Universo da obra
Universo da obra
Devem-se selar os afetos; quanto mais os defeitos. Todos os homens erram, mas com esta diferença: os sagazes desmentem as feitas, e os néscios mentem as por fazer. Consiste o crédito no recato, mais que no fato; se alguém não é casto, seja cauto.
Os descuidos dos grandes homens são mais observados, como eclipses das maiores luminárias. Seja exceção da amizade não lhe confiar os defeitos; nem mesmo, se possível fosse, à própria identidade. Mas pode-se valer aqui daquela outra regra do viver, que é saber esquecer.
É vida das prendas, alento do dizer, alma do fazer, realce dos próprios realces. As demais perfeições são ornato da natureza; o desembaraço é ornato das próprias perfeições. Até no discorrer se celebra. Tem de privilégio a maior parte, deve ao estudo a menor, pois é superior até à disciplina. Passa da facilidade e adianta-se à bizarria; supõe desprendimento e acrescenta perfeição. Sem ele, toda beleza é morta, e toda graça, desgraça. É transcendental ao valor, à discrição, à prudência, à própria majestade. É atalho político no despacho e culto modo de sair de todo empenho.
É um dos principais requisitos para o herói, porque inflama todo gênero de grandeza. Realça o gosto, engrandece o coração, eleva o pensamento, enobrece a condição e dispõe a majestade. Onde quer que se encontre, destaca-se; e às vezes, desmentida pela inveja da sorte, rebenta para campeiar. Alarga-se na vontade, ainda que na possibilidade seja violentada. Reconhecem-na por fonte a magnanimidade, a generosidade e toda prenda heroica.
A queixa sempre traz descrédito. Serve mais de exemplo de atrevimento à paixão que de consolo à compaixão. Abre passagem a quem a ouve para fazer o mesmo, e a notícia do agravo do primeiro é desculpa para o segundo. Alguns dão pé, com suas queixas das ofensas passadas, às futuras; e, pretendendo remédio ou consolo, solicitam a complacência, e até o desprezo.
Melhor política é celebrar obrigações de uns para que sejam empenhos de outros; repetir favores dos ausentes é solicitar os dos presentes, vender crédito de uns a outros. O varão atento nunca publique desaires nem defeitos, mas sim estimações, que servem para ter amigos e conter inimigos.
As coisas não passam pelo que são, mas pelo que parecem. Valer e saber mostrá-lo é valer duas vezes. O que não se vê é como se não fosse. A própria razão não tem veneração onde não tem rosto de tal. São muitos mais os enganados que os advertidos: prevalece o engano, e julgam-se as coisas por fora. Há coisas que são muito outras do que parecem. A boa exterioridade é a melhor recomendação da perfeição interior.
Têm sua bizarria as almas, galhardia do espírito, por cujos atos galantes fica muito airoso um coração. Não cabe em todos, porque supõe magnanimidade. Seu primeiro assunto é falar bem do inimigo e agir melhor. Seu maior brilho se livra nos lances da vingança: não os tira, mas os melhora, convertendo-a, quando mais vencedora, em generosidade inesperada. É também política, e até a gala da razão de Estado. Nunca afeta vencimentos, porque nada afeta; e, quando os alcança o merecimento, dissimula-os a ingenuidade.
Apelar à revisão é segurança, sobretudo onde não é evidente a satisfação; tomar tempo, seja para conceder, seja para melhorar-se. Oferecem-se novas razões para confirmar e corroborar o ditame. Se a matéria é dar, estima-se mais o dom em fé da prudência que no gosto da presteza; sempre foi mais estimado o desejado.
Se se há de negar, fica lugar ao modo e para amadurecer o não, de modo que saia mais sazonado. E, muitas vezes, passado aquele primeiro calor do desejo, já não se sente depois, a sangue-frio, o desaire do negar. A quem pede depressa, conceder tarde: é artimanha para desmentir a atenção.
