Universo da obra
Universo da obra
Hoje para amanhã, e ainda para muitos dias. A maior providência é ter horas dela; para os prevenidos não há acasos, nem para os apercebidos apertos. Não se deve aguardar o discorrer para o afogo; deve ir de antemão. Previna-se, com a maturidade do reconselho, o ponto mais cru.
O travesseiro é Sibila muda, e dormir sobre os pontos vale mais que desvelar-se debaixo deles. Alguns agem e depois pensam: isso é mais buscar desculpas que consequências. Outros, nem antes nem depois. Toda a vida deve ser pensar para acertar o rumo: o reconselho e a providência dão arbítrio de viver antecipado.
Tanto por mais quanto por menos. O que excede em perfeição excede em estima. O outro fará sempre o primeiro papel, e ele o segundo; e, se lhe alcançar algum apreço, serão as sobras daquele. A lua campeia enquanto está só entre as estrelas; mas, saindo o sol, ou não aparece ou desaparece.
Nunca se arrime a quem o eclipse, mas a quem o realce. Assim pôde parecer formosa a discreta Fábula de Marcial, e luzir entre a fealdade ou o desalinho de suas donzelas. Tampouco deve correr perigo de mau lado, nem honrar outros à custa de seu crédito. Para fazer-se, vá com os eminentes; já feito, entre os medianos.
E, se se empenha, seja com segurança de excesso. É preciso dobrar o valor para igualar o do passado. Assim como é ardil que o sucessor seja tal que faça desejado quem se foi, também é sutileza que quem acabou não o eclipse. É dificultoso preencher um grande vazio, porque o passado sempre pareceu melhor; e nem a igualdade bastará, pois ele está na posse de primeiro. É, pois, necessário acrescentar prendas para tirar outro de sua posse no maior conceito.
Nem em crer, nem em querer. Conhece-se a maturidade na espera da credulidade: é muito ordinário mentir; seja extraordinário crer. Quem ligeiramente se moveu depois se acha corrido. Mas não se deve dar a entender a dúvida da fé alheia, pois passa de descortesia a agravo, porque se trata quem responde como enganador ou enganado.
E esse ainda não é o maior inconveniente: o não crer é indício do mentir, pois o mentiroso tem dois males, nem crê, nem é crido. A suspensão do juízo é prudente em quem ouve; e remeta-se a fé ao autor daquele dito: “Também é espécie de imprudência a facilidade no querer.” Pois, se se mente com a palavra, também se mente com as coisas; e mais pernicioso é esse engano pela obra.
Se possível, previna a prudente reflexão a vulgaridade do ímpeto. Não será difícil para quem for prudente. O primeiro passo do apaixonar-se é advertir que se apaixona: é entrar com senhorio do afeto, tateando a necessidade até tal ponto de ira, e não mais. Com essa reflexão superior, entre e saia de uma cólera.
Saiba parar bem e a seu tempo, pois o mais dificultoso do correr está no parar. Grande prova de juízo é conservar-se prudente nos transes de loucura. Todo excesso de paixão degenera do racional; mas, com essa magistral atenção, nunca atropelará a razão nem pisará os limites da sindérese. Para saber fazer mal a uma paixão é preciso ir sempre com a rédea na atenção, e será o primeiro prudente a cavalo, se não o último.
Devem sê-lo a exame da discrição e à prova da fortuna, graduados não só pela vontade, mas pelo entendimento. E, embora seja o acerto mais importante do viver, é o menos assistido pelo cuidado. Em alguns opera a intromissão; na maioria, o acaso. Define-se alguém pelos amigos que tem, pois nunca o sábio concordou com ignorantes.
Mas gostar de alguém não argui intimidade: pode proceder mais do bom momento de sua graça que da confiança em sua capacidade. Há amizades legítimas e outras adulterinas; estas para a deleitação, aquelas para a fecundidade de acertos. Encontram-se poucos amigos da pessoa, muitos da fortuna. Mais aproveita o bom entendimento de um amigo que as boas vontades de muitos outros. Haja, pois, escolha, não sorte. Um sábio sabe poupar pesares; o amigo néscio os acarreta. Nem se lhes deseje muita fortuna, se não se quer perdê-los.
É o pior e mais fácil engano. Mais vale ser enganado no preço que na mercadoria; e não há coisa que mais necessite de ser olhada por dentro. Há diferença entre entender as coisas e conhecer as pessoas; e é grande filosofia alcançar os gênios e distinguir os humores dos homens. É tão necessário ter estudados os sujeitos quanto os livros.
Há nisso sua arte de discrição. Uns são bons de longe, outros de perto; e quem talvez não foi bom para a conversa o é para a correspondência. A distância purifica alguns defeitos que eram intoleráveis na presença. Não se deve procurar neles apenas o gosto, mas também a utilidade, que há de ter as três qualidades do bem, outros dizem as do ente: uno, bom e verdadeiro, porque o amigo é todas as coisas.
