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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 10 · A Arte da Prudência

Aforismos CCI-CCXXV

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Aforismos CCI-CCXXV

CCI. São tolos todos os que o parecem, e metade dos que não o parecem.

A necedade se alçou com o mundo; e, se há alguma sabedoria, é estultícia comparada à do céu. Mas o maior néscio é aquele que não se crê tal e define todos os outros. Para ser sábio não basta parecê-lo, menos ainda parecer sábio a si mesmo.

Sabe aquele que pensa que não sabe; e não vê quem nem vê que os outros veem. Com estar o mundo cheio de néscios, nenhum há que o pense de si, nem sequer o receie.

CCII. Ditos e feitos fazem um varão consumado.

Há de falar o muito bom e obrar o muito honroso: uma coisa é perfeição da cabeça, a outra do coração, e ambas nascem da superioridade do ânimo. As palavras são sombra dos feitos; aquelas são fêmeas, estes varões.

Mais importa ser celebrado que celebrador. É fácil o dizer e difícil o obrar. As façanhas são a substância do viver; as sentenças, o ornato. A eminência nos feitos dura; nos ditos, passa. As ações são fruto das atenções: uns são sábios, outros, valorosos.

CCIII. Conhecer as eminências de seu século.

Não são muitas: uma fênix em todo um mundo, um Grande Capitão, um perfeito orador, um sábio em todo um século, um rei eminente em muitos. As medianias são ordinárias em número e apreço; as eminências, raras em tudo, porque pedem complemento de perfeição; e, quanto mais sublime a categoria, mais dificultoso o extremo.

Muitos tomaram de César e Alexandre os renomes de magnos, mas em vazio, pois sem feitos a voz não é mais que um pouco de ar. Poucos Sênecas houve, e um só Apeles celebrou a fama.

CCIV. O fácil deve ser empreendido como difícil, e o difícil como fácil.

No primeiro caso, para que a confiança não descuide; no segundo, para que a desconfiança não desmaie. Nada mais basta para que uma coisa não se faça do que dá-la por feita; e, ao contrário, a diligência aplaina a impossibilidade.

Os grandes empenhos nem devem ser muito pensados; basta oferecer-se a eles, para que a dificuldade, advertida em excesso, não ocasione o reparo.

CCV. Saber jogar com o desprezo.

É ardil para alcançar as coisas depreciá-las. Comumente não se acham quando se buscam, e depois, ao descuido, vêm à mão. Como todas as coisas de cá são sombra das eternas, participam daquela propriedade da sombra: fogem de quem as segue e perseguem quem delas foge.

Também é o desprezo a mais política vingança. Máxima única de sábios: nunca se defender com a pena, que deixa rastro e vem a ser mais glória da emulação que castigo do atrevimento. Astúcia de indignos: opor-se a grandes homens para serem celebrados por via indireta, já que não o mereciam por direito. Não conheceríamos muitos se os excelentes contrários não fizessem caso deles.

Não há vingança como o esquecimento, que os sepulta no pó de seu nada. Presumem, temerários, fazer-se eternos pondo fogo às maravilhas do mundo e dos séculos. Arte de reformar a murmuração: não fazer caso; impugná-la causa prejuízo e, se lhe dá crédito, descrédito. À emulação, complacência; pois até aquela sombra de desdouro desluz, ainda que não obscureça de todo, a maior perfeição.

CCVI. Saiba-se que há vulgo em toda parte.

Mesmo em Corinto, mesmo na família mais escolhida. Cada um o experimenta dentro de sua própria casa. Mas há vulgo e revulgo, que é pior: o especial tem as mesmas propriedades do comum, como pedaços de espelho quebrado, e ainda mais prejudiciais.

Fala néscio e censura impertinente; grande discípulo da ignorância, padrinho da necedade e aliado da tagarelice. Não se deve atender ao que diz, e menos ao que sente. Importa conhecê-lo para livrar-se dele, ou como parte, ou como objeto. Porque qualquer necedade é vulgaridade, e o vulgo se compõe de néscios.

