Universo da obra
Universo da obra
E embora saibas que ele tanto te ama, e te põe no trono do amor,
Deixa, porém, que teus olhos zombem de seus suspiros, e que teu coração seja pedra,
Para que não sejas deixada, como fui deixada, maculada e só.
Do beijo cerrado do amor ao abismo do inferno há um voo direto, creio eu;
E aliança nupcial e sino de bodas são fogos-fátuos de dor;
E não é sábio amar demais, e isto todas as mulheres sabem.
Por isso, tendo a alcateia devorado o cordeiro, sua presa,
Com sorriso de sereia e astúcia de serpente, faço a alcateia pagar;
Com patas de veludo e garras de esfolar, tigresa desperta para matar.
Uma que na juventude buscou a verdade mais verdadeira, e achou mentiras do diabo;
Símbolo do pecado do homem, sacrifício humano:
Ainda assim porei no homem a culpa da vergonha? Poderia ter sido de outro modo?
Não nasci eu para andar em escárnio, onde outras andam em orgulho?
Maculada pelo Criador, sob estrela má, derivo em Sua maré;
E só Ele julgará o que é Seu; assim espero o Seu juízo.
_O Destino escreveu uma tragédia; seu nome é “O Coração Humano”.
O teatro é a Casa da Vida; à Mulher cabe o papel da farsante:
O Diabo entra na caixa do ponto, e a peça está pronta para começar._
O FASCÍNIO DAS VOZES PEQUENINAS
Há um clamor vindo da Solidão — oh, escuta, meu bem, escuta!
Tu o ouves, tu o temes, assim me segurando?
Estás soluçando no sono, querida, e teus cílios, como
brilham —
Ouves as Vozes Pequeninas todas a me implorar que eu vá?
Todas a me implorar que eu te deixe. Dia e noite suplicam, rezam,
No Vento do Norte, no Vento do Oeste, do cume e da
planície;
Noite e dia jamais me deixam — sabes o que estão dizendo?
“Ele era nosso antes que tu o tivesses, e o queremos outra vez.”
Sim, elas me querem, elas me assombram, os terríveis lugares solitários;
Choramingam e gemem como se cada qual tivesse alma;
Chamam da terra bravia, dos vastos espaços semelhantes a Deus,
Das solidões nuas e soturnas que montam guarda ao Polo.
Sentem falta de minhas pequenas fogueiras, sempre vivas, valentes, brilhando
No ventre da desolação onde homem nenhum estivera antes;
Pois sem companheiros eu as busquei, coração de leão, amoroso, sonhador;
E elas me saudaram como camarada, e me amaram para sempre.
E agora todas choram, e não me adianta negar:
O feitiço delas está sobre mim, e sou indefeso como uma criança;
Meu coração dói, dói, mas eu as ouço dormindo, acordado;
É o Fascínio das Vozes Pequeninas, é o mandato da Selva.
Temo dizer-te, meu bem, não posso suportar amarga despedida;
Mas, de mansinho, na hora do sono, de teu amor fugirei.
Oh, é cruel, querida, cruel, e Deus sabe quanto sofro;
Mas Sua Solidão está chamando, e Ele sabe que devo obedecer.
A CANÇÃO DO ESCRAVO ASSALARIADO
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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