Universo da obra
Universo da obra
A chuva começou quinze minutos antes do fim da aula e apagou o plano de Júlia em menos de três.
Ela pretendia levar Levi a uma arquibancada aberta atrás de um centro esportivo, lugar de onde se ouviam ao mesmo tempo uma quadra, uma oficina e os ônibus da avenida. Quando chegou ao portão da escola, a calçada já estava coberta por água. O céu escurecera, e o vento empurrava a chuva para dentro da marquise.
Levi enviou uma fotografia do ponto onde esperava. A água alcançava a borda do meio-fio.
`regra da chuva?`
Júlia abriu a nota do pacto. Eles haviam registrado limite de gastos, tolerância, alternância e direito de recusar gravação. A chuva aparecia apenas numa conversa e continuava sem solução.
`guarda-chuva`
`o meu virou duas peças`
Ele enviou outra fotografia. A cobertura preta estava separada da haste.
`isso exige talento`
`o vento colaborou`
Júlia telefonou. Levi atendeu no segundo toque.
— Onde você está exatamente?
— No ponto depois do supermercado.
— Não pega o ônibus. Estou a duas paradas.
— A arquibancada tem cobertura?
— Não.
— Então a regra morreu.
— A regra pode mudar de endereço.
Júlia abriu no mapa a localização do apartamento. Ficava a menos de dez minutos de ônibus do ponto de Levi. Cida trabalharia até a noite e já sabia do passeio.
— Minha casa é perto.
Houve uma pausa curta.
— Sua mãe sabe?
— Vou avisar.
— E a coisa que eu não encontraria sozinho?
Júlia pensou nas caixas do corredor, no quarto pela metade e na estante desmontada atrás da porta.
— Tem várias.
Mandou mensagem para Cida antes de desligar. A resposta chegou acompanhada de três condições: porta destrancada pelo interfone, localização compartilhada e nada de usar o fogão se a chama continuasse falhando.
`ela acha que temos doze anos`, Júlia escreveu para Levi.
`orlando pediu foto do prédio`
`então temos doze`
Encontraram-se dentro do ônibus. Levi trazia o guarda-chuva quebrado preso por um elástico e a barra da calça molhada até o joelho. Júlia dividiu o banco da janela e estendeu um pacote de lenços.
— Isso não seca roupa.
— É o que tenho.
— Seu planejamento perdeu qualidade.
— Minha escolha original tinha arquibancada.
O ônibus percorreu as duas paradas em velocidade baixa. Na descida, Júlia abriu o guarda-chuva intacto. A cobertura servia bem para uma pessoa e mal para duas. Caminharam próximos durante o primeiro quarteirão, desviando das poças em ritmos diferentes. Depois Levi pegou o guarda-chuva e o ergueu acima dos dois.
— Você está inclinando para o seu lado — disse Júlia.
— Minha roupa já perdeu.
— Então inclina para mim.
— Isso é uma exploração da derrota.
Chegaram ao prédio com um ombro molhado cada um. Júlia abriu pelo interfone, registrou a entrada na conversa com Cida e conduziu Levi até o elevador.
— Ele faz um ruído antes do sexto andar — avisou.
— Está no seu arquivo?
— Em três versões.
O elevador começou a subir. Entre o quinto e o sexto andar, produziu um rangido longo.
— Parece grave — disse Levi.
— O técnico veio na semana passada.
— E deixou?
— Disse que é da porta.
— Agora me sinto seguro.
No apartamento, Júlia acendeu a luz do corredor. Levi ficou junto à entrada, segurando o guarda-chuva fechado sobre o capacho. As caixas ocupavam a parede, a mesa da sala e parte do caminho até a cozinha.
— Você não exagerou.
— Sobre o quê?
— A mudança.
Júlia pegou uma toalha no banheiro e entregou a ele.
— Minha mãe já abriu as coisas dela.
— E essas?
— Minhas. Algumas.
Levi secou o cabelo e deixou a toalha nos ombros.
— Qual é a regra?
— De quê?
— Posso perguntar o que tem dentro?
