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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 9 · A Arte da Prudência

Aforismos CLXXVI-CC

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Aforismos CLXXVI-CC

CLXXVI. Saber, ou ouvir quem sabe.

Sem entendimento, próprio ou emprestado, não há viver. Mas há muitos que ignoram que não sabem, e outros que pensam saber não sabendo. São incuráveis os males da necedade, porque, como os ignorantes não se conhecem, não procuram o que lhes falta. Alguns seriam sábios se não cressem sê-lo.

Por isso, embora sejam raros os oráculos da prudência, vivem ociosos, porque ninguém os consulta. Não diminuirá a grandeza nem arguirá incapacidade consultar; antes abonará. Discorrer com a razão é atalhar contra a desdita.

CLXXVII. Evitar demasiada familiaridade no trato.

Não se deve usá-la nem permiti-la. Quem se familiariza perde a superioridade que lhe dava a inteireza e, com ela, a estima. Os astros, por se conservarem tão afastados, mantêm o esplendor. A divindade pede veneração; a familiaridade gera menosprezo.

Com as coisas humanas, quanto maior a comunicação, menor a estima, porque a comunicação descobre as imperfeições que o recato encobria. Com ninguém convém familiaridade: nem com superiores, por perigosa; nem com inferiores, por indecente; e menos ainda com a plebe, que, por néscia, é insolente, e não reconhecerá o favor, mas presumirá obrigação. A familiaridade é aparentada da vulgaridade.

CLXXVIII. Crer no coração.

E sobretudo quando é provado. Nunca se lhe deve contradizer, pois costuma ser prognóstico do que mais importa. É oráculo caseiro. Muitos pereceram do que temiam; mas de que lhes serviu temê-lo sem o remédio? Há alguns de coração muito leal: vantagem de superior natureza, que sempre os previne e toca rebate contra a desventura para que acudam ao abrigo.

Não é prudente sair ao encontro dos males, mas sim ir-lhes ao encontro para vencê-los.

CLXXIX. A retentiva é selo da capacidade.

Na arca da memória está o melhor fundo; e, se esta falta, falta tudo. Ali se conserva o saber, que é custoso, e o juízo, que também. Sem ela, reduzem-se todas as prendas a defeito; porque sem memória não há cabedal, nem riqueza de espírito.

Feliz quem a tem pronta e fiel: pronta para acudir, fiel para guardar. Mas também é preciso saber esquecer; às vezes a melhor memória é saber não lembrar o que convém deixar passar.

CLXXX. Nunca se reger pelo que o inimigo deveria fazer.

O néscio nunca fará o que convém, porque não discerne o melhor; e o prudente talvez não o faça, porque o inimigo espera que o faça. Há de se mirar pelos dois lados e prevenir ambos. Não se governe a própria resolução pelo acerto alheio, e menos pelo do adversário.

Muitas vezes se perde quem imagina muito cordato o contrário; e outras, quem o supõe demasiado simples. A prudência deve armar-se tanto contra a malícia quanto contra a ignorância.

CLXXXI. Sem mentir, não dizer todas as verdades.

Nada exige mais tento que a verdade: é sangrar o coração. Tanto é mister saber dizê-la quanto calá-la. Com uma só mentira perde-se todo o crédito de inteiro; tem-se por engano o enganado, e por falso o enganador, o que é pior.

Nem todas as verdades se podem dizer; umas por si mesmo, outras por outrem. A verdade é remédio forte, e nem todo estômago a suporta. Deve-se temperá-la com a ocasião, a necessidade e o modo. Dita sem arte, deixa de ser verdade útil e passa a ser aspereza.

CLXXXII. Um grão de audácia com todos é importante prudência.

Convém moderar o conceito dos outros; muitos se impõem só porque não encontram resistência. Há pessoas que fazem grande volume de sombra, mas, se se lhes chega perto, descobrem-se pequenas. A confiança alheia cresce com a nossa timidez.

Um ponto de atrevimento, governado pela razão, abre caminho à estima. Não é temeridade, mas brio. Quem sempre se encolhe convida o mundo a pisá-lo; quem se mostra inteiro obriga a que o tratem com medida.

CLXXXIII. Não se prender com força ao próprio parecer.

Todo néscio é tenaz, e todo tenaz é néscio; quanto mais errado o juízo, mais firme a teima. Mesmo na evidência convém ceder, pois não se perde autoridade em reconhecer a razão, antes se ganha crédito de juízo.

