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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 12 · A Arte da Prudência

Aforismos CCLI-CCLXXV

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Aforismos CCLI-CCLXXV

CCLI. Devem-se procurar os meios humanos como se não houvesse divinos, e os divinos como se não houvesse humanos.

Regra de grande mestre; não há que acrescentar comentário.

CCLII. Nem todo seu, nem todo alheio.

É vulgar tirania. Do querer-se todo para si segue-se logo querer todas as coisas para si. Estes não sabem ceder no mínimo, nem perder um ponto de sua comodidade. Obrigam pouco, fiam-se em sua fortuna, e costuma falhar-lhes o arrimo.

Convém às vezes ser de outros para que os outros sejam dele; e quem tem cargo comum há de ser escravo comum, ou renuncie o cargo com a carga. Ao contrário, outros são todos alheios, pois a necedade sempre vai por demasias, e aqui infeliz: não têm dia, nem sequer hora sua, com tal excesso de serem dos outros que alguém foi chamado “o de todos”.

Até no entendimento: sabem para todos e para si ignoram. Entenda o atento que ninguém o busca a ele, mas seu interesse nele, ou por ele.

CCLIII. Não se aplainar demais no conceito.

A maioria não estima o que entende, e venera o que não percebe. As coisas, para serem estimadas, devem custar. Será celebrado quando não for entendido. Sempre se deve mostrar alguém mais sábio e prudente do que requer aquele com quem trata, para o conceito, mas com proporção, mais que excesso.

E, embora com os entendidos valha muito o siso em tudo, para a maioria é necessário algum remonte. Não se lhes deve dar lugar à censura; ocupe-os em entender. Muitos louvam o que, se perguntados, não sabem explicar. Por quê? Tudo o recôndito veneram como mistério e celebram porque ouvem celebrar.

CCLIV. Não desprezar o mal por pequeno, pois nunca vem um só.

Andam encadeados, assim como as felicidades. A ventura e a desventura vão de ordinário para onde mais há; e é que todos fogem do desditoso e se encostam ao venturoso. Até as pombas, com toda sua singeleza, acodem ao pombal mais branco.

Tudo vem a faltar ao desditoso: ele mesmo a si, o discurso e o conorte. Não se deve despertar a desgraça quando dorme. Pouco é um deslize, mas segue-se aquele fatal despenho, sem saber onde se virá a parar; pois, assim como nenhum bem foi de todo completo, nenhum mal é de todo acabado. Para o que vem do céu, paciência; para o que vem do chão, prudência.

CCLV. Saber fazer o bem.

Pouco, e muitas vezes. Nunca deve o empenho exceder a possibilidade. Quem dá muito não dá, vende. Não se deve esgotar o agradecimento; quando se vê impossibilitado, quebrará a correspondência. Não é preciso mais para perder muitos que obrigá-los em demasia.

Por não pagar, retiram-se, e dão em inimigos de obrigados. O ídolo nunca quereria ver diante de si o escultor que o lavrou; nem o empenhado, seu benfeitor aos olhos. Grande sutileza do dar: que custe pouco e se deseje muito, para que se estime mais.

CCLVI. Ir sempre prevenido.

Contra os descorteses, porfiados, presumidos e todo gênero de néscios. Encontram-se muitos, e a prudência está em não encontrar-se com eles. Arme-se cada dia de propósitos ao espelho de sua atenção, e assim vencerá os lances da necedade.

Vá sobre o caso, e não exporá sua reputação a contingências vulgares: varão prevenido de prudência não será combatido pela impertinência. É dificultoso o rumo do trato humano, por estar cheio de escolhos do descrédito; desviar-se é o seguro, consultando Ulisses em astúcia. Vale aqui muito o desliz artificioso. Sobretudo, vá pela galanteria, que é o único atalho dos empenhos.

CCLVII. Nunca chegar ao rompimento.

Sempre sai dele escalavrada a reputação. Qualquer um vale para inimigo, não assim para amigo. Poucos podem fazer bem, e quase todos mal. Não aninha segura a águia no próprio seio de Júpiter no dia em que rompe com um escaravelho: com a garra do declarado, os dissimulados atiçam o fogo, pois estavam à espera da ocasião.

Dos amigos maleados saem os piores inimigos; carregam com os defeitos alheios o próprio afeto. Dos que olham, cada um fala como sente e sente como deseja, condenando todos, ou nos princípios por falta de providência, ou nos fins por demora, e sempre por falta de prudência. Se for inevitável o desvio, seja escusável, antes com tibieza de favor que com violência de furor. E aqui vem bem uma bela retirada.

CCLVIII. Buscar quem ajude a levar as infelicidades.

Nunca será só, e menos nos riscos, pois isso seria carregar-se com todo o ódio. Alguns pensam alçar-se com toda a superintendência e alçam-se com toda a murmuração. Desta sorte terá quem o desculpe ou quem ajude a levar o mal.

