Universo da obra
Universo da obra
Levi enviou o cartaz da feira universitária na quinta-feira à noite.
`isso quebra a regra`, Júlia respondeu.
`acontece sábado`
`a regra fala sexta`
`por isso quebra`
Ela ampliou o cartaz. A programação começava às nove e incluía visitas a laboratórios, conversas sobre cursos, atendimento de bolsas e uma aula aberta sobre a cidade. O campus ficava fora do trajeto da linha.
`você quer ir?`
Levi demorou.
`estou pensando desde o mês passado`
`isso não responde`
`quero`
Júlia abriu a agenda. No sábado, precisava organizar um trabalho de Química que podia ser feito à tarde. O almoço com Marcelo seria no domingo. Natália marcara a chamada para a noite.
`então vamos`
`você não precisa`
`eu sei`
A resposta de Levi veio alguns minutos depois:
`sábado às 8 no terminal`
Na manhã seguinte, ele estava mais quieto no ônibus. Júlia não mencionou a feira. Conversaram sobre a chuva, a estante e o fato de Orlando ter chamado a omelete de “ovo acidentado” depois de ver uma fotografia. Quando Júlia desceu, Levi pediu que ela levasse água no sábado.
— A universidade tem bebedouro — disse.
— Então por que levar?
— Lucas disse que alguns não funcionam.
— O especialista em ensino superior.
— Ele vai estar lá.
Júlia parou junto à porta.
— Você convidou?
— Ele ajuda num estande.
— Ah.
— Que foi?
— Nada. Agora sei.
A porta começou a fechar. Júlia desceu antes que Levi perguntasse o que ela esperava saber.
No sábado, o terminal tinha movimento de dia útil. Famílias carregavam pastas transparentes, adolescentes conferiam mapas e voluntários com camisetas da universidade orientavam grupos. Júlia encontrou Levi perto de uma banca de jornal. Ele vestia a jaqueta verde e segurava uma mochila com as duas alças nos ombros.
— Trouxe água? — perguntou.
Júlia levantou a garrafa.
— E documentos, lanche, carregador, caderno, duas canetas.
— Duas?
— Para evitar insegurança.
Levi mostrou a própria caneta presa na espiral.
— Ela agradece.
O ônibus especial para o campus saiu às oito e vinte. Conseguiram lugares no fundo. Júlia sentou-se no corredor porque uma mãe e uma filha já ocupavam a janela. Levi abriu o mapa da programação sobre os joelhos.
— Você marcou tudo — disse Júlia.
Havia círculos em torno da apresentação de Geografia, da visita à biblioteca, do atendimento de permanência estudantil e da aula aberta. Duas atividades aconteciam ao mesmo tempo.
— Ainda estou escolhendo.
— Você pode voltar outro ano.
— Posso.
Levi dobrou o mapa depressa demais.
Júlia entendeu que a frase errara o lugar. Para ela, outro ano era uma possibilidade comum. Para Levi, significava a repetição de uma espera que já o incomodava.
— A gente começa por Geografia — disse.
— A biblioteca abre primeiro.
— Você veio por causa do curso.
Levi guardou o mapa.
— Certo.
O campus ocupava uma área grande, com prédios de idades diferentes e caminhos que se cruzavam entre jardins. Faixas coloridas indicavam grupos de cursos. Havia música perto da entrada, fila para credenciamento e estudantes distribuindo folhetos.
Levi diminuiu o passo.
— Já veio aqui? — perguntou Júlia.
— No ano passado.
— Na feira?
— Cheguei até o portão.
Ela esperou a continuação.
— Tinha muita gente com os pais — disse Levi. — Eu achei que tinha esquecido um documento. Voltei para casa.
— Você tinha esquecido?
— Não.
Júlia olhou para as famílias ao redor. Algumas carregavam bolsas e garrafas para os filhos. Outras discutiam a programação. Havia também jovens sozinhos, grupos de escola e uma mulher tentando impedir duas crianças de correr para lados opostos.
— Hoje você trouxe os documentos?
Levi abriu a mochila e mostrou uma pasta.
— Todos.
— Então entra.
Passaram pelo credenciamento. Levi escreveu o próprio nome e o curso de interesse. Júlia recebeu uma etiqueta em branco.
