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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 4 · A Arte da Prudência

Aforismos LI-LXXV

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Aforismos LI-LXXV

LI. Homem de boa escolha.

O mais da vida se vive dela. Supõe bom gosto e retíssimo ditame, pois não bastam o estudo nem o engenho. Não há perfeição onde não há seleção; duas vantagens inclui: poder escolher, e escolher o melhor. Muitos de engenho fecundo e sutil, de juízo agudo, estudiosos e noticiosos também, ao chegar o momento de eleger, perdem-se: casam-se sempre com o pior, como se afetassem errar. Assim, este é um dos dons máximos do alto.

LII. Nunca descompor-se.

Grande assunto da prudência: nunca desbaratar-se. Isso acusa muito homem, de coração coroado, pois toda magnanimidade é difícil de comover. As paixões são os humores do ânimo, e qualquer excesso nelas causa indisposição da prudência; se o mal sair à boca, perigará a reputação. Seja, pois, tão senhor de si e tão grande que, nem no mais próspero nem no mais adverso, possa alguém censurá-lo perturbado, mas sim admirá-lo superior.

LIII. Diligente e inteligente.

A diligência executa prontamente o que a inteligência pensa longamente. A pressa é paixão de néscios: como não descobrem o obstáculo, agem sem reparo. Ao contrário, os sábios costumam pecar de detidos, pois do advertir nasce o reparar. Às vezes a ineficácia da remissão malogra o acerto do ditame. A presteza é mãe da dita. Muito fez quem nada deixou para amanhã. Augusta empresa: correr devagar.

LIV. Ter brios com prudência.

Ao leão morto, até as lebres repuxam a juba. Não se brinca com o valor: se cede ao primeiro, também terá de ceder ao segundo, e assim até o último. A mesma dificuldade haverá de vencer mais tarde; teria valido mais vencê-la logo.

O brio do ânimo excede o do corpo: é como a espada, deve andar sempre embainhado em sua prudência, para a ocasião. É o resguardo da pessoa: mais danifica o descaimento do ânimo que o do corpo. Muitos tiveram prendas eminentes, mas, por lhes faltar esse alento do coração, pareceram mortos e acabaram sepultados no próprio abandono. Não sem providência juntou a natureza, na abelha, a doçura do mel ao picante do aguilhão. Há nervos e ossos no corpo: não seja o ânimo todo brandura.

LV. Homem de espera.

Argui grande coração, com larguezas de sofrimento. Nunca se apressar nem se apaixonar. Seja alguém primeiro senhor de si, e depois o será dos outros. Deve-se caminhar pelos espaços do tempo até o centro da ocasião. A detenção prudente tempera os acertos e amadurece os segredos. A muleta do tempo opera mais que a acerada clava de Hércules. O próprio Deus não castiga com bastão, mas com sazão. Grande dito: “O tempo e eu contra outros dois.” A própria fortuna premia o esperar com a grandeza do galardão.

LVI. Ter bons repentes.

Nascem de uma prontidão feliz. Para ela não há apertos nem acasos, em fé de sua vivacidade e desembaraço. Alguns pensam muito para depois errar tudo; outros acertam tudo sem tê-lo pensado antes. Há cabedais de antiparístase que, empenhados, agem melhor: costumam ser monstros que, de pronto, tudo acertam, e de pensado tudo erram. O que não lhes ocorre logo, nunca ocorrerá, nem há apelar para depois. São plausíveis os prestos, porque indicam capacidade prodigiosa: nos conceitos, sutileza; nas obras, prudência.

LVII. Mais seguros são os pensados.

Bastante depressa, se bem. O que logo se faz, logo se desfaz; mas o que há de durar uma eternidade deve tardar outra em fazer-se. Só se atende à perfeição, e apenas o acerto permanece. Entendimento com fundos alcança eternidades. O que muito vale, muito custa; até o mais precioso dos metais é o mais tardio e mais grave.