Não se atrevem tão facilmente contra dois nem a fortuna nem a vulgaridade. Por isso o médico sagaz, ainda que tenha errado a cura, não erra em buscar quem, a título de consulta, o ajude a levar o ataúde. Reparte-se o peso e o pesar, pois a desdita a sós se redobra até o intolerável.

CCLIX. Prevenir as injúrias e fazer delas favores.

Mais sagacidade é evitá-las que vingá-las. É grande destreza fazer confidente daquele que havia de ser êmulo, converter em reparos de sua reputação os que a ameaçavam com tiros.

Muito vale saber obrigar: tira tempo para o agravo quem o ocupou com o agradecimento. É saber viver converter em prazeres os que haviam de ser pesares. Faça-se confidência da própria malevolência.

CCLX. Nem será, nem terá a ninguém, todo por seu.

Não bastam o sangue, nem a amizade, nem a obrigação mais apertada, pois há grande diferença entre entregar o peito e entregar a vontade. A maior união admite exceção; nem por isso se ofendem as leis da fineza.

Sempre reserva algum segredo para si o amigo, e até o filho se recata em algo do pai. De umas coisas se guardam com uns, comunicando-as a outros, e ao contrário; com isso se vem a conceder tudo e negar tudo, distinguindo os termos da correspondência.

CCLXI. Não prosseguir a necedade.

Alguns fazem empenho do desacerto e, porque começaram a errar, parece-lhes constância prosseguir. Acusam no foro interno seu erro e no externo o desculpam; assim, se quando começaram a necedade foram notados de inadvertidos, ao prossegui-la são confirmados em néscios.

Nem a promessa inconsiderada nem a resolução errada induzem obrigação. Desse modo alguns continuam sua primeira grosseria e levam adiante sua estreiteza: querem ser constantes impertinentes.

CCLXII. Saber esquecer.

É mais felicidade que arte. As coisas mais para serem esquecidas são as mais lembradas. Não só é vilã a memória por faltar quando mais era necessária, mas néscia por acudir quando não convinha: naquilo que há de dar pena é prolixa, e naquilo que deveria dar gosto é descuidada.

Às vezes o remédio do mal consiste em esquecê-lo, e esquece-se o remédio. Convém, pois, habituá-la a costumes tão cômodos, porque basta para dar felicidade ou inferno. Excetuam-se os satisfeitos, que no estado de sua inocência gozam de sua simples felicidade.

CCLXIII. Muitas coisas de gosto não se devem possuir em propriedade.

Gozam-se mais alheias que próprias. O primeiro dia é o bom para seu dono; os demais, para os estranhos. Gozam-se as coisas alheias com dobrada fruição: sem o risco do dano e com o gosto da novidade. Tudo sabe melhor à privação: até a água alheia finge ser néctar.

Ter as coisas, além de diminuir a fruição, aumenta o enfado, tanto de emprestá-las quanto de não emprestá-las. Não serve senão para mantê-las para outros, e são mais os inimigos que se ganham que os agradecidos.

CCLXIV. Não tenha dias de descuido.

A sorte gosta de pregar uma burla, e atropelará todas as contingências para apanhar desprevenido. Sempre devem estar à prova o engenho, a prudência e o valor; até a beleza, porque o dia de sua confiança será o de seu descrédito.

Quando mais foi necessário o cuidado, sempre faltou, pois o não pensar é a rasteira do perecer. Também costuma ser estratagema da atenção alheia apanhar ao descuido as perfeições para o rigoroso exame do apreço. Já se conhecem os dias da ostentação, e a astúcia os perdoa; mas o dia que menos se esperava, esse escolhe para a tentativa do valor.

CCLXV. Saber empenhar os dependentes.

Um empenho em sua ocasião fez pessoas a muitos, assim como um aperto tira nadadores. Dessa sorte muitos descobriram o valor, e até o saber, que ficaria sepultado em seu acanhamento se não se oferecesse a ocasião.

Os apertos são lances de reputação, e, posto o nobre em contingências de honra, obra por mil. Soube com eminência essa lição de empenhar a católica rainha Isabel, como todas as demais; e a esse político favor deveu o Grande Capitão seu renome, e muitos outros sua fama eterna: fez grandes homens com essa sutileza.

CCLXVI. Não ser mau de tão bom.

É-o aquele que nunca se irrita: têm pouco de pessoas os insensíveis. Nem sempre nasce de indolência, mas de incapacidade. Um sentimento em sua ocasião é ato pessoal. Logo zombam as aves das aparências de espantalhos.

Alternar o acre com o doce é prova de bom gosto: só doçura é para crianças e néscios. Grande mal é perder-se de puro bom, nesse sentido de insensibilidade.

CCLXVII. Palavras de seda, com suavidade de condição.

As setas atravessam o corpo; as más palavras, a alma. Uma boa pasta faz a boca cheirar bem. Grande sutileza do viver: saber vender o ar. A maioria das coisas se paga com palavras, e bastam elas para desempenhar uma impossibilidade.

