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Canções de um Sourdough

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Canções de um Sourdough

Capítulo 11 · Canções de um Sourdough

Minha Madona

11 de 20 ≈ 4 min de leitura

Ora, promessa feita é dívida não paga, e a trilha tem seu código
severo.
Nos dias que vieram, embora meus lábios estivessem mudos, em meu coração como
amaldiçoei aquela carga.
Na longa, longa noite, à luz da fogueira solitária, enquanto os huskies,
em círculo,
Uivavam suas mágoas às neves sem lar — ó Deus! como abominei
aquela coisa!

E a cada dia aquela argila quieta parecia ficar mais e mais pesada;
E eu seguia, embora os cães estivessem gastos e a comida diminuindo;
A trilha era ruim, e eu me sentia meio louco, mas jurei que não
cederia;
E muitas vezes cantava para aquela coisa odiosa, e ela escutava com um sorriso.

Até que cheguei à margem do lago Lebarge, e ali jazia uma embarcação abandonada;
Estava presa no gelo, mas vi num relance que se chamava
“Alice May”.
E olhei para ela, e pensei um pouco, e olhei para meu camarada
congelado:
Então: “Aqui”, disse eu, com súbito grito, “está meu cre-ma-tó-rio.”

Arranquei algumas tábuas do assoalho da cabine, e acendi o fogo da caldeira;
Achei algum carvão que estava por ali, e amontoei mais alto o combustível;
As chamas simplesmente subiram, e a fornalha rugiu — raramente se vê
tal labareda;
E cavei um buraco no carvão incandescente, e enfiei ali Sam McGee.

Então dei uma caminhada, pois não gostava de ouvi-lo chiar daquele modo;
E os céus fecharam o rosto, e os huskies uivaram, e o vento começou
a soprar.
Fazia um frio de gelo, mas o suor quente rolava por minhas faces, e eu
não sei por quê;
E a fumaça gordurosa, num manto de tinta, foi riscando o céu.

Não sei por quanto tempo, na neve, lutei com o medo horrendo;
Mas as estrelas saíram e dançaram em torno antes que eu ousasse me aproximar de novo;
Eu estava doente de pavor, mas disse bravamente: “Vou só dar uma espiada
lá dentro.
Acho que ele já está cozido, e é hora de eu olhar...” então a porta
abri de par em par.

E ali estava Sam sentado, fresco e calmo, no coração do
rugido da fornalha;
E trazia um sorriso que se podia ver de uma milha, e disse: “Por favor, feche
essa porta.
Está ótimo aqui dentro, mas temo muito que você deixe entrar o frio e
a tormenta —
Desde que deixei Plumtree, lá no Tennessee, é a primeira vez que
me sinto quente.”

_Coisas estranhas se fazem sob o sol da meia-noite
Pelos homens que mourejam por ouro;
As trilhas árticas têm histórias secretas
Que gelariam teu sangue;
As Luzes do Norte viram cenas esquisitas,
Mas a mais esquisita que jamais viram
Foi aquela noite à margem do lago Lebarge
Em que cremei Sam McGee._

MINHA MADONA

Arrastei uma mulher da rua,
Sem vergonha, mas, oh, tão bela!
Mandei-a sentar-se no banco de modelo,
E pintei-a sentada ali.

Escondi todo vestígio de seu coração impuro;
Pintei um bebê em seu peito;
Pintei-a como poderia ter sido
Se o Pior houvesse sido o Melhor.

Ela riu de meu quadro e foi-se embora.
Então veio, com um aceno entendido,
Um conhecedor, e ouvi-o dizer:
“É Maria, a Mãe de Deus.”

Então pintei uma auréola em torno de seus cabelos,
E vendi-a, e recebi meu pagamento,
E ela pende na igreja de Saint Hilaire,
Onde tu e todos a podeis ver.

INESQUECIDA

Conheço um jardim onde os lírios reluzem,
E alguém que se demora ali ao sol;
Ela é muito mais bela que o lírio de branca estola,
E oh, seus olhos são iluminados de sonho pelo céu.

Conheço uma água-furtada, fria, escura e sombria,
E alguém que labuta e labuta com pena incansável,
Até que seus bravos, tristes olhos se cansam — então
Busca as estrelas, pálido, silencioso como vidente.

E ah, é estranho, pois desolado e turvo
Entre esses dois rola um largo oceano;
Contudo ele está no jardim ao lado dela,
E ela está na água-furtada ali com ele.

O ACERTO DE CONTAS

Canções de um Sourdough

Sinopse

Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.

Canções de um Sourdough

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