Universo da obra
Universo da obra
Na terça-feira, Levi chegou ao ponto com dois minutos de antecedência e nenhuma palavra escrita na mão.
Conseguira a certidão na noite anterior. Orlando abrira a gaveta do quarto, retirara a pasta azul e entregara o documento sem perguntar para que servia. Levi esperou uma pergunta enquanto o avô conferia as contas da padaria, passou um pano sobre a mesa e separou os boletos vencidos. Quando entendeu que a conversa terminara, voltou para o quarto e concluiu a inscrição pelo celular. O comprovante estava dobrado dentro do caderno.
Ele ainda precisava contar sobre Geografia. Inscrever-se para a prova era uma tarefa objetiva; dizer o nome do curso exigia outra coragem. Deixou a mão limpa naquela manhã para não transformar Orlando em lembrete.
O ônibus apareceu no horário, conduzido por uma motorista que Levi conhecia apenas de vista. Gil fazia o turno mais tarde às terças. Levi passou o cartão e encontrou Júlia no banco da janela, fones nos ouvidos e celular apoiado sobre a mochila. Ela ergueu os olhos quando ele se aproximou. O assento ao lado estava livre.
— Posso?
Júlia tirou um dos fones.
— A janela continua sendo pública.
— Eu estava perguntando do banco.
— Também.
Levi sentou-se e colocou a sacola entre os pés. Levava quatro broas para a lanchonete, protegidas por duas camadas de papel. Júlia apontou para a embalagem.
— Hoje é o quê?
— Broa.
— Você faz entrega todo dia?
— Quase todo. A lanchonete fica no caminho.
— E nos dias em que não tem entrega?
— Eu carrego a sacola vazia para manter o personagem.
Júlia recolocou o fone, escondendo um sorriso. Levi abriu o caderno. Tentou reler uma questão de interpretação e percebeu que prestava atenção no som que escapava do fone dela. Era uma gravação de chuva, ainda que a manhã estivesse seca. Palhetas riscavam vidro, água batia numa superfície metálica e, perto do fim, ouvia-se o zíper de uma mochila.
Ele reconheceu o arquivo.
— Esse é de ontem?
Júlia pausou.
— É.
— Minha mochila participa?
— Durante menos de um segundo.
— Quero os créditos.
— Posso escrever “zíper não identificado”.
A motorista fez uma curva, e a sacola tombou contra o tornozelo de Levi. Ele a segurou antes que as broas fossem prensadas. Júlia guardou os fones.
— Você escuta tudo depois?
— Quase tudo. Apago bastante coisa.
— Como decide?
Ela levou alguns segundos para responder.
— Se tem um som que eu quero lembrar.
Levi pensou em perguntar qual som daquele minuto ela queria guardar. O ônibus começou a perder velocidade antes que ele escolhesse as palavras.
O motor mudou de tom. A vibração contínua falhou duas vezes, voltou mais fraca e desapareceu. A motorista conduziu o veículo para perto do meio-fio. Alguns passageiros ergueram a cabeça ao mesmo tempo. Uma senhora apertou o botão de parada por reflexo.
— Acabou o combustível? — perguntou alguém no fundo.
— Se tivesse acabado, eu fingia desmaio — respondeu a motorista.
Ela tentou ligar o motor. O painel emitiu uma sequência curta de sinais, seguida por um estalo. O ônibus permaneceu imóvel numa subida larga, entre um supermercado fechado e um prédio em construção. A motorista abriu a porta dianteira, pegou o rádio e pediu que todos esperassem.
Júlia olhou o horário no celular.
— Tenho prova na primeira aula.
— De quê?
— Física.
— Então a pane está tentando ajudar.
— Minha professora não reconhece intervenção mecânica como justificativa.
Levi consultou o mapa. Faltavam pouco mais de três quilômetros até a lanchonete e quase quatro até o curso. Caminhar seria mais rápido do que aguardar outro veículo, desde que encontrasse uma rota capaz de evitar a avenida inteira.
A motorista anunciou que o ônibus de apoio demoraria cerca de vinte e cinco minutos. Metade dos passageiros desceu. Outros permaneceram sentados, telefonando para chefes, escolas e parentes. Júlia guardou o celular na mochila e levantou.
— Você vai andando? — perguntou Levi.
— Vou tentar.
— Seu “tentar” inclui saber o caminho?
— Inclui um mapa.
— O meu também.
Saíram pela porta dianteira. Visto da calçada e inclinado pela subida, o ônibus ocupava boa parte da paisagem. A motorista abriu um compartimento na parte traseira e começou a examinar o motor ao lado de um passageiro que declarara entender de mecânica.
Júlia tirou o celular da mochila.
— Posso gravar?
Levi olhou ao redor.
— A calçada?
— O ônibus, as pessoas, o motor tentando ligar. Se alguém falar perto, eu corto depois.
— Minha voz também?
— Se você preferir.
Ele aproximou o rosto do telefone.
— Este veículo morreu às seis e quarenta e oito, deixando quatro broas sem destino.
Júlia interrompeu a gravação.