— Pode.
— Posso abrir?
— Não.
— Ótimo.
Júlia estranhou a facilidade com que ele aceitou. Na semana anterior, Marcelo visitara o apartamento para instalar uma cortina e abrira duas caixas procurando uma furadeira. Cida discutiu com ele na cozinha. Júlia fechou tudo de novo depois que o pai foi embora.
— Tem uma estante — disse ela. — Ainda desmontada.
— Isso estava no passeio?
— Agora está.
A estante era pequena, com quatro prateleiras e laterais brancas. Cida comprara usada de uma colega do hospital. As peças permaneciam encostadas atrás da porta do quarto de Júlia, junto de um saco com parafusos e um manual dobrado.
Levi examinou as tábuas.
— Tem chave?
— De fenda?
— Allen.
— Tenho uma caixa de ferramentas.
Júlia buscou na cozinha. Voltou com um estojo contendo martelo, fita isolante, duas chaves de fenda, alicate e uma coleção de parafusos sem origem.
— Isso é uma caixa de emergências — disse Levi.
— Ferramentas servem para emergência.
— E para montar estante.
Ele abriu o saco de peças e encontrou uma chave pequena presa ao manual.
— O fabricante acredita em você — disse Júlia.
— O fabricante acredita em quem não perdeu o saco.
Espalharam as tábuas no chão da sala. Júlia leu o manual; Levi separou os parafusos por tamanho. Na primeira tentativa, montaram uma lateral ao contrário. Na segunda, esqueceram a prateleira fixa que sustentava o centro. Precisaram desmontar metade.
— Você disse que sabia — reclamou Júlia.
— Eu perguntei se tinha chave.
— Isso transmite confiança.
— Problema de interpretação.
A chuva batia na janela e escondia o ruído da rua. Júlia colocou o celular sobre a mesa para gravar a montagem. Depois de vinte minutos, Levi perguntou se a voz dele estava incluída.
— Está.
— Arquivo privado?
— Privado.
— Então registra que a lateral B foi invertida pela responsável pelo manual.
Júlia aproximou-se do telefone.
— A responsável pelo manual agiu sob orientação técnica fraudulenta.
Continuaram trabalhando.
Quando a estante ficou em pé, balançava para a esquerda. Levi ajustou os pés, apertou dois parafusos e empurrou de leve.
— Agora.
Júlia testou. A estrutura permaneceu firme.
— Falta colocar alguma coisa.
— A parte das caixas é sua.
Ela foi ao quarto e trouxe a caixa marcada LIVROS. Sentou-se no chão diante dela. Levi ocupou a outra ponta da sala e mexeu no guarda-chuva quebrado, dando a Júlia espaço para abrir.
Dentro havia romances escolares, apostilas, dois dicionários, revistas antigas e cadernos de anos anteriores. Júlia retirou os livros um por um. O fundo da caixa guardava um porta-retrato embrulhado numa camiseta. A fotografia mostrava Júlia e Natália numa cabine automática, quatro imagens verticais: sérias, rindo, olhando para fora e espremidas no último quadro.
Levi percebeu quando ela ficou parada.
— É a Nati?
— É.
Júlia colocou o porta-retrato na segunda prateleira. Os livros ocuparam a primeira e a terceira. Na última, deixou o apontador de peixe.
— Isso conta como utilidade — disse Levi.
— Está ocupando espaço.
— Função decorativa.
O celular de Júlia vibrou sobre a mesa. Natália fazia uma chamada de vídeo.
Júlia atendeu.
— Finalmente.
O rosto da amiga apareceu sob uma luz roxa, com o cabelo preso e uma parede coberta por fotografias atrás.
— Eu estava na aula quando você mandou o caderno — disse Natália. — Você achou a lista.
— Estava numa caixa.
— Você ainda não abriu?
— Abri essa semana.
Natália aproximou o telefone do rosto.
— Tem alguém aí?
Levi levantou a mão do outro lado da sala.
Júlia apontou a câmera.
— Esse é o Levi. Meu amigo do ônibus.
