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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 3 · A Arte da Prudência

Aforismos XXVI-L

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Aforismos XXVI-L

XXVI. Encontrar em cada um o seu ponto de torção.

É a arte de mover vontades; consiste mais em destreza que em resolução: saber por onde se deve entrar em cada um. Não há vontade sem afição especial, e elas diferem conforme a variedade dos gostos. Todos são idólatras: uns da estima, outros do interesse, e a maioria do deleite. A manha está em conhecer esses ídolos para motivar, descobrindo em cada qual o impulso eficaz: é como ter a chave do querer alheio.

Deve-se ir ao primeiro motor, que nem sempre é o supremo; as mais das vezes é o ínfimo, porque há no mundo mais desordenados que subordinados. Primeiro se há de prevenir o gênio; depois, tocar-lhe o verbo; por fim, carregar sobre a afição, que infalivelmente dará mate ao livre-arbítrio.

XXVII. Pagar-se mais das intensões que das extensões.

A perfeição não consiste na quantidade, mas na qualidade. Tudo o que é muito bom foi sempre pouco e raro; o excesso desacredita. Mesmo entre os homens, os gigantes costumam ser os verdadeiros anões. Alguns estimam os livros pela corpulência, como se fossem escritos para exercitar antes os braços que os engenhos.

A extensão sozinha nunca pôde exceder a mediania; e é praga dos homens universais, por quererem estar em tudo, estarem em nada. A intensão dá eminência, e heroica quando em matéria sublime.

XXVIII. Em nada vulgar.

Não no gosto. Oh, grande sábio aquele que se desgostava de que suas coisas agradassem aos muitos! Farturas de aplauso comum não satisfazem aos discretos. Alguns são tão camaleões da popularidade que põem sua fruição não nas suavíssimas marés de Apolo, mas no hálito vulgar.

Nem no entendimento: não se pague dos milagres do vulgo, que não passam de espanta-ignorantes, admirando a necedade comum enquanto desenganam a advertência singular.

XXIX. Homem de inteireza.

Sempre do lado da razão, com tal firmeza de propósito que nem a paixão vulgar nem a violência tirana o obriguem jamais a pisar fora da linha da razão. Mas quem será esse fênix da equidade? Poucos têm fina a inteireza. Muitos a celebram, mas não a acolhem em casa; outros a seguem até o perigo; nele, os falsos a negam, e os políticos a dissimulam.

Ela não repara em encontrar-se contra a amizade, contra o poder e até contra a própria conveniência; e aqui está o aperto de desconhecê-la. Os astutos abstraem com metafísica plausível para não ofender, ora a razão superior, ora a razão de Estado. Mas o varão constante julga o disfarce espécie de traição; preza mais a tenacidade que a sagacidade; encontra-se onde se encontra a verdade. E, se deixa os sujeitos, não é por variação sua, mas deles, que antes a deixaram.

XXX. Não fazer profissão de ofícios desautorizados.

Muito menos de quimera, que serve mais para solicitar o desprezo que o crédito. São muitas as seitas do capricho, e de todas deve fugir o varão prudente. Há gostos exóticos, que se casam sempre com tudo aquilo que os sábios repudiam: vivem muito satisfeitos de toda singularidade, que, embora os torne muito conhecidos, é mais por motivos de riso que de reputação.

Mesmo na profissão de sábio, não se há de assinalar o atento; muito menos naquelas que tornam ridículos seus afetadores. Nem é preciso especificá-las, porque o descrédito comum as tem individuadas.

XXXI. Conhecer os afortunados para a escolha, e os desditosos para a fuga.

A infelicidade é ordinariamente crime de necedade, e contamina seus participantes: não há contágio tão pegadiço. Nunca se deve abrir a porta ao menor mal, pois sempre virão atrás dele muitos outros, e maiores, em emboscada. A melhor manobra do jogo é saber descartar-se: vale mais a menor carta do triunfo que corre que a maior do que já passou. Na dúvida, acerto é chegar-se aos sábios e prudentes, que cedo ou tarde topam com a ventura.

