Universo da obra
Universo da obra
Na penúltima sexta-feira, Júlia levou Levi a um estacionamento de ônibus.
Não era uma garagem. O terreno ficava atrás de um centro comercial e recebia veículos entre turnos. Eles desceram numa avenida que nenhum dos dois conhecia, atravessaram uma passarela e encontraram quatro ônibus vazios alinhados sob árvores.
— Este é o destino? — perguntou Levi.
— A passarela.
Subiram de volta. Do ponto mais alto, viam três avenidas, um canal estreito e as linhas saindo em direções diferentes. Júlia descobrira o lugar ao comparar rotas para Juiz de Fora. Escolhera porque ali a cidade inteira trocava de ônibus sem chamar atenção.
— Você confirmou a vaga? — perguntou Levi.
— Confirmei ontem.
Ele encostou os braços no corrimão.
— Então você vai.
— Em janeiro.
— Falta quanto?
— Oitenta e nove dias.
— Você contou?
— Minha mãe fez uma planilha.
Cida organizara aluguel, documentos, móveis e visitas. Marcelo se oferecera para pagar parte das despesas e começara a enviar anúncios de apartamentos grandes demais. Natália pesquisara a distância entre as três cidades e criara um calendário de fins de semana possíveis.
— E você? — perguntou Júlia. — Está feliz?
— Estou. Também estou tentando imaginar onde cabe tudo.
— Foi o que minha mãe disse.
— Então é uma resposta adulta.
Júlia abriu o caderno. Marcou a passarela e escreveu o número de dias. Levi acrescentou setas para as quatro direções. Depois mostrou o comprovante da própria inscrição.
— A prova é daqui a três semanas.
— E a entrevista?
— Aprovaram o auxílio de inscrição. Transporte e alimentação só depois do resultado.
— Orlando?
— Está montando a escala de janeiro antes de saber se eu passo.
— Planilha?
— Lápis.
Ficaram até o estacionamento esvaziar. Júlia pediu autorização antes de gravar o ruído dos ônibus partindo. Levi disse que a voz dele deveria ficar fora e atravessou a passarela enquanto ela registrava. Quando retornou, conferiu o arquivo. Júlia mostrou a forma de onda e reproduziu os primeiros segundos.
— Você pode guardar — disse.
— Para uso pessoal.
— Para uso pessoal.
Na descida, combinaram a última sexta-feira. Levi escolheria. Fariam a linha inteira, do primeiro ponto ao terminal, na viagem das três e quarenta. Levariam os mapas e desceriam apenas no fim. Júlia poderia registrar o ônibus, desde que perguntasse a Gil e evitasse vozes de passageiros. Levi não queria aparecer.
— O que a gente faz no terminal? — perguntou Júlia.
— Decide quando chegar.
— Sem destino?
— Com destino. Sem programa.
Ela anotou o horário na capa interna do caderno.
Durante a semana, cartazes novos apareceram nos pontos. `ÚLTIMO DIA DE OPERAÇÃO: SEXTA-FEIRA.` A linha alternativa começou a circular vazia, meia hora atrás da antiga, para ensinar o percurso aos motoristas.
Gil disse que faria o turno da manhã no último dia. Outro motorista conduziria a viagem das três e quarenta. Júlia pediu autorização para gravar o som do veículo em sua última ida para a escola. Gil permitiu o motor e os avisos; a conversa dele ficaria fora.
Na quinta-feira, Levi enviou uma fotografia da capa do caderno ao lado de duas mexericas.
`Doação para a última viagem.`
Júlia respondeu com o pacote de biscoitos que Cida comprara para a ocasião.
`Limite de vinte reais preservado.`
Na manhã do último dia, Júlia saiu de casa dez minutos antes. Cida havia colocado o pacote de biscoitos junto à mochila e escrito `para os dois` numa etiqueta.
O ponto estava mais cheio. Passageiros fotografavam o cartaz, discutiam conexões e comparavam o tempo previsto da nova linha. Gil abriu as portas às seis e vinte e cinco.
— Última ida para a escola — disse a Júlia.
— O senhor está feliz?
— Pergunta depois que eu conhecer a escala nova.
Ela pediu autorização para gravar o motor e os avisos. Gil permitiu e repetiu que sua conversa ficaria fora. Júlia colocou o telefone perto da janela. Quando uma passageira começou a explicar a outra o novo itinerário, encerrou o arquivo.
