Universo da obra
Universo da obra
“... Vem, Kit, teu pônei está selado. Espero, querida, no
pátio ...
... Minnie, sua demônia, eu te mato se fugires com esse janota
engomado ...
... Quanto dá na bateia, Bill?... joga firme, School, e joga
o jogo ...
... Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso nome ...”
_Esta foi a canção do filho do pastor, enquanto jazia sozinho em seu beliche,
Antes que o fogo se apagasse e o frio entrasse de manso, e seus lábios
azuis cessassem de gemer,
E os malamutes enlouquecidos de fome lhe arrancassem a carne dos ossos._
O FEITIÇO DO YUKON
Eu queria o ouro, e fui buscá-lo;
Raspei e cavei como escravo.
Fosse fome ou escorbuto — enfrentei-o,
Lancei minha mocidade ao túmulo.
Eu queria o ouro, e consegui —
Saí com fortuna no outono passado —
Contudo a vida não é bem o que eu pensava,
E, de algum modo, o ouro não é tudo.
Não! Há a terra. (Tu a viste?)
É a terra mais maldita que conheço,
Desde as montanhas enormes, vertiginosas, que a ocultam,
Aos vales fundos, mortais, lá embaixo.
Dizem alguns que Deus estava cansado ao fazê-la;
Dizem alguns que é boa terra para evitar;
Talvez: mas há quem não a trocasse
Por terra nenhuma deste mundo — e eu sou um.
Vens para enriquecer (maldita boa razão),
Sentes-te exilado no começo;
Odeias aquilo como o inferno por uma estação,
E então ficas pior que o pior.
Ela te agarra como certas espécies de pecado;
Torce-te de inimigo em amigo;
Parece existir desde o princípio;
Parece que há de existir até o fim.
Já me postei em algum vão de boca imensa,
Cheio de silêncio até a borda;
Vi o sol grande e robusto revolver-se
Em púrpura e ouro, e escurecer,
Até a lua fazer reluzirem os picos perolados,
E as estrelas despencarem de roldão;
E pensei que decerto sonhava,
Com a paz do mundo empilhada por cima.
O verão — nunca houve mais doce;
Os bosques ensolarados todos estremecidos;
O grayling saltando no rio,
O carneiro-selvagem dormindo na colina.
A vida forte que jamais conhece arreio;
As solidões onde o caribu chama;
O frescor, a liberdade, a distância —
Ó Deus! como estou preso a tudo isso.
O inverno! o brilho que te cega,
A terra branca trancada firme como tambor,
O medo frio que te segue e te encontra,
O silêncio que te deixa mudo a bordoadas.
As neves mais antigas que a história,
Os bosques onde sombras estranhas se inclinam;
A quietude, o luar, o mistério,
Já lhes disse adeus — mas não consigo.
Há uma terra onde as montanhas não têm nome,
E os rios todos correm Deus sabe para onde;
Há vidas errantes e sem rumo,
E mortes penduradas por um fio;
Há sofrimentos que ninguém calcula;
Há vales despovoados e imóveis;
Há uma terra — oh, ela acena e acena,
E eu quero voltar — e hei de voltar.
Estão fazendo meu dinheiro minguar;
Estou farto do gosto de champanhe.
Graças a Deus! quando me depenarem até o fim,
Tomarei o rumo do Yukon outra vez.
Lutarei — e podes apostar que não será luta fingida;
É o inferno! — mas já estive lá antes;
E é melhor que isto, por uma represa inteira —
Portanto, Yukon de novo para mim.
Há ouro, e ele assombra e assombra;
Ele me atrai como outrora;
Contudo não é o ouro que desejo,
Tanto quanto apenas encontrar o ouro.
É a terra grande, vasta, larga, lá em cima ao longe,
São as florestas onde o silêncio tem domínio;
É a beleza que me estremece de assombro,
É a quietude que me enche de paz.
O CHAMADO DA SELVA
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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