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A existência de nós no outro

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A existência de nós no outro

Capítulo 3 · A existência de nós no outro

A última linha

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Júlia recebeu a resposta de Levi durante a aula de História.

`o obituário ficou digno. gil vai querer uma cópia`

Em seguida, ele mandou uma fotografia. O arquivo de áudio aparecia aberto no celular dele, com a duração de oito segundos e o nome escrito sem acento. Júlia ampliou a imagem, confirmou o erro e respondeu:

`a palavra é obituário`

`a vítima não vai reclamar`

Ela guardou o telefone antes que a professora percebesse. Durante o restante da aula, a palavra vítima reapareceu três vezes na tela bloqueada porque Levi descobrira como reagir à mensagem com o mesmo emoji de ônibus. Júlia deixou o aparelho dentro da mochila e tentou copiar a matéria.

Quando o sinal tocou, havia uma mensagem nova.

`a motorista disse que amanhã o ônibus volta`

`você perguntou?`

`gil perguntou. a notícia corre nessa família`

Júlia leu a frase duas vezes. Quase perguntou que família era aquela. Entendeu que Levi falava dos motoristas, cobradores, passageiros frequentes e gente de ponto. No mês anterior, Júlia teria chamado tudo de transporte. Levi enxergava funções e nomes.

Ela salvou a conversa e seguiu para a aula seguinte.

Na quarta-feira, o ônibus da pane voltou com o mesmo ruído no motor e um papel branco preso atrás do banco da motorista. Júlia só conseguiu ler depois de passar o cartão:

`COMUNICADO AOS USUÁRIOS`

As letras seguintes estavam menores. Ela parou no corredor, obrigando um homem a desviar, e aproximou o rosto.

A linha seria desativada no fim do semestre. O serviço passaria por uma reorganização. Os passageiros deveriam consultar as alternativas indicadas num quadro com três trajetos, duas integrações e nomes de terminais que Júlia conhecia apenas de passagem.

— Moça, vai sentar? — perguntou alguém atrás dela.

Júlia pediu desculpa e caminhou para o fundo. Levi ocupava o banco da janela, segurando uma sacola pequena. Ao vê-la, retirou a mochila do assento.

— Você leu?

— Li.

Júlia sentou-se e apontou para o aviso.

— Quando colocaram aquilo?

— Hoje cedo. Orlando viu em outro carro.

— Ele pega essa linha?

— Quando vai ao centro.

— E o que ele vai fazer depois?

— Reclamar durante duas integrações.

Júlia abriu no celular a fotografia do comunicado. Tinha registrado o papel rapidamente antes de sentar. Ampliou o quadro das alternativas. Nenhuma servia para todo o percurso que fazia entre a casa nova e a escola.

— Vou precisar sair mais cedo.

— Quanto?

— Não sei. Uma dessas linhas vai até o terminal, depois eu pego outra. Talvez meia hora.

Levi inclinou-se para ver o quadro. Júlia virou o telefone até que os dois enxergassem.

— Essa segunda passa perto da sua escola — disse ele. — Você pode descer antes do terminal e andar.

— Quanto?

— Uns quinze minutos.

— Subindo?

— Belo Horizonte.

Júlia fechou a imagem.

— Isso não responde.

— Responde quase sempre.

Levi abriu o caderno no fim e mostrou o mapa desenhado no sábado. Júlia reconheceu a rua da padaria, o posto, o cruzamento da escola e um retângulo perto da linha do percurso.

— Isso é o ônibus?

— O banco.

— Você desenhou o banco?

— Faltou espaço para o veículo inteiro.

Ela pegou o caderno sem pedir e aproximou o mapa da janela. Levi havia traçado as curvas com caneta preta e marcado alguns pontos em azul: padaria, lanchonete, curso, escola. Havia pequenos desvios que a linha oficial não fazia.

— Você desenha todos os lugares?

— Quando preciso entender como eles se ligam.

— E entende?

— Depois de errar.