CCVII. Usar da contenção.

Deve-se estar mais sobre si nos acasos. Os ímpetos das paixões são deslizadouros da prudência, e ali está o risco de perder-se. Avança-se às vezes mais num instante de fúria ou contentamento que em muitas horas de indiferença. Corre-se talvez em breve momento para envergonhar-se depois por toda a vida.

Traça a astuta intenção alheia essas tentações de prudência para descobrir terreno ou ânimo. Vale-se de semelhantes torcedores de segredos, que costumam espremer o maior cabedal. Seja contra-ardil a contenção, e mais ainda nas prontidões. Muita reflexão é necessária para que uma paixão não se desboque, e grande prudente é quem o é a cavalo. Vai com tento quem concebe o perigo. A palavra que parece leve a quem a solta parece pesada a quem a recebe e pondera.

CCVIII. Não morrer de achaque de néscio.

Comumente, os sábios morrem faltos de prudência; ao contrário, os néscios, fartos de conselho. Morrer de néscio é morrer de discorrer demais. Uns morrem porque sentem; outros vivem porque não sentem. Assim, uns são néscios porque não morrem de sentimento, e outros porque morrem dele.

Néscio é quem morre de demasiado entendido. De sorte que uns morrem de entender, e outros vivem de não serem entendidos; mas, embora muitos morram de néscios, poucos néscios morrem.

CCIX. Livrar-se das necedades comuns.

É prudência bem especial. Estão muito validadas pelo costume, e alguns que não se renderam à ignorância particular não souberam escapar da comum. Vulgaridade é ninguém estar contente com sua sorte, ainda a maior, nem descontente com seu engenho, ainda o pior.

Todos cobiçam, descontentes da própria, a felicidade alheia. Também os de hoje louvam as coisas de ontem, e os daqui as de além. Tudo o passado parece melhor, e tudo o distante é mais estimado. Tão néscio é quem ri de tudo quanto quem de tudo se corrói.

CCX. Saber jogar com a verdade.

É perigosa, mas o homem de bem não pode deixar de dizê-la: aí é necessário o artifício. Os hábeis médicos do ânimo inventaram o modo de adoçá-la, pois, quando toca em desengano, é a quinta essência do amargo.

O bom modo vale-se aqui de sua destreza: com uma mesma verdade um lisonjeia e outro espanca. Deve-se falar aos presentes nos passados. Com o bom entendedor basta insinuar; e, quando nada bastar, entra o caso de emudecer. Os príncipes não se curam com coisas amargas: para isso existe a arte de dourar os desenganos.

CCXI. No Céu tudo é contentamento; no Inferno, tudo pesar.

No mundo, como meio, há um e outro. Estamos entre dois extremos, e assim participamos de ambos. Alternam-se as sortes: nem tudo há de ser felicidade, nem tudo adversidade. Este mundo é um zero: sozinho, nada vale; junto ao Céu, muito.

A indiferença diante de sua variedade é prudência, e não é de sábios espantar-se com a novidade. Vai-se empenhando nossa vida como em comédia; ao fim vem a desenredar-se. Atenção, pois, a acabar bem.

CCXII. Reservar sempre os últimos lances da arte.

É coisa de grandes mestres, que se valem de sua sutileza até no ensiná-la. Sempre se há de ficar superior, e sempre mestre. Deve-se comunicar a arte com arte; nunca se esgotar a fonte do ensinar, assim como nem a do dar.

Com isso se conserva a reputação e a dependência. No agradar e no ensinar, observe-se aquela grande lição de ir sempre cevando a admiração e adiantando a perfeição. A reserva em todas as matérias foi grande regra de viver, de vencer, e mais nos empregos mais sublimes.

CCXIII. Saber contradizer.

É grande ardil para tentar, não para empenhar-se, mas para empenhar o outro. É torcedor único, que faz saltar os afetos. A tibieza em crer é vomitivo dos segredos, chave do peito mais cerrado.