— Agora vou ter de cortar.
— Você perguntou.
— Eu não imaginei um obituário.
Ela reiniciou o áudio e caminhou alguns passos para longe. Levi esperou, observando-a apontar o microfone do celular para o ônibus, para os sinais do painel e para o compartimento aberto. Júlia registrava com seriedade, sem narrar. Quando terminou, conferiu o mapa.
— Tem uma rua paralela depois daquele prédio.
— Ela termina numa escadaria.
— O mapa não mostra escada.
— Eu já fiz entrega por aqui.
— Então você sabe um caminho melhor.
Levi sabia dois. Um era longo e acompanhava a avenida. O outro passava por uma rua residencial, descia uma escadaria e cortava uma pequena praça antes de retornar ao percurso. Apontou para a esquina.
— Por ali.
Júlia ajustou a mochila nos ombros.
— Se eu perder a prova, vou citar você na justificativa.
— Levi.
— O quê?
— Para citar direito. Levi Lima.
Ela assentiu.
— Júlia Ribeiro.
Começaram a caminhar.
A rua paralela subia primeiro. Júlia olhou para Levi depois de vinte metros.
— Você mencionou uma descida.
— Ela existe depois.
— Essa frase serve para qualquer subida.
Levi carregava a sacola numa mão e a mochila no ombro oposto. O papel das broas fazia ruído a cada passo. Passaram por casas estreitas, garagens transformadas em lojas e um salão de beleza que abria as portas. Uma mulher molhava plantas na calçada. Levi a cumprimentou; ela respondeu sem conhecê-lo.
— Você fala com todo mundo? — perguntou Júlia.
— Eu disse bom dia.
— Exatamente.
— Você não fala?
— Se a pessoa falar primeiro.
— Então duas pessoas como você podem morar no mesmo prédio durante vinte anos e nunca descobrir.
— Descobrir o quê?
— Qualquer coisa.
Júlia olhou para as fachadas. Levi percebeu que ela diminuía o passo sempre que uma grade se abria ou uma chave girava numa porta. Talvez estivesse ouvindo.
— Você está no terceiro ano? — perguntou.
— Estou.
— Achei que fosse mais velha.
— Por causa do uniforme?
— Por causa da cara de quem já está atrasada para uma reunião.
Júlia consultou o horário.
— Tenho dezessete.
— Eu fiz dezoito em março.
— E ainda estuda?
— Faço um preparatório. Terminei a escola no ano passado.
— Então está tentando faculdade.
Levi ajustou a sacola na mão.
— Estou tentando a prova primeiro.
— É uma sequência razoável.
— Lucas diz que eu transformo tudo em sequência para não chegar na parte difícil.
— Quem é Lucas?
— Um amigo do curso. Ele entrou na faculdade e continua fazendo algumas aulas.
— Para ajudar você?
— Essa é a versão dele. A minha inclui café gratuito e pão de queijo.
Júlia sorriu. Não perguntou qual curso Levi pretendia fazer. Ele percebeu e ficou agradecido, embora uma parte sua tivesse preparado a resposta incompleta.
— Há quanto tempo você grava? — perguntou.
— Desde o começo do ano. A professora passou um exercício de um minuto. Eu continuei.
— O que tinha no primeiro?
— Minha amiga mastigando gelo.
— Isso é cruel.
— Ela escolheu.
— Continuou sua amiga?
Júlia desviou de uma lixeira.
— Continua. Mora em outra cidade agora.
A resposta encerrou o assunto por alguns metros. Levi conhecia o tom. Lucas usava algo parecido ao falar dos colegas que tinham mudado de turno, curso ou estado: o presente do verbo vinha intacto, e o resto da frase carregava a distância.
Chegaram à escadaria. Eram mais de sessenta degraus divididos em três lances, com corrimão apenas no centro. Júlia parou no alto e olhou para o relógio.
— Você entrega broa por aqui?
— Uma vez. O cliente não pediu de novo.
— Por causa da escada?
— Por causa da broa.
Desceram. No segundo lance, Júlia pediu que Levi parasse. Ele esperou enquanto ela gravava o eco dos passos de duas crianças subindo com mochilas. Quando as crianças passaram, Júlia apontou o telefone para os próprios tênis e desceu cinco degraus.
— Faz diferente quando a pessoa está subindo — explicou.
— O cansaço muda o som?
— O peso muda.
Levi desceu ao lado dela, batendo o calcanhar de propósito.
— Assim?
— Assim parece alguém carregando uma geladeira.
Ele tentou outra vez.
— Agora uma cadeira?
— Um armário pequeno.
Foram testando móveis até o fim da escada. Júlia riu alto quando Levi imitou uma mesa de seis lugares. Uma senhora que subia pelo corrimão olhou para os dois com impaciência. Eles se afastaram para deixá-la passar.
Na praça, um homem montava uma banca de frutas. Havia três bancos de concreto, árvores baixas e um bebedouro sem torneira. Levi conferiu o horário.
— Daqui a gente separa. Sua escola fica descendo duas quadras e virando à direita.
— E você?
