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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 11 · A Arte da Prudência

Aforismos CCXXVI-CCL

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Aforismos CCXXVI-CCL

CCXXVI. Atenção ao obrigar.

A maioria não fala nem obra como é, mas como se vê obrigada. Para persuadir o mau, qualquer um sobra, porque o mau é muito crido, ainda quando incrível. O mais e o melhor que temos depende do respeito alheio.

Alguns se contentam em ter a razão de seu lado; mas não basta: é preciso ajudá-la com diligência. Custa às vezes muito pouco obrigar, e vale muito. Com palavras se compram obras. Não há alfaias tão vis nesta grande casa do universo que uma vez ao ano não sejam necessárias; e, ainda que valham pouco, farão grande falta. Cada um fala do objeto segundo seu afeto.

CCXXVII. Não ser de primeira impressão.

Alguns se casam com a primeira informação, de sorte que as demais ficam como concubinas; e, como a mentira costuma adiantar-se, não resta depois lugar para a verdade. Nem a vontade se deve encher com o primeiro objeto, nem o entendimento com a primeira proposição, pois isso é pobreza de fundo.

Alguns têm a capacidade de vasilha nova, que o primeiro odor ocupa, tanto do mau licor quanto do bom. Quando essa estreiteza se torna conhecida, é perniciosa, porque dá pé à indústria maliciosa. Previnem-se os mal-intencionados a tingir de sua cor a credulidade. Fique sempre lugar para a revista: guarde Alexandre a outra orelha para a outra parte. Haja espaço para a segunda e a terceira informação. Impressionar-se argui incapacidade, e está perto de apaixonar-se.

CCXXVIII. Não ter voz de má voz.

Muito menos ter tal opinião, que é fama de contrafamas. Não seja engenhoso à custa alheia, pois isso é mais odioso que difícil. Todos se vingam dele falando mal dele; e, como ele é só e eles muitos, mais depressa será ele vencido que eles convencidos.

O mau nunca deve contentar, mas nem comentar. O murmurador é para sempre aborrecido; e, embora às vezes personagens grandes atravessem com ele, será mais por gosto de sua fisga que por estima de sua prudência. Quem sempre fala mal sempre ouve pior.

CCXXIX. Saber repartir a vida com discrição.

Não conforme vêm as ocasiões, mas por providência e escolha. É penosa a vida sem descansos, como longa jornada sem pousos. Torna-a ditosa a variedade erudita. Gaste-se a primeira estância do belo viver em falar com os mortos: nascemos para saber e saber-nos, e os livros com fidelidade nos fazem pessoas.

A segunda jornada se empregue com os vivos: ver e registrar tudo o que há de bom no mundo. Nem todas as coisas se acham numa só terra; repartiu os dotes o Pai universal, e às vezes enriqueceu mais a feia. A terceira jornada seja toda para si: última felicidade, o filosofar.

CCXXX. Abrir os olhos a tempo.

Nem todos os que veem abriram os olhos, nem todos os que olham veem. Dar-se conta tarde não serve de remédio, mas de pesar. Alguns começam a ver quando já não há o que ver: desfizeram suas casas e suas coisas antes de se fazerem a si mesmos.

É dificultoso dar entendimento a quem não tem vontade, e mais ainda dar vontade a quem não tem entendimento. Brincam com eles os que os rodeiam como com cegos, para riso dos demais. E, porque são surdos para ouvir, não abrem os olhos para ver. Mas não falta quem fomente essa insensibilidade, pois seu ser consiste em que eles não sejam. Infeliz cavalo cujo dono não tem olhos: mal engordará.

CCXXXI. Nunca permitir que se vejam as coisas a meio fazer.

Gozem-se em sua perfeição. Todos os princípios são informes, e fica depois a imaginação daquela deformidade: a memória de tê-lo visto imperfeito não deixa lograr o acabado. Gozar de um golpe o objeto grande, embora embarace o juízo das partes, adequa por si o gosto.

