Universo da obra
Universo da obra
Ou tudo é bom, ou tudo é mau, conforme os votos. O que este segue, aquele persegue. Insuportável néscio é quem quer regular todo objeto por seu conceito. As perfeições não dependem de um só agrado: tantos são os gostos como os rostos, e tão variados. Não há defeito sem afeto; nem se deve desconfiar porque as coisas não agradam a alguns, pois não faltarão outros que as apreciem. Nem mesmo o aplauso destes seja matéria de desvanecimento, pois outros o condenarão.
A norma da verdadeira satisfação é a aprovação dos varões de reputação e que têm voto naquela ordem de coisas. Não se vive de um só voto, nem de um só uso, nem de um só século.
No corpo da prudência, não é a parte menos importante um grande bucho, pois de grandes partes se compõe uma grande capacidade. Não se embaraça com as boas ditas quem merece outras maiores; o que é fartura em uns é fome em outros.
Há muitos a quem qualquer manjar muito importante se estraga pela curteza do natural, não acostumado nem nascido para empregos tão sublimes. Azeda-se-lhes o trato, e, com os fumos que se levantam da honra postiça, vem a desvanecer-se-lhes a cabeça. Correm grande perigo nos lugares altos, e não cabem em si porque a sorte não cabe neles. Mostre, pois, o varão grande que ainda lhe restam larguezas para coisas maiores, e fuja com especial cuidado de tudo o que possa dar indício de coração estreito.
Sejam todas as ações, se não de rei, dignas de tal segundo sua esfera; o proceder real, dentro dos limites de sua sorte prudente: sublimidade de ações, elevação de pensamentos. Em todas as suas coisas represente um rei por méritos, quando não por realidade, pois a verdadeira soberania consiste na inteireza dos costumes. Nada terá a invejar à grandeza quem puder ser norma dela.
Especialmente aos chegados ao trono deve pegar-se algo da verdadeira superioridade: participem antes das prendas da majestade que das cerimônias da vaidade, sem afetar o imperfeito da inchação, mas sim o realçado da substância.
Há variedade neles: conhecimento magistral, e que necessita advertência. Uns pedem valor; outros, sutileza. São mais fáceis de manejar os que dependem da retidão, e mais difíceis os que dependem do artifício. Com um bom natural não é necessário mais para aqueles; para estes não basta toda a atenção e desvelo.
Trabalhosa ocupação é governar homens, e mais ainda loucos ou néscios: dobrado senso é preciso para quem não o tem. Emprego intolerável é o que pede um homem inteiro, de horas contadas e matéria certa; melhores são os livres de fastio, juntando a variedade com a gravidade, porque a alternância refresca o gosto. Os mais autorizados são os que têm menos dependência, ou mais distante; e o pior é aquele que no fim faz suar na residência humana, e mais ainda na divina.
Costuma ser pesado o homem de um só negócio, e o de uma só palavra. A brevidade é lisonjeira, e mais negociadora: ganha pelo cortês o que perde pelo curto. O bom, se breve, duas vezes bom; e até o mau, se pouco, não tão mau. Mais operam quintas-essências que farragens; e é verdade comum que homem longo raras vezes é entendido, não tanto no material da disposição quanto no formal do discurso.
Há homens que servem mais de embaraço que de adorno ao universo, alfaias perdidas que todos afastam. Evite o discreto embaraçar, e muito menos a grandes personagens, que vivem muito ocupados; seria pior desazonar um deles que todo o restante do mundo. O bem dito diz-se depressa.
Mais ofende ostentar a dignidade que a pessoa. Fazer-se de grande é odioso; bastava-lhe ser invejado. A estima se consegue tanto menos quanto mais se busca; depende do respeito alheio, e assim ninguém pode tomá-la para si, mas merecê-la dos outros e aguardá-la. Os grandes empregos pedem autoridade ajustada a seu exercício, sem a qual não podem ser exercidos dignamente.
