Universo da obra
Universo da obra
Quando está no deserto em brasa, e seu cantil abriu um rombo,
E ele está só e louco, e rasteja como caracol,
E a língua tão negra e inchada que lhe dói até falar,
E cava em busca de água, e o corvo lhe segue o rastro;
Quando acabou de preocupar-se e praguejar, e mais parece querer chorar,
E vê a velha Morte sorrindo, e pensa em seus pecados,
Então é bem capaz de ter uma visão, enquanto se ajeita para morrer,
Da pequena e velha cabana de troncos, e das rosas e das trepadeiras.
Oh, a pequena e velha cabana de troncos é uma marca solene e brilhante
Quando um sujeito começa a pecar, e vai dando contra o muro,
E as pessoas não o compreendem, e ele tateia no escuro,
E está farto de ser maldito, e anseia pelo seu chamado:
Quando o sol da vida vai descendo, podes vê-la lá bem acima,
Na colina, saindo da sombra numa glória contra o céu,
E a voz de tua mãe está chamando, e seus braços se estendem em amor,
E de algum modo te alegras de partir, e não tens medo de morrer;
Quando serás criança outra vez, e te aninharás em seu peito,
E jamais deixarás seu abrigo, e esquecerás, e amarás, e descansarás.
O FILHO MAIS NOVO
Se deixas a sombra de Londres e buscas uma terra resplendente,
Onde tudo, exceto a bandeira, é estranho e novo,
Há um sujeito bronzeado e robusto que te apertará a mão,
E te saudará com acolhida quente e verdadeira;
Pois ele é teu irmão mais novo, aquele que mandaste embora,
Porque não havia espaço para ele em casa;
E agora está bem contente, e se alegra de não ter ficado,
E vai erguendo a grandeza da Britânia para além da espuma.
Quando a manada gigante se move ao nascer do sol,
E a pradaria se acende de rosa e ouro;
E o acampamento inteiro se agita, e começa o dia atarefado,
Ele salta à sela, seguro e audaz.
Pelo ciclo de calor e pressa, pelo ruído e pela confusão,
Avança em ritmo que nada perturba;
E quando os ventos da noite sussurram, e as fogueiras do acampamento se apagam,
Ele dorme como criança sob as estrelas.
Quando as flores de acácia pendem na sombria clareira de casuarinas,
E a terra sem fôlego jaz em desmaio,
Ele deixa por um instante o trabalho, apoiando-se de leve na pá,
E ouve o pássaro-sino soar o meio-dia austral.
Os periquitos se calam no eucalipto junto ao riacho;
O bosque de fetos está imóvel, ensopado de sol;
Mas o orvalho há de cravejar a murta no crepúsculo, antes que ele busque
Sua pequena cabana solitária na colina.
Ao redor da encosta púrpura, vestida de vinhas, sonha o rio argentino;
As rosas quase escondem a casa da vista;
Um pico nevado do Winterberg fulge em esplendor carmesim;
A sombra se aprofunda lá embaixo no karroo.
Ele busca o lusco-fusco perfumado de lírios sob a laranjeira:
Seu cachimbo, em silêncio, acende, esmorece e acende,
E então duas menininhas saem e sobem em seus joelhos,
E uma é como o lírio, a outra como a rosa.
Ele vê suas ovelhas brancas malharem a verde planície da Nova Zelândia,
E onde as hirsutas muralhas de Vancouver carregam o cenho,
Quando a luz do sol tece fios na penumbra dos pinheiros, ele luta com toda a força
Para cravar os rebites de um Império.
Hás de encontrá-lo mourejando, mourejando, no sul ou no oeste,
Filho da natureza, destemido, franco e livre;
E o coração mais quente que bate por ti bate em seu peito,
E ele te envia, pelo mar, sua saudação leal.
Tens um irmão no Exército, tens outro na Igreja;
Um de vós é um figurão diplomático;
Tivestes a escolha de tudo e o deixastes em apuros;
E, no entanto, creio que ele vai muito bem.
Estou certo de que sua vida é feliz, e ele não inveja a vossa;
Sei que ama a terra que sua coragem conquistou;
E imagino que nos anos por nascer, enquanto durar a fama da Inglaterra,
Ela virá abençoar com orgulho — o Filho Mais Novo.
A MARCHA DOS MORTOS
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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