Júlia devolveu o caderno. O aviso atrás da motorista balançava a cada freada, preso por fita transparente nas quatro pontas.

— Quantas vezes você já fez esse trajeto? — perguntou ela.

Levi olhou pela janela.

— Desde o primeiro ano. Antes eu pegava mais tarde, por causa da escola. Agora venho nesse horário para a entrega e o curso.

— Todo dia?

— Quase.

Júlia calculou mentalmente três anos de manhãs, sem chegar a um número confiável. Ela mesma usava a linha havia trinta e oito dias. Ainda confundia duas ruas perto do centro e só sabia que seu ponto se aproximava quando via a fachada de uma loja de colchões.

— Você vai sentir falta?

Levi virou uma página do caderno.

— Vou sentir falta de não precisar pensar.

O ônibus avançou por uma curva. Júlia abriu o aplicativo de gravação, manteve o dedo sobre o botão e desistiu. Guardou o telefone.

— Eu também.

Levi olhou para ela.

— Você acabou de chegar.

— Exatamente. Eu tinha aprendido uma coisa.

A resposta saiu mais irritada do que pretendia. Júlia apoiou a mochila contra o vidro. Levi fechou o caderno.

— Você mudou de bairro?

— Mudei.

— Pensei que tivesse começado nessa escola agora.

— Estudo lá desde o primeiro ano. Minha mãe e eu mudamos depois que meus pais se separaram. Resolvi terminar com a mesma turma.

Levi assentiu. Não perguntou onde o pai morava, quem decidira a mudança ou se Júlia ainda tinha amigos na escola. Ela percebeu a ausência das perguntas e relaxou os ombros.

— Foi por isso que começou a gravar a casa nova? — ele perguntou.

Júlia virou o rosto.

— Como sabe da pasta?

— Você falou ontem.

— Eu falei do exercício.

— E de sons da casa.

Júlia tentou lembrar a conversa na escadaria. Talvez tivesse mencionado. A memória de Levi guardava detalhes que ela própria tratava como partes descartáveis.

— Tenho uma pasta — admitiu. — Queria aprender o lugar.

— Funcionou?

— Sei quando o elevador vai parar no meu andar.

— Bom começo.

Chegaram ao ponto da escola. Júlia levantou-se, ainda olhando para o aviso.

— Essa linha termina em que dia?

— Última sexta do semestre.

Ela fez a conta.

— Onze semanas.

— Dez e meia.

Júlia segurou a barra de apoio quando o ônibus freou.

— Você contou?

— Orlando contou.

A porta abriu. Júlia desceu e ficou na calçada até o ônibus sair. O papel branco desapareceu atrás do vidro.

Na escola, a professora Clarice apresentou a etapa seguinte do projeto de áudio. Cada aluno deveria produzir três minutos sobre um lugar em transformação. Podia ser uma obra, uma casa, um comércio, uma praça, um trajeto. A turma reclamou do prazo. Júlia anotou as instruções e desenhou um retângulo no canto da folha.

Durante o intervalo, enviou uma mensagem para Levi.

`minha professora quer um áudio sobre lugar em transformação`

Ele respondeu quase imediatamente.

`você vai entrevistar o motor?`

`ele já deu tudo que tinha`

`gil vai ficar ofendido`

Júlia fotografou o desenho do retângulo.

`pensei na linha`

A resposta demorou sete minutos.

`ela tem onze semanas`

`dez e meia, segundo fontes`

Levi reagiu com o ônibus outra vez.

Quando Júlia chegou em casa, Cida dormia no sofá com a televisão ligada e um cobertor apenas sobre as pernas. O apartamento estava quente. Júlia desligou a televisão, fechou a cortina e foi para a cozinha. Sobre a mesa havia um bilhete da mãe: `ver arroz / pagar internet / Marcelo ligou`.

Ela colocou a mochila no chão e abriu no celular o quadro das linhas alternativas. Tentou montar o percurso até a escola. Uma opção exigia sair de casa às cinco e quarenta. Outra chegava perto das sete, desde que a integração não atrasasse. A terceira deixava Júlia a vinte minutos do portão.

