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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 2 · A Arte da Prudência

Aforismos I-XXV

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Aforismos I-XXV

I. Tudo já está em seu ponto; e ser pessoa, no maior.

Hoje se exige mais para um sábio do que antigamente para sete; e é preciso mais para tratar com um só homem nestes tempos do que, nos passados, com todo um povo.

II. Gênio e engenho.

São os dois eixos do brilho das qualidades: um sem o outro dá felicidade apenas pela metade. Não basta ser entendido; deseja-se também o natural feliz. Desgraça de néscio: errar a vocação no estado, no ofício, na terra, na familiaridade.

III. Conduzir seus assuntos com suspensão.

A admiração da novidade é estima dos acertos. Jogar a jogo descoberto não traz utilidade nem gosto. Não se declarar logo mantém suspensa a atenção, sobretudo quando a grandeza do emprego dá motivo à expectativa universal; insinua mistério em tudo e, por sua própria reserva, provoca veneração. Mesmo ao fazer-se entender, deve-se fugir da lhanura, assim como no trato não se deve franquear o interior a todos. O silêncio recatado é sagrado da prudência. A resolução declarada nunca foi estimada; antes se entrega à censura, e, se sair mal, será duas vezes infeliz.

Imite-se, pois, o proceder divino, para conservar os outros à espera e em vigília.

IV. Saber e valor alternam grandeza.

Porque são grandes, tornam imortais. Tanto é alguém quanto sabe; e o sábio tudo pode. Homem sem notícias, mundo às escuras. Conselho e forças, olhos e mãos: sem valor, a sabedoria é estéril.

V. Fazer depender.

Não faz o nume quem o doura, mas quem o adora: o sagaz prefere os que precisam dele aos que apenas lhe agradecem. Confiar na gratidão vil é roubar a esperança cortês, pois, quanto esta é memoriosa, aquela é esquecediça. Mais se tira da dependência que da cortesia: o satisfeito logo vira as costas à fonte, e a laranja espremida cai do ouro ao lodo. Acabada a dependência, acaba a correspondência; e, com ela, a estimação.

Seja lição, e das primeiras na experiência, conservá-la sem satisfazê-la de todo, mantendo sempre em necessidade de si até mesmo o patrono coroado. Mas não se deve chegar ao excesso de calar para que ele erre, nem tornar incurável o dano alheio por proveito próprio.

VI. Homem em seu ponto.

Não se nasce feito: vai-se, a cada dia, aperfeiçoando a pessoa e o ofício até chegar ao ponto do ser consumado, ao complemento das prendas e das eminências. Reconhece-se isso no realce do gosto, na purificação do engenho, na maturidade do juízo, no depuramento da vontade. Alguns nunca chegam a ser cabais; falta-lhes sempre alguma coisa. Outros demoram a fazer-se. O varão consumado, sábio nos ditos e prudente nos feitos, é admitido e até desejado no singular comércio dos discretos.

VII. Evitar vitórias sobre o patrono.

Toda vitória é odiosa; sobre o senhor, ou é tola, ou fatal. A superioridade sempre foi aborrecida, quanto mais diante da própria superioridade. Vantagens vulgares costuma a atenção dissimular, como quem desmente a beleza pelo desalinho. Encontrar-se-á quem queira ceder na fortuna e no gênio; no engenho, ninguém, muito menos uma soberania. Este é atributo de rei, e qualquer crime contra ele é de lesa-majestade. Os soberanos o são e querem sê-lo naquilo que mais importa. Gostam os príncipes de ser ajudados, não excedidos; e que o aviso pareça antes lembrança do que esqueciam do que luz sobre o que não alcançaram. Ensinam-nos esta sutileza os astros: embora filhos e brilhantes, nunca se atrevem aos fulgores do sol.

VIII. Homem impassível.

É prenda da maior alteza de ânimo. Sua própria superioridade o redime da sujeição a impressões vulgares e estranhas. Não há maior senhorio que o de si mesmo e de seus afetos, que chega a ser triunfo do livre-arbítrio. E, quando a paixão ocupar a pessoa, que não se atreva ao ofício, tanto menos quanto mais alto ele for: modo culto de poupar desgostos e ainda atalhar danos à reputação.

IX. Desmentir os achaques de sua nação.

A água participa das qualidades boas ou más dos veios por onde passa; e o homem, das do clima onde nasce. Uns devem mais que outros às suas pátrias, pois lhes coube ali um zênite mais favorável. Não há nação que escape de algum defeito original; até as mais cultas logo são censuradas pelos vizinhos, por cautela ou por consolo. É destreza vitoriosa corrigir, ou ao menos desmentir, esses desdouros nacionais: conquista-se assim o plausível crédito de único entre os seus, pois o que menos se esperava se estima mais. Há também achaques da linhagem, do estado, do ofício e da idade; se todos coincidem num sujeito e a atenção não os previne, fazem dele um monstro intolerável.