— O que coloco?
— Visitante.
Ela escreveu `Júlia: áudio` e colou na camiseta.
— Isso é um curso?
— É uma função.
A apresentação de Geografia acontecia numa sala inclinada. Um professor mostrou imagens de mapas, áreas urbanas, rios canalizados e trabalhos de campo. Duas estudantes falaram sobre pesquisa e estágio. Levi anotava endereços de sites, nomes de laboratórios e horários.
Júlia acompanhou parte. Em outros momentos, observou o amigo. Ele fazia perguntas curtas quando o professor abria espaço. Queria saber sobre aulas de manhã, atividades fora do campus e alunos que trabalhavam. Anotou a resposta sobre grade variável e circulou três vezes a informação sobre auxílio.
Depois da apresentação, uma estudante chamada Camila permaneceu perto da porta para conversar com interessados. Levi esperou duas famílias passarem.
— Quem trabalha cedo consegue acompanhar? — perguntou.
— Depende do semestre — respondeu Camila. — Tem matéria obrigatória em horários diferentes. Você trabalha com o quê?
— Padaria.
— Todo dia?
— Quase.
Camila mostrou no próprio celular a grade do primeiro período. Havia aulas em quatro manhãs e duas tardes.
— Muda todo ano — explicou. — Também dá para fazer menos disciplinas, só demora mais.
Levi fotografou a tela.
— E bolsa?
— O atendimento está no prédio ao lado. Eles explicam renda, alimentação e transporte.
Júlia ficou alguns passos atrás. Camila falava diretamente com Levi e não procurava confirmação em quem o acompanhava. Ele respondeu sobre o trabalho sem reduzir a rotina a uma frase engraçada. Quando terminou, agradeceu e guardou o celular.
Antes de liberar a sala, o professor distribuiu folhas transparentes e mapas simplificados da cidade. Pediu que cada visitante marcasse o trajeto mais frequente da semana, identificasse as interrupções e escrevesse uma pergunta sobre o percurso.
Levi escolheu a caneta azul. Desenhou o caminho entre a padaria, a lanchonete, o curso e a casa de Orlando. O traço se repetia em alguns trechos e criava uma forma estreita, concentrada em poucas ruas. No canto, escreveu: `Quem decide quais deslocamentos contam como trabalho?`
Júlia marcou a casa nova, a escola, o apartamento de Marcelo e o hospital onde Cida trabalhava. Sua linha atravessou a folha de um lado ao outro. A pergunta demorou mais. Por fim, escreveu: `Quanto tempo uma pessoa gasta para manter uma vida antiga?`
O professor pediu que sobrepusessem os mapas em duplas. Levi colocou a folha sobre a de Júlia. Os trajetos se encontravam no pedaço percorrido pelo ônibus e se separavam logo depois.
— A linha é a única parte igual — disse ele.
— A escadaria também.
Júlia marcou o desvio da pane com pontilhado. Levi acrescentou a passagem sob a avenida e a padaria. O mapa deixou de representar uma semana comum.
— Pode fotografar? — perguntou Júlia.
— Pode.
Ela registrou as folhas sobrepostas. Depois, cada um recebeu a própria de volta. Levi enrolou a transparência e guardou na pasta, junto aos documentos.
— Quatro manhãs — disse no corredor.
— Neste semestre.
— A padaria abre todos os dias.
— Você não abre sozinho.
— Orlando conta comigo.
Júlia consultou o mapa.
— O atendimento de bolsas é agora.
Levi não se moveu.
— Você quer ir?
— Quero.
— Então vamos.
Ele olhou para ela.
— Você vai responder tudo assim?
— Até você parar de perguntar a mesma coisa.
No prédio seguinte, pegaram uma senha. Enquanto esperavam, Levi preencheu uma ficha de interesse com nome, telefone, renda aproximada e situação de trabalho. Parou no campo `carga horária semanal`.
— Quantas horas? — perguntou Júlia.
— Nunca contei.
— Que horas começa?
— Quatro.
— E termina?
— Depende da entrega. Se tenho curso, saio às seis e quinze. Nos outros dias, volto depois e fico até meio-dia.
