nem para outro uso. Se você mudar de ideia, eu apago.

Levi arrancou uma folha seca da barra da calça.

— Isso é uma regra?

— Pode ser.

— Para todo mundo?

— Para todo mundo.

— Devia ter sido desde o começo.

— Devia.

Júlia escreveu na margem: `Perguntar antes. Dizer para quê. Poder retirar.` Passou o caderno para Levi.

— Quer acrescentar?

Ele leu.

— Mostrar depois.

Ela completou a lista.

— Certo.

Levi devolveu o caderno. Júlia fechou a página com as quatro linhas da regra nova.

No caminho de volta, fizeram uma parada numa rua em obras. O aplicativo indicava um ponto que já não existia. Uma placa provisória mandava os passageiros seguir por duas quadras, outra apontava a direção contrária.

— Este é o seu lugar desconhecido? — perguntou Júlia.

— Agora é.

Levi consultou o mapa. Júlia perguntou a um vendedor de frutas, que indicou uma faixa amarela perto de uma farmácia.

— Vitória do método sem aplicativo — disse ela.

— Fonte não verificada.

— Fonte com bananas.

— Isso melhora um pouco.

Esperaram quinze minutos. A conversa avançou aos pedaços. Levi falou da auxiliar que começaria na padaria e da entrevista marcada no setor de assistência. Júlia contou que mantivera a versão incompleta do trabalho e recebera uma nota menor.

— Por que não refez? — perguntou ele.

— Porque eu estava tentando usar o vazio como outra ideia. Preferi encerrar.

— A Clarice mandou?

— Foi minha decisão.

Levi assentiu. Júlia não esperou elogio por uma consequência que pertencera a ela.

O ônibus chegou. Desta vez, sentaram em lados opostos do corredor e continuaram falando. Antes de descer, Levi enviou a Júlia o mapa da linha circular.

Não reagiu com o ônibus.

Na segunda-feira, Júlia recebeu um e-mail durante o intervalo. Leu o assunto três vezes antes de abrir: `Resultado do processo de ingresso`.

A vaga era para Produção Audiovisual em Juiz de Fora. Ela se inscrevera semanas antes, quase em segredo, e fizera a etapa remota na sala de informática da escola. O início das aulas seria no semestre seguinte. Havia prazo de oito dias para confirmar.

Júlia fechou o e-mail e foi ao banheiro. Trancou-se numa cabine, abriu de novo e leu cada linha. Não sentiu a certeza que imaginara. Sentiu as distâncias: cerca de duzentos e sessenta quilômetros, um quarto que ainda não existia, Natália em outra direção, Cida sozinha no apartamento recém-organizado.

Ligou para a mãe.

— Você está no hospital? — perguntou.

— Estou saindo. Aconteceu alguma coisa?

— Eu passei.

Cida ficou em silêncio por tempo suficiente para Júlia conferir se a ligação caíra.

— Em Juiz de Fora?

— É.

— Você vai?

— Tenho oito dias.

— Então você tem oito dias.

— Mãe.

— Eu estou feliz. Também estou calculando aluguel, ônibus e quantas panelas você consegue queimar numa semana.

Júlia sentou na tampa fechada do vaso.

— Eu ainda não confirmei.

— Vem para casa. A gente lê tudo.

Cida pediu que ela mandasse o e-mail e encerrou porque precisava registrar a saída do plantão. Júlia enviou a mensagem para Natália em seguida. A amiga respondeu com onze pontos de exclamação e uma pergunta sobre a distância entre as cidades.

Levi recebeu apenas uma captura do assunto.

`Passei. Ainda vou decidir.`

Ele estava na fila para a entrevista de assistência. Respondeu:

`Oito dias?`

`Como você sabe?`

`Está escrito pequeno na imagem.`

`Oito.`

`Parabéns primeiro. Mapas depois.`

Júlia leu a frase no corredor da escola. O alívio veio por ele não perguntar se ela iria, se sentiria falta ou o que aconteceria com a amizade.

Naquela tarde, Levi entregou a inscrição definitiva para a prova de acesso ao curso de Geografia. Selecionou a modalidade de assistência, anexou as declarações e recebeu um comprovante. Lucas esperou do lado de fora do laboratório.

— Agora existe? — perguntou.

Levi mostrou o protocolo.

— Agora existe.

— Vai contar para Orlando?

— Hoje.

Chegou à padaria perto das sete. A nova auxiliar, Denise, aprendia a fechar o caixa com Márcia. Orlando estava no escritório conferindo pedidos.

Levi colocou o comprovante sobre a mesa.

— Terminei a inscrição.

Orlando ajustou os óculos e leu o nome do curso.

— Geografia.

— Geografia.

— Você escolheu.

— Escolhi.

O avô verificou a data da prova.

— Domingo. Nesse dia você não trabalha.

— Eu não trabalho aos domingos à tarde.

— Nesse domingo, não trabalha de manhã também.

Levi puxou uma cadeira.

— Se eu passar, são quatro manhãs. Talvez cinco em alguns períodos.