A firmeza deve estar na vontade honrada, não na opinião equivocada. Há diferença entre constância e obstinação: uma é virtude; a outra, enfermidade do entendimento.

CLXXXIV. Não ser cerimonioso.

Até em reis foi afetada essa singularidade. O excesso de cerimônia é enfadonho, e alguns fazem dele grandeza. A dignidade não depende de muita etiqueta, mas de natural gravidade e decoro. O homem de substância não precisa revestir-se de aparatos a cada passo.

Contudo, também não se deve cair na descortesia. O melhor termo é a urbanidade fácil: cumprir sem oprimir, honrar sem cansar, guardar respeito sem fazer do trato um tribunal.

CLXXXV. Nunca expor o crédito à prova de uma só vez.

Pois, se nela se perde, não se recupera facilmente. Sempre pode acontecer o mau acaso, e uma vez basta para desdourar muitos acertos. Não se aventure toda a reputação num único lance, porque o juízo comum é breve para agradecer e longo para censurar.

Tenha-se sempre alguma reserva, algum resguardo, alguma segunda saída. O prudente não joga todo o cabedal numa mão, nem põe a honra inteira à mercê de um dia; porque nem sempre se está de dia.

CLXXXVI. Conhecer os defeitos.

Por mais autorizado que seja o sujeito, ninguém vive sem eles. Até a perfeição tem sombras; e, em alguns, as prendas grandes fazem maiores os achaques, porque os tornam mais notados. Importa conhecê-los em si para os corrigir, e nos outros para os sofrer.

Há defeitos que se ocultam por arte, e outros que o aplauso encobre. Mas o atento os descobre, não para publicar, e sim para governar-se. Quem conhece a fraqueza própria põe guarda; quem conhece a alheia põe cautela.

CLXXXVII. Tudo o favorável, fazer por si; tudo o odioso, por terceiros.

Com o primeiro granjeia-se afeição; com o segundo evita-se ódio. As coisas agradáveis devem trazer a marca da mão própria; as desagradáveis, se necessárias, passem por ministros, porque a memória dos homens guarda mais o agravo que o benefício.

Não é covardia, mas política. O superior há de ser fonte dos favores e, quando puder, deixar que o rigor venha por lei, cargo ou intermediário. Assim se conserva a autoridade sem perder o amor.

CLXXXVIII. Trazer o que louvar.

É fineza de cortesia e de prudência. Quem entra achando que estimar entra estimado; e quem só traz censuras parece vir armado. Convém descobrir em cada um alguma excelência, pois todos desejam ser conhecidos pelo seu melhor.

O louvor oportuno abre portas que a razão nua não abriria. Não seja adulação, que envilece; seja reconhecimento, que honra quem o dá e quem o recebe. Trazer que louvar é trazer paz no trato.

CLXXXIX. Valer-se da privação alheia.

A falta de uns é ocasião de outros. A carência desperta o desejo, e quem sabe prover o que falta torna-se necessário. Assim como se mede o apreço pela necessidade, também cresce o valor das coisas quando são raras.

Mas use-se com decência essa vantagem. Não se deve explorar misérias, e sim conhecer oportunidades. Há grande diferença entre servir a uma privação e abusar dela: a primeira granjeia reconhecimento; a segunda, rancor.

CXC. Achar consolo em tudo.

Até nas desgraças há seu alívio, se o engenho o sabe procurar. Nenhum mal vem tão puro que não traga alguma mistura de bem; e, se não há remédio, ao menos há conorte. A prudência tem alquimia para tirar algum proveito até do dano.

Uns aumentam a pena com a imaginação; outros a diminuem com a consideração. O que não se pode vencer por fora vença-se por dentro. Quem sabe consolar-se possui uma segunda fortuna.

CXCI. Não se pagar da muita cortesia.

Costuma ser disfarce de engano. Há cortesias que parecem ervas da Tessália: encantam para melhor vencer. O muito afago às vezes é preparação do golpe; e quem se deixa comprar por palavras paga caro o gosto de ouvi-las.

Receba-se a urbanidade com agradecimento, mas sem entregar o juízo. Nem tudo o que suaviza é amigo; muitas vezes a lisonja unge para prender. A cortesia verdadeira tem medida; a excessiva pede exame.