Conserve a autoridade que merece para cumprir o substancial de suas obrigações: não a esprema, ajude-a. Todos os que fazem do fazendeiro no emprego dão indício de que não o mereciam, e de que a dignidade lhes veio sobreposta. Se houver de valer-se, seja antes do eminente de suas prendas que do adventício; pois até um rei deve ser venerado mais pela soberania pessoal que pela extrínseca.
Viva nem descontente, que é pequenez, nem satisfeito, que é necedade. Nasce a satisfação, na maioria, da ignorância, e para numa felicidade néscia que, embora entretenha o gosto, não mantém o crédito. Como não alcança as perfeições superlativas nos outros, paga-se de qualquer vulgar mediania em si.
Sempre foi útil, além de prudente, o receio: ou para prevenção de que as coisas saiam bem, ou para consolo quando saírem mal, pois não se faz novo o desaire da sorte a quem já o temia. O próprio Homero dormita às vezes, e Alexandre cai de seu estado e de seu engano. As coisas dependem de muitas circunstâncias; e a que triunfou num posto e numa ocasião, em outra se malogra. Mas a incorregibilidade do néscio está em que a mais vã satisfação se converteu em flor, e sua semente vai brotando sempre.
É muito eficaz o trato. Comunicam-se os costumes e os gostos. Pega-se o gênio, e até o engenho, sem sentir. Procure, pois, o pronto juntar-se ao comedido; e assim nos demais gênios: com este conseguirá a temperança sem violência. É grande destreza saber temperar-se.
A alternância de contrariedades embeleza o universo e o sustenta; e, se causa harmonia no natural, maior ainda no moral. Valha-se dessa advertência política na escolha de familiares e auxiliares, pois com a comunicação dos extremos se ajustará um meio muito discreto.
Há homens de gênio feroz que tudo fazem delito, e não por paixão, mas por natureza. A todos condenam: a uns porque fizeram, a outros porque farão. Indicam ânimo pior que cruel, que é vil, e acriminam com tal exageração que dos átomos fazem vigas para arrancar olhos. São feitores em todo posto, fazendo galera do que seria Elísio; e, se medeia a paixão, de tudo fazem extremos. Ao contrário, a ingenuidade para tudo acha saída, se não por intenção, por inadvertência.
Máxima dos prudentes é deixar as coisas antes que elas os deixem. Saiba alguém fazer triunfo do próprio fenecer; pois às vezes o próprio sol, no bom luzir, costuma retirar-se a uma nuvem para que não o vejam cair, e deixa em suspensão se se pôs ou não.
Furte o corpo aos ocasos para não rebentar de desaires. Não espere que lhe voltem as costas, pois o sepultarão vivo para o sentimento e morto para a estima. O advertido jubila com tempo o cavalo corredor, e não espera que, caindo, levante riso em meio à carreira. Rompa a beleza o espelho com tempo e astúcia, não depois, por impaciência, ao ver seu desengano.
É o segundo ser. Todo amigo é bom e sábio para o amigo. Entre eles tudo sai bem. Tanto valerá alguém quanto os demais quiserem; e, para que queiram, deve-se ganhar-lhes a boca pelo coração. Não há feitiço como o bom serviço, e, para ganhar amizades, o melhor meio é fazê-las.
Depende dos outros a maior e melhor parte do que temos. Deve-se viver com amigos ou com inimigos. A cada dia se há de diligenciar um, ainda que não para íntimo, ao menos para afeiçoado; alguns ficam depois para confidentes, passando pelo acerto da escolha.
Até a primeira e suma causa, em seus maiores assuntos, a previne e a dispõe. Entra-se pelo afeto ao conceito. Alguns confiam tanto no valor que desestimam a diligência; mas a atenção sabe bem que é grande o rodeio dos méritos sozinhos, se não se ajudam do favor.
Tudo facilita e supre a benevolência. Nem sempre supõe as prendas: muitas vezes as põe, como o valor, a inteireza, a sabedoria, até a discrição. Nunca vê as fealdades, porque não as quereria ver. Nasce ordinariamente da correspondência material em gênio, nação, parentesco, pátria e emprego. A formal é mais sublime, em prendas, obrigações, reputação, méritos. Toda a dificuldade está em ganhá-la, pois com facilidade se conserva. Pode-se diligenciá-la e saber valer-se dela.