Fizeram a conta no verso do mapa. Levi trabalhava mais horas do que imaginava, distribuídas em pedaços difíceis de nomear.
— Orlando paga você? — perguntou Júlia.
— Paga algumas horas. O resto entra nas despesas de casa.
— Isso precisa estar na ficha.
— Como?
— Pergunta no atendimento.
Quando o chamaram, Levi entrou sozinho. Júlia esperou no corredor, sentada no chão perto de uma tomada. Abriu o aplicativo e gravou o ambiente: senhas anunciadas, papéis sendo organizados, passos e uma criança pedindo biscoito. Apagou quando uma mulher começou a dizer o número de um documento ao telefone.
Levi saiu com quatro folhetos e uma lista.
— Tem auxílio-transporte — disse.
— E alimentação.
— Você ouviu?
— Está no papel amarelo.
Ele sentou-se ao lado dela.
— Pediram comprovante do trabalho. Eu não tenho.
— A padaria pode fazer.
— Preciso falar com Orlando.
— Precisa.
Levi passou a mão pelos folhetos.
— Ele vai achar que estou organizando a saída.
— Você está?
— Estou organizando a possibilidade.
Júlia fechou o aplicativo.
— Fala isso.
— Você fala desse jeito com seus pais?
— Não.
Levi riu.
— Ótimo.
Ficaram sentados até a senha seguinte ser anunciada. Depois guardaram os papéis e foram procurar o estande onde Lucas trabalhava.
Ele estava diante de uma mesa de experimentos, usando a camiseta da universidade e explicando alguma coisa a três estudantes. Quando viu Levi, interrompeu a fala.
— Você veio!
Deu um abraço rápido no amigo e olhou para Júlia.
— A menina da pane?
Levi ficou imóvel.
— Eu contei do ônibus.
— Contou do velório das broas — disse Lucas. — Sou Lucas.
— Júlia.
— Do áudio?
— Também.
Lucas entregou a eles dois cartões com a programação do estande.
— Já foram em Geografia?
— Fomos — respondeu Levi.
— Ele fala desse curso desde o segundo ano.
Levi pegou um dos cartões.
— Não desde o segundo.
— Desde o trabalho dos mapas de enchente.
Júlia olhou para Levi. Ele havia apresentado Geografia como uma escolha ainda em montagem. Lucas a descrevia como uma coisa antiga.
— Você fez mapas de enchente? — perguntou.
— Um trabalho da escola.
— Tirou nota máxima — acrescentou Lucas. — Depois ficou dois meses corrigindo o mapa porque a professora errou o nome de um córrego.
— Você tem um estande para cuidar.
Lucas levantou as mãos.
— Estou valorizando seu histórico.
Uma nova família se aproximou. Lucas prometeu encontrar os dois no almoço e voltou à mesa.
Levi caminhou até o jardim sem consultar o mapa. Júlia o acompanhou.
— Você queria Geografia desde o segundo ano?
— Eu gostei do trabalho.
— Fez outros mapas.
— Fiz.
— Desenhou a linha do ônibus.
Levi sentou-se num banco.
— Dizer que quero há anos deixa pior o fato de eu ainda estar tentando.
Júlia permaneceu de pé.
— Para quem?
— Para mim.
Ela sentou-se ao lado dele, deixando a mochila entre os pés.
— Eu mudei três vezes o curso que escrevi na ficha da escola. Isso também pode virar argumento contra mim.
— Você já decidiu.
— Hoje. Talvez.
— Você fala em estudar fora.
— Porque em algum momento eu disse e todo mundo começou a repetir.
Levi dobrou o mapa da programação seguindo as marcas antigas.
— E quer?
Júlia pensou na casa de Cida, nas caixas abertas, no quarto antigo, em Natália aprendendo outra cidade e na linha que terminaria.
— Quero descobrir se consigo.
— Isso é diferente.
— É.
Nenhum deles tentou completar a resposta do outro.
Foram à biblioteca, almoçaram um prato barato no restaurante do campus e assistiram a parte da aula aberta sobre mobilidade urbana. Levi anotou menos durante a tarde. Júlia gravou os sinais sonoros dos prédios e pediu autorização antes de registrar Lucas descrevendo um experimento. Ele autorizou e repetiu a explicação com uma voz tão formal que os dois riram.