CXCII. Homem de grande paz, homem de muita vida.

Para viver, deixe viver. Os pacíficos não apenas vivem, mas reinam sobre si. A paz é o leito da fortuna, e quem a conserva poupa muitos dias de alma. As contendas gastam mais do que vencem; e, ainda quando se ganha a demanda, perde-se sossego.

Não se trata de frouxidão, mas de senhorio. Há paz vil, que nasce do medo; e paz nobre, que nasce da prudência. Esta sabe evitar o choque sem ceder a honra, e vence muitas batalhas não as travando.

CXCIII. Atenção ao que entra com a alheia para sair com a sua.

Há quem começa defendendo interesse de outro para introduzir o seu. Vem como medianeiro e acaba pretendente; traz causa emprestada e descobre intento próprio. É arte comum dos ardilosos: pedir para terceiros até se fazerem atendidos por si.

Convém mirar não apenas o que se diz, mas para onde se encaminha. Muitos rodeios são portas falsas. O atento pergunta: que quer este afinal? E, achando o centro, não se deixa governar pela circunferência.

CXCIV. Conceber de si e de suas coisas prudentemente.

Sobretudo no princípio. Todos se prometem muito de si, e a esperança é grande aduladora. O amor-próprio pinta com cores favoráveis, e daí nascem empresas mal medidas e desenganos custosos.

Conheça cada um seu cabedal, seus limites e seu tempo. Nem se abata por humildade fingida, nem se levante por presunção cega. A justa estima de si é fundamento de todos os acertos, porque quem se mede bem se aplica melhor.

CXCV. Saber estimar.

Não há coisa que mais careça de juízo. Muitos apreciam pelo ruído, outros pela distância, outros pelo favor da moda. O valor verdadeiro costuma estar encoberto, e o falso vem muitas vezes bem vestido.

Saber estimar é saber escolher, conservar e preferir. O prudente não compra aplausos por méritos, nem despreza o que não reluz. Dá preço às coisas pelo uso, às pessoas pela substância, e às ocasiões pelo fruto.

CXCVI. Conhecer sua estrela.

Ninguém deve ignorar a própria fortuna. Há sujeitos de estrela feliz para umas coisas e infeliz para outras; uns nasceram para mandar, outros para persuadir, outros para sofrer, outros para executar. Conhecer essa inclinação da sorte é grande parte do governo de si.

Não se force o céu contra a própria natureza. Quem acerta com sua estrela navega com vento; quem a contradiz, cansa-se em remar. A prudência consiste em descobrir onde a fortuna costuma favorecer e ali pôr o esforço.

CXCVII. Nunca embaraçar-se com néscios.

Quem não os conhece é néscio, e mais quem, conhecendo-os, não os evita. São perigosos para o trato superficial e ruinosos para a confiança. Não há segurança onde falta juízo, porque a necedade tropeça até no liso.

Pior é o néscio autorizado: com poder, sua ignorância faz dano público. Fuja-se deles quanto possível; e, se a necessidade obriga a sofrê-los, seja com pouca matéria, poucas palavras e muita paciência.

CXCVIII. Saber transplantar-se.

Há terras que fazem frutificar umas prendas e esterilizam outras. Nem todos nascem para o lugar em que nasceram. Alguns se perdem por permanecer onde não têm ocasião, e outros se acham quando mudam de clima, estado ou companhia.

É grande arte conhecer o terreno conveniente. Transplantar-se não é inconstância, quando o sítio antigo é cárcere do mérito. A planta nobre pede chão capaz; o homem de valor, esfera onde possa mostrar-se.

CXCIX. Saber fazer lugar ao prudente, não ao intrometido.

Abrir caminho com mérito é arte; entrar à força é descaro. Há os que se fazem necessários pela substância, e há os que se metem por ruído. O prudente procura ocasião legítima, não invade; merece entrada, não a arromba.

O mundo estima o que chega com conveniência e repele o que entra por atrevimento vulgar. Saiba-se, pois, fazer lugar com tempo, serviço e decoro. O lugar ganho pela prudência dura; o tomado pela intromissão irrita.

CC. Ter o que desejar.

Para não ser infeliz de felicidade. O corpo respira e o espírito aspira. Se tudo se possuísse, tudo seria desengano e fastio. Até o entendimento quer sempre algo mais que conhecer, e a vontade algo mais que lograr.

Convém conservar alguma esperança honesta, algum alvo adiante, algum exercício do desejo. O desejo é alimento da vida quando moderado pela razão. Quem nada tem que desejar começa a sobrar a si mesmo.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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