XXXII. Estar em opinião de dar gosto.

Para os que governam, é grande crédito agradar: realce dos soberanos para conquistar a graça universal. Esta só é a vantagem de mandar: poder fazer mais bem que todos. Verdadeiros amigos são aqueles que fazem amizades.

Ao contrário, há outros postos em não dar gosto, não tanto pelo que têm de pesados quanto pelo que têm de malignos, opostos em tudo à divina comunicabilidade.

XXXIII. Saber abstrair-se.

Se é grande lição do viver saber negar, maior será saber negar-se a si mesmo, aos negócios, aos personagens. Há ocupações estranhas, traças do precioso tempo; e pior é ocupar-se no impertinente que nada fazer. Não basta ao atento não ser intrometido; é preciso cuidar que não o intrometam.

Não deve ser tão de todos que deixe de ser de si mesmo. Nem dos amigos se deve abusar, nem querer deles mais do que concederem. Todo excesso é vicioso, e muito mais no trato. Com essa cordata temperança conserva-se melhor o agrado de todos e a estima, porque não se desgasta a preciosíssima decência. Tenha, pois, liberdade de gênio, apaixonado pelo seleto, e nunca peque contra a fé de seu bom gosto.

XXXIV. Conhecer seu realce-rei.

A prenda relevante: cultivá-la e ajudar as demais. Qualquer um teria conseguido eminência em algo se houvesse conhecido sua vantagem. Observe o atributo-rei e aplique-se a ele. Em uns excede o juízo; em outros, o valor. A maioria violenta sua Minerva, e assim não consegue superioridade em nada: o que logo lisonjeia a paixão, tarde o tempo desengana.

XXXV. Fazer conceito.

E sobretudo daquilo que mais importa. Por não pensar se perdem todos os néscios: nunca concebem nas coisas a metade; e, como não percebem o dano nem a conveniência, tampouco aplicam a diligência. Alguns fazem muito caso do que importa pouco, e pouco do que importa muito, ponderando sempre ao contrário. Muitos, por falta de sentido, nem chegam a perdê-lo.

Há coisas que deveriam ser observadas com todo empenho e conservadas na profundidade da mente. O sábio faz conceito de tudo, embora com distinção: cava onde há fundo e reparo; e pensa, às vezes, que há mais do que pensa, de modo que a reflexão chega onde a apreensão não chegou.

XXXVI. Ter sondada a própria fortuna.

Para proceder, para empenhar-se. Importa mais que a observação do temperamento; pois, se é néscio quem aos quarenta anos chama Hipócrates para a saúde, mais o é quem chama Sêneca para a prudência. Grande arte é saber reger a fortuna: ora esperando-a, pois também nela cabe espera; ora aproveitando-a, pois ela tem vez e contingência, embora não se lhe possa apanhar o teor, tão anômalo é seu proceder.

Quem a observou favorável prossiga com desembaraço, pois ela costuma apaixonar-se pelos ousados e, como bizarra, pelos jovens. Não aja o infeliz: retire-se, e não lhe dê ocasião de duas infelicidades. Avance aquele a quem ela favorece.

XXXVII. Conhecer e saber usar as varinhas.

É o ponto mais sutil do trato humano. Arremessam-se para tentativa dos ânimos, e com elas se faz a mais dissimulada e penetrante sondagem do coração. Outras há maliciosas, arremessadiças, tocadas pela erva da inveja, untadas pelo veneno da paixão: raios imperceptíveis para derrubar da graça e da estima.

Muitos caíram da privança superior e inferior feridos por um dito leve desses, quando toda uma conspiração de murmuração vulgar e malevolência singular não bastara para lhes causar a menor trepidação. Outras operam ao contrário, como favoráveis, apoiando e confirmando na reputação. Mas, com a mesma destreza com que a intenção as lança, deve a cautela recebê-las e a atenção esperá-las, porque a defesa está em conhecê-las, e fica sempre frustrado o tiro prevenido.

