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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 5 · A Arte da Prudência

Aforismos LXXVI-C

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Aforismos LXXVI-C

LXXVI. Não estar sempre de brincadeiras.

Conhece-se a prudência no sério, que está mais acreditado que o engenhoso. Quem está sempre de brincadeiras nunca é homem de verdade. Igualamo-lo aos mentirosos em não lhe dar crédito: a uns por receio de mentira, a outros por receio de motejo. Nunca se sabe quando falam com juízo, o que é quase o mesmo que não tê-lo. Não há maior desaire que a graça contínua. Alguns ganham fama de espirituosos e perdem o crédito de prudentes. Seu momento deve ter o jovial; todos os demais, o sério.

LXXVII. Saber fazer-se a todos.

Discreto Proteu: com o douto, douto; com o santo, santo. Grande arte para ganhar a todos, porque a semelhança concilia benevolência. Observar os gênios e temperar-se ao de cada um; ao sério e ao jovial, seguir-lhes a corrente, fazendo política transformação: urgente aos que dependem. Essa grande sutileza do viver requer grande cabedal; é menos dificultosa ao varão universal, de engenho em notícias e de gênio em gostos.

LXXVIII. Arte no intentar.

A necedade sempre entra de repente, pois todos os néscios são audazes. Sua própria simplicidade, que primeiro lhes impede a advertência para os reparos, depois lhes tira o sentimento para os desaires. A prudência, ao contrário, entra com grande tato. Seus batedores são a advertência e o recato; eles vão descobrindo para proceder sem perigo.

Todo arrojo é condenado pela discrição ao precipício, embora às vezes a ventura o absolva. Convém ir detido onde se teme muito fundo: vá tentando a sagacidade e ganhando terreno a prudência. Há hoje grandes baixios no trato humano; convém ir sempre lançando a sonda.

LXXIX. Gênio genial.

Se com temperança, é prenda, não defeito. Um grão de graça tudo tempera. Os maiores homens também jogam a peça do donaire, que concilia a graça universal; mas sempre guardando os ares da prudência e fazendo salva ao decoro. Outros fazem de uma graça atalho para o desempenho, pois há coisas que se devem tomar de brincadeira, às vezes justamente aquelas que o outro toma mais a sério. Indica aprazibilidade, gancho de corações.

LXXX. Atenção ao informar-se.

Vive-se, em grande parte, de informação. É pouco o que vemos; vivemos da fé alheia. O ouvido é a segunda porta da verdade e a principal da mentira. A verdade ordinariamente se vê; extraordinariamente se ouve. Raras vezes chega em seu elemento puro, menos ainda quando vem de longe; sempre traz algo de mistura dos afetos por onde passa. A paixão tinge com suas cores tudo o que toca, ora odiosa, ora favorável.

Ela tende sempre a impressionar: grande cuidado com quem louva, maior com quem vitupera. É preciso toda a atenção nesse ponto para descobrir a intenção naquele que intermedeia, conhecendo de antemão de que pé se moveu. Sirva a reflexão de contraste ao que falta e ao que é falso.

LXXXI. Usar o renovar de seu brilho.

É privilégio de fênix. Costuma envelhecer a excelência, e com ela a fama. O costume diminui a admiração, e uma mediana novidade costuma vencer a maior eminência envelhecida. Use-se, pois, do renascer no valor, no engenho, na dita, em tudo: empenhar-se com novidades de bizarria, amanhecendo muitas vezes como o sol, variando os teatros do brilho, para que num lugar a privação, e em outro a novidade, solicitem aqui o aplauso, ali o desejo.

LXXXII. Nunca espremer, nem o mal, nem o bem.

À moderação em tudo reduziu toda a sabedoria um sábio. O direito extremo faz-se torto, e a laranja muito espremida acaba por dar o amargo. Mesmo na fruição, nunca se deve chegar aos extremos. O próprio engenho se esgota se for espremido; e tirará sangue por leite quem explorar à tirania.

LXXXIII. Permitir-se algum deslize venial.

Um descuido costuma ser, às vezes, a maior recomendação das prendas. A inveja tem seu ostracismo, tanto mais civil quanto mais criminoso. Acusa o muito perfeito de pecar por não pecar; e, por perfeito em tudo, condena-o todo. Faz-se Argos ao buscar faltas no muito bom, ao menos para consolo. A censura fere, como o raio, os realces mais elevados.

Durma, pois, alguma vez Homero, e afete algum descuido no engenho ou no valor, mas nunca na prudência, para sossegar a malevolência, para que não rebente peçonhenta. Será como lançar a capa ao touro da inveja para salvar a imortalidade.