LVIII. Saber temperar-se.

Não se deve mostrar igualmente entendido com todos, nem empregar mais forças do que são necessárias. Não haja desperdícios, nem de saber, nem de valor. O bom falcoeiro não lança à presa mais ave de rapina do que precisa para caçá-la. Não esteja sempre em ostentação, pois no dia seguinte já não admirará. Sempre deve haver novidade com que luzir: quem a cada dia descobre mais mantém sempre a expectativa, e nunca chegam a descobrir-lhe os limites de seu grande cabedal.

LIX. Homem de bom desfecho.

Na casa da fortuna, se se entra pela porta do prazer, sai-se pela do pesar; e ao contrário. Atenção, pois, ao acabar, pondo mais cuidado na felicidade da saída que no aplauso da entrada. Desaire comum dos afortunados é terem princípios muito favoráveis e fins muito trágicos. O ponto não está no aplauso vulgar de uma entrada, pois essas todos as têm plausíveis; mas sim no sentimento geral de uma saída, pois raros são os desejados. Poucas vezes a dita acompanha os que saem: o que mostra de cumprida com os que vêm, mostra de descortês com os que vão.

LX. Bons ditames.

Alguns nascem prudentes: entram na sabedoria com essa vantagem da sindérese conatural, e assim têm metade do caminho andado para os acertos. Com a idade e a experiência, a razão acaba de amadurecer, e chegam a um juízo bem temperado. Abominam todo capricho como tentação da prudência, sobretudo em matérias de Estado, onde, pela suma importância, se requer segurança total. Merecem estes a assistência ao leme, seja para o exercício, seja para o conselho.

LXI. Eminência no melhor.

Uma grande singularidade entre a pluralidade de perfeições. Não pode haver herói que não tenha algum extremo sublime: as medianias não são assunto de aplauso. A eminência em emprego relevante tira alguém do ordinário vulgar e o levanta à categoria de raro. Ser eminente em profissão humilde é ser algo no pouco; o que tem mais de deleitável tem menos de glorioso. O excesso em matérias avantajadas é como caráter de soberania: solicita a admiração e concilia o afeto.

LXII. Agir com bons instrumentos.

Querem alguns que o extremo de sua sutileza campeie na ruindade dos instrumentos: perigosa satisfação, merecedora de castigo fatal. Nunca a bondade do ministro diminuiu a grandeza do patrono; antes, toda a glória dos acertos recai depois sobre a causa principal, assim como, ao contrário, o vitupério. A fama vai sempre com os primeiros. Nunca diz: “Aquele teve bons ou maus ministros”, mas: “Aquele foi bom ou mau artífice.” Haja, pois, escolha; haja exame, porque se lhes há de confiar uma imortalidade de reputação.

LXIII. Excelência de primeiro.

E, se com eminência, dobrada. Grande vantagem é jogar de mão: ganha em igualdade. Muitos teriam sido fênix nos empregos se outros não lhes houvessem ido à frente. Os primeiros levantam o morgado da fama, e aos segundos ficam alimentos litigiosos; por mais que suem, não podem purgar o achaque vulgar da imitação.

Sutileza de prodigiosos foi inventar rumo novo para as eminências, desde que primeiro a prudência assegure os empenhos. Com a novidade dos assuntos, os sábios fizeram lugar na matrícula dos heroicos. Alguns preferem ser primeiros na segunda categoria a ser segundos na primeira.

LXIV. Saber poupar-se pesares.

É prudência proveitosa economizar desgostos. A prudência evita muitos: é Lucina da felicidade, e por isso do contentamento. As notícias odiosas, não dá-las; menos ainda recebê-las. Devem ter vedadas as entradas, salvo a do remédio.