Antes de ser tudo, é nada; e, ao começar a ser, ainda está muito dentro de seu nada. Ver cozinhar o manjar mais regalado serve antes ao asco que ao apetite. Recate-se, pois, todo grande mestre de que lhe vejam as obras em embrião. Aprenda da natureza a não expô-las até que possam parecer.

CCXXXII. Ter um ponto de negociante.

Nem tudo seja especulação; haja também ação. Os muito sábios são fáceis de enganar, porque, embora saibam o extraordinário, ignoram o ordinário do viver, que é mais preciso. A contemplação das coisas sublimes não lhes dá lugar para as manuais; e, como ignoram o primeiro que deveriam saber, aquilo em que todos partem um fio de cabelo, ou são admirados, ou tidos por ignorantes pelo vulgo superficial.

Procure, pois, o varão sábio ter algo de negociante, o bastante para não ser enganado, nem ridicularizado. Seja homem do agível, que, embora não seja o superior, é o mais preciso do viver. De que serve o saber, se não é prático? E saber viver é hoje o verdadeiro saber.

CCXXXIII. Não errar o golpe ao gosto.

Pois é fazer pesar por prazer. Com aquilo com que alguns pensam obrigar, enfadam, por não compreender os gênios. Há obras que para uns são lisonja e para outros ofensa; e o que se julgou serviço foi agravo.

Custou às vezes mais dar desgosto do que teria custado fazer prazer. Perdem o agradecimento e o dom porque perderam o norte do agradar. Se não se conhece o gênio alheio, mal se poderá satisfazê-lo. Daí que alguns pensaram dizer elogio e disseram vitupério, merecido castigo. Outros pensam entreter com sua eloquência e espancam a alma com sua loquacidade.

CCXXXIV. Nunca fiar reputação sem penhores de honra alheia.

Deve-se participar do proveito no silêncio e do dano na facilidade. Em interesses de honra, o trato há de ser sempre de companhia, de sorte que a reputação própria faça cuidar da alheia.

Nunca se deve fiar; mas, se alguma vez, seja com tal arte que a prudência possa ceder à cautela. Seja o risco comum e recíproca a causa, para que não se converta em testemunha aquele que se reconhece partícipe.

CCXXXV. Saber pedir.

Não há coisa mais difícil para alguns, nem mais fácil para outros. Há uns que não sabem negar; com estes não é preciso gazua. Há outros cujo não é a primeira palavra a todas as horas; com estes é necessária a indústria.

E com todos, a sazão: colher os espíritos alegres, ou pelo pasto antecedente do corpo, ou pelo do ânimo. Se a atenção reflexa de quem é solicitado não previne a sutileza de quem intenta, os dias de gozo são os de favor, que redunda do interior ao exterior. Não se deve chegar quando se vê negarem a outro, pois está perdido o medo ao não. Sobre tristeza não há bom lance. Obrigar de antemão é câmbio onde não corresponde a vileza.

CCXXXVI. Fazer obrigação antes do que havia de ser prêmio depois.

É destreza de grandes políticos. Favores antes dos méritos são prova de homens de obrigação. O favor antecipado tem duas eminências: pela prontidão de quem dá, obriga mais a quem recebe. Um mesmo dom, se depois é dívida, antes é empenho.

Sutil modo de transformar obrigações: a que havia de estar no superior, para premiar, recai no obrigado, para satisfazer. Isto se entende com gente de obrigações; para homens vis, antecipar a paga da honra seria pôr freio, não espora.

CCXXXVII. Nunca repartir segredos com maiores.

Pensará repartir peras e repartirá pedras. Muitos pereceram por confidentes. São estes como colher de pão, que depois corre o mesmo risco. Não é favor do príncipe, mas encargo, comunicá-lo.