Assim dizem os políticos. Pois, se todos o são, com ninguém perderá; e, se a prudência é solitária, será tida por loucura. Tanto importará seguir a corrente. O maior saber é, às vezes, não saber, ou afetar não saber. Deve-se viver com outros, e os ignorantes são a maioria. Para viver a sós, é preciso ter muito de Deus ou tudo de besta.
Mas eu moderaria o aforismo, dizendo: antes prudente com os mais que louco a sós. Alguns querem ser singulares nas quimeras.
É dobrar o viver. Não deve ser única a dependência, nem se deve estreitar a uma só coisa, ainda que singular. Tudo deve ser dobrado, e mais as causas do proveito, do favor, do gosto. É transcendente a mutabilidade da lua, termo da permanência, e mais ainda as coisas que dependem da vontade humana, que é quebradiça.
Valha contra a fragilidade a reserva, e seja grande regra da arte de viver dobrar as circunstâncias do bem e da comodidade: assim como a natureza dobrou os membros mais importantes e mais arriscados, assim a arte dobre os da dependência.
Isso é carregar-se de necedade e enfado. Contra ele há de conjurar-se a prudência. Bem pode ser engenhoso dificultar tudo, mas a porfia não escapa de néscia. Esses fazem guerrilha da doce conversação, e assim são mais inimigos dos familiares que dos que não os tratam. No mais saboroso bocado sente-se mais a espinha atravessada; e tal é a contradição dos bons momentos. São néscios perniciosos, que acrescentam o feroz ao bestial.
Muitos se vão ou pelos ramos de um discorrer inútil, ou pelas folhas de uma cansada verbosidade, sem topar com a substância do caso. Dão cem voltas rodeando um ponto, cansando-se e cansando, e nunca chegam ao centro da importância. Procede isso de entendimentos confusos, que não sabem desembaraçar-se. Gastam o tempo e a paciência no que deveriam deixar, e depois não os têm para o que deixaram.
Ele era para si todas as suas coisas; e, levando-se a si, levava tudo. Se um amigo universal basta para fazer Roma e todo o restante do universo, seja cada um esse amigo de si próprio, e poderá viver a sós. Quem lhe poderá fazer falta se não há maior conceito nem maior gosto que o seu? Dependerá de si só, que é felicidade suma: assemelhar-se à entidade suma. Quem pode passar assim a sós nada terá de bruto, mas muito de sábio e tudo de Deus.
E mais quando mais revolto o mar comum ou familiar. Há turbilhões no trato humano, tempestades de vontade; então é prudência retirar-se ao porto seguro de dar vau. Muitas vezes os males pioram com os remédios. Deixar fazer ali a natureza, aqui a moralidade. Tanto deve saber o médico sábio para receitar quanto para não receitar; às vezes a arte consiste mais em não aplicar remédios.
Seja modo de sossegar turbilhões vulgares levantar a mão e deixar sossegar; ceder ao tempo agora será vencer depois. Uma fonte, com pouca inquietação, turva-se; não voltará a serenar tentando-o, mas deixando-a. Não há melhor remédio para os desconcertos que deixá-los correr, pois assim caem por si mesmos.
Há dias assim: nada sairá bem; e, ainda que se varie o jogo, não se varia a má sorte. Em dois lances convém conhecê-la e retirar-se, advertindo se se está de dia ou não. Até no entendimento há vez, pois ninguém soube a todas as horas. É ventura acertar a discorrer, como escrever bem uma carta. Todas as perfeições dependem de sazão; nem sempre a beleza está em seu momento. A discrição desmente-se a si mesma, ora cedendo, ora excedendo-se; e tudo, para sair bem, deve estar de dia.