— Lanchonete, depois curso.
Júlia olhou para a sacola.
— As broas sobreviveram?
Levi abriu uma dobra do papel. Uma delas havia rachado na lateral.
— Uma baixa.
— Você falou que eram quatro sem destino. Agora só três?
— A quarta pode cumprir outro papel.
Ele retirou a broa rachada e estendeu a Júlia. Ela observou o alimento, depois o rosto dele.
— Isso é pagamento por me trazer pela escada?
— Indenização.
Júlia aceitou e partiu a broa ao meio.
— Então a indenização também é sua.
Levi pegou a metade menor. Comeram de pé junto a um banco, sem cerimônia. A broa estava morna no centro.
— É boa — disse Júlia.
— Meu avô faz a massa. Eu só quebro durante o transporte.
— Orlando?
Levi olhou para a própria mão limpa.
— Você leu.
— Estava escrito em letras grandes.
— É meu avô.
— E inscrição?
— Você leu tudo?
— O ônibus estava parado no trânsito.
Levi dobrou o papel em quatro. Ainda podia responder que era uma inscrição qualquer. Preferiu a parte mais simples.
— Uma prova.
— Para quê?
— Faculdade.
Júlia esperou. Quando percebeu que ele não acrescentaria o curso, limpou os dedos num guardanapo que Levi encontrou dentro da sacola.
— Eu também estou nessa fase.
— De esconder o nome do curso?
— De responder perguntas sobre o ano que vem.
Júlia olhou para a escola ao fim da rua. Uma estudante atravessava o portão correndo, enquanto uma funcionária segurava a grade aberta.
— Minha mãe pergunta qual cidade — disse. — Meu pai pergunta qual curso. A escola pergunta qual universidade. Se eu responder tudo, parece que assinei um contrato.
— E já sabe?
— Algumas partes.
— Pode responder só essas.
— Os adultos aceitam?
— Não testei.
O sinal de uma escola tocou ao longe. Júlia verificou o horário e arregalou os olhos.
— Minha prova.
— Duas quadras, direita, depois esquerda no muro azul.
Ela começou a correr, voltou dois passos e tirou o celular do bolso.
— Me dá seu número.
Levi não escondeu a surpresa.
— Para a justificativa?
— Para eu mandar a gravação do obituário. Vou cortar as pessoas e deixar sua voz.
Ele disse o número. Júlia digitou, fez uma chamada curta e guardou o aparelho.
— Meu nome é com acento — avisou.
— O meu não.
— Levi tem acento.
— Eu estava falando de Lima.
Júlia balançou a cabeça e correu em direção à escola.
Levi seguiu para a lanchonete com três broas e meia no estômago. Entregou o pacote, pediu desculpas pelo atraso e chegou ao curso durante a segunda questão da aula. Lucas afastou a cadeira para ele passar.
— Que aconteceu?
Levi abriu o caderno.
— O ônibus morreu.
— E você veio do velório a pé?
— Em parte.
O celular vibrou no bolso antes que Lucas perguntasse mais. Levi esperou o professor virar para o quadro e leu a mensagem.
`Júlia janela: vou editar depois da prova. a broa sobreviveu por menos tempo que o ônibus`
Ele abriu os contatos. O número dela fora salvo automaticamente como chamada recebida. Levi apagou os últimos dígitos que apareciam no nome e escreveu `Júlia Ribeiro`.
Pensou um pouco e acrescentou, entre parênteses, `janela`.
Na escola, Júlia chegou dezessete minutos atrasada. A professora permitiu que fizesse a prova no tempo restante, depois de ouvir metade da explicação sobre a pane. Júlia respondeu às questões depressa e errou uma conversão simples. Durante o intervalo, sentou-se no corredor, abriu o arquivo gravado e começou a retirar as vozes dos passageiros.
Natália enviou uma mensagem perguntando por que Júlia sumira durante a manhã. Júlia fotografou a metade restante da broa, guardada num pedaço de papel dentro da mochila.
`ônibus quebrou e fui andando`
`isso é comida de emergência?`
`indenização`
Natália respondeu com três pontos de interrogação. Júlia começou a explicar quem era Levi, parou na frase `um menino do ônibus` e apagou. Mandou apenas:
`história longa. depois conto`
Natália reagiu com uma lupa e enviou uma fotografia do caminho até a própria escola, numa cidade que Júlia ainda conhecia apenas pela tela. A imagem mostrava uma rua plana e um céu muito azul. Júlia salvou na pasta das mensagens e voltou ao arquivo da pane.
A fala de Levi aparecia perto do início, clara sobre o ruído do motor:
`Este veículo morreu às seis e quarenta e oito, deixando quatro broas sem destino.`
Júlia isolou o trecho e salvou uma cópia. Enviou para ele com o título `obituario_onibus_01`.
Antes de fechar o aplicativo, ouviu o restante. Havia o compartimento do motor, a motorista pedindo espaço e o primeiro passo dos dois na calçada. Levi dizia alguma coisa longe demais para ser entendida. Júlia cortou a voz e deixou apenas o som dos passos.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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