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A Queda d'um Anjo

Capítulo 25 · A Queda d'um Anjo

A mulher fatal

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Às três horas em ponto, parou uma sege de praça, à porta de Calisto Elói de Silos. O boleeiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabelo, que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pátio a receber a visita.

Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher daquelas que Lúcifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicícia dos Antônios, dos Paulos, dos Pacômios e Hilarioens.

Era alta e pálida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches à flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente levou a mão ao coração: traspassara-lho uma azagaia elétrica.

--É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Ifigênia.

--Oh, minha senhora!... tartamudeou o morgado da Agra, oferecendo-lhe o braço.

--Parece, tornou ela quando iam subindo, que o meu palpite não me enganou...

--O palpite de v. ex.^a?

--Sim... eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra... Delicadeza igual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

Entraram à sala. O morgado conduziu Ifigênia ao sofá, e disse com voz tremida:

--A que devo eu a honra desta visita, minha senhora?

--Abreviarei a minha história e a minha pretensão. As suas horas deve-as v. ex.^a ao bem da pátria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fora do parlamento a esta hora...

--Minha senhora... que vale a pátria, em comparação da honra que v. ex.^a me dá?! atalhou Calisto Elói, com o coração nos lábios a sorrir.

--Sou brasileira. Pela fala me terá já conhecido...

--Sim: eu estava notando no falar de v. ex.^a, uma graça indizível...

--Meu pai era português, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D. João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa linhagem, mas de pouquíssimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846 com um oficial general, do exército do imperador do Brasil. Meu marido tinha sessenta e seis anos. Emigrara em 1834, com a patente de brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D. João. Gonçalo Telles ofereceu a sua espada e inteligência a Pedro II, serviu bravamente o império, e subiu em postos. Eu vivia órfã de pai e mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pai, amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.

Há dois anos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguém pode angariar muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos e benefícios do governo brasileiro, viesse a Portugal e procurasse o amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que ele me nomeou um por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao estado uma tença em atenção aos muitos serviços que ele fizera à pátria em trinta anos, até ao dia em que foi promovido a coronel de cavalaria.

Há três meses que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido. Apeei à porta de grandes palácios, e esperei largas horas em grandes salas de espera, como viúva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

Alguns, por mais tratos que deram à memória, já não conseguiram lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que ele deixasse o serviço da pátria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem eles a mim, eu levantava-me, eles levantavam-se, e despedíamo-nos cerimoniosamente. A altivez com que eu os desprezo, sr. Barbuda, autoriza-me a dizer-lhe que os miseráveis são eles: eu tenho comigo a riqueza do meu orgulho; e, se conservo os apelidos de meu marido, é porque ele foi talvez o único de sua raça que os não desdourou...

--Diz v. ex.^a muito bem--atalhou Calisto.--Que nobre alma as suas palavras me manifestam!

--Há dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraísse de pensares melancólicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão: eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um deputado cortesmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.» Agradeci, posto que a minha vontade seria rejeitar. Entrei, quando v. ex.^a começava a falar. Impressionou-me a sua eloquência chã, os seus ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus anos, permita-me assim falar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recomendação de meu marido, respetivamente aos direitos que ele tinha de ser remunerado na pessoa de sua viúva. Eu nada sei de leis nem consultei quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido nunca reclamou. V. ex.^a pode de pronto responder-me?

--Não, minha senhora. O que eu de pronto posso asseverar a v. ex.^a é que, em honra da memória e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D. Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos inimigos de D. Miguel favores para a viúva de Gonçalo Telles.

--Em tal caso...--balbuciou D. Ifigênia--baldou-se a minha pretensão.

--Queira v. ex.^a ouvir-me...--Molesta-se com o fumo do charuto?--perguntou ele erguendo-se.

--Não, senhor.

Calisto acendeu o charuto com ademanes teatrais, e voltou a sentar-se, prosseguindo:

--Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua árvore genealógica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos antigos, à lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu; porém, a ilustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilíssima senhora. Entre aqueles que se honram do parentesco dos Telles, dos Teives e ainda dos leoneses chamados Ponces de Leão, há um que dispensou estes apelidos por se não demasiar em composturas nobiliárias. E esse, minha senhora e prima, sou eu.

--V. ex.^a?!--acudiu Ifigênia.

--Eu, que não costumo falar de meus antepassados, sem invocar o testemunho dos tratadistas nobiliárquicos, dos cronistas, dos genealógicos impressos e não impressos. Devo poupá-la a discursos, aliás curiosos, de agradáveis e históricas notícias: mais tarde v. ex.^a ouvirá com interesse as alianças travadas entre os meus maiores e os de meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em Portugal. Boa estrela nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei vencer das instâncias dos meus constituintes.

--Eu estou maravilhada!...--exclamou Ifigênia--Há pressentimentos prodigiosos!... Que força estranha era esta que me impelia para v. ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada afoiteza. Comecei a falar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinárias! Não me lembrei que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e desairosamente... Em fim, eu falava a v. ex.^a como se deve falar... a um primo.

--E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a qual é atualmente a sua situação.

--Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia bastar à minha econômica subsistência de dois anos; porém, como ao fim de três meses, não se me antolhava amparo de ninguém, nem esperanças de alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não exaurir o pecúlio que tinha. Li um anúncio, convidando mestra de línguas inglesa e francesa para colégio. Confiei bastante em mim, e apresentei-me aos diretores. Falei francês, e cuidaram que eu nascera em França; quanto a inglês, deram-me como bastante conhecedora da língua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não estou velha nem feia...

--Que favor lhe fazem, minha senhora!--atalhou Calisto mui risonho.