Assim como a uns tudo sai mal, a outros tudo sai bem, e com menos diligências. Tudo se lhes acha feito: o engenho está em vez, o gênio em têmpera, e tudo sob boa estrela. Então convém aproveitá-la e não desperdiçar a menor partícula. Mas o varão ajuizado não deve, por um azar que viu, sentenciar definitivamente como mau, nem, ao contrário, como bom; aquilo pôde ser desazo, isto ventura.
É dita do bom gosto. Vai logo a abelha à doçura para o favo, e a víbora à amargura para o veneno. Assim os gostos: uns ao melhor, outros ao pior. Não há coisa que não tenha algo bom, ainda mais se é livro, por ser pensado.
É, pois, tão desgraçado o gênio de alguns que, entre mil perfeições, toparão apenas com o único defeito que houver, e esse censuram e celebram. São recolhedores das imundícies de vontades e entendimentos, carregando notas e defeitos; isso é mais castigo de sua má escolha que emprego de sua sutileza. Passam má vida, pois sempre se cevam de amarguras e fazem pasto de imperfeições. Mais feliz é o gosto de outros que, entre mil defeitos, toparão logo com uma só perfeição que a ventura deixou cair.
Pouco aproveita agradar a si mesmo se não contenta aos demais; e de ordinário o desprezo comum castiga a satisfação particular. Deve-se a todos quem se paga de si mesmo. Querer falar e ouvir-se não sai bem; e, se falar consigo a sós é loucura, escutar-se diante dos outros será dobrada.
Achaque de senhores é falar com o bordão do “digo algo?” e daquele “hein?” que martela os que escutam. A cada razão orelham a aprovação ou a lisonja, esgotando a prudência. Também os inchados falam com eco; e, como sua conversa anda em tamancos de entono, a cada palavra solicita o enfadonho socorro do néscio “bem dito!”.
Não porque o contrário se adiantou e escolheu o melhor. Já se começa vencido, e assim será preciso ceder desairado. Nunca se vingará bem com o mal. Foi astúcia do contrário antecipar-se ao melhor, e necedade sua opor-se tarde com o pior. Esses porfiados de obra são mais empenhados que os de palavra, quanto vai mais risco do fazer ao dizer.
Vulgaridade dos teimosos: não reparar na verdade, por contradizer; nem na utilidade, por litigar. O atento está sempre do lado da razão, não da paixão, ou antecipando-se antes ou melhorando-se depois. Pois, se o contrário é néscio, por isso mesmo mudará de rumo, passando-se à parte contrária, com que piorará de partido. Para tirá-lo do melhor, o único remédio é abraçá-lo você mesmo; sua necedade o fará deixá-lo, e sua teima será seu precipício.
Os dois extremos são de descrédito. Todo assunto que desdiz da gravidade é ramo de necedade. O paradoxo é certo engano plausível nos princípios, que admira pelo novo e pelo picante; mas depois, com o desengano de sair tão mal, fica muito desairado. É espécie de embuste e, em matérias políticas, ruína dos Estados.
Os que não podem chegar, ou não se atrevem, ao heroico pelo caminho da virtude, lançam-se pelo paradoxo, admirando néscios e dando razão a muitos prudentes. Argui destempero no ditame, e por isso é tão oposto à prudência. E, se às vezes não se funda no falso, ao menos no incerto, com grande risco da importância.
É estratagema do conseguir. Mesmo nas matérias do céu recomendam essa santa astúcia os mestres cristãos. É importante dissimulação, porque a utilidade concebida serve de isca para prender uma vontade: parece-lhe que a sua vai à frente, mas é apenas para abrir caminho à pretensão alheia.
Nunca se deve entrar desatinadamente, sobretudo onde há fundo de perigo. Também com pessoas cuja primeira palavra costuma ser não convém disfarçar o tiro, para que não se advirta a dificuldade de conceder, muito mais quando se pressente a aversão. Pertence este aviso aos de segunda intenção, que todos são da quinta sutileza.
