Leia agora
A Queda d'um Anjo

Universo da obra

A Queda d'um Anjo

Capítulo 12 · A Queda d'um Anjo

Santas ousadias!

12 de 37 ≈ 11 min de leitura

Natural coisa é que este sujeito, intangível às carícias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração.

Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala de um antigo desembargador do paço, que era pai de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira.

Soou aos ouvidos de Calisto Elói, que uma das ilustres damas enodoava sua gentileza e prosápia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e comunicou ele o seu espanto e dor ao colega abade. O abade desfechou-lhe na cara uma estralada de riso civilizado, e disse-lhe:

--Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, há pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso destes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!... Deixe correr o mundo...

--Que remédio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins à porta das casas, cuja desordem de costumes me escandaliza. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

--Faça v. ex.^a o que quiser; porém, consinta que eu reprove semelhante procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a família receberam o sr. morgado com cordial afeto; segunda razão, é que v. ex.^a já não está em idade de perder a sua virtude seduzida por mãos exemplos. Faça como eu: lamente as misérias dos homens, e viva com eles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vai a rejeitar as relações das famílias, justa ou injustamente abocanhadas pela maledicência, a poucos passos não temos quem nos receba.

--Eu tenho os meus livros, acudiu Calisto.

--E os seus livros, as suas crônicas, os seus clássicos gregos e latinos não lhe contam enormes desmoralizações? V. ex.^a, que leu a vida romana em Tácito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petrônio...

--De qual Petrônio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petrônios em Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

--Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecônomo, ou árbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu espírito. Pois se o meu amigo pode ler sem horror as infâmias das saturais, e os mistérios da deusa Bona, e quejandas protérvias dos antigos tempos, como pode espantar-se do que ouve dizer da filha do desembargador Sarmento, que a final de contas, pode estar inocente do crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe estremecida, e esposa honesta na aparência? Já a ouviu defender teses da moral do adultério? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na vida privada da mulher?

Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

--Acho-lhe razão, sr. abade, não tanto pelo que disse, como pelo que não disse. As pessoas de vida impoluta devem acercar-se daquelas que prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora... Quem sabe se eu terei predestinação de desviar aquela senhora do caminho mau!?...

--É verdade--assentiu o abade;--mas é justo e urbano que v. ex.^a não vá interrogá-la sobre coisas do foro íntimo.

--Não me ensine as leis da cortesia, abade--replicou algum tanto afrontado o fidalgo da Agra.--Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas aprendi a polícia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. Francisco Manuel. E, demais disso, meu caro sr. abade, não me peça Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já tem congeniais e infusas em si as regras da urbanidade cortesã. Não se fazem mister diretórios de civilidade a sujeitos, que herdam com a fidalguia a índole de avoengos palacianos, feitos nas cortes, e afeitos a sentarem-se na ourela dos tronos.

--Não ponho dúvida nisso;--obtemperou o abade, e acrescentou com malícia e bem rebuçada ironia--alguns fidalgos muito malcriados que tenho topado, quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; foram eles que propriamente derrancaram sua índole, até se fazerem plebe grosseira e ignóbil.

--Acertadamente--disse o morgado.

--Eu ensinar cortesia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracarense.--A minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa censura aos mãos costumes da sr.^a D. Catarina Sarmento. Noli esse multum justum, diz o Eclesiástico.[13] Bem fidalgos e policiados eram S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Bórgia, e Santo Ignácio de Loiola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortesia eles invetivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto dos próprios delinquentes.

--Mas eu não sou apóstolo--acudiu Calisto.--Conheço que já não vim a tempo, nem a missão me condecora.

Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vícios, e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao ânimo dos viciosos.

em uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador Sarmento. Achou mais abatido e melancólico o antigo magistrado. Estiveram conversando à puridade sobre o desgosto que revia à face do hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha Catarina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da vontade do marido, e este da estima dela; de modo que raro dia deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. Disto resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe dito alguém que sua filha andava infamada pela voz pública.

--Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este corpo já fraco, e pendido à campa.

