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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 6 · A Queda d'um Anjo

Estreia parlamentar de Calisto

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Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Elói de Barbuda leu o Regimento interno da câmara dos deputados, juntamente com um colega transmontano, o abade de Estevães, sujeito de anos, e doutrina monárquico-absolutos.

O morgado de Agra embicou logo na forma do juramento, e disse que não jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel à carta constitucional. O abade quis amaciar-lhe a rigidez de espíritos, absolvendo-o do perjúrio, que não era sério, porque já de si o juramento era irrisório e mera brincadeira de nenhum peso na balança da justiça divina.

E alegava o clérigo esclarecido que os representantes da nação, com quanto jurassem fidelidade à religião-católica-apostólica-romana, eram aliás ateus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-no nas gazetas; jurando fidelidade à nação, avexavam-na de tributos, e alguns a queriam fundir na Espanha. Comédia e comedoria! exclamava o abade. Se os deixarmos a eles jurar e mentir à sua vontade, a monarquia portuguesa daqui a pouco não terá mais realidade no mapa-múndi que a ilha Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda com uma despropositada torrente de citações, em que a paciência do padre esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo às ejecções da ciência velha, que não havia abafar-lhe as válvulas ejaculatórias.

O sábio, lá na sua terra, nunca tivera auditório digno; escutava-se a si próprio; admirava-se e aplaudia-se com perdoável, senão legítima vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abade de Estevães.

Este clérigo, bem que tivesse exercido as funções desembargatorias na relação eclesiástica de Braga, era menos letrado que o antiquário de Caçarelhos, mas um tanto mais ilustrado em crítica da história. Por delicadeza, fingia engolir as araras que o morgado lhe ministrava guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e Miguel Leitão de andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa, que mentiram «mais do que permite a força humana.»

Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi Calisto Elói de Silos empossar-se da sua cadeira na representação nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve mão de si, e disse:

--Sr. presidente!

O abade de Estevães ainda ciciou um cio, como quem lembrava ao colega que o Regimento lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta naquele ato; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinária reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do título e ouviu-o.

Continuou Calisto:

--Sr. presidente! Nos primórdios da humanidade, a boa fé dispensava os juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé desapareceu velut umbra da face da terra. Se bem me recordo, os casos de juramentos mais antigos leem-se nas sagradas escrituras. Abrahão jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a Labão...

O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias, observou:

--O sr. deputado está fora das prescrições do regimento. Peço licença para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

--Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu jurisprudência civilis sintagma, diz que não deve exigir-se o juramento quando pode temer-se o perjúrio. Preceito de mui remontada moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo desprezo, é a causa eficiente das apostasias que desonram, dos sacrilégios que condenam a alma, e estampam na testa dos precitos lema de opróbrio indelével. Disse.

E foi sentar-se, flauteando cromaticamente uma pitada, à beira do seu amigo abade de Estevães.

A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as frases, atirava à cara dos legisladores um murro indireto. Três brados lhe haviam vitoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de deputados legitimistas, que entre si se ficaram vitoriando de terem um homem bastante audaz, se necessário fosse, para falar ao imperante como João Mendes Cicioso falara a El-rei D. Manuel.

--Falou à portuguesa, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe o abade de Estevães.

--A verdade é de todas as horas, abade--redarguiu Calisto--mal de nós se havemos de esperar que ela caia a talho de fouce!... Deixem-me ir assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero, Hortênsio e Demóstenes não falavam pelo regimento. O conselheiro que disse a Afonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lho dizer. Eu li de tento e vagar o regimento, amigo abade; e a mim me quis parecer que tudo aquilo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer calar aqueles cujos dizeres desagradam à presidência, por via de regra, mancomunada com o governo.

--Prudentia in omnibus, diz o sábio--retorquiu o abade.[7]

O morgado acudiu logo:

--Estote prudentes, sicut serpentes et símplices sicut columbae, disse Jesus, o sábio dos sábios.[8]

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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