X. Fortuna e fama.

O que uma tem de inconstante, a outra tem de firme. A primeira serve para viver; a segunda, para depois. Aquela protege contra a inveja; esta, contra o esquecimento. A fortuna se deseja e às vezes se ajuda; a fama se trabalha. O desejo de reputação nasce da virtude. Foi, e é, irmã de gigantes a fama: anda sempre por extremos, ou monstros, ou prodígios, de abominação ou de aplauso.

XI. Tratar com quem se possa aprender.

Seja o trato amigável escola de erudição, e a conversa, ensino culto: fazer dos amigos mestres, unindo a utilidade de aprender ao gosto de conversar. Alterna-se a fruição com os entendidos, aproveitando o que se diz pelo aplauso com que se recebe, e o que se ouve pelo ensinamento que traz. Ordinariamente nos leva a outro a conveniência própria; aqui, enobrecida. O atento frequenta as casas daqueles heróis cortesãos que são mais teatros de heroicidade que palácios de vaidade. Há senhores acreditados como discretos que, além de serem eles mesmos oráculos de toda grandeza por exemplo e trato, fazem do cortejo dos que os assistem uma academia cortês de toda boa e galante discrição.

XII. Natureza e arte; matéria e obra.

Não há beleza sem ajuda, nem perfeição que não dê em barbárie sem o realce do artifício. A arte socorre o mau e aperfeiçoa o bom. A natureza comumente nos deixa no melhor ponto apenas em bruto; acolhamo-nos à arte. O melhor natural é inculto sem ela, e falta metade às perfeições quando lhes falta cultura. Todo homem sabe a tosco sem artifício, e precisa polir-se em toda ordem de perfeição.

XIII. Agir com intenção, ora segunda, ora primeira.

A vida do homem é milícia contra a malícia do homem; a sagacidade peleja com estratagemas de intenção. Nunca faz o que indica; aponta, sim, para deslumbrar. Ameaça o ar com destreza e executa na realidade inesperada, sempre atenta a desmentir. Lança uma intenção para assegurar-se contra a atenção rival, e logo se volta contra ela, vencendo pelo impensado.

Mas a inteligência penetrante a previne com atenções refletidas, espreita-a, entende sempre o contrário daquilo que querem que entenda e percebe logo qualquer tentativa de falso. Deixa passar toda primeira intenção e fica à espera da segunda e até da terceira. A simulação aumenta ao ver descoberto seu artifício, e pretende enganar com a própria verdade: muda de jogo por mudar de artimanha, e faz artifício do não artifício, fundando sua astúcia na maior candura. Acorre a observação, entendendo-lhe a perspicácia, e descobre as trevas revestidas de luz; decifra a intenção tanto mais escondida quanto mais simples. Assim combatem a calidez de Píton e a candidez dos penetrantes raios de Apolo.

XIV. A realidade e o modo.

Não basta a substância; requer-se também a circunstância. Um mau modo estraga tudo, até a justiça e a razão. O bom tudo supre: doura o não, adoça a verdade e enfeita a própria velhice. O como tem grande parte nas coisas, e o pequeno modo é jogador dos gostos. Um belo portar-se é a gala do viver; desempenha singularmente todo bom termo.

XV. Ter engenhos auxiliares.

Felicidade dos poderosos: acompanhar-se de valentes de entendimento que os tirem de todo aperto ignorante e lhes pelejem as pendências da dificuldade. É singular grandeza servir-se de sábios, e excede o gosto bárbaro de Tigranes, que afetava ter reis vencidos por criados. Novo gênero de senhorio: no melhor do viver, fazer servos por arte daqueles que a natureza fez superiores.

Há muito que saber e pouco que viver; e não se vive se não se sabe. É, pois, singular destreza estudar sem custo, e muito por muitos, sabendo por todos. Depois, fala-se em conselho por muitos, ou por sua boca falam tantos sábios quantos o preveniram, conquistando crédito de oráculo com suor alheio. Esses primeiro escolhem a lição, e depois o servem na quinta-essência do saber. Mas quem não puder alcançar a sabedoria em servidão, logre-a em familiaridade.

XVI. Saber com reta intenção.

Assegura fecundidade de acertos. Monstruosa violência foi sempre um bom entendimento casado com má vontade. A intenção malévola é veneno das perfeições e, ajudada pelo saber, corrompe com maior sutileza. Infeliz eminência a que se emprega na vileza. Ciência sem senso é loucura dobrada.

XVII. Variar o teor no agir.

Não proceder sempre de um só modo, para deslumbrar a atenção, sobretudo se rival. Nem sempre de primeira intenção, pois lhe apanharão a uniformidade, prevenindo-o e até frustrando-lhe as ações. Fácil é matar em voo a ave que segue sempre o mesmo rumo; não assim a que o torce. Nem sempre de segunda intenção, pois entenderão a artimanha à segunda vez. A malícia está à espera; grande sutileza é necessária para desmenti-la. O jogador nunca joga a peça que o contrário presume, e menos ainda a que deseja.

