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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 23 · A Queda d'um Anjo

Outro abismo

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Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é esperar que a razão lho restaure: em tão boa hora que ele o recupera depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos quarenta e quatro anos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a vida a tolice refinará.

Tenho dois grandes exemplos disto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro é Henrique VIII de Inglaterra. Este, aí pelas alturas dos quarenta anos, tão bom homem era, que até escrevia contra o ímpio Lutero, e vivia santamente com sua esposa, Catarina de Aragão. Ensandeceu de amor, vinte anos depois de marido exemplar, e daí por diante sabe o leitor que golpes ele deu no peito invulnerável do papa e no frágil pescoço das pobres mulheres.

Calisto Elói não será capaz de repudiar nem degolar Teodora, porque neste país há leis que reprimem os patetas sanguinários; todavia, eu não assevero que ele seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de três pontas à cara vermelha de pudor. Veremos.

Calisto, digamo-lo sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao fundo do pego em que deram a ossada o último rei dos godos, e Marco Antônio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplício da Paixão, e várias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os sistemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro de alcântara até às cabeças dos palitos fosfóricos.

Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lágrima que chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circunvagou a vista pelos seus livros, figurou-se-lhe ver na lombada de cada in-folio o olho de um demônio zombeteiro, bem que aqueles pergaminhos encadernassem almas, no céu bem-aventuradas, e na terra imorredoiras, almas que neste mundo se chamaram fr. João de Jesus Cristo, fr. Pantaleão daveiro, fr. Antônio das Chagas, e dezenas destes talismãs, que tem salvado o leitor e a mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam à volta de Calisto.

Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, que viria a definir-lhe o espírito, se alguém carecesse de ver este homem a luz extraordinária.

Nas águas-furtadas do andar, em que ele morava, residia uma viúva de um tenente, senhora danos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de recursos, e, por amor disso, se oferecera a cuidar da casa e da cozinha do deputado. Às duas horas, pois, bateu Calisto à porta da vizinha, e, como ela lhe falasse, exprimiu ele a sensação imperativa, que o levou ali, por estes termos:

--Sr.^a D. Tomazia, há por aí alguma coisa que se coma?

--Não há nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a quiser.

--Olhe se me pode frigir uns ovos com presunto--volveu ele.

--Pois lá vão ter daqui a pouco.

--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Tomazia--recomendou ele.

--Não tem dúvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Tomazia pelo buraco da fechadura.

--Não achei.

--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

--Então a sr.^a D. Tomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu não queria!... Cá desço, e até logo.

O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Ifigênia de Teive Ponce de Leão, e logo a lápis: viúva do tenente general Gonçalo Telles Teive Ponce de Leão.

Desfilaram por diante do espírito de Calisto Elói regimentos de ilustres famílias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão. Na linhagem dos Barbudas também alguma vez tinham entrado os Teives, e uma décima nona avó de Calisto viera de Espanha, e era Ponce, dos Ponces genuínos dos duques de Banhos.

Estava o morgado combinando estes parentescos contraídos aí pelo último quartel do século XII, quando D. Tomazia entrou com o presunto e ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da História Genealógica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lho permitia, em alguns intervalos, foi perguntando:

--Então quem é esta senhora, que me procurou?

--Eu só sei dizer, respondeu D. Tomazia, que é uma criatura linda, linda quanto se pode ser!

--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os dentes molares, pois ela não é a viúva de um tenente general, que naturalmente havia de morrer velho?

--Pode ser que ele morresse velho; mas a viúva o mais que pode ter é trinta anos.

--E com que então galante?

--É uma imagem de cera. V. ex.^a há de vê-la. E então elegante! A cintura cabe aqui, prosseguiu D. Tomazia, formando um anel com dois dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e vim abrir as portas do escritório. A senhora veio subindo, e puxou à campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a falar verdade, lembrei-me se seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradável surpresa. Perguntou-me ela pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo para a sala. Levantou o véu, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr. morgado, que voz de criatura aquela!

--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou às oito, mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei para lhe dar esta notícia.

--E depois a senhora que mais disse?

--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometeu de voltar hoje às três horas.

--E a sr.^a D. Tomazia saberá o que me quer essa dama?

--Não sei; o que ela somente disse foi que v. ex.^a era um gênio.

--Pois ela disse-lhe isso sem mais nem menos?

--Foi a respeito de ver aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve a reparar neles com uma luneta... E a graça com que ela punha a luneta!... Mulher assim!... Os homens às vezes por mais asneiras que façam, têm desculpa!...

--As paixões, minha sr.^a D. Tomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu os beiços molhados da libação de um vinho nervoso daquela garrafeira já mencionada. E prosseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sábios nem os grandes santos se isentaram delas. Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte anos, há de pagá-lo aos quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demônio, que eu não sei ao justo quem fiscaliza estes malaventurados sucessos de amor, que a história conta e a humanidade experimenta cada dia...

--É um gosto ouvi-lo!--interrompeu D. Tomazia--Bem no disse aquela senhora: v. ex.^a é um gênio, e fala de modo que se mete no coração da gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me encontrasse nesta idade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

--Ora, minha sr.^a D. Tomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou também na idade de tocar corações, nem os meus hábitos vão muito para aí!

--Idade!--acudiu a viúva do tenente--v. ex.^a pode dizer que tem trinta e cinco anos, que ninguém lho dúvida. É mania agora dos rapazes quererem à fina força passar por velhos. Pergunte quem quiser à vizinha do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. ex.^a me diz dela alguma coisa... Conhece-a?

--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça... Não é má...

--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veio cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, sozinha, tão encantadora!... Aquilo, quanto a mim, é que já o ouviu no parlamento, e apaixonou-se. Há muitos casos assim cá em Lisboa de senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de infantaria, e andava nos estudos. Era feio, e ao princípio tinha-lhe medo; mas assim que ele me mandou um acróstico... V. ex.^a sabe fazer acrósticos?

--Ainda não me pus a isso.

--Pois como eu me chamo Tomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me ele um soneto que me deu volta à cabeça, e tamanho incêndio me tomou o peito, que o amei até à morte, e ainda agora, ficando eu viúva aos trinta e nove anos, fui, sou e serei fiel à sua memória.

Neste ponto, D. Tomazia, ferida na alma pelo acróstico memorando, chorou.

Calisto represou-lhe os prantos com algumas máximas consoladoras sobre a morte, e bocejou, já por que eram três horas e meia da manhã, já por que o diálogo descaíra nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis defuntos. D. Tomazia começou a espirrar, por que se não agasalhara bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de expansão aproximara.

Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outrora Sá de Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe em uma página de Os Estrangeiros esta máxima: Duas sortes de homens há no mundo que se possam servir: ou muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande vantagem.

A meu ver, o espírito daquele honrado doutor, que tão santo marido fora de Briolanja de Azevedo, até de saudades dela se deixar morrer, ali lhe viera, àquela hora, relembrar ocasionalmente e a ponto uma de suas máximas, como em paga do afetuoso respeito com que Barbuda o lia e inculcava à mocidade depravada.

Calisto Elói pôde ainda admirar o lídimo português da máxima, e adormeceu.

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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