Muitos quebram o espelho porque lhes lembra a fealdade. Não pode ver quem o pôde ver, nem é bem visto quem viu mal. A ninguém se deve ter muito obrigado, e ao poderoso menos. Seja antes com benefícios feitos que com favores recebidos. Sobretudo são perigosas as confianças de amizade. Quem comunicou seus segredos a outro fez-se escravo dele; e, em soberanos, isso é violência que não pode durar. Desejam redimir a liberdade perdida, e para isso atropelarão tudo, até a razão. Segredos, pois, nem ouvi-los, nem dizê-los.

CCXXXVIII. Conhecer a peça que falta.

Muitos seriam muito pessoas se não lhes faltasse um algo, sem o qual nunca chegam ao cúmulo do perfeito ser. Nota-se em alguns que poderiam ser muito se reparassem em bem pouco. Falta-lhes a seriedade, com que desluzem grandes prendas; a outros, a suavidade da condição, falta que os familiares logo sentem, e mais em pessoas de posto.

Em alguns se deseja o executivo; em outros, o reportado. Todos esses desaires, se advertidos, poderiam suprir-se com facilidade, pois o cuidado pode fazer do costume segunda natureza.

CCXXXIX. Não ser agudíssimo.

Mais importa ser prudencial. Saber mais do que convém é despontar, porque as sutilezas comumente quebram. Mais segura é a verdade assentada. Bom é ter entendimento, mas não pedantaria.

O muito discorrer miúdo é ramo de questão. Melhor é um bom juízo substancial, que não discorre além do que importa.

CCXL. Saber usar da necedade.

O maior sábio joga às vezes essa peça, e há ocasiões em que o melhor saber consiste em mostrar não saber. Não se deve ignorar, mas sim afetar que se ignora. Com os néscios pouco importa ser sábio, e com os loucos, cordato: deve-se falar a cada um em sua linguagem.

Não é néscio quem afeta a necedade, mas quem a padece. A simples o é, não a dobrada, pois até isso alcança o artifício. Para ser bem-quisto, o único meio é vestir a pele do mais simples dos brutos.

CCXLI. As burlas, sofrê-las; não usá-las.

Aquilo é espécie de galanteria; isto, de empenho. Quem numa festa muito se desazona tem algo de bruto, e mostra mais. É gostosa a burla; saber sofrê-la bastante é argumento de capacidade. Quem se pica dá pé para que o repiquem.

O melhor é deixá-las, e o mais seguro é não levantá-las: as maiores verdades nasceram sempre das burlas. Não há coisa que peça mais atenção e destreza. Antes de começar, deve-se saber até que ponto de sofrer chegará o gênio do sujeito.

CCXLII. Seguir os alcances.

Tudo se vai a alguns em começar, e nada acabam. Inventam, mas não prosseguem: instabilidade de gênio. Nunca conseguem louvor, porque nada continuam; tudo para em parar.

Se em alguns nasce de impaciência de ânimo, defeito de espanhóis, a paciência é vantagem dos belgas. Estes acabam as coisas; aqueles acabam com elas. Até vencer a dificuldade, suam, e contentam-se com vencer; não sabem levar ao cabo a vitória. Provam que podem, mas não querem. Sempre, porém, é defeito, de impossibilidade ou leviandade. Se a obra é boa, por que não se acaba? E, se é má, por que se começou? Mate, pois, o sagaz a caça; não se lhe vá tudo em levantá-la.

CCXLIII. Não ser todo pomba.

Alternem-se a cautela da serpente com a candura da pomba. Nada é mais fácil que enganar um homem de bem. Crê muito quem nunca mente, e confia muito quem nunca engana. Nem sempre procede de néscio o ser enganado; às vezes procede de bom.

Duas espécies de pessoas previnem muito os danos: os escarmentados, que o são muito à própria custa, e os astutos, que o são muito à alheia. Mostre-se tão extremada a sagacidade para o receio quanto a astúcia para o enredo; e não queira alguém ser tão homem de bem que dê ocasião ao outro de ser mau. Seja misto de pomba e serpente; não monstro, mas prodígio.