Cida apareceu no corredor quando ela desenhava setas num papel.

— Você já chegou?

— Faz dez minutos.

— Eu estava descansando os olhos.

— Você estava roncando.

A mãe puxou uma cadeira e leu o comunicado.

— Podiam esperar você terminar o ano.

— Eu aviso à prefeitura.

— Tem ônibus para a escola nova do bairro.

Júlia levantou os olhos.

— Faltam poucos meses.

— Eu sei. Só estou olhando as opções.

Cida pegou a caneta e circulou o trajeto com menos integrações. Depois escreveu o horário provável de saída.

— Cinco e cinquenta — disse.

— Eu durmo no ponto.

— Leva uma caixa do quarto para sentar.

Júlia empurrou o papel para longe. Cida apoiou o queixo na mão e examinou o mapa.

— Quem explicou essa parte de descer antes do terminal?

— Um menino que pega a mesma linha. Ele desenha mapas.

— Colega da escola?

— Do ônibus.

Cida assentiu, aceitando a categoria sem pedir outra.

— Pergunta para ele se essa caminhada é segura cedo.

— Posso olhar.

— Pergunta também.

Júlia anotou a questão no canto do papel. O bilhete com o nome de Marcelo continuava junto ao açucareiro.

— Meu pai quer o quê?

— Confirmar domingo. Disse que pode cozinhar.

— Isso é ameaça?

Cida riu e se levantou para verificar o arroz. Júlia respondeu ao pai com um `posso ir` e silenciou o telefone. Em seguida, fotografou o mapa desenhado com a mãe e enviou para Levi.

`essa caminhada é segura cedo? pergunta da minha mãe`

Ele respondeu com uma correção na rota e o nome de uma rua mais movimentada.

`essa é melhor antes das seis. tem uma padaria aberta`

Júlia mostrou a resposta a Cida. A mãe leu, devolveu o celular e começou a separar feijão.

— O menino dos mapas parece útil.

— Isso foi um elogio?

— Foi uma constatação.

Júlia guardou o aparelho. Gostou de ouvir Levi existir naquela cozinha apenas como alguém capaz de indicar uma rua.

***

Na padaria, Orlando guardara um comunicado igual ao do ônibus sob o vidro do balcão. Algumas palavras estavam circuladas de caneta vermelha. Levi chegou depois do curso e encontrou o avô mostrando o papel a uma cliente.

— Olha aqui. Querem que eu vá até o terminal para voltar duas ruas.

A cliente ajustou a bolsa no ombro.

— Você pode pegar a outra na avenida.

— E subir da avenida até aqui com sacola?

— Subir faz bem para a saúde.

— Então leva o pão de graça e volta para pagar a pé.

A mulher riu, pegou a compra e prometeu assinar qualquer abaixo-assinado que Orlando preparasse. Quando saiu, o avô dobrou o comunicado e guardou sob o balcão.

— Fez a inscrição?

Levi parou.

— Fiz.

— Usou a certidão?

— Usei.

— Então põe de volta na pasta.

Orlando limpou a bancada com um pano úmido. Levi esperou outra pergunta. O avô apontou para uma bandeja de sonhos que precisava ir à vitrine.

— A prova é no fim do ano — disse Levi.

— Eu sei.

— Como?

— Você deixou o site aberto no computador.

Levi pegou a bandeja.

— Podia ter falado.

— Você também.

Orlando abriu a vitrine para ele colocar os doces. Tinha setenta anos, mãos largas e uma pequena queimadura recente perto do pulso. Trabalhava desde as quatro e, às duas da tarde, ainda usava o avental amarrado na cintura.

— Qual curso? — perguntou.

Levi alinhou os sonhos.

— Geografia.

O avô fechou a vitrine. A expressão não mudou depressa o suficiente para esconder a surpresa.

— Para ser professor?

— Talvez. Tem outras áreas.

— Onde?

— Na universidade.

— Eu perguntei onde fica.