No ponto de Levi, ninguém subiu. Júlia sabia que ele estava na padaria, terminando cedo para a viagem da tarde. Ainda assim, olhou o banco vazio.
Gil anunciou cada parada com mais cuidado. Algumas pessoas se despediram ao descer. Um senhor entregou ao motorista um pacote de balas; outra passageira reclamou que a linha substituta ficava longe de casa. Gil recebeu os dois gestos com a mesma atenção.
Na escola, Júlia salvou o arquivo como `ultima_manha_motor`. Registrou a autorização e cortou os segundos em que a conversa das passageiras começava. Não abriu o áudio durante a aula.
Na sexta, Levi chegou à padaria às quatro e meia. Orlando já estava no forno. Tinha passado parte da noite refazendo um pedido porque um fornecedor entregara farinha diferente. Denise chegaria às seis, e Márcia cobriria o balcão.
— Você dormiu? — perguntou Levi.
— O suficiente.
— Quanto?
— Não medi.
Orlando abriu o forno e recuou diante do calor. Levi notou a camisa molhada nas costas.
— Senta um pouco.
— Depois desta fornada.
— Eu termino.
— Você tem sua viagem.
— À tarde.
O avô não discutiu. Entregou a pá a Levi e foi conferir as notas no escritório. Às seis, Denise chegou. Orlando retornou ao balcão com uma lista de correções e passou quase uma hora explicando as quantidades.
Levi preparou água com açúcar e deixou perto do avô. Orlando bebeu metade sem comentar.
O movimento aumentou às sete. Uma escola havia encomendado pães e bolos para uma reunião. Paulo avisou que uma assadeira precisava ser refeita. Márcia telefonou para confirmar outro pedido. Orlando atravessava os setores tentando acompanhar tudo.
— Você devia ir para casa — disse Levi perto das nove.
— Eu vou depois do almoço.
— Vai agora. Eu fico.
— Você marcou de sair.
— Às três.
Orlando consultou o relógio, embora soubesse as horas.
— Depois do almoço.
Levi enviou a Júlia uma mensagem dizendo que talvez se atrasasse. Ela respondeu que a tolerância podia ser maior no último dia.
Às onze e dez, Orlando deixou cair o lápis. Abaixou para pegar e segurou a borda da mesa.
— Vô?
— Levantei rápido.
Ele estava sentado.
Levi se aproximou. Orlando tinha o rosto pálido e suava mais que antes. Tentou ficar em pé, perdeu o equilíbrio e voltou para a cadeira.
Márcia chamou o serviço de emergência. Paulo desligou o forno principal. Denise afastou os clientes do corredor e trouxe uma toalha molhada. Levi permaneceu agachado diante do avô, respondendo às perguntas da atendente.
Orlando não perdeu a consciência. Reclamou do alvoroço e pediu que alguém conferisse os bolos. Quando a equipe chegou, sua pressão estava baixa. Recomendaram avaliação na unidade de pronto atendimento.
— Eu consigo ir de carro — disse Orlando.
— Você vai com eles — respondeu Levi.
O avô não teve força para discutir.
Na ambulância, Levi lembrou da viagem às três e quarenta. Pegou o telefone e escreveu:
`Não vou conseguir. Orlando passou mal. Estamos indo para a UPA do bairro. Ele está acordado.`
Júlia estava saindo da escola quando recebeu. Guardou o pacote de biscoitos na mochila e procurou a rota até a unidade.
`Posso ir?`
Levi leu a pergunta na recepção. Orlando já passara pela triagem.
`Pode.`
Júlia avisou Cida, pegou dois ônibus e chegou pouco depois de uma. Encontrou Levi numa fileira de cadeiras de plástico, com o avental dobrado dentro de uma sacola. Ele segurava os documentos do avô e o telefone descarregado.
— Como ele está?
— Tomou soro. Fizeram exame de sangue e um eletrocardiograma. Ainda não falaram o resultado.
Júlia sentou ao lado dele.
— Você comeu?
— Não lembro.
Ela entregou os biscoitos destinados à viagem. Levi abriu o pacote e comeu dois.
— Sua mãe sabe que você está aqui?
— Sabe.
— A padaria?
— Márcia fechou mais cedo. Denise ficou para limpar. Paulo levou as encomendas da escola.
Levi falava em lista. Júlia ouviu até a lista acabar.
