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A Queda d'um Anjo

Capítulo 18 · A Queda d'um Anjo

In Liborium

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Estavam cheias as galerias da câmara.

Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento. A pedido de Calisto Elói, fora o abade de Estevães levar as entradas ao magistrado, e oferecer-se a conduzir as senhoras à galeria.

O vistoso coreto das damas exornavam-no, talvez mais que a formosura, algumas senhoras doutas enfrascadas em política, amoráveis Cormenins, que aquilatavam o mérito dos oradores com incontrastável retidão de juízo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas destas senhoras Cormenins.

Não direi que o renome de Calisto atraísse as damas ilustradas: era grande parte neste concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intelectuais, cobrara fama de coisa extravagante e impropria desta geração.

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fora vestir-se de calça mais cordata em cor e feitio. Não me acoimem de arquivista de insignificâncias. Este pormenor das calças prende mui intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquela alma vai-se transformando à proporção da roupa. Assim como o leitor, à medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria páginas íntimas, ou ainda pior, cartas corruptoras à mulher querida, Calisto, em vez disso, muda de calças.

As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lho pintara, desgostaram-se de vê-lo trajado no vulgar desgracioso, do comum dos representantes do país.

Apenas Calisto Elói se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o presidente lhe deu a palavra.

Cessou o reboliço e falario daquela feira veneranda, assim que o deputado por Miranda, começou deste teor:

--Sr. presidente! Muito há que se foi deste mundo o único sujeito, de que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Libório, e capaz de falar português digno de s. ex.^a. Era o chorado defunto um personagem que foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, acerca daquela famigerada casa que ele tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o Báltico. V. ex.^a e a câmara, podem refrescar a memória, lendo aquele pedaço de estilo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que os belfurinheiros de miçangas e lantejoulas adornam a língua de Camões, despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobrezinha, trajada por mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha fica nua, e nós a corarmos de vergonha por amor dela.

É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a pátria a pique?

À hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em português de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões, Vasconcelos e Mouras, que nos vendem?

Vozes: À ordem!

O orador: É contra o regimento desta casa, repetir o que está dito na história, sr. presidente?

O presidente: Sem ofensa de particulares.

O orador: Autoriza-me portanto, v. ex.^a a crer que nesta casa está Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e...

Vozes: À ordem!

O orador: Pois então eu calo-me, se ofendo estes personagens a quem me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inofensivas, no entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui semelhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

O dr. Libório: Mais prestimoso fora ao cosmos, se o sr. Calisto estanciasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

O orador: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

O dr. Libório: Já disse que não desço.

O orador: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fábula da águia e do cágado, na linguagem lídima e chan de D. Francisco Manuel de Melo. É o Relógio da Aldeia, que fala no diálogo dos Relógios falantes: «...Lembra-me agora o que vi suceder a um cágado com uma águia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veio a águia, e de repente o levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros cágados, que o viam ir subindo, vendo-se eles ficar tão inferiores a seu parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse assim sublimado à vista de seus iguais. Quando nisto, eis que vemos que, retirada a águia com sua presa a uma serra, não fazia mais que levantar o triste animal, e deixá-lo cair nas pedras vivas, até que quebrando-lhe as conchas com que se defendia...» não me lembra bem se D. Francisco Manuel diz que a águia lhe comeu o miolo.

Se o sibilino colega figura na moralidade deste conto, oferece-se-me cuidar que não é a águia.

(Pausa do orador: riso das galerias.)

Sabido, pois, sr. presidente, que as citações históricas fazem repugnâncias ao regimento e à ordem, abjuro e exorcizo os demônios íncubos e súcubos da história, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado que me descoime de desordeiro.

Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de oradores, e de estilos viciosos. Diz este mestre dos retóricos que «há um natural prazer em escutar qualquer que fala, ainda que seja um pedante, e daqui aqueles círculos que a cada hora vemos nas praças à roda dos charlatães» Nesta nossa idade, Quintiliano redivivo diria: «nas praças e nos parlamentos.»

