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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 9 · A Queda d'um Anjo

Faz rir o parlamento

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Andava o ânimo de Calisto Elói martelado pelo desejo de pôr cobro ao luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte neste intento o haverem-lhe os dois pisa-verdes do parlamento metido a riso a sua casaca de briche. Impugnavam-lhe a ideia o abade de Estevães, e outros correligionários cordatos, mais entrados do espírito do século, e convencidos da inutilidade de atravessar represas à torrente caudal da índole de cada época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a cauterizar as chagas do corpo social, e não a cobri-las de pachos e lenimentos paliativos em respeito à sensibilidade dos doentes. Rebelde às admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal no conceito da câmara, Calisto, provocado por um debate sobre importação e direitos de objetos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar alegremente a câmara, desejosa de ouvi-lo.

Concedida a palavra, e feito o silêncio da curiosidade na sala, ergueu-se o morgado da Agra, e orou deste feitio:

--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens de claro juízo e ciência bastante, cortavam os abusos do luxo com pragmáticas, quando os vassalos se desmandavam em trajos, regalos e ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei D. Sebastião, que santa memória haja, promulgou justas e rigorosas leis sobre o uso das sedas. E, naquele tempo, sr. presidente, Portugal ainda se banqueteava com a baixela doiro do Pegu: ainda as paredes das salas nobres estavam colgadas de guadamecins e razes da Pérsia. Era o Portugal, já não robusto nem entusiasta; mas ainda sopitado das embriagadoras delícias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

Nas Ordenações Filipinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram incluídas as principais leis da reformação da justiça de 27 de julho de 1582.

Lá se vê quão salutar era a vara férrea da lei no castigo dos contumazes em proveito da comunidade. (Um deputado boceja contagiosamente: outros bocejam; e o presidente de ministros adormece). Vejamos a pena dos infratores: o peão perdia o vestido defeso, e pagava da cadeia quinze cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu. Note a câmara que as reformas liberais não complanaram tanto a igualdade entre poderoso e fraco. Bradam por aí os ignaros contra os privilégios e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se acontece de caírem nas presas da justiça, gritam pelo código das igualdades, e então experimentam o que vai da bonita redação da lei à execução dela. Recolho-me ao assunto, sr. presidente....

Um deputado: Faz bem.

O orador: Não me lisonjeia o beneplácito do colega. Recolho-me ao assunto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda a parte, ouro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que toda esta gente voltou ontem da Índia nas naus que trouxeram as parias do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carruagens, calechas e berlindas, como se cada dia se estivesse comemorando a passagem do cabo tormentório ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando às rebalinhas os tesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas carroças...

Um deputado: Carroças são de lixo.

O orador: E bem pode ser que seja lixo o que vai nelas... Por entre estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados às paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto melancólico, e mal entrajados. Nestes cuido eu ver D. João de Castro, que empenhou as barbas, e tem duas árvores em Cintra; Duarte Pacheco, que vai entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares destas ilustres vítimas.

Um deputado: Vê coisas magníficas!

O orador: E também vejo o dedo do profeta escrevendo na parede o lema daquele devasso festim... (Pausa. O orador conserva o braço em postura escultural, apontando à parede. O presidente acorda estremunhado, com a risada do ministro da fazenda). O que eu vejo? quer o ilustre deputado saber o que eu vejo? É a indústria agrícola de Portugal devorada pelas fábricas do estrangeiro; é o braço do artífice nacional alugado à escravidão do Brasil, porque a pátria não lhe dá fábricas; é o funcionário público prevaricado, corrupto e ladrão, porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o julgador dos vícios e crimes sociais transigindo com os criminosos ricos, para poder correr parelhas com eles em regalias; é a mulher de baixa condição prostituída, para poder realçar pelos ornatos sua beleza; é a aluvião de homens, inábeis, que rompe contra os reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas revoluções se lhos não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete abismos, e à boca de cada um o rótulo dos sete pecados capitais que assolaram Babilônia, Cartago, Tebas, Roma, Tiro, etc. É o luxo, sr. presidente!

Um deputado do Porto:--Peço a palavra.

O orador continuando:

--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e encalamistrados que pejam os teatros, praças, e botequins de Lisboa? Foi para estes tempos que um sábio e claro varão doutro século escreveu: «Desde o bico do pé até à cabeça anda um destes cavalheiros bizarros (ou qualquer destes bizarros ainda que não sejam cavalheiros) armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são cativeiros de espírito, corrupções dos costumes, da república, e despesas da sua fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

Aqui é que bate o ponto: da fazenda que não é sua. À custa de quem se vestem estes Narcisos e Adônis? Que incógnitos veios de ouro exploram? Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quais sejam suas manhas ou ronhas? Que sabe a polícia deles?

E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excelências, as pobres esfarrapadinhas, por meio destes peralvilhos, que saem de casa do alfaiate com o foro grande e o desaforo maior. Que desbarato e corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas então tapem lá o roto cofre das graças, que a toda hora nos está despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente carnaval, que nos trazem sempre acotovelados com máscaras, que eram ontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a nós, receosos de que os conheçamos a eles!

Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmática do Sr. D. João V, acerca de tratamentos. Eu tenho de a ler amanhã a um tendeiro, que me vendeu figos de comadre, por que o homem se ofendeu de receber um vossemecê, que eu longanimamente lhe dei. O alvará reza assim: «Que aos viscondes e barões, aos oficiais da minha casa, e aos das casas das rainhas, e princesas destes reinos; aos gentis-homens das câmaras dos infantes; aos filhos e filhas legítimos dos grandes, dos viscondes e barões... como também aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.»

Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das praças; reitor da universidade; senhorias às dignidades prelaciais e civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me vendeu os figos. Cremos esta senhoria, para aliviarmos de escrúpulos os que lha derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos nobilitários. Atiremos ao esterquilínio com esta moeda refece. Isto já não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latíssima licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez, praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de honrá-lo chamando-lhe homem do povo, daquela raça de povo, que D. Diniz e D. João I amaram cordialmente.

Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me à questão, e concluir, porque a hora me não permite delongas, nem a câmara terá a benevolência de mas tolerar.

Invoco a atenção dos representantes do país para a mortal peçonha, que vai cancerando o machismo vital da nossa independência. Rédeas ao luxo! Tranquem-se as alfândegas às drogas estrangeiras. Carreguem-se de direitos as mercadorias, que incitam o apetite e pervertem as condições melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas possessões, e do estofo, que nossas fábricas podem dar. Sigam-se as leis velhas do último rei da dinastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os que venderem tecidos estrangeiros e os que os puserem em obra.

Um deputado: Como redigirá o ilustre deputado semelhante absurdo de lei?

O orador: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os desmontou.

Conclui, sr. presidente.

O presidente: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Libório de Meirelles, e está fechada a sessão.

O dr. Libório de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Elói.

--Que sairá daquele arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abade de Estevães.

--Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

Calisto sorriu-se e disse:

--Estou bem aviado, se ele escreveu livros!

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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