Levi disse o nome do campus. Orlando calculou o trajeto em silêncio, movendo os lábios.

— Duas conduções.

— Com a linha nova, talvez três.

— De manhã?

— Ainda não sei.

O avô dobrou o pano e o pendurou junto à pia.

— Quando souber, a gente vê.

Levi esperara resistência, uma lista de turnos ou a pergunta sobre quem abriria a padaria. Recebeu uma frase incompleta. Sentiu alívio e desconfiança ao mesmo tempo.

— A gente vê o quê?

— Os horários.

Orlando foi para os fundos antes que Levi pedisse uma resposta maior. A conversa acabara com a mesma rapidez da entrega da certidão.

Naquela noite, Júlia enviou o áudio da pane já editado. Havia retirado as falas dos passageiros e mantido a voz de Levi porque ele permitira. O arquivo tinha quarenta e dois segundos: motor falhando, sinais do painel, o obituário das broas, a tampa traseira abrindo e dois pares de passos saindo do veículo.

`ficou bom`, ele escreveu.

`ainda não é o trabalho`

`o que falta?`

Júlia digitou três respostas, apagou todas e enviou:

`conhecer a linha`

Levi abriu o mapa do sábado. Tinha desenhado o percurso habitual, também guardava na memória lugares que via sem visitar: uma quadra cercada por tela, uma loja com vestidos de festa, um terreno onde montavam brinquedos aos domingos, uma rua com árvores que floresciam antes das outras. Escreveu:

`você nunca desceu fora do seu ponto?`

`só na pane`

`isso é pouco para um documentário`

`é um áudio`

`continua pouco`

Júlia demorou.

`a gente podia descer em algum lugar antes de acabar`

Levi leu a mensagem enquanto Orlando assistia ao noticiário na sala. A frase podia significar uma tarde, um ponto, uma gravação. Ele pensou nas dez semanas e meia, depois respondeu:

`uma vez por semana`

`você está transformando em regra`

`sem regra a gente adia`

`toda sexta?`

`cada um escolhe uma`

Júlia digitou por quase um minuto.

`um ponto que o outro não conhece`

`e tem que mostrar alguma coisa`

`isso não estava na sua regra`

`está agora`

Levi sorriu para a tela.

`quem escolhe primeiro?`

`eu tive a ideia`

`eu criei a regra`

`eu tenho um trabalho`

`argumento baixo`

`funcionou?`

Levi enviou o emoji do ônibus.

Na quinta-feira, sentaram no mesmo banco e passaram parte do trajeto discutindo os detalhes. Não valiam lugares onde um deles tivesse obrigação, como escola, curso ou entrega. O ponto precisava ficar no percurso da linha. Cada escolha deveria incluir alguma coisa que o outro não encontraria sozinho. Gastos tinham limite de vinte reais, regra de Júlia. Atrasos superiores a quinze minutos cancelavam a sexta, regra de Levi, que começava a trabalhar antes do amanhecer e desconfiava de horários otimistas.

— E se chover? — perguntou Júlia.

— Chove.

— Essa é sua solução?

— É uma condição da cidade.

— Você pode usar guarda-chuva.

— Posso.

— Tem?

Levi olhou para a janela.

— Próxima regra.

Júlia abriu uma nota no celular e escreveu `SEXTA 1: JÚLIA`. Abaixo, colocou o horário e o número do ponto.

— Amanhã, depois da aula.

— Eu venho do curso.

— Quinze e quarenta.

— Quinze e quarenta.

Júlia guardou o telefone.

— E se o lugar for ruim?

— Você escolhe outro na semana seguinte.

— Você não sabe aonde vamos.

— Esse é o trabalho.

Quando Júlia desceu, Levi pegou o caderno e abriu o mapa. Marcou o ponto escolhido por ela com um círculo. Ao lado, escreveu apenas a data e a letra J.

O aviso da desativação continuava preso atrás da motorista. Uma das pontas da fita se soltara, e o papel levantava sempre que a porta abria.

A existência de nós no outro

Sinopse

Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.

Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.

Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.

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