CCXLIV. Saber obrigar.

Alguns transformam o favor próprio em alheio, e parece, ou dão a entender, que fazem mercê quando a recebem. Há homens tão advertidos que honram pedindo e trocam o proveito seu em honra do outro. De tal sorte traçam as coisas que pareça que os outros lhes fazem serviço quando lhes dão, invertendo com extravagante política a ordem do obrigar.

Ao menos põem em dúvida quem faz favor a quem. Compram a preço de louvores o melhor, e do mostrar gosto por uma coisa fazem honra e lisonja. Empenham a cortesia, fazendo dívida do que havia de ser seu agradecimento. Assim trocam a obrigação de passiva em ativa, melhores políticos que gramáticos. Grande sutileza esta; maior seria entendê-la, destrocando a necedade, devolvendo-lhes sua honra e cobrando cada um seu proveito.

CCXLV. Discorrer às vezes de modo singular e fora do comum.

Argui superioridade de cabedal. Não se deve estimar quem nunca se lhe opõe, pois não é sinal do amor que lhe tem, mas do que tem a si mesmo. Não se deixe enganar pela lisonja pagando-a; antes condenando-a.

Também tenha por crédito ser murmurado por alguns, e mais por aqueles que de todos os bons dizem mal. Pese-lhe que suas coisas agradem a todos, pois é sinal de não serem boas: o perfeito é de poucos.

CCXLVI. Nunca dar satisfação a quem não a pedia.

E, ainda quando se peça, é espécie de delito se for demasiada. Escusar-se antes da ocasião é culpar-se; sangrar-se em saúde é fazer sinal ao mal e à malícia. A desculpa antecipada desperta o receio que dormia.

Nem deve o prudente dar-se por entendido da suspeita alheia, que é sair a buscar o agravo. Deve então procurar desmenti-la com a inteireza de seu proceder.

CCXLVII. Saber um pouco mais e viver um pouco menos.

Outros discorrem ao contrário. Mais vale o bom ócio que o negócio. Não temos coisa nossa senão o tempo. Onde vive quem não tem lugar? Igual infelicidade é gastar a preciosa vida em tarefas mecânicas e em demasia de sublimes.

Não se deve carregar de ocupações, nem de inveja: é atropelar o viver e afogar o ânimo. Alguns estendem isso ao saber; mas não se vive se não se sabe.

CCXLVIII. Não se deixar levar pelo último.

Há homens de última informação, e por extremos vai a impertinência. Têm o sentir e o querer de cera. O último selo imprime e apaga os demais. Esses nunca estão ganhos, porque com a mesma facilidade se perdem.

Cada um os tinge de sua cor. São maus para confidentes, crianças por toda a vida; e assim, com variedade nos juízos e afetos, andam flutuando, sempre coxos de vontade e de juízo, inclinando-se ora para uma, ora para outra parte.

CCXLIX. Não começar a viver por onde se deve acabar.

Alguns tomam o descanso no princípio e deixam a fadiga para o fim. Primeiro deve ser o essencial; depois, se houver lugar, o acessório. Outros querem triunfar antes de pelejar.

Alguns começam a saber pelo que menos importa, e deixam os estudos de crédito e utilidade para quando se lhes acaba o viver. Um ainda não começou a fazer fortuna quando já se desvanece. É essencial o método para saber e poder viver.

CCL. Quando se deve discorrer ao contrário? Quando nos falam com malícia.

Com alguns, tudo há de ir ao inverso. O sim é não, e o não é sim. Falar mal de uma coisa tem-se por estima dela, pois quem a quer para si a desacredita para os outros.

Nem todo louvar é dizer bem; alguns, para não louvar os bons, louvam também os maus. E, para quem ninguém é mau, ninguém será bom.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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