— Eu vi na folha.

— A Denise está em teste.

— Todo mundo começa em teste.

— E se não funcionar?

— A gente procura outra pessoa.

Levi esperara resistência, cálculo ou uma pergunta sobre emprego. Orlando abriu a gaveta e retirou o lápis usado na primeira escala.

— Eu achei que você queria deixar isto — disse.

— Eu quero ficar menos dias.

— Para mim, no começo, dava no mesmo.

— Agora?

Orlando fez uma marca no calendário.

— Agora dá trabalho diferente.

Levi olhou o avô.

— Eu posso ajudar a organizar.

— Vai ajudar. Não vai organizar sozinho.

Orlando pediu o comprovante para tirar uma cópia e o devolveu dentro de um plástico. Depois chamou Denise para mostrar o fechamento dos pedidos. Levi guardou o documento e não pediu outra resposta naquela noite.

Na sexta-feira, ele voltou ao ônibus do horário habitual. Júlia já estava no banco da janela. Havia lugares livres, e Levi parou no corredor.

— Posso sentar?

— Pode.

Ela recolheu a mochila. Levi sentou.

Júlia contou que visitaria Juiz de Fora com Cida no sábado. Levi falou da inscrição e da conversa com Orlando. Nenhum dos dois tinha resultado final.

Quando o ônibus passou pelo aviso de desativação, faltavam duas semanas.

— Ainda temos sextas? — perguntou Júlia.

Levi abriu o caderno de mapas. A arquibancada continuava marcada como `adiado`.

— Temos duas.

— Quem escolhe?

— A última era minha.

— E a próxima?

— Sua.

Júlia pensou na arquibancada, onde já estivera sozinha.

— Quero escolher uma coisa que nenhum dos dois conhece.

— Isso quebra a regra antiga.

— A gente já mudou uma.

Levi passou a caneta para ela. Júlia escreveu o destino no alto da página e cobriu com a mão antes que ele pudesse ler.

— Precisa de autorização para ver? — perguntou.

— Só até sexta.

Ele fechou o caderno sem olhar.

No sábado, Júlia e Cida pegaram o ônibus das seis para Juiz de Fora. Cida levou uma pasta com documentos, duas garrafas de água e a planilha impressa. Júlia levou o telefone e deixou o gravador fechado.

Chegaram perto das nove. O campus estava mais vazio do que no dia da prova, com grupos pequenos entrando para atividades de fim de semana. Uma estudante do segundo período mostrou os laboratórios, a sala de edição e o armário de equipamentos. Júlia perguntou sobre empréstimos, trabalhos em grupo e horários noturnos. Cida perguntou sobre segurança, alimentação e atendimento de saúde.

— Sua mãe tem perguntas melhores — disse a estudante.

— Ela treinou no ônibus.

Cida marcou três respostas na planilha.

Visitaram dois quartos anunciados para aluguel. O primeiro ficava perto do curso e tinha uma janela voltada para a cozinha de outro prédio. O segundo era mais barato, distante vinte minutos de ônibus e perto de uma oficina. A proprietária explicou as contas, mostrou o ponto e entregou uma cópia do contrato para leitura.

Júlia sentou na cama estreita do segundo quarto. Havia marcas de fita na parede e um prego perto da janela.

— A luminária cabe ali — disse Cida.

— Você já está decorando.

— Estou verificando a instalação elétrica.

No corredor, Cida perguntou se Júlia conseguia imaginar uma manhã naquele lugar.

— Consigo.

— Isso é sim?

— É uma manhã.

Almoçaram perto da rodoviária. Cida refez os cálculos com o valor do quarto e a ajuda oferecida por Marcelo. Ainda faltaria controlar gastos e procurar uma bolsa depois da matrícula.

— Você quer que eu fique? — perguntou Júlia.

Cida largou a caneta.

— Quero que você more perto quando eu sentir saudade. Quero que estude o que escolheu. Essas duas vontades não cabem na mesma resposta.

— Se eu não for, não é necessariamente por você.

— Eu sei.

— E se eu for, também não é para fugir.

— Eu sei disso também.

Na volta, Cida dormiu durante metade do trajeto. Júlia acompanhou a estrada e anotou os nomes das cidades por onde passavam. Mandou a Levi apenas uma fotografia do bilhete de retorno.

`Ainda calculando.`

Ele respondeu quando ela já estava perto de Belo Horizonte:

`Orlando levou três horas para decidir sobre uma marca de farinha.`

`Isso é conselho?`

`É prazo de referência.`

Na quinta-feira, Júlia confirmou a vaga e o quarto perto da oficina. Leu os dois formulários com Cida, enviou os documentos e recebeu os protocolos. Depois ligou para Natália. A amiga comemorou, perguntou a data da mudança e abriu o calendário compartilhado.

Júlia contou a Levi no fim da tarde.

`Confirmei.`

Ele respondeu com a fotografia do mapa da linha entre Belo Horizonte e Juiz de Fora. O trajeto estava marcado em amarelo.

`Agora dá para procurar.`

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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