--Pois este acidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres, tornou-se para mim suplício. Não querem crer que eu envolvi meu coração na mortalha de meu marido, no túmulo dele o fechei; e, se pudesse, este resto de formosura atirara àquela campa, que me roubou um pai.

--Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do coração?--perguntou Calisto, já ferido na alma por este desengano à paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

--Todas as que não condigam com a minha situação de viúva.

--Pois se a Providência lhe deparasse um marido digno...

--Maridos dignos são unicamente aqueles que afagam como a filhas as mulheres; são aqueles que as mulheres estremecem como pães; são os que concentram todo o seu viver no pequenino âmbito da família, na placidez e silêncios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um pai, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as com saudade; mas não cogito nem levemente em revivê-las. Aqui tem v. ex.^a a sincera exposição do que sou. Veio isto a dizer-lhe que a vida de mestra, que adotei, me é golpeada de desgostos e repugnâncias que me fazem desgraçada.

--E como seria v. ex.^a feliz?--interrompeu Calisto.

--em uma casinha entre duas árvores, com os meus livros e com as minhas saudades. Ambiciono muito, porque há pessoas abastadas que nunca puderam conseguir esta felicidade, tão moderada aparentemente.

Ergueu-se Calisto Elói de golpe, avizinhou-se da brasileira, tomou-lhe a mão com solenidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

--Prima Ifigênia, eu não permitirei que a sua mocidade vá emurchecer-se em uma casinha entre duas árvores. Para as árvores e flores se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves desferem remontado voo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de árvores e rodeada de relvas e fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gozará o aconchego e regalos que as grandes populações oferecem. Não lhe admito réplicas, prima. Achou um parente de idade autorizada, que requer obediência. Agora, falar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos, com quanto seja casado...

Neste ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem fúnebre, e correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso. Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

--Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a abrir-lhe-á os braços de parenta. É uma criatura feita no campo, dotada apenas das luzes naturais, que a levam pelo melhor caminho da felicidade neste mundo. Casei, por que era necessário que o vínculo dos Figueirôas voltasse à casa donde saíra. Acho-me há vinte e alguns anos ligado à mulher, que não devia ser minha. E, se ela é feliz, isso prova a muita probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino...

Fez uma breve pausa, e prosseguiu:

--V. ex.^a deu largas à sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer de uma expansão.

--Porque não há de sê-lo?--acudiu D. Ifigênia, interessada na comovente história.

--Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro anos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos anos procurei aturdir-me no estudo. Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregara do mundo para o escondrijo da minha biblioteca, se às vezes passava de relance entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava nelas como idiota que perdeu a memória da terra natal, e se queda espantado das coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me surpresou algum sentimento estranho de afeto, podia tanto comigo a consciência da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delícias de uma vida incógnita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos anos, cessaram. Eu tinha consumado a paralisia do coração, e chamado sobre mim todos os hábitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o ressurgimento da vida, sepultada antes de haver consciência de si. Achei-me entre homens, aquecidos à luz deste século. Na atmosfera desta cidade há perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das amantes queridas, das pombas ideais, que volteiam à volta dos espíritos anelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade... Onde vão estas cândidas revelações do meu pobre coração? Não na enfadam porventura minha senhora?

--Interessam-me e comovem-me--disse com afetuosa simpatia a brasileira--Vai dizer-me que se apaixonou?

--Tive um delírio--respondeu o morgado, compassando as palavras em tom muito do íntimo--Um delírio, sonho de infeliz, que se desperta a arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude ver que eu seria capaz de um crime... E, todavia, se algum seio de mulher pudesse compreender quanta pureza santificava os meus afetos!... Se alguém visse a águia que por tão alto avoeja, sem descer às searas a roubar um grão!... Falo a um espírito elevado, que tem obrigação de me compreender... Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo deste meu viver. E, se estas lágrimas alguma coisa significam, é uma súplica de amizade. Eu vejo aí uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o compadecimento de uma amiga, porque sei agora que há mulheres, diante das quais um homem precisa chorar.

Calou-se o morgado. Ifigênia encarava nele com certo assombro e estranheza de pessoa que não pode, nem quer conhecer dos sentimentos que a alvoroçam. O inesperado remate deste diálogo figurou-se-lhe a ela a passagem de um romance, que se não preza de muito verosímil. Porém, como quer que a viúva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em novelas francesas, o caso não lhe pareceu tão extraordinário como ao leitor e a mim, quando ilustríssimo referiram.

Passados momentos, Ifigênia, contemplando, sem as ver, umas figuras chinesas do seu leque, disse:

--De maneira que esta aparição imprevista de uma mulher desafortunada, se deu lugar à expansão, também foi causa a uma dor de v. ex.^a!...

Calisto entrelaçou os dedos em postura suplicante, e exclamou:

--Chovam-lhe os arcanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe enegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

Nenhuma paixão súbita estalou ainda com estrondos deste tamanho. A gente compreende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado conosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi falar assim, romper tão depressa em veemências de entusiasmo. Nós, homens criados mais ou menos por salas, afeitos a subordinar o sentimento às práticas da civilidade, desafogamos em êxtase e suspiros, contemplamos embelezados a mulher que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ela faz com toda a presença do seu espírito. Toda a lástima é pouca para os ridiculíssimos trejeitos que fazemos então.

Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que elas tem, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinização delas. Às pobrezinhas, quando o tempo as apeia dos altares, e os maridos convertem a prata dos turíbulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memória consolativa daquele quarto de hora.

Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não falaria daquele modo, nem tão do íntimo da alma apaixonada, se tivesse experiência dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare à mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vê-la e ouvi-la bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o êxtase, depois as sensaborias tratamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de três meses ao êxtase.

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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