Universo da obra
Universo da obra
Estava D. Teodora presidindo à limpeza do lagar em que se havia de fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assomou à porta, e chamou de parte a fidalga.
--O meu homem veio!--exclamou ela.
--Faz favor de me ouvir aqui fora, disse ele à puridade.--E, retirados ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:
--Seu marido está perdido, sr.^a morgada.
--Que me diz? bradou a pálida consorte.
--Estragou-se; dali ao inferno não tem mais que morrer.
--Credo! Então que é?
--Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou à pátria, e à esposa, e aos amigos, está lá em uma serra, cercada de árvores, e de grades de ferro![21] Dizem que é a viúva de um general, e bonita como os serafins. Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e parecia uma estrela.
--Ai! que eu estalo! clamou Teodora, apertando a cabeça entre as mãos.
--Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado do corpo; aquela barriga, que ele tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode muito grande, e aqui no queixo uma moita de pelos, como os bodes. Traz os cabelos puxados para cima e retorcidos. Usa óculos à moderna, de ouro, pendurados ao pescoço. O pano de roupa luzia como vidro, e andava apertado nela e puxado à substância que parecia espremido no peso do lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.
--E então ele está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada senhora.
--É verdade, lá a tem como uma princesa. Agora já sabe a fidalga no que ele estraga o dinheiro.
--E você não lhe disse que viesse para sua casa?
--Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu acomodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a ver quando me empurrava pela porta fora! Aqui tem o que há a tal respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela água abaixo o seu patrimônio.
--Não, que eu vou a Lisboa!--exclamou ela batendo o pé, e vibrando murros contra o ar.--Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!... Então a tal mulher está em uma serra? Você disse que ela estava em uma serra?...
--É serra; mas a terra é bonita. Há por lá árvores do começo do mundo, e cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.
--Pois vou lá, que o meu homem é meu--vociferou ela voz em grita.--Se ele não quiser vir para casa, vou falar ao rei e aos governos.
--Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. Daqui me vou a ver a minha gente, e até amanhã, fidalga.
Doida de aflição, a traída esposa mandou logo um criado à casa da Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.
Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos anos, e sagaz até à protérvia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o rendimento da sua escassa legítima de filho segundo. Tinha mau nome em matéria de mulheres. A bruteza dos espíritos não lhe implicava o exercício de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de muitas moças, que, à conta dele, ficaram solteiras; e também de algumas casadas, que não conservam as costelas todas.
Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins manhas; não obstante, admitia-o ao seu trato familiar, e consentia que Teodora, uma vez por outra, lhe desse alguns pintos para charutos, já que o morgado lhos não dava, sem lançar o empréstimo a desconto da legítima.
Teodora, com quanto o excedesse em idade uns quatro anos, tinha sido criada com ele, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo levou para Coimbra. Esta poesia de infância converteu-se nela em sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetárias do sujeito, algumas das quais lhe remediou liberalmente a ocultas do marido. Mais se afervorou a estima da prima Teodora, quando viu que Lopo, na ausência de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia ao serão nas noites de inverno.
Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já raivosa, já em mavioso soluçar, contou Teodora o que ouvira ao mestre-escola.
--Bem to agourava eu, prima!--disse Lopo, concluídos os queixumes de Teodora.--Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido, dizia-lhes eu: «Tirem-no da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-no lá estar dois meses, e falem-me depois à mão.» O Calisto vivia bem com todo o mundo e contigo, Teodora, porque se apaixonou pela livralhada, e encheu a cabeça daquelas velhas arolas dos seus clássicos, e não queria saber de mais nada. E, além disso, diz-me tu prima, que grande amor era o dele por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias, senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!
--Pois fazia; estás enganado, Lopo--atalhou D. Teodora, molestada no instinto da sua vaidade de esposa.
--Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando tu de tônicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de Bragança; sendo tu a mais rica herdeira destes arredores, deixou-te viver para aí sujamente; a cuidar em sevados e galinhas. As senhoras, que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem à lei da nobreza, visitam-se, tem os seus bailes, vão às romarias ricamente vestidas; e tu?... chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e vim dar contigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.
--Isso é porque eu gosto.
--Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses. Trabalhar é bom e necessário; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos cuidados domésticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem às criadas da cozinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanso e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me sórdida; e, apesar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi casados que tão estupidamente vivessem! Aí está agora teu marido a despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amásia, e tu aqui de vestido de chita e chinelas! Tu!... de chinelas!... Foi bom que levasses vida de negra vinte anos para ele agora levar em Lisboa vida de príncipe!
--Não há de levar, que eu vou lá!--bradou Teodora assanhada pelas reflexões do primo.