Lucas sentou-se com eles no almoço, ainda usando a camiseta do estande. Trouxe o próprio prato e um copo de suco.
— O que acharam?
— Você fala estranho quando está sendo gravado — respondeu Júlia.
— Voz institucional.
— Parece anúncio de elevador — disse Levi.
Lucas experimentou uma versão ainda mais solene até Levi mandar que parasse. Depois perguntou pela apresentação de Geografia.
— Ele fez pergunta? — quis saber.
— Duas — respondeu Júlia.
— Então gostou.
Levi cortou um pedaço de carne.
— Você sabia que eu vim no ano passado?
Lucas ficou alguns segundos calado.
— Você mandou foto do portão.
— E não perguntou nada.
— Perguntei se tinha entrado. Você respondeu no dia seguinte falando de outra coisa.
Levi lembrava da conversa. Lucas enviara uma mensagem curta, e ele devolvera a fotografia de uma fornada que queimara.
— Eu devia ter insistido? — perguntou Lucas.
— Não sei.
— Eu também não sabia.
Lucas apoiou os braços na mesa.
— Naquela época, toda vez que eu falava da faculdade, dava a impressão de que estava mostrando vantagem. Aí parei.
— Pareceu — disse Levi.
— Eu estava com medo de perder vocês e falando demais porque não conhecia ninguém aqui.
Júlia permaneceu quieta. A história entre os dois existia antes dela e continuaria depois do almoço. Lucas e Levi dividiram alguns detalhes sobre o antigo grupo, lembraram a promessa das quintas-feiras e riram das duas porções de batata.
— Ainda podemos marcar — disse Lucas.
— Sem quinta fixa — respondeu Levi.
— Sem juramento.
— E uma porção só.
Combinaram uma noite para a semana seguinte. Lucas colocou o compromisso no calendário diante deles.
— Agora existe.
Júlia contou que Natália também usava convites de calendário para impedir que as chamadas desaparecessem. Lucas perguntou se ela estudaria naquela universidade.
— Estou olhando produção audiovisual em outras cidades.
— Já visitou?
— Ainda não.
— Vai às feiras.
Júlia olhou para Levi.
— Talvez eu precise de um sábado emprestado.
Ele ainda não havia dado esse nome ao dia. Guardou a frase.
No fim da feira, Levi voltou ao atendimento de bolsas e pegou uma segunda ficha. Dobrou-a com cuidado e guardou dentro da pasta.
— Vai levar para casa? — perguntou Júlia.
— Vou.
— Vai falar com Orlando?
— Quando eu souber o que pedir.
— Certo.
Não era uma promessa completa. Júlia aceitou.
No ônibus de volta, os dois sentaram no fundo. Levi estendeu o mapa sobre os joelhos e marcou os prédios visitados. Júlia desenhou uma seta errada de propósito. Ele corrigiu. Depois, acrescentou um quadrado amarelo para o atendimento de bolsas e um círculo perto do banco do jardim.
— Isso foi uma sexta? — perguntou Júlia.
— Foi sábado.
— Entra no mapa?
— Entrou.
— E na regra?
— A regra pode ter exceção.
Júlia encostou a cabeça no vidro. O ônibus sacudia nas curvas e o cansaço fechava seus olhos por alguns segundos.
— Então foi um sábado emprestado — disse.
Levi escreveu a frase no alto da página.
Quando chegaram ao terminal, cada um precisava seguir para um lado. Júlia tinha o trabalho de Química e a chamada com Natália. Levi ainda faria o turno da tarde na padaria.
— Manda mensagem quando falar com seu avô — disse ela.
— Você manda quando decidir a cidade.
— Isso pode demorar.
— A conversa com Orlando também.
Eles se despediram junto às catracas.
Naquela noite, Júlia recebeu uma fotografia. A ficha amarela estava sobre a mesa da padaria, ao lado do pano dobrado de Orlando. Não havia mensagem.
Ela respondeu com uma imagem das três opções de curso escritas e riscadas no formulário da escola. A última linha permanecia em branco.
Levi reagiu com o ônibus.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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