LXXXIV. Saber usar os inimigos.

Todas as coisas se devem saber tomar não pelo corte, que ofende, mas pelo punho, que defende; muito mais a emulação. Ao varão sábio aproveitam mais seus inimigos que ao néscio seus amigos. Uma malevolência costuma aplainar montanhas de dificuldade que o favor desconfiaria de empreender. A muitos, seus malévolos fabricaram grandeza.

Mais feroz é a lisonja que o ódio, pois este remedia eficazmente as manchas que aquela dissimula. O prudente faz da ojeriza um espelho, mais fiel que o da afeição, e previne contra a detração os defeitos, ou os emenda. Grande é o recato quando se vive na fronteira de uma emulação, de uma malevolência.

LXXXV. Não ser carta sempre jogada.

É achaque de todo o excelente que seu muito uso venha a ser abuso. O próprio fato de todos o cobiçarem acaba por enfadar a todos. Grande infelicidade é não servir para nada; não menor é querer servir para tudo. Estes vêm a perder por muito ganhar, e depois são tão aborrecidos quanto antes foram desejados.

Desgastam-se essas cartas em todo gênero de perfeições: perdendo aquela primeira estima de raras, conquistam o desprezo de vulgares. O único remédio de todo extremo é guardar meio no brilho: a demasia deve estar na perfeição, e a temperança na ostentação. Quanto mais uma tocha luz, mais se consome e menos dura. Escassezes de aparência são premiadas com ganhos de estima.

LXXXVI. Prevenir as más vozes.

O vulgo tem muitas cabeças, e assim muitos olhos para a malícia e muitas línguas para o descrédito. Acontece correr nele alguma má voz que desdoura o maior crédito; e, se chegar a ser apelido vulgar, acabará com a reputação. Dá-se-lhe pé comumente por algum desaire saliente, por defeitos ridículos que são matéria plausível para suas falas, embora haja desdouros lançados da emulação particular à malícia comum.

Há bocas da malevolência, e arruínam mais depressa uma grande fama com um chiste que com um descaramento. É muito fácil adquirir fama sinistra, porque o mau é muito crível e custa muito apagá-lo. Evite, pois, o varão prudente esses desaires, contrastando com sua atenção a insolência vulgar: é mais fácil prevenir que remediar.

LXXXVII. Cultura e apuro.

Nasce bárbaro o homem; redime-se de besta cultivando-se. A cultura faz pessoas, e tanto mais quanto maior. Por ela pôde a Grécia chamar bárbaro a todo o restante universo. A ignorância é muito tosca; nada cultiva mais que o saber. Mas até a própria sabedoria seria grosseira se desarrumada. Não deve ser apurado apenas o entender, mas também o querer, e mais ainda o conversar.

Encontram-se homens naturalmente apurados, de gala interior e exterior, no conceito e nas palavras, nos arreios do corpo, que são como a casca, e nas prendas da alma, que são o fruto. Outros há, ao contrário, tão grosseiros que todas as suas coisas, e às vezes suas eminências, desluciram-se com um intolerável bárbaro desasseio.

LXXXVIII. Seja o trato por alto, procurando nele a sublimidade.

O varão grande não deve ser miúdo em seu proceder. Nunca se deve individualizar demais as coisas, menos ainda as de pouco gosto; porque, embora seja vantagem notar tudo de passagem, não o é querer averiguar tudo de propósito. Deve-se proceder ordinariamente com uma fidalga generalidade, ramo de galanteria. Grande parte do reger está em dissimular.

Deve-se dar passagem à maior parte das coisas, entre familiares, entre amigos, e mais ainda entre inimigos. Toda ninharia é enfadonha, e, na condição, pesada. Ir e voltar sobre um desgosto é espécie de mania; e comumente tal será o modo de portar-se de cada um, qual for seu coração e sua capacidade.

LXXXIX. Compreensão de si.

No gênio, no engenho; nos ditames, nos afetos. Ninguém pode ser senhor de si se primeiro não se compreende. Há espelhos para o rosto; não os há para o ânimo: seja-o a discreta reflexão sobre si. E, quando se esquecer da imagem exterior, conserve a interior, para emendá-la, para melhorá-la. Conheça as forças de sua prudência e sutileza para empreender; tateie a irascível para empenhar-se. Tenha medido seu fundo e pesado seu cabedal para tudo.