É bom arbítrio fazer no estio a provisão para o inverno, e com mais comodidade. Nessa época são baratos os favores, há abundância de amizades. Bom é conservar para o mau tempo, pois a adversidade é cara e falta de tudo. Haja reserva de amigos e agradecidos, pois algum dia se dará apreço ao que agora não se faz caso. A vilania nunca tem amigos: na prosperidade porque os desconhece, na adversidade porque a desconhecem.
Toda pretensão com oposição danifica o crédito. A competência tende logo a desdourar, para deslucir. São poucos os que fazem boa guerra; a emulação descobre os defeitos que a cortesia esqueceu. Muitos viveram acreditados enquanto não tiveram rivais.
O calor da contrariedade aviva ou ressuscita as infâmias mortas, desenterra fedores passados e antepassados. Começa-se a competição com manifesto de desdouros, ajudando-se de quanto pode e não deve; e, embora às vezes, e na maioria delas, as ofensas não sejam armas de proveito, a vingança faz delas vil satisfação, e as sacode com tal ar que faz saltar dos desaires o pó do esquecimento. Sempre foi pacífica a benevolência, e benévola a reputação.
Assim como aos maus rostos: é conveniência onde entra dependência. Há gênios ferozes com os quais não se pode viver, nem sem os quais se pode viver. É, pois, destreza ir-se acostumando, como à fealdade, para que não se façam novos na terribilidade da ocasião. A primeira vez espantam, mas pouco a pouco perde-se aquele primeiro horror, e a reflexão previne ou tolera os desgostos.
Pode-se empenhar com eles, e empenhá-los. Sua própria obrigação é a maior fiança de seu trato, até para baralhar, pois agem como quem são. Vale mais pelejar com gente de bem que triunfar sobre gente ruim. Não há bom trato com a ruindade, porque ela não se acha obrigada à inteireza. Por isso entre ruins nunca há verdadeira amizade, nem é de boa lei a fineza, embora o pareça, porque não é em fé da honra. Renegue sempre de homem sem ela, pois quem não a estima não estima a virtude; e a honra é o trono da inteireza.
Ou se há de louvar, que é desvanecimento, ou se há de vituperar, que é pequenez. E, sendo culpa de prudência em quem fala, é pena para quem ouve. Se isso deve ser evitado na familiaridade, muito mais em postos sublimes, onde se fala em comum e qualquer aparência de necedade já passa por necedade. O mesmo inconveniente de prudência há em falar dos presentes, pelo perigo de cair em um de dois escolhos: lisonja ou vitupério.
Basta para tornar alguém plausível. A cortesia é a principal parte da cultura, espécie de feitiço; assim concilia a graça de todos, como a descortesia o desprezo e o enfado universal. Se esta nasce de soberba, é aborrecível; se de grosseria, desprezível. A cortesia sempre deve ser mais que menos, mas não igual para todos, pois degeneraria em injustiça. Tem-se por dívida até entre inimigos, para que se veja seu valor. Custa pouco e vale muito: todo honrador é honrado. Galanteria e honra têm esta vantagem: ficam; aquela em quem a usa, esta em quem a faz.
Não se deve provocar a aversão, pois até sem querê-lo ela se adianta. Muitos há que aborrecem de graça, sem saber como nem por quê. A malevolência se antecipa à obrigação. É mais eficaz e pronta para o dano a irascível que a concupiscível para o proveito.
Alguns afetam ficar mal com todos, por gênio enfadonho ou enfadado; e, se uma vez o ódio se apodera, é difícil de apagar, como o mau conceito. Aos homens ajuizados temem; aos maldizentes aborrecem; aos presumidos enjoam; aos zombadores abominam; aos singulares deixam. Mostre, pois, estimar para ser estimado; e quem quer fazer casa, faz caso.