Ela retirou da mochila um carregador portátil. Levi conectou o telefone e encontrou oito mensagens: duas da tia, três de Márcia, uma de Lucas e duas de números de fornecedores.
— Você quer que eu responda alguém? — perguntou Júlia.
— O Lucas. Diz que meu avô está em observação e que eu falo depois.
Júlia escreveu diante dele e mostrou antes de enviar. Levi corrigiu `está melhor` para `está acordado`. Ela fez a alteração.
Cida ligou em seguida. Júlia saiu para atender e explicou o que sabiam.
— Quer que eu vá buscar você? — perguntou a mãe.
— Ainda não. A tia dele está vindo.
— Me avisa às quatro.
— Aviso.
Quando voltou à recepção, Levi havia guardado o telefone.
— Ela vai brigar por você ter vindo?
— Vai conferir o horário. É diferente.
— Orlando também chama isso de diferente.
Júlia sorriu e deixou o assunto terminar ali.
Às duas, uma enfermeira chamou Levi para conversar com o médico. Júlia ficou na cadeira. Não abriu o caderno, não consultou o gravador e não procurou o horário da linha.
Levi voltou vinte minutos depois.
— Os exames imediatos estão bons. Disseram que foi exaustão, desidratação e queda de pressão. Ele vai ficar em observação mais um pouco. Precisa fazer acompanhamento.
— Você quer avisar alguém?
— Minha tia já está vindo.
Ele sentou.
— Eu devia ter feito ele parar.
— Você tentou.
— Tentei até ele responder. Depois voltei a trabalhar.
Júlia não disse que Levi fizera tudo o que podia. Não sabia. Também não permitiu que a culpa ocupasse sozinha a espera.
— A escala precisa mudar antes de janeiro — falou.
— Precisa.
— E ele precisa aceitar.
— Precisa.
— Você não resolve isso hoje.
Levi dobrou o comprovante da triagem.
— Hoje era a última viagem.
O relógio acima da recepção marcava três e vinte e seis.
— Era — disse Júlia.
— Você ainda consegue pegar.
— Não quero.
— Foi o que a gente planejou.
— O plano era ir com você.
Levi olhou para a porta do corredor.
— Você não precisa ficar.
— Eu sei.
Às três e quarenta, o ônibus iniciou o percurso sem eles. Júlia soube pelo horário, não por uma imagem. Nenhum aviso apareceu no telefone. A recepção continuou chamando nomes, uma criança derrubou água perto do bebedouro e a televisão exibiu um programa sem som.
Às quatro, Júlia avisou Cida que ficaria até a alta ou a chegada da tia. Cida respondeu com o trajeto da linha alternativa e lembrou que o último ônibus seguro saía às sete e vinte. Júlia mostrou a mensagem a Levi.
— Sua mãe faz mapas melhores — disse ele.
— Planilhas melhores. Mapas ainda são seus.
Levi olhou para a sacola com o avental.
— O caderno ficou na padaria.
— A gente busca outro dia.
— A capa tem o horário.
— O horário continua lá.
Ele não respondeu. Na sacola, as duas mexericas amassadas encostavam no pacote aberto de biscoitos.
A tia de Levi chegou às quatro e dez. Abraçou o sobrinho, falou com a recepção e agradeceu a Júlia por estar ali. Orlando recebeu alta perto das seis, com orientações impressas e um pedido de consulta.
— Perderam o ônibus por minha causa — disse ao vê-los.
— A linha acabou por decisão da prefeitura — respondeu Levi.
— Estou falando da viagem.
— Eu sei.
Orlando olhou para Júlia.
— Você trouxe as mexericas?
Levi mostrou a sacola. As frutas estavam amassadas sob o avental.
— Ainda servem — disse Júlia.
Do lado de fora, a tia chamou um carro. Levi acompanharia o avô para casa. Júlia seguiria até o ponto da linha alternativa.
Antes de entrar no carro, Levi entregou a ela o caderno de mapas.
— Guarda hoje.
— Tem certeza?
— Tenho.
Júlia colocou o caderno na mochila. A capa ainda trazia o horário das três e quarenta.
O carro saiu. Ela atravessou a avenida e encontrou o ponto novo. O aviso da antiga linha estava riscado por uma faixa preta. Embaixo, alguém colara o itinerário substituto.
Júlia embarcou sem gravar.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.