XXXVIII. Saber retirar-se ganhando com a fortuna.

É coisa de jogadores de reputação. Tanto importa uma bela retirada quanto uma bizarra investida: pôr a salvo as façanhas quando forem bastantes, quando forem muitas. Felicidade continuada foi sempre suspeita; mais segura é a interpolada, que tenha algo de agridoce até para a fruição. Quanto mais atropeladas correm as ditas, maior o risco de deslizarem e darem com tudo por terra. Compensa-se às vezes a brevidade da duração com a intensão do favor. Cansa-se a fortuna de levar alguém às costas por tanto tempo.

XXXIX. Conhecer as coisas em seu ponto, em sua sazão, e saber aproveitá-las.

Todas as obras da natureza chegam ao complemento de sua perfeição: até ali foram ganhando; dali em diante, perdendo. Das obras da arte, raras são as que chegam ao ponto de não poderem melhorar. É eminência de bom gosto gozar cada coisa em seu complemento; nem todos podem, e nem os que podem sabem. Até nos frutos do entendimento há esse ponto de madureza; importa conhecê-lo para a estima e para o exercício.

XL. Graça das gentes.

Muito é conseguir a admiração comum; mais ainda, a afeição. Algo tem de estrela, mas o mais é indústria: começa por aquela e prossegue por esta. Não basta a eminência das prendas, embora se suponha fácil ganhar o afeto depois de ganho o conceito.

Requer-se, pois, para a benevolência, a beneficência: fazer o bem a todas as mãos, boas palavras e melhores obras, amar para ser amado. A cortesia é o maior feitiço político dos grandes personagens. Deve-se estender a mão primeiro às façanhas e depois às plumas, da folha às folhas, pois há graça de escritores, e é eterna.

XLI. Nunca exagerar.

Grande assunto da atenção: não falar por superlativos, tanto para não se expor a ofender a verdade quanto para não desdourar a própria prudência. As exagerações são prodigalidades da estima e dão indício da curta medida do conhecimento e do gosto. O louvor desperta vivamente a curiosidade, espicaça o desejo; e depois, se o valor não corresponde ao apreço, como de ordinário acontece, a expectativa se volta contra o engano e se desafoga no menosprezo do celebrado e de quem celebrou.

Anda, pois, o prudente muito contido, e prefere pecar por curto a pecar por largo. Raras são as eminências: tempere-se a estima. Encarecer é ramo do mentir; e nisso se perde o crédito de bom gosto, que é grande, e o de entendido, que é maior.

XLII. Do império natural.

É uma força secreta de superioridade. Não deve proceder do artifício enfadonho, mas de um natural imperioso. Todos se lhe sujeitam sem advertir como, reconhecendo o vigor secreto da autoridade conatural. São esses os gênios senhoriais, reis por mérito e leões por privilégio inato, que tomam o coração, e até o discurso, dos demais, pela fé do respeito. Se as outras prendas os favorecem, nasceram para primeiros móveis políticos, porque executam mais com um aceno do que outros com uma prolixidade.

XLIII. Sentir com os menos e falar com os mais.

Querer ir contra a corrente é tão impossível ao desengano quanto fácil ao perigo. Só um Sócrates poderia empreendê-lo. Tem-se por agravo o dissentir, porque é condenar o juízo alheio. Multiplicam-se os desgostosos, tanto pelo sujeito censurado quanto por quem o aplaudia. A verdade é de poucos; o engano é tão comum quanto vulgar.

Não se deve reconhecer o sábio pelo que fala na praça, pois ali ele não fala com sua voz, mas com a da necedade comum, por mais que por dentro a esteja desmentindo. O prudente tanto foge de ser contradito quanto de contradizer: se é pronto para a censura, é detido na publicação dela. O sentir é livre, não se pode nem se deve violentar; recolhe-se ao sagrado de seu silêncio; e, se alguma vez se permite, é à sombra de poucos e prudentes.

