Universo da obra
Universo da obra
Levanta de manhã com a vontade de que, macio ou duro,
Hás de sorrir.
Deita-te à meia-noite, e embora te sintas abatido,
Ainda assim sorri.
Nada se ganha choramingando, e tu não és feito dessa matéria;
És lutador de há muito tempo, e _não_ aceitarás desfeita;
Teu problema é não saber quando já tiveste bastante —
Não cedas.
Se o Destino te derrubar, ergue-te e leva outra pancada;
Podes apostar que não há filosofia como a bravata
E o sorriso.
O TIRO EM DAN MCGREW
Um bando de rapazes fazia algazarra no saloon Malamute;
O garoto que cuidava da caixa de música batia um ragtime bêbado;
Atrás do balcão, numa partida solitária, sentava-se Perigoso Dan McGrew,
E vigiando-lhe a sorte estava sua amante, a dama conhecida
como Lou.
Quando, vindo da noite, que fazia cinquenta abaixo de zero, para dentro do estrondo e
do clarão,
Cambaleou um mineiro recém-saído dos riachos, sujo como cão e pronto
para tudo.
Parecia um homem com um pé na cova, e mal tinha
a força de um piolho,
No entanto despejou uma bolsa de pó sobre o balcão, e pediu bebidas
para a casa.
Ninguém soube situar o rosto do estranho, embora vasculhássemos
a memória em busca de uma pista;
Mas bebemos à sua saúde, e o último a beber foi Perigoso Dan
McGrew.
Há homens que, de algum modo, prendem teus olhos e os seguram firme
como feitiço;
E assim era ele, e me pareceu homem que vivera no inferno;
Com o rosto quase todo barba, e o olhar sombrio de um cão cujo dia terminou,
Enquanto aguava a coisa verde no copo, e as gotas caíam uma
a uma.
Então pus-me a imaginar quem ele era, e a pensar no que faria,
E virei a cabeça — e lá, fitando-o, estava a dama conhecida
como Lou.
Seus olhos foram sondando a sala, e ele parecia meio
aturdido,
Até que enfim aquele velho piano cruzou o caminho de seu olhar errante.
O garoto do ragtime tomava um trago; não havia mais ninguém no
banco,
Então o estranho cambaleia pela sala, e despenca ali como
um tolo.
Numa camisa de camurça envidraçada de sujeira, sentou-se, e eu o vi
oscilar;
Então agarrou as teclas com as mãos de garra — meu Deus! mas aquele homem
sabia tocar!
Já estiveste, alguma vez, no Grande Isolamento, quando a lua era terrivelmente clara,
E as montanhas geladas te cercavam com um silêncio que quase podias
_ouvir_;
Tendo apenas o uivo de um lobo-da-mata, e acampado ali no frio,
Coisa meio morta num mundo nu e morto, completamente louco pela lama
chamada ouro;
Enquanto, lá no alto, verdes, amarelas e rubras, as Luzes do Norte varriam
em faixas —
Então tens uma ideia do que a música queria dizer... fome, noite e
estrelas.
E fome não da espécie do ventre, que se expulsa com toucinho e feijão;
Mas a fome roedora dos homens solitários por um lar e tudo quanto ele significa;
Por uma lareira longe dos cuidados presentes, quatro paredes e um teto
acima;
Mas oh! tão abarrotado de aconchegante alegria, e coroado pelo amor de uma mulher;
Uma mulher mais cara que o mundo inteiro, e fiel como o Céu é fiel —
(Deus! como ela parece horrenda sob o ruge — a dama conhecida
como Lou.)
Então, de súbito, a música mudou, tão suave que mal se podia ouvir;
Mas sentias que tua vida fora saqueada de tudo quanto
outrora teve de caro;
Que alguém roubara a mulher que amavas; que o amor dela era uma
mentira do diabo;
Que tuas entranhas se foram, e o melhor para ti era rastejar para longe e
morrer.
Era o grito supremo do desespero de um coração, e te atravessava
de ponta a ponta —
“Acho que vou fazer disto uma miséria aberta”, disse Perigoso Dan McGrew.
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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