Tudo baterá ali. Não se queixe dele, pois a malícia sempre sacode onde dói à fraqueza. Mostrar-se picado só servirá para picar o gosto ao entretenimento. A má intenção vai procurando o achaque para fazer saltar: lança varinhas para achar o sentimento, fará a prova de mil modos até chegar ao vivo.
Nunca o atento se dê por entendido, nem descubra seu mal, seja pessoal ou herdado; pois até a fortuna se deleita às vezes em lastimar onde mais há de doer. Sempre mortifica no vivo. Por isso não se deve descobrir nem o que mortifica, nem o que vivifica: um para que acabe, outro para que dure.
Costuma-se achar que as coisas são muito outras do que pareciam; e a ignorância que não passou da casca converte-se em desengano quando penetra o interior. A mentira é sempre a primeira em tudo; arrasta néscios por vulgaridade continuada. A verdade sempre chega por último, e tarde, coxeando com o tempo; reservam-lhe os prudentes a outra metade da potência que a mãe comum sabiamente duplicou.
O engano é muito superficial, e logo topam com ele os que também o são. O acerto vive retirado em seu interior para ser mais estimado por seus sábios e discretos.
Ninguém há tão perfeito que alguma vez não precise de advertência. É irremediavelmente néscio quem não escuta. O mais isento deve dar lugar ao aviso amigável, e nem a soberania deve excluir a docilidade. Há homens irremediáveis por inacessíveis, que se precipitam porque ninguém ousa chegar a detê-los.
O mais inteiro deve ter uma porta aberta à amizade, e será a do socorro. Deve haver lugar para um amigo que possa, com desembaraço, avisá-lo e até castigá-lo. A satisfação deve pô-lo nessa autoridade, e o grande conceito de sua fidelidade e prudência. Não se deve facilitar a todos o respeito, nem mesmo o crédito; mas tenha, no retiro de seu recato, um espelho fiel de confidente, a quem deva e estime a correção no desengano.
Nela se faz mostra de ser pessoa. Em nenhum exercício humano se requer mais atenção, por ser o mais ordinário do viver. Aqui é perder-se ou ganhar-se; pois, se é necessária a advertência para escrever uma carta, sendo conversa pensada e por escrito, quanto mais na ordinária, onde se faz exame pronto da discrição.
Os peritos tomam o pulso ao ânimo pela língua, e por isso disse o Sábio: “Fala, se queres que eu te conheça.” Alguns têm por arte da conversação ir sem ela, que deve ser folgada, como o vestir, entenda-se entre muito amigos; quando é de respeito, deve ser mais substancial e indicar a muita substância da pessoa. Para acertar, deve ajustar-se ao gênio e ao engenho dos que intervêm. Não se deve afetar ser censor das palavras, pois será tido por gramático; nem fiscal das razões, pois todos lhe furtarão o trato e lhe vedarão a comunicação. A discrição no falar importa mais que a eloquência.
Ter escudos contra a malevolência é grande artimanha dos que governam. Não nasce de incapacidade, como pensa a malícia, mas de indústria superior: ter em quem recaia a censura dos desacertos e o castigo comum da murmuração. Nem tudo pode sair bem, nem a todos se pode contentar. Haja, pois, uma cabeça de erros, alvo de infelicidades, à custa de sua própria ambição.
Não basta a bondade intrínseca delas, pois nem todos mordem a substância, nem olham por dentro. A maioria acode onde há concurso; vai porque vê outros irem. Grande parte do artifício é saber acreditar: umas vezes celebrando, pois o louvor solicita o desejo; outras, dando bom nome, que é grande modo de sublimar, sempre desmentindo a afetação.
Destinar algo apenas aos entendidos é aguilhão geral, porque todos se julgam entendidos; e, quando não, a privação esporeará o desejo. Nunca se devem acreditar os assuntos como fáceis nem comuns, pois isso é mais vulgarizá-los que facilitá-los. Todos mordem o singular como mais apetecível, tanto ao gosto quanto ao engenho.
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Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.
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