XVIII. Aplicação e Minerva.

Não há eminência sem ambas; e, se concorrem, há excesso. Mais consegue uma mediania com aplicação que uma superioridade sem ela. Compra-se a reputação a preço de trabalho; pouco vale o que pouco custa. Até para os primeiros empregos se desejou, em alguns, a aplicação: raras vezes desmente o gênio. Não ser eminente no emprego vulgar por querer ser mediano no sublime tem desculpa de generosidade; mas contentar-se em ser mediano no último, podendo ser excelente no primeiro, não a tem. Requerem-se, pois, natureza e arte; e a aplicação lhes põe o selo.

XIX. Não entrar com expectativa excessiva.

Desaire ordinário de tudo o que é muito celebrado antes: depois não alcançar o excesso concebido. Nunca o verdadeiro pode chegar ao imaginado, porque fingir perfeições é fácil, e consegui-las muito dificultoso. A imaginação casa-se com o desejo e concebe sempre muito mais do que as coisas são. Por grandes que sejam as excelências, não bastam a satisfazer o conceito; e, como o encontram enganado pela expectativa exorbitante, antes o desenganam que o admiram. A esperança é grande falsificadora da verdade: corrija-a a prudência, procurando que a fruição seja superior ao desejo.

Alguns princípios de crédito servem para despertar a curiosidade, não para empenhar o objeto. Melhor sai quando a realidade excede o conceito e é mais do que se acreditou. Esta regra falhará no mau, pois a própria exageração o ajuda: desmentida com aplauso, chega até a parecer tolerável aquilo que se temeu como extremo de ruindade.

XX. Homem em seu século.

Os sujeitos eminentemente raros dependem dos tempos. Nem todos tiveram o século que mereciam, e muitos, embora o tivessem, não souberam aproveitá-lo. Alguns foram dignos de melhor século, pois nem todo bem triunfa sempre; as coisas têm sua vez, e até as eminências seguem o uso. Mas o sábio leva uma vantagem: é eterno; e, se este não é o seu século, muitos outros o serão.

XXI. Arte para ser ditoso.

Há regras de ventura, pois nem tudo é acaso para o sábio; pode a felicidade ser ajudada pela indústria. Alguns se contentam em postar-se de bom ar às portas da fortuna e esperam que ela opere. Outros, melhores, passam adiante e se valem da audácia cordata, que, nas asas de sua virtude e valor, pode alcançar a dita e lisonjeá-la eficazmente. Mas, bem filosofado, não há outro arbítrio senão o da virtude e da atenção, porque não há mais dita nem mais desdita que prudência ou imprudência.

XXII. Homem de notícias plausíveis.

É munição dos discretos a erudição cortês, gostosa: um saber prático de tudo o que corre, mais noticioso que vulgar. Ter uma cópia bem temperada de sais nos ditos, de galanteria nos feitos, e saber empregá-los na ocasião; pois às vezes saiu melhor o aviso num chiste que no mais grave magistério. Sabedoria conversável valeu mais a alguns que todas as sete artes, por mais liberais que fossem.

XXIII. Não ter algum desdouro.

É o destino da perfeição. Poucos vivem sem achaque, tanto no moral como no natural, e se apaixonam por eles quando poderiam curá-los facilmente. Dói à prudência alheia ver que a uma sublime universalidade de prendas se atreva, às vezes, um mínimo defeito; e basta uma nuvem para eclipsar todo um sol. São manchas da reputação, onde logo para, e até repara, a malevolência. Grande destreza seria convertê-las em realces. Assim soube César laurear o desaire natural.

XXIV. Temperar a imaginação.

Umas vezes corrigindo-a, outras ajudando-a, pois ela é tudo para a felicidade e até ajusta a prudência. Torna-se tirana: não se contenta com a especulação, mas age, e costuma assenhorear-se da vida, fazendo-a gostosa ou pesada conforme a necedade em que cai, pois torna os homens descontentes ou satisfeitos consigo mesmos. A uns representa continuamente penas, feita verdugo doméstico de néscios. A outros propõe felicidades e aventuras com alegre desvanecimento. Tudo isso pode, se não a freia a prudentíssima sindérese.

XXV. Bom entendedor.

Arte das artes era saber discorrer; já não basta: é preciso adivinhar, sobretudo nos desenganos. Não pode ser entendido quem não for bom entendedor. Há zahoris do coração e linces das intenções. As verdades que mais nos importam vêm sempre ditas pela metade; receba-as o atento por inteiro. No favorável, puxe as rédeas à credulidade; no odioso, dê-lhe espora.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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