Calisto apertou-o nos braços e clamou:

--Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de adversidades derribá-lo. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catarina, minha senhora, tirar a limpo da sujidade da calúnia, se o é, a virtude dela, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as palavras afetivas do meu dileto Heitor Pinto, no tratado da Tribulação: «O que eu queria é que a boceta de vossas angústias estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem vossos, e os vossos males fossem meus.»

Ouvido isto, o desembargador comoveu-se até às lágrimas, e disse com mui entranhado afeto:

Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que nesta casa reinaria o sossego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos matos da província se refugiaram as relíquias da honra portuguesa! Ditosa senhora a que avassalou tão honesta alma!

Daí a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com Catarina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, rompeu ele nesta pergunta:

--A sr.^a D. Catarina já leu Homero?

--É romance? disse ela.

--Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já romances de uns que, de oitiva o sei, por aí infestam a sociedade. Na Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se matrimoniou com Helena; o outro é Ulisses, que se casou com Penélope. Os primeiros, cobiçosos e voluptuários, cobriram a Grécia de calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do tálamo ditoso.

Fez Calisto uma longa pausa, e prosseguiu, interpolando os dizeres com algumas pitadas, que solenizavam a gravidade das falas.

--Ninguém devera casar sem muito ler e sem aplaudir aqueles preceitos do casamento, escritos pelo eminentíssimo Plutarcho.

--Não conheço, disse a dama... Li Lé mariage, de Balzac.

--Não sei quem é: deve ser francês.

--Pois não leu?

--Eu não leio francês. Não me chega o meu tempo para tirar águas sujas de poços infectos. Plutarcho é oráculo nesta matéria. Um pensamento lhe li que me chegou à médula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz ele algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasifae, bem que esposa de um rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menosprezam maridos beneméritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos nestes mares verdes e aparcelados da capital, que há disto muito por aqui.

--É possível... balbuciou D. Catarina.

--E porque não há de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou Calisto, que andam com os braços nus fora das alcovas do seu leito nupcial!...

--E isso que tem?--atalhou a dama--é a moda...

--A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, às cogitações viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquela filha de Pitágoras, a quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Belo é; mas não para ser visto». Na Andromacha de Eurípedes, Hermion exclama: «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres perversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciência o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que perversos homens convizinhassem de mim!...

--Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha do desembargador.

--À razão da sr.^a D. Catarina, minha senhora.

--Como assim?! quem o autoriza...

--As lágrimas de seu ex.^{ilustríssimo} pai.

--Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lágrimas de meu pai... A minha reputação e costumes repelem semelhantes alusões, se o são.

--Piores do que estas, sr.^a D. Catarina, minha senhora, piores referências do que estas lhe faz a voz do mundo.

--A mim?

--À fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

--Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v. ex.^a falar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas liberdades de província não se usam cá em Lisboa.

--Não se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto v. ex.^a quanto estimo seu venerando pai. O atrevimento é grande, maior será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-mo. Lágrimas de velho e de pai dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos destemidos nas mais fracas almas. No propósito de conjurar a tormenta, que se encapela e ameaça de sossobrar a felicidade de uma família ilustre, é que eu, sr.^a D. Catarina, me afoitei a ser o advogado espontâneo do bem de todos.

--Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição--disse D. Catarina; e, retirando-se, fez uma cerimoniosa mesura a Calisto.

Não voltou mais à sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de Calisto Elói, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

Erguera-se do voltarete o abade de Estevães, e abeirou-se dele, dizendo:

--Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amoleceu-a?

Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito consternado, e murmurou:

--Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

E repetiu em tom cavo:

«...Converto minha atenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão devassas, que já o lançar-tas em rosto, não seja nos zelosos falta de prudência, senão obra de mágoa.»

Depois, suspirou, e cheirou rapé.

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

A Queda d'um Anjo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Queda d'um Anjo

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Queda d'um Anjo Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 12 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Queda d'um Anjo

Capa de A Queda d'um Anjo
Continue a leitura Santas ousadias! Capítulo 12 · 12 de 37 · ≈ 11 min
Todos os capítulos 37 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir