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A Arte da Prudência

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A Arte da Prudência

Capítulo 13 · A Arte da Prudência

Aforismos CCLXXVI-CCC

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Aforismos CCLXXVI-CCC

CCLXXVI. Saber renovar o gênio com a natureza e com a arte.

De sete em sete anos dizem que muda a condição: seja para melhorar e realçar o gosto. Aos primeiros sete entra a razão; depois, a cada lustro, entre uma nova perfeição. Observe-se essa variedade natural para ajudá-la e esperar também dos outros a melhoria.

Daqui vem que muitos mudaram de porte, ou com o estado, ou com o emprego; e às vezes não se adverte, até que se vê, o excesso da mudança. Aos vinte anos será pavão; aos trinta, leão; aos quarenta, camelo; aos cinquenta, serpente; aos sessenta, cão; aos setenta, macaco; e aos oitenta, nada.

CCLXXVII. Homem de ostentação.

É o luzimento das prendas. Há ocasião para cada uma: aproveite-se, pois nem todo dia será o de seu triunfo. Há sujeitos bizarros em quem o pouco luz muito, e o muito chega a admirar. Quando a ostentação se junta à eminência, passa por prodígio.

Há nações ostentosas, e a espanhola o é com superioridade. A luz foi pronto luzimento de tudo o criado. Muito enche o ostentar, muito supre e dá um segundo ser a tudo, mais ainda quando a realidade o afiança. O céu, que dá a perfeição, previne a ostentação, pois qualquer uma delas sozinha seria violenta.

É preciso arte no ostentar: até o muito excelente depende de circunstâncias e nem sempre tem vez. Sai mal a ostentação quando lhe falta a sazão. Nenhum realce pede ser menos afetado, e sempre perece desse desaire, porque está muito à beira da vaidade, e esta, do desprezo. Há de ser muito temperada para não dar no vulgar; e, entre prudentes, seu excesso está algo desacreditado.

Consiste às vezes mais numa eloquência muda, num mostrar a perfeição ao descuido. O sábio disfarce é o mais plausível alarde, porque aquela própria privação atiça no mais vivo a curiosidade. Grande destreza é não descobrir toda a perfeição de uma vez, mas ir pintando-a por sinais e sempre adiantando: que um realce seja empenho de outro maior, e o aplauso do primeiro, nova expectativa dos demais.

CCLXXVIII. Fugir da nota em tudo.

Porque, sendo notados, serão defeitos os próprios realces. Nasce isso da singularidade, que sempre foi censurada; fica só o singular. Até o lindo, se sobressai, é descrédito; fazendo reparar, ofende, e muito mais as singularidades desautorizadas.

Mas até nos próprios vícios querem alguns ser conhecidos, buscando novidade na ruindade para conseguir tão infame fama. Até no entendido, o excessivo degenera em pedantaria.

CCLXXIX. Não dizer ao contradizer.

É preciso diferenciar quando procede de astúcia e quando de vulgaridade. Nem sempre é porfia; às vezes é artifício. Atenção, pois, a não empenhar-se numa nem despenhar-se na outra.

Não há cuidado mais logrado que o de espiões; e, contra a gazua dos ânimos, não há melhor contra-ardil que deixar por dentro a chave do recato.

CCLXXX. Homem de lei.

Está acabado o bom proceder, andam desmentidas as obrigações, há poucas correspondências boas: ao melhor serviço, o pior galardão, já a uso de todo o mundo. Há nações inteiras propensas ao mau trato: de umas se teme sempre a traição; de outras, a inconstância; e de outras, o engano.

Sirva, pois, a má correspondência alheia não para imitação, mas para cautela. O risco é desencaixar a inteireza à vista do procedimento ruim. Mas o varão de lei nunca se esquece de quem é por aquilo que os outros são.

CCLXXXI. Graça dos entendidos.

Mais se estima o morno sim de um varão singular que todo um aplauso comum, pois arrotos de palha não alentam. Os sábios falam com o entendimento, e por isso seu louvor causa uma satisfação imortal.

O judicioso Antígono reduziu todo o teatro de sua fama a Zenão só, e Platão chamava Aristóteles de toda a sua escola. Alguns cuidam apenas de encher o estômago, ainda que de broza vulgar. Até os soberanos precisam dos que escrevem, e temam mais suas penas que as feias os pincéis.

CCLXXXII. Usar da ausência.

Ou para o respeito, ou para a estima. Se a presença diminui a fama, a ausência a aumenta. Quem ausente foi tido por leão, presente foi ridículo parto dos montes. Desluzem-se as prendas quando se roçam, porque se vê antes a casca exterior que a muita substância do ânimo.

A imaginação adianta-se mais que a vista; e o engano, que entra de ordinário pelo ouvido, vem a sair pelos olhos. Quem se conserva no centro de sua opinião conserva a reputação; até a fênix se vale do retiro para o decoro, e do desejo para o apreço.

CCLXXXIII. Homem de inventiva prudente.

Argui excesso de engenho, mas qual haverá sem seu grão de demência? A inventiva é dos engenhosos; a boa escolha, dos prudentes. Também é de graça, e mais rara, porque muitos conseguiram escolher bem; inventar bem, poucos, e os primeiros em excelência e em tempo.

A novidade é lisonjeira; e, se feliz, dá dois realces ao bom. Nos assuntos de juízo é perigosa pelo paradoxo; nos do engenho, louvável; e, se acertadas, uma e outra plausíveis.

CCLXXXIV. Não seja intrometido, e não será desairado.

Estime-se, se quiser que o estimem. Seja antes avaro que pródigo de si. Chegue desejado, e será bem recebido. Nunca venha senão chamado, nem vá senão enviado.

Quem se empenha por si, se sai mal, carrega todo o ódio sobre si; se sai bem, não consegue o agradecimento. O intrometido é alvo de desprezos, e, pelo mesmo com que se introduz com desvergonha, é tripulado em confusão.

CCLXXXV. Não perecer de desdita alheia.

Conheça quem está no lodo, e note que o chamará para fazer consolo do mal recíproco. Buscam quem os ajude a levar a desdita; e aqueles que na prosperidade lhe davam as costas, agora lhe dão a mão.

É necessário grande tento com os que se afogam, para acudir ao remédio sem perigo.

CCLXXXVI. Não se deixar obrigar de todo, nem por todos.

Isso seria ser escravo e comum. Nasceram uns mais ditosos que outros: aqueles para fazer o bem, estes para recebê-lo. Mais preciosa é a liberdade que a dádiva, porque se perde.

Goste mais de que muitos dependam dele do que de depender ele de um só. O mando não tem outra comodidade senão poder fazer mais bem. Sobretudo, não tenha por favor a obrigação em que se mete; as mais vezes a diligenciará a astúcia alheia para preveni-lo.

CCLXXXVII. Nunca agir apaixonado.

Tudo errará. Não obre por si quem não está em si, e a paixão sempre desterra a razão. Substitua então um terceiro prudente, que o será se estiver desapaixonado: sempre veem mais os que olham que os que jogam, porque não se apaixonam.

Ao conhecer-se alterado, toque a retirar a prudência, para que não acabe de acender-se o sangue. Do contrário, tudo executará sangrento, e em pouco tempo dará matéria para muitos dias de confusão sua e murmuração alheia.

CCLXXXVIII. Viver à ocasião.

O governar, o discorrer, tudo há de ser conforme o caso. Querer quando se pode, pois a sazão e o tempo não esperam ninguém. Não vá por generalidades no viver, a não ser em favor da virtude, nem intime leis precisas ao querer, pois talvez amanhã terá de beber da água que hoje despreza.

Há alguns tão paradoxalmente impertinentes que pretendem que todas as circunstâncias do acerto se ajustem a sua mania, e não o contrário. Mas o sábio sabe que o norte da prudência consiste em portar-se segundo a ocasião.

CCLXXXIX. O maior desdouro de um homem é dar mostras de que é homem.

Deixam de tê-lo por divino no dia em que o veem muito humano. A leviandade é o maior contraste da reputação. Assim como o varão recatado é tido por mais que homem, o leviano o é por menos que homem.

Não há vício que mais desautorize, porque a leviandade se opõe frente a frente à gravidade. Homem leviano não pode ser de substância, e mais se for velho, quando a idade o obriga à prudência. E, embora esse desdouro seja de muitos, isso não lhe tira estar singularmente desautorizado.

CCXC. É felicidade juntar o apreço com o afeto.

Não ser muito amado, para conservar o respeito. Mais atrevido é o amor que o ódio; afeição e veneração não se juntam bem. Ainda assim, não se deve ser muito temido nem muito querido.

O amor introduz a familiaridade; e, à medida que esta entra, sai a estima. Seja amado antes apreciativamente que afetivamente, pois esse é amor muito de pessoas.

CCXCI. Saber fazer a tentativa.

Compita a atenção do judicioso com a detenção do recatado: grande juízo se requer para medir o alheio. Mais importa conhecer os gênios e propriedades das pessoas que das ervas e pedras.

Esta é uma das ações mais sutis da vida: pelo som se conhecem os metais, e pelo falar, as pessoas. As palavras mostram a inteireza, mas muito mais as obras. Aqui é necessário o reparo extraordinário, a observação profunda, a nota sutil e a crise judiciosa.

CCXCII. Vença o natural as obrigações do cargo, e não o contrário.

Por grande que seja o posto, há de mostrar que a pessoa é maior. Um cabedal com larguezas vai se dilatando e ostentando mais com os empregos. Facilmente apanharão o coração de quem o tem estreito, e ao fim virá a quebrar com obrigação e reputação.

Preciava-se o grande Augusto de ser maior homem que príncipe. Aqui vale a alteza de ânimo, e ainda aproveita a confiança prudente de si.

CCXCIII. Da maturidade.

Resplandece no exterior, mas mais ainda nos costumes. A gravidade material faz precioso o ouro; a moral, a pessoa. É o decoro das prendas, causando veneração. A compostura do homem é a fachada da alma.

Não é necedade com pouco movimento, como quer a ligeireza, mas uma autoridade muito sossegada. Fala por sentenças, obra com acertos. Supõe um homem muito feito, porque tanto tem de pessoa quanto de maturidade. Ao deixar de ser menino, começa a ser grave e autorizado.

CCXCIV. Moderar-se no sentir.

Cada um faz conceito segundo sua conveniência, e abunda em razões em sua apreensão. Na maioria, o ditame cede ao afeto. Acontece encontrarem-se dois contraditoriamente, e cada um presume de sua parte a razão; mas ela, fiel, nunca soube fazer duas caras.

Proceda o sábio com reflexão em tão delicado ponto; assim o receio próprio reformará a qualificação do proceder alheio. Ponha-se às vezes do outro lado; examine ao contrário os motivos. Com isso, nem o condenará, nem se justificará a si tão às cegas.

CCXCV. Não alardeador de façanhas, mas fazedor delas.

Fazem muito de grandes senhores os que menos têm com quê. Tudo transformam em mistério, com maior frieza: camaleões do aplauso, dando a todos fartura de riso. Sempre foi enfadonha a vaidade; aqui, ridícula. Andam mendigando façanhas as formiguinhas da honra.

Afete menos suas maiores eminências. Contente-se com fazer e deixe a outros o dizer. Dê as façanhas, não as venda; nem se devem alugar penas de ouro para que escrevam lodo, com asco da prudência. Aspire antes a ser heroico que apenas a parecê-lo.

CCXCVI. Varão de prendas, e majestosas.

As primeiras fazem os primeiros homens. Uma só equivale a toda uma mediana pluralidade. Gostava aquele que todas as suas coisas fossem grandes, até os utensílios comuns. Quanto melhor deve o varão grande procurar que o sejam as prendas de seu ânimo!

Em Deus tudo é infinito, tudo imenso; assim, num herói, tudo há de ser grande e majestoso, de sorte que todas as suas ações, e até razões, sigam revestidas de uma transcendente e grandiosa majestade.

CCXCVII. Obrar sempre como à vista.

Aquele é varão remirado que olha que o olham ou que o olharão. Sabe que as paredes ouvem e que o malfeito rebenta por sair. Ainda quando só, obra como à vista de todo o mundo, porque sabe que tudo se saberá.

Já olha como testemunhas agora aqueles que, pela notícia, o serão depois. Não se recatava de que o pudessem registrar em sua casa desde as alheias aquele que desejava que todo o mundo o visse.

CCXCVIII. Três coisas fazem um prodígio, e são o dom máximo da suma liberalidade: engenho fecundo, juízo profundo e gosto relevantemente jocundo.

Grande vantagem é conceber bem; maior, porém, discorrer bem, com entendimento dos bons. O engenho não há de estar na espinha, pois isso seria ser mais laborioso que agudo. Pensar bem é fruto da racionalidade.

Aos vinte anos reina a vontade; aos trinta, o engenho; aos quarenta, o juízo. Há entendimentos que lançam luz de si, como os olhos do lince, e na maior escuridão discorrem mais; há-os de ocasião, que sempre topam com o mais apropriado. Oferece-se-lhes muito e bem: felicíssima fecundidade. Mas um bom gosto tempera toda a vida.

CCXCIX. Deixar com fome.

Deve-se deixar o néctar ainda nos lábios. O desejo é medida da estima; até na sede material é ardil de bom gosto atiçá-la, mas não acabá-la. O bom, se pouco, duas vezes bom. Grande é a baixa da segunda vez: farturas de agrado são perigosas, porque ocasionam desprezo à mais eterna eminência.

Única regra de agradar: apanhar o apetite atiçado pela fome com que ficou. Se se há de irritar, seja antes por impaciência do desejo que por enfado da fruição. Goza-se em dobro da felicidade penada.

CCC. Em uma palavra, santo, que é dizê-lo tudo de uma vez.

A virtude é cadeia de todas as perfeições, centro das felicidades. Ela faz um sujeito prudente, atento, sagaz, cordato, sábio, valoroso, reportado, inteiro, feliz, plausível, verdadeiro e herói universal.

Três esses fazem ditoso: santo, são e sábio. A virtude é o sol do mundo menor, e tem por hemisfério a boa consciência. É tão formosa que leva a graça de Deus e das gentes. Não há coisa amável senão a virtude, nem aborrecível senão o vício. A virtude é coisa de veras; todo o mais, de burlas. A capacidade e a grandeza hão de medir-se pela virtude, não pela fortuna. Ela só se basta a si mesma. Vivo o homem, faz dele amável; morto, memorável.

A Arte da Prudência

Sinopse

Leia gratuitamente A Arte da Prudência, tradução brasileira integral de Oráculo manual y arte de prudencia, clássico de Baltasar Gracián publicado em 1647. Esta edição Literunico apresenta os 300 aforismos do pensador espanhol em português, em leitura gratuita por capítulos e PDF no Aurora.

Fonte-base: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, Oráculo manual y arte de prudencia, de Baltasar Gracián. Conferência estrutural auxiliar: Wikisource em espanhol. Edição Literunico em domínio público, preparada para leitura gratuita em capítulos e PDF no Aurora.

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