Vozes: À ordem?

O orador: Pois também Quintiliano?!

Bem me quer parecer que raríssimas vezes o admitem aqui a ele!...

O presidente: Lembro ao nobre deputado, que a câmara não é aula de retórica.

O orador: Assim devo presumi-lo, vendo que todos a professam com dignidade, excetuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o discípulo único e mau de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual eloquência considero necessária nesta casa da nação: é a eloquência que a nação entenda. A arte de bem falar, ars bené dicendi, é o estudo da clareza no exprimir a ideia. Os afetos, as galas da linguagem, que lhe tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é tramoia, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui falar das necessidades deles em termos tais que por eles v. ex.^a e a câmara lhas conheçam, ponderem, e remedeiem.

Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com ele entendo que por de mais se enganam aqueles que alcunham de popular o estilo vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril, que o mestre denomina proedulce dicendi genus, todo afetação menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como em bandeirolas de arraial.

Eis-me já de força inclinado à substância do discurso do sr. dr. Libório. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me dirijo. Há dias me regalei de ler o sucoso livro de um doutor grande letrado que escreveu da Reforma das Cadeias. Achei-o lusitaníssimo na palavra; mas hebraico na locução. Tem ele de bom e singular que tanto se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a esquerda. Soou-me que o sr. dr. Libório, amador do que é bom, se identificara com o livro, e aformosentara o seu discurso com muitas louçainhas daquele tesouro.

Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Aires, se com o sr. dr. Libório. Se me debato, desavisadamente disse! O discurso não dá pega a debates que não sejam filológicos. Estes não vem aqui de molde. Retórica, gramática e lógica, se alguém quiser tratá-la neste prédio, entretenha-se lá em baixo no pátio com o porteiro, ou com as viúvas e órfãos, que pedem pão com a lógica da desgraça, e com a retórica das lágrimas: gramática não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não, por que na representação nacional há famintos que a não exercitam primorosamente. (Murmúrio e agitação na direita. Aplausos na galeria. Um «bravo» estrídulo do desembargador Sarmento. Um cauteloso dá palmas na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a campainha. Restabelece-se o silêncio. Calisto Elói tabaqueia da caixa do radioso abade de Estevães.)

O presidente: Relembro, já com mágoa, ao sr. deputado que se abstenha de divagações alheias do debate.

O orador: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer à fina força, subjugar as minhas pobres ideias em aprisoamento, como disse gentilmente o ilustre colega!

Pois assim sou esbulhado de um sacratíssimo direito? É então certo, como disse o sr. dr. Libório, que não há direito em Portugal? V. ex.^a sem o querer, está sendo, na frase ingrata do ilustre deputado, o substituto do anjo S. Miguel! (Riso) Oh! V. ex.^a não será algoz do pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matá-lo: basta deixá-lo morrer... Calar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

Vozes: Fale! fale!

O orador: O ilustre colega referiu o que vem contado no livro do sr. dr. Aires de Gouveia: que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saído da puerícia se entretinha a maltratar animais, chegando um dia a ser encontrado, arrancando as tripas a uma galinha com um saca-rolhas. É pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a sanguinária história do saca-rolhas nos intestinos da deplorável galinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de aflição, sr. presidente, figurando-me o desgosto da ave!

Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na sombra de um príncipe ausente, indefeso e respeitável como todos os desgraçados. Que história vilã é esta? Quem contou ao sr. dr. Aires o caso infando do saca-rolhas nas tripas da galinha?! Em que soalheiro de antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça estas anedotas hediondas, e mais torpes no esqualor de recontá-las?

E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a câmara àquele filho da rainha da Grã-bretanha, que é um rapinante: uma pega humana! Que musa de tamancos! uma pega humana! Que imagem! que alegoria tão ignóbil, e extratado do vocabulário da ralé!...

