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A Queda d'um Anjo

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A Queda d'um Anjo

Capítulo 24 · A Queda d'um Anjo

Tenta o seu anjo da guarda salvá-lo mediante uma carta da esposa

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Calisto dormiu mal.

As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrela de alva. O coração acorda primeiro que os pássaros. O amor diz o seu fiat lux primeiro que Deus. Estas três sentenças, a meu ver, são mais inteligíveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da cama em que dormitara algumas escassas horas alvoroçadas.

O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a cumprir neste mundo os vulgares destinos da máxima parte dos mortais. Indivíduos notáveis já saíram céticos e bravos cínicos de aperturas menos dilacerantes. Os anais ensanguentados da humanidade estão cheios de facínoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres muito amadas e perversíssimas. Superabundam casos de embaçadelas análogas à de Calisto: destes lances obscuros tem saído aparvalhada muita gente que era escorreita, e que se volve daninha à república. São uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a família; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demônio da vingança no corpo, demônio meridiano e noturno, que bebe lágrimas de mulher, enquanto os possessos dele bebem conhaque e absinto. Um homem destes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna líbica a antílope descuidosa. Oficiala de modista, que se espaneja nas verduras do jardim da Estrela, como alvéola nas praias borrifadas de espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus dias contados. O celerado, com o simples auxílio de um galego, em que por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro dia nupcial. Que tristeza! E ninguém fala disto senão eu, porque me cumpre fazer o elogio de Calisto Elói, que não fez coisa nenhuma daquelas.

Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazém dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magníficas. O homem pasmava dos nomes daqueles objetos, nenhum dos quais soava portuguesmente.

--Porque chamam a isto chaise-longue?--perguntava Calisto Elói ao engenhoso Margoteau.

--Porque chamam?!

--Sim: eu creio que se não ofende a França no caso de chamarmos a este móvel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que soa melhor. E étagère e console e téte-à-tête, e onaise? E é caríssimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fora parte os objetos, também paga a lição de francês de samblador, que vem aqui aprender?

Sem embargo destes reparos, o ouro saiu-lhe generosamente da algibeira bem apercebida.

A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elásticos da otomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe chegou do correio carta da sua esposa.

Dizia assim:

«Já com esta são três que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que não tens o miolo no seu lugar. Longe da vista, longe do coração, diz lá o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saúde; e, se é, di-lo para cá, que eu estou aqui estou lá.

«O primo Afonso de Gamboa esteve cá há dias, e a modo de caçoada foi-me dizendo que lá na capital as mulheres enguiçam os homens, e fazem deles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz eu em te deixar ir às cortes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se mete nestas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que perder, como diz o primo Afonso.

O pior é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e sais do teu sério. Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns agouros no peito que me não deixam fechar olho há três noites. Deus te defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da alma e do corpo.

Saberás que o mestre-escola anda de candeias às avessas por que tu lhe não respondes à carta em que ele te pediu uma venera. Olha se lhe arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que ele me leia a relação dos foreiros. A vaca preta comeu o bicho, e morreu ontem à noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joana Pedra, que ouvira dizer ao Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veio de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que afundes tu tantas moedas, homem? Vê lá no que andas metido, Calisto! E, se te for muito necessário algum dinheiro, cá estou eu para to mandar. Aquele caixote de peças de duas caras fui há dias escondê-lo na lareira da cozinha velha, porque tenho medo à ladroeira desde que tu andas por lá.

Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

Tua mulher que muito te quer Teodora

Calisto Elói dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para consigo:

--Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas... Já as tuas sinceras baboseiras me incomodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras quase nada na minha vida. Não sei em que lugar do meu coração estiveste, porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os contentamentos da minha vida passada deu-mos o estudo. O coração dormia como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se vai acastelando no horizonte. Ei-la começa a desfechar agora relâmpagos e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os ímpetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectáreos filtros, embriaga-me este coração, que já não pode respirar de afogado nos seus ardores!...

Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e sutilizaram a fantasia.

Depois, com forçado trejeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de charão, em que assentava um tinteiro de cristal, e escreveu à esposa, neste teor:

«Prima Teodora e estimada esposa.

Passo bem de saúde; mas saudoso de ti. Não te tenho escrito, porque os negócios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de Bragança, para empresas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos avós, com representação e comodidades próprias deste tempo. É preciso gozarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar das aves. Entrega isso às criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

Quanto ao mestre-escola, e à sua exigência do hábito de Cristo, devo dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a tais cartas. Manda-o à tábua, e não admitas semelhante palerma à tua conversação. Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o dinheiro que disser a ordem.

Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um patarata sem juízo, que te diz essas coisas para te desfrutar.

Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

Teu muito afeto e extremoso Calisto

A Queda d'um Anjo

Sinopse

Leia gratuitamente A Queda d'um Anjo, de Camilo Castelo Branco, romance satírico em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o texto em PT-BR moderno com normalização conservadora, preservação de citações históricas e organização em 37 seções para leitura online.

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