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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 16 · A Queda d'um Anjo

Ecce iterum Crispinus...

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Corrido um quarto de hora, fez-se na câmara o silêncio da subterrânea Pompea. É que o dr. Libório ia falar.

--Sr. presidente, e senhores deputados da nação portuguesa!--disse ele--Vem-nos agora sob a mão assunto, até aqui pretermitido.[14] Pelo que toca e frisa com cadeias pátrias, direi os cinco stigmas que um estilista de fôlego esculpiu nos frontais desses antros:

INJUSTIÇA!

IMORALIDADE!

IMUNDÍCIE!

INSULTO!

INFERNO!

Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno teológico em que há o ranger de dentes, estridor dentium!

Que é da civilização desta misérrima e tão coitada terra? Quem nos lampeja verdade nesta escureza em que nos estorcemos? Ai! A verdade ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia. As ideias entre nós estão como flores palpitantes no gomo nascente. Eu me esquivo, sr. presidente, o lavor de historiar as sucessivas fases que tem percorrido os métodos do aprisoamento. Urge primeiro pregoar a brados que se faz mister funda cauterização na lei. O direito não se estudou ainda em Portugal. Pois que é o direito? No seu todo sintético e como corpo doutrinal, o direito é a ciência da condicionalidade ao fim do homem. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente, o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. Miguel.[15]

Calisto Elói pediu a palavra. O orador prosseguiu:

--Sr. presidente, neste país não se atende às bossas. Os legisladores não estudam o crime com o compasso sobre um crânio esbrugado. Se fordes a Windsor Castle e vos meterdes de gorra com os guardas que mostram o castelo, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistível tendência para a rapina: é uma pega humana. Uma pega humana, rapacíssima, a mais não! Sr. presidente, do nosso rei D. Miguel se conta, que já mancebo saído da puerícia, se entretinha a maltratar animais, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma galinha viva com um saca-rolhas.[16]

--Vozes: À ordem! À ordem!

--O orador: Pois em que me transviei da ordem?

--Uma voz: Não se diz no seio da representação nacional: o nosso rei D. Miguel.

--O orador: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado em um livro mirífico e sobre-excelente do sr. dr. Aires de Gouveia.

--Uma voz: Pois não faça obra por inépcias do dr. Aires de Gouveia.

--O orador: Retiro a dessoante frase, que impensada destilei do lábio, e ao ponto me reverto. Sem a ciência de Porta e de Blumenbache toda a penalidade sairá vesga, bestial, e infernalíssima. É natural, sr. presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o cálculo se empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o hidrocéfalo se gera, ainda nos mais solícitos em higiene:

Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta ênfase me cabe na alma, algumas linhas do jovem esplêndido de verbo, que auspicia e promete o primeiro criminalista desta terra. Falo de Aires de Gouveia, e nele me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (vir), não a mulher (mulier), desde os vinte e um anos, ou época do predomínio racional, até aos sessenta, ou princípio do período debilitante, no estado genérico, ou que constitui a generalidade de ser homem, não descendo sequer às gradações principais, que tornam o homo homem, o gênero espécie.»[17]

É certo, sr. presidente, que a femina toca o requinte da depravação, e chega a efeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardências de sangue, para infundir pavor em peitos equânimes, porém, o móbil dos crimes seus delas é outro: as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um período de evolução, e não há aí arcar com evidência.

Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a justiça, e depois crie-se a penitência, regimente-se o criminoso aprisoado! Aos que já meteram relha e adubo no torrão do novo plantio, daqui me desentranho em louvores e muitos e francos e perenes.

Sr. presidente! Quanto a cadeias, estamos no mesmo pé de ideias da inquisição! Que esterquilínios! que protérvia! Eu quero, com o dr. Aires, que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabelo da cabeça cortado à escovinha. Eu quero, com o doutor supracitado, que ele não fume, nem beba bebida fermentada. Água em abundância, e mais nada potável. Não quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigne patrício meu, e abalizado humanista, das cadeias saem delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos.

Lastimado isto, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais, é qual febricitante despedido do leito que como seta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria.

Eu quero que o preso funcione inteletivamente, e de lavores corporais se não desquite. O homem sem instrução obra instintivamente, obra egoistamente, obra ceticamente, se lhe escasseia religião. Ao preso lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe também a cabeça na ideia. Inclinando razoamento para isto, em todas as cadeias europeias lustram ciências, pulem saber, e se amenizam instintos. Veja-se o que diz o nunca de sobra invocado Aires, honra e joia da cidade de Sá de Menezes, de andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no cancro das masmorras; mas o sacerdote atilado de engenho e todo impecável de costumes; e não padres cuja unção sacrosanta se lhes convertesse no corpo em lascivos amavios. Quem sabe aí joeirar o ótimo para capelães de prisões?

Depois quer-se um diretor, olho e norma. E tão boas partes se lhes requerem, que ainda cismando talhá-lo um composto de virtudes, o não viríamos delinear senão escorço.

Deu a hora, sr. presidente. A matéria é tal e tão rica, e para tamanho cavar nela, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me fico, e do imo peito expido brado de louvor, que louvaminha não é, ao ilustre membro desta câmara que mandou para a mesa a proposta da reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão, emborca a froixo urnas de bálsamos sobre a esqualidez da mais ascosa úlcera da humanidade. (Prolongados aplausos. O orador foi cumprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se.)

Calisto Elói contemplou-o com a fixidez de médico, que estuda os sintomas da demência nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o abade de Estevães, disse:

--Eu queria ver como este dr. Libório tem a cabeça por dentro.

E ritmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

Quantos folgam falar a prisca língua Qual Egas, qual falou, Fuás Roupinho, Qual esse conde antigo, que levara A vila de Condeixa por compadre! Mas como a falam? Põem sua méestria Em palavras sediças, termos velhos Termos de saibo e mofo, que arrepiam Os cabelos da gente... Que dizes disto? Como chamas a estes?..... Que eu não acerto a dar-lhe um nome próprio. Que bem quadre a tão râncidos guedelhas? Quando estas coisas desvairadas vejo Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos, Como arrepiques certos de gran fome![18]

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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