Em desconto destas repugnantes notícias, fez-nos o sr. doutor o bom serviço de nos dizer que homem em latim é vir, e mulher é mulier, e que, em alguns casos, homo também é homem. Ficamos inteirados e agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei não legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir à repetição do concílio em que havemos de averiguar se a mulher é da espécie humana? Se os srs. drs. Aires ou Libório, alguma vez, dirigirem os negócios judiciários e eclesiásticos em Portugal, receio que os legisladores excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as excluam da espécie humana!... E pior será se algum destes ministros, no intento de puni-las, as classificam nas aves, e nomeadamente nas galinhas! O horror dos saca-rolhas, sr. presidente, não me desaperta o ânimo!

Porque não há de ser castigada a mulher por igual com o homem? Resposta séria à pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delito, as faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um período de evolução.» A mulher, que mata, por ciúme é que mata; a mulher, que propina venenos, por ciúme é que despedaça as entranhas da vítima. Isto é crime, ao que parece; crime, porém, de faculdades que se agitam perturbadas, e período de evolução. Se o termo fosse parlamentar, eu diria farelório!

Quem há de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

O que eu melhor entendi, graças à linguagem correntia e pedestre da arenga, foi que o ilustre colega, avençado com o sr. dr. Aires, querem que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabelo cortado à escovinha, e beba água com abundância, e não beba bebidas fermentadas, nem fume.

Neste projeto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que ele o faça, se tiver a cara suja, mas obrigá-lo a lavatórios supérfluos, é risível puerilidade, juízo pouco asseado que precisa também de barrela.

Privar do uso do tabaco o preso que tem o hábito de fumar inveterado, é requisito de desumanidade que sobreleva à pena de prisão perpétua ou degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o padecente, que ele há de agradecer-lhe o benefício.

Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem de olho apertar mais as cordas que amarram o condenado à sentença; picar-lhe as veias, e desangrá-lo gota a gota, na intenção de o regenerar e reabilitar! Ótima reabilitação! humaníssimos legisladores! Querem que o preso se regenere hidropaticamente. Mandam-no lavar a cara duas vezes por dia. Água em abundância, conclamam os dois doutores. Fazem eles o favor de dar ao preso água em abundância; mas descontam nesta magnanimidade proibindo-os de falarem aos companheiros de infortúnio, com o formidável argumento de que saem das cadeias delineamentos de assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos!...

«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? Assassinato é coisa que me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que for, é coisa horrível que sai das cadeias com seus delineamentos, contra homens que os presos sabem ricos. Aqui, sr. presidente, neste sabem ricos, quem sofré o assassinato é a gramática. O aticismo desta frase é grego de mais para ouvidos lusitanos.

O que é um preso descomedido, sr. presidente? Di-lo-ei? Vox faucibus haesit!...

É febricitante despedido do leito, que, como seta voada do arco, exaspera em barulho os males de toda a enfermaria. Que se há de fazer a um patife que é seta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira vez!

Que desperdício de poesia para descrever um preso bulhento!

Seta voada do arco! Que infladas necedades assopram estes estilistas de má morte!

Inclinando razoamento (peço vênia para me também enriquecer com esta locução do sr. dr. Aires) inclinando razoamento a pôr fecho neste palanfrório com que dilapido o precioso tempo da câmara, sou a dizer, sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquela que legislar melhor cama, melhor alimento, e mais cristã caridade para o preso. Impugno os sistemas de reforma que disparam em acrescentamento de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Cristo, ou seus discípulos, nos ensinam como obra de misericórdia visitar os presos, conversá-los humanamente, amaciar-lhes pela convivência a ferócia dos costumes, não venham cá estes civilizadores aventar a soledade aos ferrolhos, o insulamento do preso, aquele terrível voe soli! que exacerba o rancor, e os instintos enfurecidos do delinquente.

Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enigmas. Davus sum, non Oedipus.

O orador foi cumprimentado por alguns provincianos velhos.

A Queda d'um Anjo

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Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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