Até o saber deve ser ao uso; e, onde não se usa, é preciso saber fazer-se de ignorante. Mudam-se com os tempos o discorrer e o gostar: não se deve discorrer à antiga, e deve-se gostar à moderna. O gosto das cabeças dá voto em cada ordem de coisas. Esse se há de seguir por então, e adiantar-se à eminência.
Acomode-se o prudente ao presente, ainda que lhe pareça melhor o passado, tanto nos arreios da alma quanto nos do corpo. Só na bondade não vale esta regra de viver, pois sempre se há de praticar a virtude. Já se desconhece, e parece coisa de outros tempos, dizer a verdade, guardar a palavra; e os varões bons parecem feitos ao bom tempo, mas sempre amados. De sorte que, se alguns há, não se usam nem se imitam. Oh, grande infelicidade de nosso século, que se tenha a virtude por estranha e a malícia por corrente! Viva o discreto como pode, se não como quereria. Tenha por melhor o que lhe concedeu a sorte que aquilo que lhe negou.
Assim como alguns fazem de tudo conto, outros fazem de tudo negócio: sempre falam de importância, tudo tomam a sério, reduzindo tudo a pendência e mistério. Poucas coisas de enfado se devem tomar de propósito, pois isso seria empenhar-se sem empenho. É trocar os pontos tomar a peito o que se deve lançar às costas.
Muitas coisas que eram algo, deixando-as, foram nada; e outras que eram nada, por se fazer caso delas, foram muito. No princípio é fácil dar fim a tudo; depois, não. Muitas vezes o próprio remédio faz a doença; e não é a pior regra do viver deixar estar.
Abre muito lugar em toda parte e ganha de antemão o respeito. Influi em tudo: no conversar, no orar, até no caminhar; e ainda no olhar, no querer. É grande vitória tomar os corações. Não nasce de uma néscia intrepidez, nem de entretenimento enfadonho, mas de uma decente autoridade nascida do gênio superior e ajudada pelos méritos.
Quanto mais prendas, menos afetação, que costuma ser desdouro vulgar de todas. É tão enfadonha aos demais quanto penosa para quem a sustenta, porque vive mártir do cuidado e se atormenta com a pontualidade. As próprias eminências perdem seu mérito com ela, pois são julgadas nascidas antes da violência artificiosa que da livre natureza; e tudo o que é natural foi sempre mais grato que o artificial.
Os afetados são tidos por estrangeiros naquilo que afetam. Quanto melhor se faz uma coisa, mais se deve desmentir a indústria, para que se veja que a perfeição cai de seu natural. Nem, por fugir da afetação, se deve cair nela afetando não afetar. Nunca o discreto deve dar-se por entendido de seus méritos, pois o próprio descuido desperta nos outros a atenção. Duas vezes é eminente quem encerra todas as perfeições em si e nenhuma em sua estima; e por caminho contrário chega ao termo da plausibilidade.
Poucos chegaram a tanta graça das gentes; e, se dos prudentes, felicidade. É ordinária a tibieza com os que acabam. Há modos de merecer esse prêmio de afeição: a eminência no emprego e nas prendas é segura; o agrado, eficaz. Faz-se dependência da eminência, de modo que se note que o cargo precisou dele, e não ele do cargo. Uns honram os postos; a outros, os postos honram. Não é vantagem que pareça bom porque sucedeu a um mau, pois isso não é ser desejado absolutamente, mas ser o outro aborrecido.
Sinal de ter gasta a própria fama é cuidar da infâmia alheia. Alguns queriam, com as manchas dos outros, dissimular, se não lavar, as suas; ou se consolam, que é consolo de néscios. Cheira-lhes mal a boca, pois são os esgotos das imundícies civis.
Nessas matérias, quem mais escarva, mais se enlameia. Poucos escapam de algum achaque original, direto ou atravessado. Não são conhecidas as faltas dos pouco conhecidos. Fuja o atento de ser registro de infâmias, pois isso é ser um padrão aborrecido e, embora vivo, desalmado.
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Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.
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