Negocia-se no ar com o ar, e muito alenta o alento soberano. Sempre se deve levar a boca cheia de açúcar para confeitar palavras, que sabem bem aos próprios inimigos. O único meio de ser amável é ser aprazível.

CCLXVIII. Faça o prudente no princípio o que o néscio faz no fim.

O mesmo obra um e outro; só diferem nos tempos: aquele em sua sazão, este fora dela. Quem no princípio calçou o entendimento ao avesso prossegue assim em todo o resto: leva entre os pés o que devia pôr sobre a cabeça; faz esquerda da direita, e por isso é tão canhoto em todo o proceder.

Só há uma boa maneira de cair em si. Os néscios fazem por força o que poderiam ter feito de grado; mas o discreto logo vê o que se há de fazer, cedo ou tarde, e o executa com gosto e reputação.

CCLXIX. Valha-se de sua novidade.

Enquanto for novo, será estimado. Apraz universalmente a novidade, pela variedade; refresca-se o gosto, e estima-se mais uma mediania flamante que um extremo acostumado. Gastam-se as eminências e vêm a envelhecer.

Advirta, porém, que durará pouco essa glória da novidade: em quatro dias lhe perderão o respeito. Saiba, pois, valer-se dessas primícias da estima e tirar, na fuga do agradar, tudo o que puder pretender; porque, se passa o calor do recente, esfriará a paixão, e o agrado de novo se trocará em enfado de acostumado. Creia que tudo teve também sua vez, e que passou.

CCLXX. Não condenar sozinho o que agrada a muitos.

Algo há de bom, pois satisfaz a tantos; e, embora não se explique, se goza. A singularidade sempre é odiosa; quando errônea, ridícula. Antes desacreditará seu mau conceito que o objeto; ficará só com seu mau gosto.

Se não sabe topar com o bom, dissimule sua estreiteza e não condene a vulto, pois o mau gosto ordinariamente nasce da ignorância. O que todos dizem, ou é, ou quer ser.

CCLXXI. Quem souber pouco, atenha-se sempre ao mais seguro.

Em toda profissão; porque, ainda que não o tenham por sutil, tê-lo-ão por fundamental. Quem sabe pode empenhar-se e obrar de fantasia; mas saber pouco e arriscar-se é precipício voluntário.

Atenha-se sempre à mão direita, pois não pode falhar o assentado. A pouco saber, caminho real; e, por toda lei, tanto do saber quanto do ignorar, é mais prudente a segurança que a singularidade.

CCLXXII. Vender as coisas a preço de cortesia.

É obrigar mais. Nunca chegará o pedir do interessado ao dar do generoso obrigado. A cortesia não dá, empenha; e a galanteria é a maior obrigação. Não há coisa mais cara para o homem de bem que a que se lhe dá: é vendê-la duas vezes, e por dois preços, o do valor e o da cortesia.

Verdade é que para o ruim a galanteria é algaravia, porque não entende os termos do bom termo.

CCLXXIII. Compreensão dos gênios com quem trata.

Para conhecer os intentos. Bem conhecida a causa, conhece-se o efeito, primeiro nela e depois em seu motivo. O melancólico sempre agoura infelicidades, e o maledicente, culpas: tudo o pior se lhes oferece, e, não percebendo o bem presente, anunciam o possível mal.

O apaixonado sempre fala com outra linguagem, diferente do que as coisas são; fala nele a paixão, não a razão. E cada um segundo seu afeto ou humor, todos muito longe da verdade. Saiba decifrar um semblante e soletrar a alma nos sinais. Conheça por falto quem sempre ri, e por falso quem nunca ri. Recate-se do perguntador, ou por fácil, ou por notador. Espere pouco bem do de mau gesto, pois estes costumam vingar-se da natureza; e, assim como ela os honrou pouco, pouco a honram eles. Tanta costuma ser a necedade quanta for a formosura.

CCLXXIV. Ter atrativo.

É um feitiço politicamente cortês. Sirva o gancho galante mais para atrair vontades que utilidades, ou para tudo. Não bastam méritos se não se valem do agrado, que dá plausibilidade, o mais prático instrumento da soberania.

Um cair em graça é sorte, mas socorre-se do artifício; onde há grande natural, assenta melhor o artificial. Daqui se origina a piedosa afeição, até conseguir a graça universal.

CCLXXV. Corrente, mas não indecente.

Não esteja sempre de figura e de enfado; é ramo de galanteria. Deve-se ceder em algo ao decoro para ganhar a afeição comum. Alguma vez pode passar por onde passam os mais, mas sem indecência, pois quem é tido por néscio em público não será tido por prudente em segredo.

Mais se perde em um dia genial que se ganhou em toda a seriedade. Mas não se deve estar sempre de exceção: ser singular é condenar os outros; menos ainda afetar melindres, que se deixem para seu sexo. Até os espirituais são ridículos. O melhor de um homem é parecê-lo; a mulher pode afetar com perfeição o varonil, e não o contrário.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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