Faz-se com grande sutileza a tentativa dupla da vontade e do juízo. Um desprezo sagaz da palavra misteriosa de outro dá caça aos segredos mais profundos, e vai-os trazendo suavemente à boca até que caiam nas redes do engano artificioso. A detenção do atento faz precipitar-se a reserva alheia e descobre o sentir que de outro modo era coração inescrutável.

Uma dúvida fingida é a mais sutil gazua da curiosidade para saber quanto quiser. E até para aprender é ardil do discípulo contradizer o mestre, que se empenha com mais conato na declaração e fundamento da verdade; de sorte que a impugnação moderada dá ocasião ao ensino completo.

CCXIV. Não fazer de uma necedade duas.

É muito ordinário, para remendar uma, cometer outras quatro. Desculpar uma impertinência com outra maior é da casta da mentira, ou esta o é da necedade, pois uma, para sustentar-se, necessita de muitas.

Sempre foi pior o patrocínio de mau pleito que o próprio mal: não saber desmenti-lo. É pensão das imperfeições dar a censo muitas outras. Num descuido pode cair o maior sábio, mas em dois não; e de passagem, não de assento.

CCXV. Atenção ao que chega com segunda intenção.

É ardil do homem negociante descuidar a vontade para acometê-la, pois é vencida sendo convencida. Dissimulam o intento para consegui-lo, e põem-no em segundo lugar para que na execução seja primeiro; assegura-se o tiro no inadvertido.

Mas não durma a atenção quando tão desperta está a intenção; e, se esta se faz segunda para o disfarce, aquela se faça primeira para o conhecimento. Advirta a cautela o artifício com que chega, e note as pontas que vai lançando para vir parar ao ponto de sua pretensão. Propõe uma coisa e pretende outra, e revolve com sutileza para dar no alvo de sua intenção. Saiba, pois, o que concede; e às vezes convém dar a entender que entendeu.

CCXVI. Ter clareza declarativa.

É não só desembaraço, mas nitidez no conceito. Alguns concebem bem e parem mal, pois, sem claridade, não saem à luz os filhos da alma: conceitos e decretos. Alguns têm a capacidade daquelas vasilhas que recebem muito e comunicam pouco. Ao contrário, outros dizem ainda mais do que sentem.

O que é a resolução na vontade é a explicação no entendimento: duas grandes eminências. Os engenhos claros são plausíveis; os confusos foram venerados por não entendidos, e às vezes convém a obscuridade para não ser vulgar. Mas como os demais farão conceito do que ouvem se não corresponde conceito mental a quem fala daquilo que diz?

CCXVII. Não se deve querer nem aborrecer para sempre.

Confie-se dos amigos de hoje como de inimigos amanhã, e os piores; pois, se isso passa na realidade, passe também na prevenção. Não se devem dar armas aos trânsfugas da amizade, que fazem com elas a maior guerra.

Ao contrário, com os inimigos, mantenha-se sempre porta aberta à reconciliação, e seja a da galanteria: é a mais segura. Já atormentou depois a vingança de antes, e serve de pesar o contentamento da má obra que se fez.

CCXVIII. Nunca agir por teima, mas por atenção.

Toda teima é postema, grande filha da paixão, que nunca obrou coisa direita. Há alguns que tudo reduzem a guerrilha; bandoleiros do trato, em tudo que executam queriam que houvesse vencimento, e não sabem proceder pacificamente. Estes, para mandar e reger, são perniciosos, porque fazem bando do governo e inimigos daqueles que deveriam tratar como filhos.

Tudo querem dispor com traça e conseguir como fruto de seu artifício; mas, ao se lhes descobrir o paradoxo humor, os demais logo se marcam contra eles e procuram estorvar suas quimeras; assim nada conseguem. Levam muitos fartões de enfado, e todos lhes ajudam ao desgosto. Têm o ditame leso, e talvez danificado o coração. O modo de portar-se com semelhantes monstros é fugir aos antípodas, pois melhor se levará a barbárie daqueles que a ferocidade destes.

