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Canções de um Sourdough

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Canções de um Sourdough

Capítulo 18 · Canções de um Sourdough

Véspera De Ano-Novo

18 de 20 ≈ 4 min de leitura

E alguns de nós escalam o pico,
E alguns de nós acampam na planície;
Junto ao pinheiro e à palmeira nos achareis, sem concessão que nos prenda,
Por picadas e trilhas nos encontrareis outra vez.

Somos servos fadados à liberdade — céu e mar;
Fracassamos onde as cidades imundas transbordam;
Mas os caminhos estranhos da terra conhecem nosso orgulho e nosso valor,
E entramos na escuridão como entram os combatentes.

Sim, entramos na noite como entram os bravos,
Embora nossos rostos muitas vezes estejam riscados de dor;
Contudo somos duros de matar como gatos,
E nossos corações ainda são temerários,
E já dançamos com a morte uma dúzia de vezes ou mais.

E nos achareis no Alasca atrás de ouro,
E nos achareis tocando gado no Sul.
Gostamos de bebida forte e diversão; e, quando a corrida termina,
Muitas vezes morremos com pragas na boca.

Somos bravios como potros não domados, mas nunca vis;
Para nossos pecados temos ombros largos que suportem a culpa;
Mas nunca ficaremos na cidade, e nunca nos assentaremos,
E nunca teremos objeto nem alvo.

Não, há em nós algo que o tempo jamais pode domar;
E a vida sempre parecerá um jogo descuidado;
E melhor fariam esquecendo —
Aqueles que dizem ainda nos amar —
Esquecer, apagar com amargura o nosso nome.

VÉSPERA DE ANO-NOVO

Faz frio cruel no cais, silencioso, escuro e sombrio;
Só a maré negra a revolver-se, só a neve sibilante;
E eu, sozinho, como destroço lançado pela tormenta, nesta noite do alegre
Ano-Novo,
Arrastando-me no vento gelado, espectral, macilento e lento.

Tocam uma música no saloon de McGuffy, e lá dentro tudo é alegre e
claro
(Deus! como estou fraco — desde a aurora amarga, e nem um bocado de comida);
Vou apenas atravessar e escorregar para dentro — não devo ceder ao desespero —
Talvez consiga filar um pouco de bebida, se os rapazes estiverem de bom humor.

Vão zombar de mim, e escarnecer de mim, e me chamar de
encharcado de uísque;
(“Um trago? Ora, muito obrigado, senhor, não me importo se tomar.”)
Um demônio babão e sujo de boteco de gim, alvo das pilhérias do bar;
Afundado, ensopado e sem esperança — “Outro? Pois então, à sua saúde!”

McGuffy mostra a um bando de rapazes como Bob Fitzsimmons batia;
O barman fala de Tammany Hall, e por que o chefe do distrito foi
despedido;
Vou apenas me enfiar num canto, e me deixarão um pouco em paz;
A sala gira e gira ao redor... Ó Deus, como estou cansado, estou
cansado....

* * * * *

Rosas ela trazia no peito naquela noite. Oh, mas seu perfume era doce;
Sozinhos nos sentamos na sacada, e as palmeiras-leque arqueavam-se acima;
O feitiço de uma valsa de Strauss subia até nosso fresco retiro,
E eu prendi sua pequena mão na minha, e sussurrei meu pedido de
amor.

Então, de súbito, o riso morreu em seus lábios, e ela baixou docemente a cabeça;
E oh, surgiu nos olhos fundos e escuros um olhar que era o céu
de se ver,
E os instantes passaram, e eu esperei ali, e nenhuma palavra foi dita,
E ela arrancou do peito uma rosa vermelha, e timidamente a deu
a mim.

Então a música inchou num estrondo de alegria, e as luzes arderam
como dia;
E eu a apertei firme contra meu coração palpitante, e beijei sua bela
fronte;
“Ela é minha, ela é minha para sempre!” os violinos pareciam dizer,
E os sinos anunciavam a entrada do Ano-Novo — ó Deus! posso ouvi-los
agora.

Não te lembras daquela longa, última valsa, com seu refrão triste
e soluçante?
Não te lembras daquele último adeus, e dos olhos queridos turvos de
lágrimas?
Não te lembras daquele sonho dourado, sem um só pressentimento de dor,
De vidas que se uniriam como cântico de anjos na bem-aventurança do
ano vindouro?

Oh, que perdi eu! Que perdi eu! Ethel, perdoa, perdoa!
A rosa rubra, rubra, agora está murcha, e isso foi há cinquenta anos.
Melhor seria morrer mil mortes que viver cada dia como vivo!
Pequei, afundei-me nas profundezas mais baixas — mas oh, como
sofri!

Canções de um Sourdough

Sinopse

Coletânea poética de Robert W. Service sobre o Yukon, a vida de fronteira, a solidão, a aventura e os homens atraídos pelo Norte, em tradução literária para português do Brasil.

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