XC. Arte para viver muito: viver bem.

Duas coisas acabam depressa com a vida: a necedade ou a ruindade. Uns a perderam por não saber guardá-la; outros, por não querer. Assim como a virtude é prêmio de si mesma, o vício é castigo de si mesmo. Quem vive depressa no vício acaba cedo de duas maneiras; quem vive depressa na virtude nunca morre. Comunica-se a inteireza do ânimo ao corpo, e não se tem por longa a vida boa apenas na intensão, mas também na extensão.

XCI. Agir sempre sem escrúpulos de imprudência.

A suspeita de desacerto em quem executa já é evidência em quem olha, sobretudo se for rival. Se, ainda no calor da paixão, o ditame escrupuliza, depois, desapaixonado, condenará como necedade declarada. São perigosas as ações em dúvida de prudência; mais segura seria a omissão. A prudência não admite probabilidades: caminha sempre ao meio-dia da luz da razão.

Como pode sair bem uma empresa que, ainda concebida, já está sendo condenada pelo receio? E se a resolução mais graduada, com o nemine discrepante interior, costuma sair infelizmente, que se pode esperar daquela que começou titubeando na razão e mal-agourada pelo ditame?

XCII. Senso transcendental.

Digo: em tudo. É a primeira e suma regra do agir e do falar, tanto mais exigida quanto maiores e mais altos os empregos. Mais vale um grão de prudência que arrobas de sutileza. É caminhar pelo seguro, embora não tão pelo plausível; ainda assim, a reputação de prudente é o triunfo da fama. Bastará satisfazer aos prudentes, cujo voto é a pedra de toque dos acertos.

XCIII. Homem universal.

Composto de toda perfeição, vale por muitos. Faz felicíssimo o viver, comunicando essa fruição à familiaridade. A variedade com perfeição é entretenimento da vida. Grande arte é saber aproveitar tudo o que é bom; e, pois a natureza fez do homem um compêndio de todo o natural por sua eminência, faça dele a arte um universo por exercício e cultura do gosto e do entendimento.

XCIV. Incompreensibilidade de cabedal.

Evite o varão atento que lhe sondem o fundo, seja no saber, seja no valor, se quer que todos o venerem. Permita-se ao conhecimento, não à compreensão. Ninguém lhe averigue os limites da capacidade, pelo perigo evidente do desengano. Nunca dê lugar a que alguém o alcance todo: maiores efeitos de veneração causa a opinião e a dúvida de até onde chega o cabedal de cada um do que a evidência dele, por grande que seja.

XCV. Saber entreter a expectativa.

Ir sempre cevando-a. Prometa mais o muito, e seja a melhor ação lance de outras maiores. Não se deve lançar todo o resto no primeiro lance: grande artimanha é saber temperar-se nas forças, no saber, e ir adiantando o desempenho.

XCVI. Da grande sindérese.

É o trono da razão, base da prudência; por ela custa pouco acertar. É sorte do céu, e a mais desejada por primeira e por melhor: a primeira peça da armadura, de tal urgência que nenhuma outra, ao faltar a um homem, o denomina falto; nota-se mais sua ausência. Todas as ações da vida dependem de sua influência, e todas solicitam sua qualificação, pois tudo há de ser com senso. Consiste numa propensão conatural a tudo o que é mais conforme à razão, casando-se sempre com o mais acertado.

XCVII. Conseguir e conservar a reputação.

É o usufruto da fama. Custa muito, porque nasce das eminências, que são tão raras quanto comuns as medianias. Conseguida, conserva-se com facilidade. Obriga muito e opera mais. É espécie de majestade quando chega a ser veneração, pela sublimidade de sua causa e de sua esfera; mas a reputação substancial é a que sempre valeu.

XCVIII. Cifrar a vontade.

As paixões são os portilhos do ânimo. O saber mais prático consiste em dissimular; corre risco de perder quem joga a jogo descoberto. Compita a detenção do recatado com a atenção do advertido: para linces de discurso, sépias de interioridade. Não se lhe saiba o gosto, para que não o previnam: uns para a contradição, outros para a lisonja.

XCIX. Realidade e aparência.

As coisas não passam pelo que são, mas pelo que parecem. Raros são os que olham por dentro, e muitos os que se pagam do aparente. Não basta ter razão com cara de malícia.

C. Varão desenganado.

Cristão sábio, cortesão filósofo. Mas não parecer isso, menos ainda afetá-lo. Está desacreditado o filosofar, embora seja o maior exercício dos sábios. Vive desautorizada a ciência dos prudentes. Sêneca a introduziu em Roma; conservou-se por algum tempo cortesã; já é tida por impertinência. Mas sempre o desengano foi pasto da prudência, delícias da inteireza.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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