Universo da obra
Universo da obra
Pois bem, a cerejeira se curva em flor, e a relva viva rebenta,
E o lírio, como estrela, aninha-se no verde;
E os sapos cantam suas alegrias, e meu coração soa em harmonia,
E não importa aquilo que eu poderia ter sido,
Enquanto, sobre a penumbra olorosa dos pinheiros, amontoando alturas de glória dourada,
O deus-sol pinta sua tela no ocidente;
Posso deitar-me fundo no trevo, posso escutar a história
Da água preguiçosa, lambendo a margem — isto é o melhor.
Enquanto a truta salta no rio, e o tetraz-azul estremece o
abrigo,
E a neve gelada denuncia a pista da pantera,
E o tordo saúda a alvorada com o arrebatamento de um amante,
Sou feliz, e jamais voltarei.
Pois sei que eu apenas ficaria ansiando pela pequena e velha cabana de troncos,
Com a campainha-azul agarrada à porta,
Até odiar os lugares da cidade, maldizer a preocupação em todos os rostos,
Virar as costas para Londres leprosa para sempre.
Assim, mandai-me para longe de Lombard Street, e anotai-me como fracasso;
Ponde um pouco em minha bolsa e deixai-me livre.
Dizei: “Ele se desviou da oferta da Fortuna para seguir um pálido fascínio,
Ele não é mais um dos nossos — deixai-o estar.”
Já não sou mais um de vós: pelas trilhas que meus pés abriram,
Pelos picos vertiginosos que escalei, pelo brilho da fogueira,
Pelos mares solitários em que naveguei — sim, a palavra final foi dita,
Estou assinado e selado à natureza. Assim seja.
O BRANCO DE BAIXA ESTIRPE
Este é o dia do pagamento lá nas minas, quando descem os brutos barbados;
Há dinheiro para queimar nas ruas esta noite, por isso mandei minha
klooch à cidade,
Com o rosto abatido e uma fita vermelha enlaçada em seus cabelos castanhos.
E sei que ao amanhecer ela voltará cambaleando para casa com as garrafas,
uma, duas, três;
Uma para si, para afogar a vergonha, e duas grandes garrafas para mim,
Para me fazer esquecer a coisa que sou e o homem que eu costumava ser.
Para me fazer esquecer a marca do cão, enquanto me encolho neste lugar
hediondo;
Para me fazer esquecer que um dia acendi a luz do amor no rosto de uma dama,
Quando até o sórdido siwash agora me tem por uma negra desgraça.
Oh, guardei bem o meu segredo! E quem sonharia, enquanto falo
Numa língua tribal como um patife ainda não enforcado, entre a imundície e o fedor
da casa do rancho,
Que eu podia deitar-me com uma frase latina, e levantar-me com um verso
grego?
Contudo fui, outrora, aluno laureado, e orgulho de uma equipe universitária de oito;
Chamado à advocacia — meus amigos eram leais! mas não conseguiram manter-me
direito;
Então veio o divórcio, e fui para o estrangeiro e “morri” no Rio da Prata.
Mas ainda não estou morto; embora, com meio pulmão, não haja tempo
a perder,
E espero que o ano me leve embora, e, graças a Deus, ninguém
se importará —
Salvo talvez a pequena e esguia moça siwash, com a rosa da vergonha nos
cabelos.
Ela virá com a aurora, e a aurora está próxima; posso ver seu brilho
maligno,
Como luz de cadáver vista por uma vidraça gelada numa noite de miséria
e dor;
E lá vem ela, junto aos pinheiros toureiros e desolados, cambaleando célere
pela neve.
A PEQUENA E VELHA CABANA DE TRONCOS
Quando um sujeito fica na pindaíba numa cidade de chão duro,
E não tem nada a receber, e não pode se dar ao luxo de comer,
E está enrascado por pousada, e vagueia para cima e para baixo,
E tu jurarias que andou bebendo, tão tonto vai dos pés;
Quando se sente furtivamente triste, e o cinto lhe pende frouxo,
E o rosto está chupado e meio cinzento, e o coração desce e
choraminga,
Então é bem capaz de pôr-se a pensar e a desejar estar de volta
Na pequena e velha cabana de troncos à sombra dos pinheiros.
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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