A uns gastam-se os ouvidos de ouvir muito doce em lisonjas; a outros, de escutar amargo em mexericos; e há quem não saiba viver sem algum dissabor cotidiano, como Mitrídates sem veneno. Tampouco é regra de conservar-se querer dar a si mesmo um pesar de toda a vida para dar uma vez prazer a outro, ainda que seja o mais próximo. Nunca se deve pecar contra a própria dita para comprazer a quem aconselha e fica de fora. E, em todo acontecimento, sempre que se encontrarem fazer prazer a outro e fazer pesar a si mesmo, é lição de conveniência que vale mais o outro desgostar-se agora que tu depois, e sem remédio.

LXV. Gosto relevante.

Cabe cultura nele, assim como no engenho. Realça a excelência do entender o apetite do desejar, e depois a fruição do possuir. Conhece-se a altura de um cabedal pela elevação do afeto. Grande objeto é necessário para satisfazer grande capacidade; assim como grandes bocados são para grandes paladares, matérias sublimes são para gênios sublimes.

Os objetos mais valentes o temem, e as perfeições mais seguras desconfiam; poucas são as de primeira magnitude: seja raro o apreço. Pegam-se os gostos com o trato e herdam-se pela continuidade: grande sorte é comunicar com quem o tem em seu ponto. Mas não se deve fazer profissão de desagradar-se de tudo, que é um dos extremos néscios, mais odioso quando por afetação que por destempero. Alguns queriam que Deus criasse outro mundo e outras perfeições para satisfação de sua extravagante fantasia.

LXVI. Atenção a que as coisas saiam bem.

Alguns põem mais a mira no rigor da direção que na felicidade de conseguir o intento; mas pesa sempre mais o descrédito da infelicidade que o abono da diligência. Quem vence não precisa dar satisfações. A maioria não percebe a pontualidade das circunstâncias, mas apenas os bons ou maus sucessos; e assim nunca se perde reputação quando se consegue o intento. Um bom fim tudo doura, ainda que o desmintam os desacertos dos meios. Pois é arte ir contra a arte quando de outro modo não se pode conseguir a felicidade de sair-se bem.

LXVII. Preferir os empregos plausíveis.

A maior parte das coisas depende da satisfação alheia. A estima é para as perfeições o que o favônio é para as flores: alento e vida. Há empregos expostos à aclamação universal, e há outros, embora maiores, em nada expectáveis. Aqueles, por se fazerem à vista de todos, captam a benevolência comum; estes, embora tenham mais de raro e primoroso, ficam no segredo de sua imperceptibilidade: venerados, mas não aplaudidos.

Entre os príncipes, os vitoriosos são os celebrados; por isso os reis de Aragão foram tão plausíveis por guerreiros, conquistadores e magnânimos. Prefira o varão grande os empregos célebres, que todos percebam e de que todos participem, e fique imortalizado por sufrágios comuns.

LXVIII. Dar entendimento.

É de mais primor que dar memória, quanto mais é. Umas vezes se há de recordar; outras, advertir. Alguns deixam de fazer as coisas que estariam em seu ponto porque não lhes ocorrem; ajude então a advertência amigável a conceber as conveniências. Uma das maiores vantagens da mente é ocorrer-lhe o que importa. Por falta disso deixam de fazer-se muitos acertos.

Dê luz quem a alcança, e solicite-a quem a mendiga: aquele com detenção, este com atenção; não seja mais que dar pé. É urgente essa sutileza quando toca em utilidade de quem desperta. Convém mostrar gosto e passar a mais quando não bastar. Já se tem o não; vá-se em busca do sim com destreza, pois as mais das vezes não se consegue porque não se tenta.

LXIX. Não render-se a um humor vulgar.

Grande homem é aquele que nunca se sujeita a impressões estranhas. É lição de advertência a reflexão sobre si: conhecer a disposição atual e preveni-la, e até inclinar-se ao outro extremo para achar, entre o natural e a arte, o fiel da sindérese.

Princípio de corrigir-se é conhecer-se. Há monstros da impertinência: estão sempre de algum humor e variam os afetos com ele; arrastados eternamente por essa destemperança civil, contraditoriamente se empenham. E esse excesso não gasta apenas a vontade; atreve-se também ao juízo, alterando o querer e o entender.

