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Canções de um Sourdough

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Canções de um Sourdough

Capítulo 19 · Canções de um Sourdough

* * * * *

19 de 20 ≈ 4 min de leitura

Escuta! Oh, escuta! Posso ouvir os sinos!... Olha! Posso vê-la ali,
Bela como um sonho... mas desvanece... E agora — posso ouvir o
terrível murmúrio
Do tribunal apinhado... Vê! o Juiz olha lá de cima... INOCENTE,
meu senhor, eu juro...
Os sinos, posso ouvir os sinos outra vez... Ethel, eu vou, eu vou!...

* * * * *

“Acorde, velho, são doze horas. Você não pode dormir aqui,
sabe.
Ora! você não tem sentimento nenhum? Erga essa cabeça embaralhada;
Tome um gole pelo alegre Ano-Novo, uma gota antes de ir —
Seu velho vagabundo sujo dos diabos... Meu Deus! Aqui, rapazes! Ele está MORTO!”

CONSOLO

Ora! Topaste com um montão de desgraças —
Faliste nos negócios, perdeste a mulher;
Ninguém se importa um tostão contigo,
Tu não te importas um tostão com a vida;
A má sorte te despojou da esperança,
A saúde falha, querias morrer —
Ora, ainda te resta a luz do sol,
E o grande céu azul.

Céu tão azul que te faz perguntar
Se é o paraíso a brilhar por entre ele;
Terra tão sorridente lá ao longe,
Sol tão vivo que te deslumbra;
Pássaros cantando, flores lançando
Toda a fragrância na brisa;
Sombras dançando, verdes prados quietos —
Não te acabrunhes, ainda tens tudo isso.

Isso, e ninguém te pode tirar;
Isso, e ninguém lhe pode pesar o valor.
Quê! estás cansado, falido e vencido? —
Ora, és rico — tens a terra!
Sim, se és um errante em farrapos,
Enquanto o céu azul se curva acima,
Tens quase tudo quanto importa,
Tens Deus, e Deus é amor.

PREMONIÇÃO

Foi há um ano, e a lua estava clara
(Oh, lembro-me tão bem, tão bem),
Caminhei com meu amor num mar de luz,
E a voz de minha doce era sino de prata.

E de súbito a lua se fez estranhamente baça,
E de súbito meu amor criara asas;
Olhei o rosto de uma caveira a sorrir,
Apertei contra o peito uma coisa espectral.

Era apenas fantasia, pois meu amor jazia imóvel
Em meus braços, com seus ternos olhos acesos,
E se admirava de que meus lábios estivessem frios,
De que eu estivesse calado e a beijasse tanto.

Um ano passou, e a lua está clara,
Lua gibosa, como fantasma de dor;
Sento-me esta noite junto a uma cova recém-feita,
E meu coração está partido — é estranho, sabes.

OS VAGABUNDOS

Podes recordar, querido camarada, quando palmilhávamos juntos a terra de Deus,
E cantávamos a velha, velha Canção da Terra, pois nossa juventude era tão doce;
Quando bebíamos, brigávamos e desejávamos, zombando de laço e peia,
Pela estrada de Qualquer Lugar, com o vasto mundo a nossos pés.

Pela estrada de Qualquer Lugar, quando cada dia tinha sua história;
Quando o tempo ainda era nosso vassalo, e a pilhéria da vida ainda não murchara;
Quando uma paz sem fundo enchia nossos corações, enquanto, banhados em glória de âmbar,
Pela estrada de Qualquer Lugar víamos os ocasos empalidecerem.

Ai! a estrada de Qualquer Lugar é semeada de fossos e desastre;
Há fome, miséria e fadiga, e contudo, oh, como a amávamos!
Enquanto marchávamos exultantes, e homem nenhum era nosso senhor,
E homem nenhum adivinhava que sonhos eram nossos, quando, no balanço de calcanhar e ponta,
Palmilhávamos a estrada de Qualquer Lugar, a mágica estrada de Qualquer Lugar,
A trágica estrada de Qualquer Lugar, tantos anos queridos e turvos atrás.

ENVIO

_Vós que vivestes na Terra,
Vós que confiastes na trilha;
Vós que sois fortes para resistir,
Vós que sois prontos para atacar;
Canções cantei para encantar,
Vindima de anos desesperados,
Duros como sorriso de meretriz,
Amargos como lágrimas não vertidas._

_Pouco de júbilo ou riso,
Pouco de sossego canto;
Sagas de homens da terra,
Sofrendo humanamente,
Como todos vós sofrestes;
Partindo à brava e selvagens,
Filhos do sol da meia-noite,
Argonautas do Norte._

Canções de um Sourdough

Sinopse

Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.

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