São poucos para bons, e não saber escolhê-los os torna menos. Saber conservá-los é mais que fazê-los amigos. Busquem-se tais que hajam de durar; e, embora no princípio sejam novos, baste para satisfação que poderão fazer-se velhos. Absolutamente, os melhores são os muito temperados, ainda que se gaste uma fanega de sal na experiência. Não há deserto como viver sem amigos. A amizade multiplica os bens e reparte os males; é único remédio contra a fortuna adversa e desabafo da alma.
Os sábios sempre foram maus sofredores, pois quem acrescenta ciência acrescenta impaciência. O muito conhecer é difícil de satisfazer. A maior regra do viver, segundo Epicteto, é sofrer, e a isso reduziu metade da sabedoria. Se todas as necedades devem ser toleradas, muita paciência será necessária.
Às vezes sofremos mais de quem mais dependemos, o que importa para o exercício de vencer-se. Do sofrimento nasce a inestimável paz, que é a felicidade da terra. E quem não se achar com ânimo de sofrer, apele ao retiro de si mesmo, se é que ainda a si mesmo poderá tolerar.
Com os rivais, por cautela; com os demais, por decência. Sempre há tempo para enviar a palavra, mas não para fazê-la voltar. Deve-se falar como em testamento: a menos palavras, menos pleitos. No que não importa, deve-se ensaiar para o que importar. A reserva tem visos de divindade. Quem é fácil em falar está perto de ser vencido e convencido.
O homem mais perfeito não escapa de alguns, e casa-se ou amanceba-se com eles. Há-os no engenho, e maiores no maior, ou ao menos mais percebidos. Não porque o próprio sujeito não os conheça, mas porque os ama. Dois males juntos: apaixonar-se, e por vícios.
São manchas da perfeição, ofendem tanto os de fora quanto aos próprios soam bem. Aqui está o galhardo vencer-se e dar essa felicidade aos demais realces. Todos topam ali; e, quando deveriam celebrar o muito bom que admiram, detêm-se onde reparam, afeando aquilo por desdouro das demais prendas.
Pouco é o desprezo, ainda que prudente; mais é a galanteria. Não há aplauso bastante para um dizer bem de quem diz mal. Não há vingança mais heroica que a feita com méritos e prendas, que vencem e atormentam a inveja. Cada felicidade é um aperto de cordas ao mal-afeto, e a glória do emulado é inferno do rival.
Esse castigo se tem por maior: haver veneno na felicidade. O invejoso não morre de uma vez, mas tantas quantas vive, a vozes de aplauso, o invejado, competindo a perenidade da fama de um com a penalidade do outro. Este é imortal para suas glórias; aquele, para suas penas. O clarim da fama, que toca imortalidade para um, publica morte para o outro, sentenciando-o ao suplício de tão invejosa suspensão.
É desventura para uns o que costuma ser ventura para outros; pois um não seria ditoso se muitos outros não fossem desditosos. É próprio dos infelizes conseguir a graça das gentes, que quer recompensar com seu favor inútil os desfavores da fortuna. Já se viu quem, na prosperidade, foi aborrecido por todos, e na adversidade, compadecido por todos: trocou-se a vingança contra o elevado em compaixão pelo caído.
Mas o sagaz atenda ao baralhar da sorte. Há alguns que só vão com os desditosos, e ladeiam hoje, por infeliz, aquele de quem fugiram ontem por afortunado. Isso argui talvez nobreza do natural, mas não sagacidade.
Para examinar a aceitação: ver como são recebidas, sobretudo as suspeitas de acerto e agrado. Assegura-se o sair bem, e fica lugar ou para o empenho, ou para o retiro. Tateiam-se assim as vontades, e o atento sabe onde tem os pés: prevenção máxima do pedir, do querer e do governar.
Podem obrigar o prudente a fazê-la, mas não má. Cada um deve agir como quem é, não como o obrigam. É plausível a galanteria na emulação. Deve-se pelejar não só para vencer no poder, mas também no modo. Vencer à ruindade não é vitória, mas rendimento. A generosidade sempre foi superioridade.
O homem de bem nunca se vale de armas vedadas; e vedadas são as da amizade acabada para o ódio começado, pois não se deve valer da confiança para a vingança. Tudo o que cheira a traição infecciona o bom nome. Em personagens obrigados, estranha-se mais qualquer átomo de baixeza; devem distar muito a nobreza e a vileza. Preze-se de que, se galanteria, generosidade e fidelidade se perdessem no mundo, haveriam de ser buscadas em seu peito.
É precisão única, assim como a do amigo, da pessoa ou do emprego, pois são muito diferentes. Mau é, não tendo palavra boa, não ter obra má; pior é, não tendo palavra má, não ter obra boa. Já não se come de palavras, que são vento; nem se vive de cortesias, que são cortês engano. Caçar aves com luz é verdadeiro encandeamento.
Os desvanecidos se pagam do vento. As palavras devem ser prendas das obras, e assim devem ter seu valor. Árvores que não dão frutos, mas folhas, não costumam ter coração. Convém conhecê-las: umas para proveito, outras para sombra.
