Universo da obra
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O ACERTO DE CONTAS
É bom fazer uma farra num restaurante fino,
Com tartaruga e pato selvagem e todo o vinho que se queira;
Gozar as flores e a música, ver passarem as mulheres bonitas,
Fumar um charuto escolhido, e sorver a água rica em teu copo;
É magnífico, num lugar de alta roda, comer e beber até fartar,
Mas é coisa bem diversa quando vais
Pagar a conta.
É esplêndido sair toda noite, entregue ao prazer e à diversão,
Trajar sempre tuas roupas de festa, e jamais poupar um centavo;
Ir à deriva sem cuidado, divertir-se em cada jornada;
Provar às vezes os pontos altos, e deixar escapar tuas chances;
Saber que ages como tolo, e ainda assim continuar na tolice,
Até que a Natureza peça as cartas, e vás
Pagar a conta.
O Tempo tem uma pequena conta — aprende enquanto ainda podes,
Pois o lado do débito cresce de modo muito alarmante;
As coisas que não tinhas direito de fazer, as coisas que devias ter feito,
Tudo está anotado: cabe a ti pagar por cada uma.
Portanto come, bebe e alegra-te, diverte-te, se quiseres,
Mas Deus te ajude quando chegar a hora, e tiveres de
Quitar a conta.
QUADRAS
Disse uma: Tua vida é tua, para fazer ou arruinar,
Para tremular debilmente, ou subir, estrela, pelo ar;
Cabe a ti — a escolha é tua, é tua somente,
Cair nos trilhos ou guiar teu automóvel em frente.
Respondo a Ela: A escolha é minha — ah, não!
Fomos todos feitos ou desfeitos há muito, muito então.
Os papéis estão escritos: ouvi o figurante gemer:
“Quem dirige no palco este cósmico espetáculo a correr?”
Cegos bobos do fado, escravos da circunstância,
A vida é um rabequista, e todos dançamos sua dança.
Da sombra onde zomba esse fogo-fátuo, Livre-Arbítrio,
Ouvi uma voz gritar: “Ora, deem-nos uma chance.”
Chance! Oh, não existe chance. A cena está montada.
Erga-se a cortina! O homem, marionete preparada,
Retoma seu papel. Os deuses moverão os fios.
Eles têm tudo bem assentado, podes crer, podes crer, amigo!
Tudo está decretado: o fragor do terremoto poderoso;
A roda e o fulgor das constelações sem conta;
A ascensão e queda dos impérios, a maré rubra da guerra,
A composição do picadinho de teu jantar sobre a mesa pronta.
Não há acaso neste nosso mundo:
Causa e efeito são poderes sombrios, implacáveis, profundos.
Eles regem o mundo. (Um rei foi baleado ontem à noite.
Ontem à noite eu tinha o coringa e os dois trunfos.)
Da malha do destino erguemos a cabeça.
Não podemos fazer o que queremos, mas o que nos seja
Necessário. A hereditariedade nos tem em aperto.
(Pensamento consolador, quando andaste numa bebedeira por perto.)
Escuta a canção em que vozes esféricas se enlaçam:
“Não há princípio, nunca haverá fim.”
Isso nos deixa birutas; ao diabo os sinos astrais!
A mesa está posta; vem, jantemos, meu amigo, enfim.
OS HOMENS QUE NÃO SE ENCAIXAM
Há uma raça de homens que não se encaixam,
Uma raça que não sabe ficar parada;
Por isso partem o coração dos seus e dos parentes,
E vagueiam pelo mundo à vontade.
Percorrem o campo e vagam sobre as águas,
E sobem ao cimo da montanha;
Deles é a maldição do sangue cigano,
E eles não sabem repousar.
Se apenas seguissem direito, poderiam ir longe;
São fortes, valentes e leais;
Mas estão sempre fartos das coisas que existem,
E querem o estranho e o novo.
Dizem: “Se eu achasse meu próprio sulco,
Que marca profunda eu faria!”
Assim cortam e mudam, e cada novo movimento
É apenas um novo engano.
E cada qual esquece, enquanto se despe e dispara,
Com passo brilhante e irregular,
Que são os constantes, quietos e obstinados
Que vencem na corrida da vida inteira.
E cada qual esquece que a juventude fugiu,
Esquece que seu apogeu passou,
Até postar-se um dia com uma esperança morta
No clarão da verdade, enfim.
Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.
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