CCXIX. Não ser tido por homem de artifício.

Embora já não se possa viver sem ele. Antes prudente que astuto. A lisura no trato agrada a todos, mas nem todos a praticam em sua casa. A sinceridade não dê no extremo de simplicidade; nem a sagacidade, no de astúcia.

Seja antes venerado como sábio que temido como reflexo. Os sinceros são amados, mas enganados. O maior artifício seja encobri-lo, porque é tido por engano. Floresceu no século de ouro a lhaneza; neste de ferro, a malícia. O crédito de homem que sabe o que há de fazer é honroso e causa confiança; o de artificioso é sofístico e engendra receio.

CCXX. Quando não puder vestir a pele do leão, vista a da raposa.

Saber ceder ao tempo é exceder. Quem sai com seu intento nunca perde reputação. À falta de força, destreza. Por um caminho ou por outro: ou pela estrada real do valor, ou pelo atalho do artifício.

Mais coisas obrou a manha que a força, e mais vezes venceram os sábios aos valentes que o contrário. Quando não se pode alcançar a coisa, entra o desprezo.

CCXXI. Não ser ocasionado, nem para empenhar-se, nem para empenhar outros.

Há tropeços do decoro, tanto próprio quanto alheio, sempre a ponto de necedade. Encontram-se com grande facilidade e rompem com infelicidade. Não passam um dia sem cem enfados. Têm o humor ao arrepio, e assim contradizem a quantos e a quanto há.

Calçaram o juízo ao avesso, e por isso tudo reprovam. Mas os maiores tentadores da prudência são os que nada fazem bem e de tudo dizem mal; há muitos monstros no extenso país da impertinência.

CCXXII. Homem detido, evidência de prudente.

É fera a língua: se uma vez se solta, é muito dificultoso tornar a acorrentá-la. É o pulso da alma, por onde os sábios conhecem sua disposição. Aí os atentos tomam o movimento do coração.

O mal é que aquele que mais deveria ser reportado é o menos contido. O sábio escusa enfados e empenhos, e mostra quanto é senhor de si. Procede circunspecto: Jano na equivalência, Argos na verificação. Melhor teria feito Momo em notar falta de olhos nas mãos que de janelinha no peito.

CCXXIII. Não ser muito singularizado, por afetação ou descuido.

Alguns têm notável individuação, com ações de mania, que são mais defeitos que diferenças. E, assim como alguns são conhecidos por singular fealdade no rosto, estes o são por algum excesso no porte.

Singularizar-se assim não serve senão de nota, com uma especialidade impertinente que move alternadamente em uns o riso, em outros o enfado.

CCXXIV. Saber tomar as coisas.

Nunca pelo avesso, ainda quando venham. Todas têm face e reverso. A melhor e mais favorável, se tomada pelo fio, fere; ao contrário, a mais repugnante defende, se tomada pela empunhadura. Muitas coisas foram de pena que, consideradas pelas conveniências, seriam de contentamento.

Em tudo há convenientes e inconvenientes: a destreza está em saber topar com a comodidade. Uma mesma coisa faz visos muito diferentes se vista a luzes diversas; mire-se pela da felicidade. Não se devem trocar os freios ao bem e ao mal. Daqui procede que alguns em tudo acham contentamento, e outros, pesar. Grande reparo contra os reveses da fortuna, e grande regra de viver para todo tempo e todo emprego.

CCXXV. Conhecer seu defeito rei.

Ninguém vive sem ele, contrapeso da prenda relevante; e, se a inclinação o favorece, apodera-se como tirano. Comece-se a fazer-lhe guerra publicando o cuidado contra ele; e o primeiro passo seja manifestá-lo, pois, sendo conhecido, estará meio vencido, e mais se o interessado faz dele o mesmo conceito que os que o notam.

Para ser senhor de si é necessário ir sobre si. Rendido esse cabo de imperfeições, acabarão todas.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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