As palavras saíram sem preparação. Levi parou de mexer no guarda-chuva. Natália abriu um sorriso.
— A pessoa das cores.
— Fui absolvido? — perguntou ele.
— Escolheu bem. Minha mãe odiou.
— Então cumpriu duas funções.
Júlia virou o telefone para si.
— A gente montou uma estante.
— Você?
— Nós.
— Filmou?
— Gravei o som.
Natália pediu para ver o apartamento. Júlia mostrou a sala, as caixas, a estante e a chuva na janela. A amiga contou que também demorara dois meses para pendurar fotografias no quarto novo. Mostrou a parede atrás da cama. Havia imagens de Júlia entre colegas que ela nunca conhecera.
— Você está indo à festa amanhã? — perguntou Júlia.
— Vou. Quer escolher o brinco?
— Manda foto.
— O especialista está aí.
Levi recusou a promoção.
— Meu contrato cobre apenas esmaltes.
Natália riu. Antes de desligar, pediu que Júlia marcasse uma chamada no domingo.
— Sem sumir.
— Você também some.
— Então as duas aparecem.
Júlia concordou. A tela apagou.
Levi voltou a ajustar a haste do guarda-chuva.
— Amigo do ônibus?
Júlia guardou o telefone no bolso.
— Era mais rápido.
— Está correto.
— Se quiser, posso trocar por pessoa que entende de cores.
— Muito longo.
O apartamento ficou silencioso depois da chamada. A chuva diminuíra. Júlia olhou para a estante, agora ocupada, e para as caixas ainda fechadas.
— Meus amigos da escola nunca vieram aqui — disse.
— Faz pouco tempo que você mudou.
— Eles moram perto da escola. É longe.
— Você continua vendo todo mundo.
— Vejo na aula.
Levi encaixou a haste do guarda-chuva e abriu a cobertura dentro da sala. Uma das varetas se soltou outra vez.
— Isso não significa a mesma coisa — disse.
Júlia sentou-se no chão, apoiada na estante.
— E seus amigos?
— Lucas você já sabe. Tinha mais gente.
— Tinha?
— A gente se falava todo dia na escola. Depois continuou por mensagem durante uns meses. Agora o grupo serve para aniversário e vaga de emprego.
— Brigaram?
— Ninguém teve energia.
Levi fechou o guarda-chuva.
— Um começou faculdade de manhã. Outro trabalha à noite. Teve gente que mudou. A conversa foi ficando com intervalos maiores.
No último dia de aula, os seis haviam ocupado uma mesa na lanchonete perto da escola e prometido voltar toda quinta-feira. Levi contou que o primeiro encontro reuniu cinco, o segundo apenas três. No terceiro, Lucas chegou atrasado e encontrou Levi sozinho com duas porções de batata. Comeram as duas e encerraram o acordo sem anunciar.
— Eu ainda passava na lanchonete nas quintas — disse Levi. — Nas primeiras semanas.
— Esperando alguém?
— Dizendo que gostava da batata.
— Era boa?
— Não tanto.
Júlia puxou os joelhos para perto do corpo.
— Quando a Nati mudou, a gente combinou de assistir à mesma série e comentar. Ela viu quatro episódios numa noite. Eu fiquei com raiva porque perdi a ordem.
— Vocês pararam?
— A série. A amizade continuou em outras coisas.
— Esmalte.
— Fotos de tênis, comida, gente estranha no ônibus. Tem dia em que a conversa é só isso.
— Parece bom.
— É. Só demora para contar as coisas grandes.
Levi colocou o guarda-chuva no chão.
— Talvez as pequenas mantenham o caminho aberto.
Júlia olhou para ele.
— Isso foi quase uma frase da minha professora.
— Retiro.
— Tarde demais.
Ela pegou o celular e abriu a conversa com Natália. Havia fotografias de pratos, nuvens, roupas em provadores e páginas de caderno. No meio, encontrou a imagem do caminho plano para a escola, enviada no dia da pane.
— Eu sei chegar a vários lugares de lá sem ter ido — disse.
