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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 19 · A Queda d'um Anjo

Vai cair o anjo!

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A respeito do último discurso de Calisto Elói, as gazetas governamentais estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido testemunha de insolências de tamanha rudeza e tão audaciosa ignorância. Os jornais da oposição liberal disseram que o representante de Miranda, à parte as demasias escolares do seu discurso, dera uma útil, bem que severíssima lição, aos meninos que jogueteiam com o país, indo ao santuário das leis bailar em acrobatismos de linguagem, que seriam irrisórios em palestra de estudantes de seleta segunda.

Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos fulminadores de catilinárias e filípicas. A numerosa roda do fidalgo legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Elói. As raças godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de Sarmento. Sangue dos Afonsos e Joões não se dedignava de inventar em Calisto um primo. Todos queriam ter nas artérias sangue de Barbudas. E ele, o genealógico por excelência, modestamente contraditava o empenho de alguns parentes honorários; bem que, de si para si, e para alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentela para igualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de sangue. As expressões laudatórias que mais calaram no ânimo de Calisto Elói disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um provinciano algum tanto achamboado. Disse ela à mana Catarina que a fronte de Calisto parecia alumiada, e no todo das feições e ademanes se revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

E era assim. Os quarenta e quatro anos do morgado, vividos na aldeia, e no resguardo da biblioteca, viçavam ainda frescura de mocidade. A reforma do trajar fora grande parte nisto. A casaca antiga, e o restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegância das posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

Cicero e Demóstenes, se entrassem de frak, no fórum ou na ágora, desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculturais orações. A estatuária do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro ou Latino Coelho, Tomaz Ribeiro ou Rebelo da Silva, Vieira de Castro ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulcral da mandíbula inferior: hão de ver que as pérolas desabotoadas daquelas bocas de ouro se transformam em granizo glacial no coração dos ouvintes.

--Eu estava encantada de ouvi-lo, sr. Barbuda--disse Adelaide--Tem uma voz muito sã e argentina. Gostei de ver a presença de espírito de v. ex.^a, quando se levantou aquela algazarra contra as suas ironias. Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

--Minha prima Teodora de certo me não atendia--observou o morgado.--Enquanto eu falasse, estaria ela pensando no governo da casa, e na calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Teodora entendeu no sumo rigor da expressão a palavra «casamento». Casamento deriva de casa. Senhora de casa e para casa é que ela é. E eu assim a aceitei e assim a prezo.

--Mas o coração...--atalhou Adelaide.

--O coração, minha senhora, ninguém lá nos disse que era necessário à felicidade doméstica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquela criancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação do fogo. Ora veja como ela está estendendo as mãozinhas inexperientes para a chama das velas... Se as tocar, que dor não sentirá ela?

--Então, volveu a filha do magistrado, hei de crer que v. ex.^a ainda ignora o que seja coração... o que seja amor?

--Se ignoro o que seja...--balbuciou Calisto.--Sabe v. ex.^a--prosseguiu ele, reanimado, após longa pausa--sabe v. ex.^a que no paraíso existiu uma celestial ignorância, até ao momento em que na árvore da ciência tocou Eva?

--Sim... E Adão lambem tocou...

--Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primazia: tocaram ambos, e eu compreendo que deviam ambos pecar. Maior crime séria a resistência a Eva que a Deus. Perdoe-me o céu a blasfêmia!... A que hei de eu comparar nos nossos tempos, e neste instante, a árvore da ciência, da ciência do coração?!... Comparo-a a v. ex.^a.

--A mim?! que ideia!

--A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e... aprendi!... Hoje sei o que é coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que ele vai nascendo.

Calisto levantou-se, agradecendo à Providência a chegada de um ancião respeitável que se aproximava dele a cortejá-lo.

Adelaide quedou pensativa. Refletiu, e considerou-se molestada e mescabada no respeito que devia às suas virtudes um homem casado.

Receosa de ajuizar mal, por equívoca inteligência do que ouvira, buscou azo de provocar explicações de Calisto Elói. Como o ensejo lhe não saísse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o suposto galanteio do morgado. D. Catarina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos, aconselhando-a a simular que o não entendera.

Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de Bragança. Perguntou alguém a Calisto se conversava alguma hora com as musas, ou se, à maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

Ó fortunatam natam, me consule, Romam.

Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro parto métrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado saíra, que ele se envergonhava de o oferecer ao apadrinhamento de pessoas autorizadas.

Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente o era, atenta a modéstia do poeta.

--São versos, disse ele, que se poderiam mostrar aos quinze anos, e que seriam derisão e lástima aos quarenta e quatro.

Objetaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro anos devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da idade é que o coração fulgura em toda a sua luz.

Trejeitou Calisto uns esgares de satisfação ridícula. Eram os percursores de alguma enorme necedade.

Embora resistisse à exposição da sua estreada musa, não se conteve que, despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, à puridade, a D. Adelaide:

--V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguém mais verá no mundo.

D. Adelaide ficou embaçada. Seria agravar as meninas de dezoito anos, e educadas como a filha do desembargador, e amantes como elas de um comprometido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe fez no espírito dela o desproposito de Calisto. A estima afetuosa que lhe ela ganhara, por amor daquela cavalheirosa ação, por onde a paz doméstica se restaurara, não teve força de rebater o tédio e o ódio do tom misterioso do provinciano.

Enquanto ela confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram as últimas palavras de Calisto Elói, estava ele no seu gabinete retocando e piorando aquelas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu o leitor com piedosa tristeza.

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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