XLIV. Simpatia com os grandes varões.

Prenda de herói é combinar com heróis: prodígio da natureza pelo que tem de oculto e de vantajoso. Há parentesco de corações e de gênios, e são seus efeitos aquilo que a ignorância vulgar atribui a filtros. Não para na estima apenas: adianta-se à benevolência e chega até à propensão. Persuade sem palavras e consegue sem méritos. Há simpatia ativa e passiva; uma e outra felizes, tanto mais quanto mais sublimes. Grande destreza é conhecê-las, distingui-las e saber aproveitá-las, pois não há porfia que baste sem esse favor secreto.

XLV. Usar, não abusar, das reflexões.

Não se devem afetar, muito menos dar a entender. Toda arte se deve encobrir, porque é suspeitosa; e mais a cautela, que é odiosa. Usa-se muito o engano; multiplique-se o receio, mas sem se dar a conhecer, pois isso ocasionaria a desconfiança. Ela desobriga muito, provoca vingança e desperta o mal que não se imaginou.

A reflexão no proceder é grande vantagem no agir: não há maior argumento do discurso. A maior perfeição das ações está afiançada pelo senhorio com que se executam.

XLVI. Corrigir sua antipatia.

Costumamos aborrecer de graça, e até antes de conhecer as prendas previstas. Às vezes essa aversão inata e vulgarizante se atreve contra varões eminentes. Corrija-a a prudência, pois não há pior descrédito que aborrecer os melhores: o que a simpatia com heróis tem de vantagem, a antipatia tem de desdouro.

XLVII. Fugir dos empenhos.

É um dos primeiros assuntos da prudência. Nas grandes capacidades há sempre grandes distâncias até os últimos transes: muito há que andar de um extremo a outro, e elas permanecem sempre no meio de sua prudência. Chegam tarde ao rompimento, pois é mais fácil furtar o corpo à ocasião que sair-se bem dela.

Os empenhos são tentações do juízo; mais seguro é fugir deles que vencê-los. Um empenho traz outro maior e fica muito à beira do despenhadeiro. Há homens ocasionados por gênio, e até por nação, fáceis de se meter em obrigações; mas quem caminha à luz da razão sempre vai muito acima do caso. Estima por maior valor não se empenhar que vencer; e, já que haja um néscio ocasionado, evita que com ele sejam dois.

XLVIII. Homem com fundos: tanto tem de pessoa.

Sempre há de ser outro tanto maior o interior que o exterior em tudo. Há sujeitos de pura fachada, como casas por acabar, porque faltou cabedal: têm entrada de palácio e habitação de choupana. Não há neles onde parar, ou tudo para, porque, acabada a primeira saudação, acabou a conversa. Entram pelas primeiras cortesias como cavalos sicilianos, e logo param em silenciários, pois se esgotam as palavras onde não há perenidade de conceito.

Enganam facilmente outros que também têm vista superficial; mas não a astúcia, que, como olha por dentro, os acha vazios, prontos para serem fábula dos discretos.

XLIX. Homem ajuizado e observador.

Ele se assenhoreia dos objetos, não os objetos dele. Logo sonda o fundo da maior profundidade; sabe fazer, com perfeição, a anatomia de um cabedal. Ao ver um personagem, compreende-o e o julga por essência. De raras observações, grande decifrador da interioridade mais recatada. Nota com agudeza, concebe com sutileza, infere com juízo: tudo descobre, adverte, alcança e compreende.

L. Nunca perder o respeito a si mesmo.

Nem se roçar consigo a sós. Seja sua própria inteireza norma de sua retidão, e deva mais à severidade de seu ditame que a todos os preceitos extrínsecos. Deixe de fazer o indecente mais pelo temor de sua prudência que pelo rigor da autoridade alheia. Chegue a temer-se, e não precisará do aio imaginário de Sêneca.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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