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Canções de um Sourdough

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Canções de um Sourdough

Capítulo 5 · Canções de um Sourdough

O Coração Do Sourdough

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São sem conta as trilhas do mundo, e a maior parte já foi tentada;
Pisais nos calcanhares dos muitos, até chegar onde os caminhos
se apartam;
E um jaz seguro à luz do sol, e o outro é triste e sem cor,
Mas olhais de soslaio a Trilha Solitária, e a Trilha Solitária vos atrai.
E, de algum modo, enfastiais-vos da estrada larga, com seu ruído e suas fáceis
necessidades,
E buscais o risco do atalho, sem vos importar para onde conduz.
E às vezes conduz ao deserto, e a língua incha para fora
da boca,
E cambaleais cegos rumo à miragem, para morrer na seca zombeteira.
E às vezes conduz à montanha, à luz da fogueira solitária
de acampamento,
E roeis o cinto na angústia do desejo aguilhoado pela fome.
E às vezes conduz às terras do Sul, ao pântano onde a
orquídea resplandece,
E delirais até a cova com a febre, e roubam do cadáver
as roupas.
E às vezes conduz às terras do Norte, e o escorbuto amolece
vossos ossos,
E vossa carne afunda como massa, e cuspis vossos dentes como
pedras.
E às vezes conduz a um recife de coral, no vaivém de um mar coberto de ervas,
E vos sentais a fitar o clarão vazio onde as gaivotas esperam, cobiçosas.
E às vezes conduz a uma trilha ártica, e às neves onde vossos
pés lacerados congelam,
E aparais a argila inútil, e rastejais sobre mãos e
joelhos.
Muitas vezes conduz ao fosso dos mortos; sempre conduz à dor;
Pelos ossos de vossos irmãos o sabeis, mas oh, segui-la
desejais.
Por vossos ossos outros seguirão atrás de vós, até que os caminhos do
mundo se tornem claros.

_Dizei adeus à amada, dizei adeus ao amigo;
A Trilha Solitária, a Trilha Solitária segui até o fim.
Não vos demoreis, nem temais, escolhidos dos verdadeiros;
Amante da Trilha Solitária, a Trilha Solitária espera por vós._

O CORAÇÃO DO SOURDOUGH

Lá onde as montanhas poderosas mostram suas presas à lua;
Lá onde os sóis falsos, sombrios, fulgem no meio-dia amargo e claro de neve,
E os rios, estripados pelas geleiras, descem ao toque clarinante de junho:

Lá onde as tundras lívidas guardam seu encontro com as neves tranquilas;
Lá onde os Silêncios são gerados, e a luz do fogo infernal escorre
Para a taça do céu da meia-noite, violeta, âmbar e rosa:

Lá onde as corredeiras se revolvem e rugem, e os blocos de gelo correm bramindo;
Onde os rios torturados, torcidos, de sangue, arremetem para o sol poente —
Arrumei meus apetrechos e vou-me embora, rapazes, antes que outro dia se acabe.

* * * * *

Eu sabia que chamaria, cedo ou tarde, como chama as asas zunidoras;
É o antigo fascínio, é o fascínio dourado, é o encanto das
coisas sem tempo;
E esta noite, ó Deus das trilhas não pisadas, como ele geme nas
cordas de meu coração!

Estou mortalmente farto de vossos deuses bem-penteados, de vosso faz de conta e
de vossa exibição;
Anseio por um bafo de toucinho e feijão, um leito apertado na neve,
Uma trilha a abrir, uma vida em risco, e outro embate com o inimigo;

Com a Selva de costelas cruas, que abomina toda vida, a selva que haveria
de esmagar e dilacerar;
Travei luta corpo a corpo com o Norte nu, aprendi a
desafiar e defender;
Ombro a ombro combatemos até o fim — contudo a Selva há de vencer
no fim.

Afrontei a Selva. Segui seu fascínio, sem medo,
familiar, sozinho;
Por tudo quanto a batalha significa e faz, reclamo aquela terra como minha;
Contudo a Selva há de vencer, e virá um dia em que serei derrubado.

Então, quando como cães-lobos houvermos lutado, eu e a magra terra dos lobos;
Lutado e sangrado até que as neves fiquem rubras sob o céu cambaleante;
Tal como cai o magro cão-lobo, assim cairei eu e morrerei.

AS TRÊS VOZES

As ondas têm uma história a contar-me,
Enquanto jazo na praia solitária;
Entoando no alto das copas dos pinheiros,
O vento tem uma lição a ensinar;
Mas as estrelas cantam um hino de glória
Que não consigo pôr em palavras.

Canções de um Sourdough

Sinopse

Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.

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