LXX. Saber negar.

Nem tudo se há de conceder, nem a todos. Importa tanto quanto saber conceder, e nos que mandam é atenção urgente. Aqui entra o modo: mais se estima o não de alguns que o sim de outros, porque um não dourado satisfaz mais que um sim seco.

Há muitos que sempre têm o não na boca, com que tudo desazonam. O não é sempre o primeiro neles; e, embora depois venham a conceder tudo, não se lhes estima, porque precedeu aquele primeiro desgosto. Não se devem negar as coisas de repente: vá o desengano a goles. Nem se deve negar de todo, pois seria desenganar a dependência. Fiquem sempre algumas relíquias de esperança para temperar o amargo do negar. Encha a cortesia o vazio do favor, e supram as boas palavras a falta das obras. O não e o sim são breves de dizer e pedem muito pensar.

LXXI. Não ser desigual, de proceder anômalo.

Nem por natureza, nem por afetação. O varão prudente foi sempre o mesmo em tudo o que é perfeito, e isso é crédito de entendido. Dependa sua mudança da mudança das causas e dos méritos. Em matéria de prudência, a variedade é feia.

Há alguns que cada dia são outros de si mesmos; até o entendimento têm desigual, quanto mais a vontade, e ainda a ventura. Quem ontem foi o branco de seu sim, hoje é o negro de seu não, desmentindo sempre seu próprio crédito e deslumbrando o conceito alheio.

LXXII. Homem de resolução.

Menos danosa é a má execução que a irresolução. Não se gastam tanto as matérias quando correm quanto quando estancam. Há homens indetermináveis, que precisam de premovimento alheio em tudo; e às vezes isso não nasce tanto da perplexidade do juízo, pois o têm perspicaz, quanto da ineficácia. Engenhoso costuma ser dificultar; mais engenhoso é achar saída para os inconvenientes.

Há outros que em nada se embaraçam, de juízo grande e determinado. Nasceram para sublimes empregos, porque sua compreensão desembaraçada facilita o acerto e o despacho: tudo encontram já feito. Depois de haver dado razão a um mundo, ainda restou tempo a um desses para outro; e, quando estão afiançados de sua dita, empenham-se com mais segurança.

LXXIII. Saber usar o deslize.

É o desempenho dos prudentes. Com a galanteria de um dito espirituoso costumam sair do mais intrincado labirinto. Furta-se o corpo airosamente, com um sorriso, à mais dificultosa contenda. Nisso fundava seu valor o maior dos grandes capitães. Cortês artimanha do negar: mudar o verbo. E não há maior atenção que não se dar por entendido.

LXXIV. Não ser intratável.

No mais povoado estão as verdadeiras feras. A inacessibilidade é vício de desconhecidos de si, que mudam os humores com as honras. Não é meio apropriado para a estima começar enfadando. Que espetáculo é ver um desses monstros intratáveis, sempre no ponto de sua ferocidade impertinente! Entram os dependentes a falar-lhes por sua desdita, como quem vai lutar com tigres, tão armados de tato quanto de receio.

Para subir ao posto agradaram a todos; estando nele, querem desquitar-se enfadando todos. Devendo ser de muitos pelo emprego, são de ninguém por sua aspereza ou entono. Castigo cortesão para estes: deixá-los estar, furtando-lhes a prudência com o trato.

LXXV. Escolher ideia heroica.

Mais para a emulação que para a imitação. Há exemplares de grandeza, textos animados da reputação. Proponha-se cada um, em seu emprego, os primeiros, não tanto para segui-los quanto para ultrapassá-los. Alexandre chorou não por Aquiles sepultado, mas por si mesmo, ainda não bem nascido para o brilho. Não há coisa que tanto solicite ambições no ânimo como o clarim da fama alheia: o mesmo que aterra a inveja alenta a generosidade.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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