— Então ela já começou um mapa.
Júlia ampliou a fotografia. Ao fundo, quase escondida por uma árvore, havia a placa de uma rua. Anotou o nome no caderno pequeno.
— Sente falta?
— Sinto de coisas específicas. Jogar conversa fora no ponto, dividir trabalho, saber o que aconteceu sem precisar perguntar desde o começo.
Júlia passou o dedo pela borda de uma prateleira.
— Com a Nati, às vezes eu acho que preciso fazer um resumo antes de contar.
— E faz?
— A gente manda foto. Ajuda.
— Ela parece gostar de você.
— Eu gosto dela.
— Então vocês descobrem outro jeito.
Júlia olhou para o porta-retrato e passou o polegar pela borda da moldura.
— Espero que sim — disse.
A fome apareceu quando já passava das seis. Júlia foi à cozinha e abriu a geladeira. Havia ovos, queijo, tomates, uma panela de arroz e meio pacote de macarrão.
— Você cozinha? — perguntou.
— Trabalho numa padaria.
— Isso não responde.
— Consigo fazer omelete.
— Eu também.
Os dois descobriram que sabiam partes diferentes. Levi cortava tomate depressa e exagerava no queijo. Júlia sabia acender a boca defeituosa do fogão com um acendedor longo. A primeira omelete grudou na frigideira. A segunda se partiu quando tentaram virar. Comeram ambas com arroz requentado, sentados à mesa ainda cercada por caixas.
— Nota? — perguntou Levi.
— Para a minha sexta?
— Passagem cancelada, estante torta, omelete destruída.
— A estante está reta.
— Depois de intervenção externa.
— Você é a intervenção externa.
Levi pensou.
— Nove.
— De quanto?
— Ainda não definimos.
Cida chegou às sete e vinte. Encontrou os dois lavando a louça, a estante montada e três caixas abertas. Parou na entrada da sala.
— Vocês fizeram tudo isso?
— A chuva — respondeu Júlia.
Cida examinou a estante.
— Está firme?
Levi empurrou de leve.
— Agora está.
— Então pode voltar quando chover.
Júlia olhou para a mãe. Cida largou o casaco sobre uma cadeira, examinou as caixas abertas e encontrou a frigideira no escorredor.
— Vocês comeram?
— Omelete — respondeu Levi.
— Duas tentativas — acrescentou Júlia.
Cida abriu a geladeira e viu o prato coberto com a porção que deixaram para ela.
— Isso tem formato de quê?
— A primeira tentativa.
— Está comestível?
Levi olhou para Júlia.
— A pesquisa não registrou vítimas.
Cida colocou o prato no micro-ondas.
— Quando Júlia tinha dez anos, tentou montar uma mesa de cabeceira sozinha. Usou cola nos parafusos.
— Mãe.
— A mesa durou.
— Ficou encostada na parede.
— Estratégia estrutural.
Levi tentou esconder o riso. Cida apoiou-se no balcão enquanto o prato aquecia.
— Obrigada pela estante.
— Ela leu o manual — disse Levi.
— Ele ignorou metade — disse Júlia.
— Então foi trabalho em equipe.
O micro-ondas apitou. Cida pegou o prato e caminhou para o quarto, retirando o elástico do cabelo.
— Pode voltar quando chover — repetiu.
Levi pegou a mochila, o guarda-chuva quebrado e a toalha seca. Júlia o acompanhou até o elevador.
— A regra mudou de endereço — disse ele.
— Funcionou.
— Você ainda me deve a arquibancada.
— Fica para outra semana.
O elevador chegou com o rangido habitual. Levi entrou.
— Manda o som da estante caindo.
— Ela não caiu.
— Então grava se acontecer.
A porta fechou.
Júlia voltou para a sala. Cida deixara a porta do quarto aberta e já dormia. A estante ocupava a parede vazia. Júlia colocou a luminária amarela na prateleira superior, passou a extensão por trás do móvel e acendeu.
Depois, abriu a caixa marcada ROUPAS.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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