Não há melhor companhia nos grandes apertos que um bom coração; e, quando ele fraquejar, deve ser suprido pelas partes que lhe estão próximas. Fazem-se menores os afãs a quem sabe valer-se. Não se renda à fortuna, pois ela se acabará de fazer intolerável. Alguns pouco se ajudam em seus trabalhos, e os dobram por não saber levá-los. Quem já se conhece socorre com a consideração sua fraqueza, e o discreto sai com vitória de tudo, até das estrelas.
São-no todos os desvanecidos, presunçosos, porfiados, caprichosos, persuadidos, extravagantes, figureiros, graciosos, noveleiros, paradoxais, sectários e todo gênero de homens destemperados: monstros todos da impertinência. Toda monstruosidade do ânimo é mais disforme que a do corpo, porque desdiz da beleza superior.
Mas quem corrigirá tanto desconcerto comum? Onde falta a sindérese, não fica lugar para a direção; e a que deveria ser observação refletida da irrisão torna-se mal concebida presunção de aplauso imaginado.
Ninguém olha o sol resplandecente, e todos o olham eclipsado. A nota vulgar não contará as que se acertarem, mas as que se errarem. Mais conhecidos são os maus para serem murmurados que os bons para serem aplaudidos. Muitos nem foram conhecidos até delinquirem, e nem todos os acertos juntos bastam para desmentir um só e mínimo desdouro. Desengane-se todo homem: serão notadas pela malevolência todas as suas más ações, e nenhuma boa.
É assegurar a importância. Não se deve empregar todo o cabedal, nem sacar todas as forças a cada vez. Até no saber deve haver resguardo, que é dobrar as perfeições. Sempre deve haver a que apelar num aperto de sair mal. Mais opera o socorro que o acometimento, porque é de valor e de crédito. O proceder da prudência sempre foi pelo seguro. E ainda nesse sentido é verdadeira aquela picante paradoxa: mais é a metade que o todo.
Os grandes amigos são para as grandes ocasiões. Não se deve empregar muita confiança em coisas pequenas, pois seria desperdício da graça. A âncora sagrada reserva-se sempre para o último risco. Se no pouco se abusa do muito, que ficará para depois?
Nada há que mais valha que os valedores, nem mais precioso hoje que o favor: ele faz e desfaz no mundo, até dar engenho ou tirá-lo. Aos sábios, o que natureza e fama favoreceram, a fortuna invejou. Mais é saber conservar pessoas e tê-las que haveres.
É brigar em desigualdade. O outro entra com desembaraço porque traz perdida até a vergonha; acabou com tudo, nada mais tem a perder, e assim se lança a toda impertinência. Nunca se deve expor a inestimável reputação a risco tão cruel: custou muitos anos ganhá-la e vem a perder-se num ponto de pontilho; um desaire congela muito suor luzido.
Ao homem de obrigações faz reparar o ter muito que perder. Olhando por seu crédito, olha pelo contrário; e, como se empenha com atenção, procede com tal detenção que dá tempo à prudência para retirar-se a tempo e pôr em segurança o crédito. Nem com a vitória se chegará a ganhar o que já se perdeu ao expor-se a perder.
E menos na amizade. Alguns quebram com grande facilidade, descobrindo pouca consistência; enchem a si mesmos de ofensa, e aos demais de enfado. Mostram ter a condição mais sensível que a menina dos olhos, pois não permite ser tocada, nem de brincadeira nem a sério. Ofendem-na as motas, quando nem notas seriam necessárias.
Devem ir com grande tato os que os tratam, atendendo sempre a suas delicadezas; guardam-lhes os ares, porque o mais leve desaire os desazona. São estes ordinariamente muito seus, escravos do próprio gosto, pelo qual atropelarão tudo, idólatras de sua honrinha. A condição do amante deve ter metade de diamante em durar e resistir.
Saber repartir as coisas é saber gozá-las. A muitos sobra vida e acaba-se a felicidade. Malogram os contentamentos, pois não os gozam, e depois queriam voltar atrás quando já se encontram tão adiante. São postilhões do viver: além do comum correr do tempo, acrescentam seu atropelamento natural. Queriam devorar em um dia aquilo que mal poderão digerir em toda a vida.
Vivem adiantados nas felicidades, comem os anos por vir e, como vão com tanta pressa, acabam depressa com tudo. Mesmo no querer saber deve haver modo, para não saber mal as coisas sabidas. São mais os dias que as ditas: no gozar, devagar; no agir, depressa. As façanhas ficam bem feitas; os contentamentos, mal acabados.
E quem o é não se paga dos que não o são. Infeliz é a eminência que não se funda na substância. Nem todos os que parecem homens o são: há-os de embuste, que concebem quimeras e parem enganos; e há outros semelhantes que os apoiam, e gostam mais do incerto prometido por um embuste, por ser muito, que do certo assegurado por uma verdade, por ser pouco.
Ao cabo, seus caprichos saem mal, porque não têm fundamento de inteireza. Só a verdade pode dar reputação verdadeira, e a substância entra em proveito. Um engano precisa de muitos outros, e assim toda a fábrica é quimera; e, como se funda no ar, é preciso vir à terra. Nunca chega a velho um desconcerto; ver o muito que promete basta para torná-lo suspeito, assim como o que prova demasiado é impossível.
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Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.
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