--Não vais, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em Lisboa motivo de gargalhadas daquela gente, e maltratada por Calisto. A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vai, como as mulherinhas da ralé, procurar o marido fora de sua casa. Se ele vier, veio; se ele ficar, fique embora. Gaste o que quiser, mas que não gaste a casa de sua mulher. Neste país há leis que separam do mau marido a esposa afrontada, e proíbem que os bens dos Figueirôas sejam desbaratados em devassidões de um extravagante.
--Eu não quero separar-me do meu homem!--balbuciou ela afogada de soluços.
--Também te não aconselho a que o faças por enquanto, prima. Ainda é cedo. Pode ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da separação é um remédio extremo, que se há de aplicar no caso de continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de crianças, e tão depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar contigo, quer teu pai quisesse, quer não. Nunca to disse; digo-to agora, porque a minha dor me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?
--Eu sei cá?...--disse ela, alimpando as lágrimas.
--Pois dúvidas, Teodora?
--Tu tens sido um estroina com mulheres...
--E não sabes por que?
--Não...
--Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria distrair-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A minha consolação única era estar alguns momentos ao pé de ti; mas quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!... Nunca te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?
--Tu o que me dizias às vezes é que estavas aflito por causa de dívidas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar...
--É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas mesmas dívidas as fazia eu para poder sair destes sítios; ia para as feiras, para as caldas, por toda a parte à busca de distrações, e não achava coisa que me distraísse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa parentela me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa vida a minha desde os dezenove anos! Amar-te, amar-te sempre, e ver-te mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti! Céus! que martírio! que martírio!
Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.
Teodora estava como idiota a olhar para aquilo, sem poder atinar com as sensações atrapalhadas que aquelas palavras lhe causavam.
Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:
--Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça; doem-me mais os teus pesares que os meus. Disse-te o que me pareceu razoável a respeito de teu marido, desse cruel que me roubou a mulher do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus, prima!
--Tu vais aflito, Lopo!--exclamou ela, ressaindo do espasmo tolo em que estivera--Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como poder ser.
--Há doenças sem remédio, prima. A minha é mortal.
--Então que tens, primo? que te dói?
--Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua união com este homem!... a certeza de que o hás de amar sempre, ainda que ele te despreze como já te desprezou.
--Pois se ele é o meu homem recebido à face do altar!...
--Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Teodora!...
--Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado contigo.
--Não falemos mais nisto--atalhou com muita serenidade Lopo--Já chorei, e fiquei melhor!--continuou ele esborrachando os olhos até eles reverem água--Estas lágrimas estavam aqui no peito há vinte anos. Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti, bem mais te merecia que o outro que te despreza... Queres mais alguma coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá procurar a Cintra?
--Se tu lá fosses, Lopo, não seria mau!--disse ela.
Lopo de Gamboa, como grande farsola que era, sentiu impulso de desfechar uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridículo até onde a consciência de um bargante se pode ver a si mesma.
Reteve-o, porém, a coerência do seu plano. Resolutamente disse que iria a Cintra, bem que nenhum sacrifício lhe pudesse ser mais cruelmente imposto ao coração.
--Irei, disse ele, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais esta punhalada da tua mão, prima.
---Valha-me Deus!--exclamou ela aflitivamente.--Tu dizes-me coisas que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu coração a outro enquanto for casada com um?
--Vejo que me não amaste nunca, Teodora. Diz a verdade... Nunca me tiveste amor?
--Eu sei cá, primo!... Se me casasse contigo, tinha-te amor... Assim como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?
--Matar-me!--disse com veemência Lopo, deixando cair os braços, e descendo ao chão os olhos amortiçados.
--Ai! que pecados os meus! exclamou Teodora--Eu não sei o que te hei de fazer, Lopo!
--Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa--tornou ele gravemente.
--Então sempre queres ir, primo?
--Amanhã, hoje, quando quiseres.
--E não te custa?
--E a ti não te custa que eu vá?
--Eu queria que fosses, a ver se trazias para casa aquele perdido.
--Irei, já to disse.
--Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?
--Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu ignoravas quanto eu te amava, e eras minha próxima parenta, filha de uma prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de dinheiro.
--Então não quero que vás--acudiu ela--que tu não podes ir à tua custa...
Neste comenos, Teodora escuta muito atenta um rumor de campainhas, e brada:
--É uma liteira! Será o meu homem?
Corre a uma janela; o primo vai depôs ela: afirmam-se na liteira que desce uma congosta, e reconhece Calisto Elói, não pela figura; mas por que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Teodora espede três ais, que pareciam de ave noturna, e perde os sentidos. Lopo amparou-a nos braços, foi sentá-la em uma cadeira encourada de espaldar alto, e desceu ao pátio a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.
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